Prefeitura arrecada R$150 mil em leilão

As expectativas foram superadas e a prefeitura de Ilhota arrecadou R$150 mil no último leilão, realizado na sexta-feira (16). Dentre os itens leiloados, destacam-se: carros, ônibus, microônibus, rebocador e caminhão. De acordo com a secretária de administração e finanças, Ana Lucia Wilvert, os recursos serão investidos em capital. “Vamos adquirir bens necessários a nossa população, como ônibus para a secretaria de educação, por exemplo”. Neste ano, o executivo não realizará mais leilões.

Assista ao vídeo do leilão:

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Marlon Brando se recusa a receber pessoalmente o Oscar de O Poderoso Chefão

Brando em O Poderoso Chefão

Pela segunda vez em sua carreira, Marlon Brando recebe o Oscar de Melhor Ator por seu papel em O Poderoso Chefão de Francis Ford Copolla. O ator se recusa a comparecer à cerimônia de entrega, realizada em 27 de março de 1973 e envia em seu nome a jovem indígena apache chamada de Pequena Pluma, na verdade, Sacheen Littlefeather.

Ela anunciaria diante de toda a platéia hollywoodiana que Brando “recusa esta honraria devido ao tratamento reservado aos indígenas nos filmes, na televisão e em Wounded Knee.  (Joelho Ferido).” Desde o começo do mês, a cidade de Wounded Knee, estado de Dakota do Sul, estava ocupado pelos índios Sioux que reclamavam uma melhoria de suas condições de vida nas reservas.

Reverenciado por muitos como o maior ator de sua geração, Brando recebeu sua primeira indicação como Melhor Ator por seu extraordinário desempenho, interpretando o estúpido Stanley Kowalski emUma Rua Chamada Pecado (1951). O papel foi uma reprise da instigante performance de Brando na montagem teatral da peça de Tennessee Williams – A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo) em 1947, que atraiu para ele, pela primeira vez, a atenção do público e da crítica. Indicado novamente pela sua atuação em filmes como Viva Zapata! (1952) e Júlio César (1953), ganhou seu primeiro Oscar com Sindicato de Ladrões (1954).

A carreira de Marlon Brando entrou em declínio nos anos 1960, com custosos fracassos como A Face Oculta (1961), película que também dirigiu, e O Grande Motim (1962). À parte seu excepcional talento, o ator ganhou também notoriedade pelo comportamento mal-humorado e exigente, assim como pela sua tumultuosa vida fora da tela.

Francis Ford Coppola, o jovem diretor de O Poderoso Chefão teve de suar para escalá-lo no ambicionado papel de Vito Corleone. Brando ganhou o papel somente depois de passar por um teste de filmagem e cortar seu cachê para 250 mil dólares, muito menos do que havia exigido uma década antes. Com um dos mais memoráveis desempenhos cinematográficos de todos os tempos, Brando revitalizou sua carreira e O Poderoso Chefão se tornou quase imediatamente um clássico das telas.

Às vésperas da cerimônia de entrega do Oscar em 1972, Brando anunciou que iria boicotar o acontecimento e enviaria Pequena Pluma em seu lugar. Assim que o nome de Marlon Brando foi anunciado como o ganhador de Melhor Ator, o apresentador Roger Moore, astro de diversos filmes da série James Bond, tentou entregar a estatueta à Pequena Pluma, mas ela afastou-a com o braço dizendo que Brando não poderia aceitar a premiação. Pequena Pluma leu trechos de uma declaração escrita pelo ator, cujo inteiro teor foi depois publicado pela imprensa, inclusive pelo The New York Times. “A comunidade da indústria cinematográfica tem sido igualmente responsável”, escreveu Brando, “por degradar o Índio e ridicularizar seu caráter, descrevendo-o como selvagem, hostil e malvado”.

Brando esteve envolvido em causas sociais durante anos, manifestando-se publicamente em defesa da formação de um Estado judeu nos anos 1940, bem como apoiando a luta pelos direitos civis dos afro-americanos e o Partido Pantera Negra. Sua manifestação por ocasião do Oscar expressou respaldo ao Movimento Indígena Americano (AIM) e aludiu à situação em curso em Wounded Knee, cidade de Dakota do Sul, sitiada por membros do AIM no mês anterior e que, no momento, estava cercada por tropas do exército. Wounded Knee foi também o lugar de um massacre dos nativos norte-americanos pelas forças do governo de Washington em 1890.

Brando foi o segundo artista a recusar o prêmio de Melhor Ator. O primeiro foi George C. Scott, que polidamente declinou em aceitar sua premiação por Patton, Rebelde ou Heroi em 1971 quando teria dito a respeito do estardalhaço da Academia de Cinema: “Não quero nada com ela”. Scott havia previamente recusado a indicação de Melhor Ator Coadjuvante em Desafio à Corrupção (1961).

General Patton comete gafe que o tiraria da Segunda Guerra

George S. Patton é recebido em carreata em Los Angeles (CA); general foi um dos principais estrategistas da Segunda Guerra
O general George Smith Patton era amado e odiado pelos seus soldados. Amado por tratar-se de um guerreiro e estrategista nato; odiado pelo fato de ser rígido ao ponto de não admitir que seus soldados sofressem fadiga de batalha. Patton também era famoso por não ter papas na língua, o que lhe causou muitos problemas.

No dia 22 de setembro de 1945, em uma coletiva aos correspondentes da Segunda Guerra, o general diz que não ver necessidade nessa “coisa de desnazificação” e compara a controvérsia sobre o nazismo a uma “luta eleitoral entre democratas e republicanos”. Uma vez mais, Patton metia os pés pelas mãos —seria a última.

Descendente de uma longa linhagem de militares, Patton graduou-se na Academia Militar de West Point em 1909 e serviu no Corpo de Tanques durante a Primeira Guerra Mundial. Como resultado dessa experiência, tornou-se um entusiasta defensor da Guerra de blindados. Durante a Segunda Guerra Mundial, como comandante do 7º Exército, capturou Palermo, Sicília, em 1943 exatamente por esse meio. A audácia de Patton tornou-se evidente em 1944, quando, como comandante do 3º Exército, invadiu boa parte do norte da França valendo-se de estratégia pouco ortodoxa e implacável.

Era um homem cheio de extravagâncias: falava francês, fazia poesias e gostava de desenhar seus uniformes, usava uma pistola Colt 45 com cabo revestido de marfim e suas iniciais gravadas em preto. Acreditava em reencarnação. Jurava ter lutado em Troia, tomado parte das legiões romanas de Júlio César contra Vercingetórix, ter sido o comandante cartaginês Aníbal e ter participado das guerras napoleônicas.

A história do general foi levada ao cinema, 1970, no filme ‘Patton: herói ou rebelde?’; papel rendeu o Oscar de melhor ator a George C. Scott

A língua de Patton, no entanto, provou-se tão perigosa para a sua carreira quanto os alemães. Quando repreendeu e estapeou um soldado hospitalizado, diagnosticado com neurose de Guerra, a quem acusou de “se fazer de doente”, Patton teve sua cabeça pedida pela imprensa. O general pensou que seria retirado da ativa, não fosse a intervenção dos generais Dwight Eisenhower e George Marshall. Após meses de inatividade, voltou ao campo de batalha.

De fato, na Batalha da Bélgica, durante a qual foi bem-sucedido em empregar uma estratégia complexa e engenhosa, conseguiu contornar o avanço alemão em Bastogne, empreendendo uma contra-ofensiva, empurrando os germânicos para leste cruzando o Reno até atingir a Tchecoslováquia.

Patton teve mais uma chance de exibir sua astúcia na Batalha das Ardenas, na fronteira da Bélgica com a Alemanha. Durante cinco dias, os alemães isolaram 18 mil soldados americanos na cidade de Bastogne. Patton foi convocado para salvá-los. Em apenas três dias, resgatou os compatriotas.

O destino seguinte era o coração da própria Alemanha. Quando cruzou o Reno, Patton violou novamente ordens que proibiam o 3º Exército de atravessar o rio. Uma noite, ouvindo uma transmissão da BBC, escutou um discurso de Churchill atribuindo ao britânico General Montgomery a façanha de ser o primeiro militar a atingir o Reno. Patton enfureceu-se e, diante dos auxiliares, arriou as calças e urinou no Reno gritando: Eu fui o primeiro!

Patton possuía muitos dons, contudo a diplomacia não era um deles. Após a Guerra, estacionado na Alemanha, criticou o processo de “desnazificação” e a remoção de antigos membros do partido nazista de posições políticas administrativas e governamentais. No entanto, as declarações politicamente incorretas resultaram na sua destituição do cargo de comandante dos Estados Unidos na Baviera. Foi transferido para o 15º Agrupamento, como forma de punição, o que marcou o fim de sua participação na Segunda Guerra. Em dezembro de 1945 quebrou o pescoço num acidente de carro que o deixou tetraplégico, vindo a falecer menos de duas semanas depois, aos 60 anos.

Outors fatos marcantes da data

Iraque invade Irã e inicia guerra

A localização da província de Khuzestão no mapa do Irã. A região faz fronteira com Iraque

Disputas  fronteiriças permanentes e agitação política no Irã levaram o presidente do Iraque, Saddam Hussein a lançar em 22 de setembro de 1980 uma invasão da província iraniana do Khuzestão, fértil em petróleo. Após progressos iniciais, a ofensiva iraquiana foi reprimida. Em 1982, o Iraque recuou voluntariamente e buscou um acordo de paz, todavia o aiatolá Khomeini recusou e permaneceu em combate. O impasse no campo de batalha e a morte de dezenas de milhares de jovens conscritos iranianos no Iraque prosseguia. Os centros populacionais de ambos os países eram bombardeados e o Iraque passou a empregar armas químicas. No Golfo Pérsico, uma “Guerra de Navios Petroleiros” reduziam drasticamente a navegação pelo estreito de Ormuz e faziam aumentar o preço do petróleo. Em 1988, o Irã finalmente concordou com um cessar-fogo.

Os dois países entraram em guerra por questões territoriais. Saddam Hussein queria ampliar seu território e conseguir aumentar os seus recursos provenientes da extração de petróleo. Se tivesse êxito, o Iraque chegaria ao segundo ou ao primeiro lugar na exportação de óleo, superando a Arábia Saudita.

A par desse desejo de conquista, como pano de fundo estava presente a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Washington se posicionou em favor do Iraque visto que a república dos aiatolás, por razões históricas, políticas e econômicas, se constituía em barreira à aos interesses norte-americanos. Isto levou a União Soviética, quase que automaticamente, a se colocar em favor de Khomeini.

Com o objetivo de causar destruição para finalmente derrocar o governo dos aiatolás, os Estados Unidos passaram a fornecer um avultado apoio bélico que se traduziu em fornecimento de armas modernas, artilharia pesada, mísseis portáteis, aviões e helicópteros e armamento individual. O Irã, de seu lado, tentou fazer o mesmo, apoiando-se no fornecimento de Moscou e de outras fontes.

A consolidação do governo do aitaolá Khomeini representou uma ameaça aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos na região. Tal oposição se iniciou quando, o governo iraniano decidiu cortar suas relações diplomáticas e econômicas com os Estados Unidos. Com isso, Washington perdia um de seus mais importantes aliados e fornecedores de petróleo.

Diante do impasse, os EUA passaram a estreitar relações com o Iraque visando a deflagração de uma guerra que pudesse derrubar o regime islâmico iraniano. Na época, Saddam Hussein usou de uma injustificada disputa pelo controle do canal de Chatt-el-Arab, por onde ambos os países realizavam o escoamento de seus produtos. Ante a negativa iraniana em ceder os territórios, Saddam decidiu invadir o espaço iraniano e destruir uma das maiores refinarias do mundo.

Enquanto os iranianos realizavam ataques contra a ação intervencionista do regime de Saddam Hussein, os EUA e outras nações árabes de orientação sunita apoiaram militarmente as forças iraquianas. Nesse meio tempo, a minoria curda que vivia no Iraque aproveitou do período instável para guerrear contra o ditador Saddam Hussein na esperança de estabelecer um governo independente na região. O reforço bélico estrangeiro serviu para promover o genocídio dessa minoria étnica.

A deflagração desse conflito paralelo permitiu aos iranianos resistir durante oito anos. O prolongamento dos combates acabou desgastando os dois lados do conflito e seguindo a orientação da ONU, assinaram um cessar-fogo que preservou os mesmos limites territoriais anteriores à guerra. Mais de 700 mil vidas foram ceifadas inutilmente: manteve-se o status quo anterior.

Começava a Guerra Irã-Iraque

exatos 29 anos aviões iraquianos bombardeavam 11 bases militares do Irã, que, em represaria, reagiria assumindo o controle militar do Estreito de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico. O ato foi considerado pelo Iraque como “uma declaração de guerra total” e marcou o início da Guerra Irã-Iraque, um conflito militar que durou até 1988, e foi resultante de disputas políticas, territoriais e religiosas entre os dois países – embora ambos islâmicos, o Iraque é sunita, enquanto o Irã xiita.

O presidente iraquiano Saddam Hussein afirmou ter ordenado os ataques para dissuadir o ayatolah Khomeiny, líder do Irã, de lançar seu país numa guerra total. Entretanto, o líder iraniano declarou que Hussein estava em “guerra contra o Islã” e ordenou ao povo iraquiano que se levantasse contra “o mercenário da América do Norte”, referindo-se a Hussein. Na ocasião, o então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, disse que seu país estava fazendo o possível para ajudar o Irã e o Iraque a encontrarem uma solução pacífica para o conflito entre eles.

Precavendo-se contra as possíveis conseqüências do agravamento do conflito entre o Irã e o Iraque, a Petrobras decidiu suspender as negociações para a pretendida redução das suas compras de óleo – a intenção inicial do governo era reduzir suas importações de 850 mil para 600 barris por dia. Já o Chanceler brasileiro Saraiva Guerreiro considerou prematuro qualquer julgamento sobre o conflito entre Irã e Iraque, e lembrou que o Brasil possuía relações com os dois países, fazendo votos para que os incidentes do dia 22 de setembro não se degenerassem em uma guerra, o que, infelizmente, acabou ocorrendo.

Pacificação tardia

Em 8 de agosto de 1988, após oito anos de conflitos e de mais de um milhão de mortos e feridos, o Secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Javier Perez de Cuellar, anunciou que o Irã e o Iraque concordaram em cessar todas as hostilidades em terra, mar e ar, a partir da zero hora do dia 20 de agosto. Cinco dias depois se iniciariam as negociações diretas de paz, enquanto um grupo de 350 observadores, de 25 países, fiscalizaria o respeito à trégua nos campos de batalha. A iniciativa de pôr fim ao conflito foi saudada pelos principais governos ocidentais, especialmente Washington.

A saga de Antonio Conselheiro chega ao fim com a Guerra de Canudos

Livro de anotações de Antonio Conselheiro. Teixeira/AJB

Apontamentos dos preceitos da Divina Lei do Nosso Senhor Jesus Christo para a salvação dos homens, pelo peregrino Antonio Vicente Mendes Maciel no Povoado do Bello Monte, Província da Bahia em 24 de maio de 1895.

Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer e se tiver sede, dá-lhe de beber, porque se isto fizeres, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem

Antonio Conselheiro

Jornal do Brasil: Sexta-feira, 04 de outubro de 1896

O Nordeste brasileiro no final do século XIX não era muito diferente de hoje. Além de estar à mercê da seca e da fome, a população carente vivia em total abandono por parte das autoridades. Foi nesse quadro social, ideal para a disseminação do fanatismo religioso, que entrou em cena o beato Antonio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro. Intitulando-se enviado por Deus para acabar com as diferenças sociais e os pecados republicanos, percorreu o sertão pregando transformações e profetizando o fim do mundo. Conseguiu conquistar uma legião de fiéis confiantes no seu poder de libertação da extrema pobreza em que se encontravam. E despertou a ira das autoridades e da igreja que, temerosos de seu poder de persuasão, acusavam-no de fonte do mal. Para refugiar-se com seus seguidores, em 1893, Antonio Conselheiro chegou ao arraial de Canudos, no interior da Bahia, área isolada e de difícil acesso onde começou a formar uma grande comunidade de pobres e maltrapilhos, com aproximadamente 30 mil pessoas.

Sem a habilidade necessária para contornar a situação, o governo da Bahia passou a repreender as práticas do grupo com a força policial. Eclodiram inúmeros, e cada vez mais violentos, conflitos, fazendo com que, exaurido, o governo baiano pedisse a interferência da República em 1896. Essa também encontrou dificuldade para conter os fanáticos. No início de 1897, foi necessário aliar às investidas do Exército um cerco militar que impedisse o grupo de sair em busca de alimento. Com a debilidade da comunidade, o massacre de Canudos passou a ser questão de tempo.

E no dia 22 de setembro acabava a saga de Antônio Conselheiro. Fragilizado fisicamente, morreu, segundo estudiosos, por estilhaços de uma granada. Considerado por renomados intelectuais da época como um desajustado mental, Antônio Conselheiro foi decapitado, depois de morto. E sua cabeça foi utilizada em estudos científicos.

Sem a égide de seu líder, em poucos dias, a comunidade de Canudos foi dizimada. O massacre foi tamanho que não foram poupados idosos, mulheres e crianças.

Euclides da Cunha, em seu livro Os Sertões, eternizou este movimento que evidenciou a importância da luta social na história de nosso país. E simbolizou a descoberta de um mundo desconhecido para o próprio brasileiro: os sertões.

Leia outras efemérides de 22 de setembro

Relatos preconceituosos em tempo de guerra

Os conflitos no mundo árabe ainda estão longe de terminar, mas a maioria dos jornais já reduziu o espaço para o tema no noticiário cotidiano. Enquanto continuam as refregas no que resta do domínio de Kadaffi na Líbia e o Ocidente segue de olhos fechados para os crimes do regime sírio contra seu próprio povo, pode-se arriscar um balanço da cobertura feita pela imprensa brasileira, no rastro de um debate promovido nesta quarta-feira, 14, durante a 10ª Semana de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Paralelamente, discutiu-se também a influência da cobertura jornalística na imagem que o mundo passou a ter dos árabes e muçulmanos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 e das guerras que se seguiram.

Primeira observação a ser feita: ao se referir a movimentos políticos radicais no mundo árabe e muçulmano em geral, a imprensa ainda os qualifica como “fundamentalistas”. A expressão não tem origem no islamismo e não guarda uma relação histórica com a religião predominante no Oriente Médio e norte da África.

A ocorrência original dessa palavra, no sentido que lhe é dado hoje, foi registrada pela primeira vez no final do século XIX, nos Estados Unidos, quando grupos protestantes conservadores se reuniram no Congresso Bíblico Americano, no Estado de Nova York, segundo texto apresentado em 2007, durante a XIII Conferência Brasileira de Psicoterapia de Grupo, pelo psicoterapeuta Sebastião Molina Sanches.

A expressão foi publicada com esse sentido pela primeira vez em 1895, como uma autodefinição do movimento de protestantes contra as idéias da chamada “teologia liberal” ou “liberalismo teológico” – linha de interpretação de textos religiosos que também se relaciona com o movimento católico conhecido como Teologia da Libertação. Era, então, uma reação dos religiosos conservadores contra idéias importadas para os Estados Unidos do Iluminismo europeu. Uma das questões combatidas pelos fundamentalistas protestantes era a interpretação histórica dos fatos bíblicos. Portanto, a expressão “fundamentalismo” definiria melhor, hoje em dia, os radicais do Tea Party americano do que grupos terroristas que, essencialmente, pouco têm a ver com o islamismo.

A dimensão humana omitida

Outra questão que precisa ser esclarecida é a natureza das revoltas que ocorrem no mundo árabe desde os primeiros dias deste ano. A imprensa costuma tratar todos os povos árabes e outras nacionalidades que têm o islamismo como religião predominante como uma massa igual e disforme.

Afirma-se, por exemplo, que os líbios têm uma “sociedade tribal”, confundindo o país mediterrâneo, onde a imensa maioria da população vive em cidades médias e grandes ao longo do litoral, com as cada vez mais raras tribos nômades de paises saharianos e das montanhas ao norte do Afeganistão.

A imagem que a imprensa passa dos árabes em geral não combina com a realidade, e, como sempre, o cenário de guerra esconde a verdade e exacerba os aspectos mais negativos. Primeiro, a sociedade líbia é composta de clãs que se mesclam conforme a região, embora nas principais cidades haja predominância de determinadas famílias no poder político e militar, no comércio ou na burocracia. Trata-se, porém, de uma organização completamente diferente do que se convenciona seja uma “sociedade tribal”.

Sob o regime de Kadaffi, essas relações de clãs se deterioraram pela passagem transversal, na população, do poder discricionário originado na família do ditador. Quem já visitou a Líbia e outros paises árabes em tempos de paz sabe que a realidade é bem diferente do retrato pintado pelos correspondentes de guerra.

Especializados na descrição de momentos extremamente críticos, quando boa parte da população se dedica quase exclusivamente a garantir a sobrevivência, os repórteres de guerra não são os melhores analistas para situações de normalidade. Portanto, seu trabalho deve ser visto exatamente como é: o relato de uma situação anômala, que em algum momento vai estar terminada.

Finalmente, é preciso examinar com cuidado as motivações de cada povo envolvido no contexto chamado genericamente de “primavera árabe”. Para os iemenitas, a revolta é recurso extremo contra a mistura de opressão com a mais extrema miséria. Para os egípcios, trata-se de romper o ciclo de humilhações, privações e vergonha diante de um estado opressor e corrupto. Para os líbios, a questão estava escrita num cartaz exibido por um cidadão de Bengazi, flagrado pelas câmaras da CNN no mês de julho passado. “Ana rajul”, dizia o cartaz, em árabe. Em português, significa: “Sou um homem”, ou “sou um ser humano”.

Essa a dimensão que a imprensa ainda não conseguiu captar.