Internet na China: como vive a população sujeita à censura?

China e Google

Enquanto o pessoal se contenta com blogs locais e versões chinesas das redes sociais, imigrantes burlam o sistema com proxies e VPNs.

A China tem mais de 450 milhões de usuários de internet, sendo que estes correspondem a 24% de todos os internautas do mundo todo. Apesar dessa multidão navegar muito na web, o “The Great Firewall of China” (trocadilho com o nome da Muralha da China em inglês e o sistema de segurança firewall) dificulta um pouco as coisas – para não dizer muito. No país, o acesso a diversos sites é bloqueado, pois o governo chinês é extremamente rígido e teme que o livre compartilhamento de informações gere instabilidade social e prejudique a segurança nacional.

Eduardo Nuvens, programador, passou oito horas no aeroporto de Pequim e sofreu com as restrições da internet no país. Ele conta que, para usar o Wi-Fi local, foi preciso entregar o passaporte e o número de voo, mas, mesmo assim, as redes sociais não puderam ser acessadas. “O Gtalk entrou com muito custo, enquanto os vídeos do YouTube embedados nas notícias de sites comuns como o Mashable, por exemplo, não puderam ser vistos”, completou.

O que o Eduardo passou durante oito horas é a realidade de muitos. Não somente de chineses, mas de imigrantes que abandonaram seus países e a liberdade na internet para viver em um regime de censura virtual como a modelo Ariane Colombo. Residente em Guangzhou (sul da China), ela comenta que sites como o Google ou Gmail são lentos e às vezes nem entram. E o Facebook é totalmente bloqueado. Para entrevistá-la, aliás, foi bastante difícil. O email com as perguntas para a matéria foi enviado mais de três vezes até que ela conseguisse acessá-lo e respondê-lo.

Além dos serviços de email e busca do Google, a plataforma de vídeos da empresa também é bloqueada. Cecília Reichstul, brasileira que está em Xangai há dois anos, conta que, mesmo usando servidores proxy, não dá para assistir aos vídeos do YouTube. “Um simples vídeo vira uma epopéia. Tentei usar o YouKu, similar ao YouTube, mas como é em chinês, me cansa”, comenta.

Na China, todo o tráfego de informações para dentro e para fora do país é monitorado. Segundo o jornal The Atlantic, a arquitetura da internet chinesa foi concebida para aceitar apenas três portas de entrada por onde passam os cabos de fibra ótica que ligam o país ao resto do mundo. Cada bit que passa pelos canais é duplicado e dirigido aos computadores do “Escudo de Ouro”. Lá, uma equipe de vigilância analisa os dados e bloqueia as informações que julgar inapropriadas. Estima-se que existam mais de 30 mil censores que ficam vigiando os principais fóruns e debates online sobre assuntos polêmicos, que podem ser bloqueados em minutos.

A censura, no entanto, é perspicaz. Todos os sites podem ser consultados normalmente sem qualquer tipo de bloqueio aparente. Porém, se houver a presença de alguma informação considerada sensível para o governo, o sistema de vigilância restringe imediatamente o acesso à página. Uma das formas mais comuns de controle é a advertência de certas palavras procuradas pelos usuários. No Google ou Baidu, o principal buscador chinês, existem diversos termos bloqueados que vão mudando temporariamente.

Na prática o governo quer impedir que os chineses saibam o que o mundo exterior fala deles e não impedir a comunicação entre eles. Tem épocas que a censura está mais severa como quando há acidentes de trem e metrô”, explica. “Tudo que eu leio a respeito do governo chinês e do mundo vem de fontes ocidentais”, afirma Cecília.

O interessante é que, apesar das restrições, a maioria dos chineses não se revolta. Os cidadãos passaram a migrar para sites locais que obedecem às regras do país e, quando precisam, apelam para técnicas que burlam as restrições. De acordo com o repórter James Fallow do jornal The Atlantic, o regime não se assemelha em nada à era de Stalin da União Soviética ou à Coréia do Norte de hoje. “O governo constrói sua legitimidade assegurando padrões de vida melhores para a maior parte da população e não oprimindo a sociedade mais do que o necessário”, afirma.

Recentemente, o país defendeu seu direito de censurar a internet, alegando a necessidade de “proteger o público”. A porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Jiang Yu, disse que o país incentivava ativamente o desenvolvimento da internet e protegia a liberdade de expressão online. Porém, o propósito do bloqueio é “manter um bom ambiente e proteger o interesse público”.

Com isso, a população prefere se informar por meio de sites e blogs chineses do que desafiar as autoridades. Além disso, eles se satisfazem com as versões chinesas das mais famosas redes sociais que, ironicamente, copiam até o layout dos originais, além de se informarem por meio de blogs, sites e jornais nacionais. “Na China as coisas são diferentes. A população é sete vezes maior que a do Brasil. É muita gente para manter sob controle. Enquanto o país continuar crescendo e se desenvolvendo nesta velocidade, eles vão manter esse controle. É como um aval do governo para continuar interferindo na vida das pessoas”, conclui Cecília.

Driblando o “Escudo de Ouro”

Como tudo na internet, até mesmo o “Grande Firewall” chinês pode ser burlado. Segundo Cecília, a maioria das pessoas, especialmente os imigrantes, usam servidores proxies gratuitos ou não. Por meio desses servidores, os internautas podem ultrapassar as três portas da internet chinesa e navegar livremente, como se o fizesse a partir de outro país que não sofre censuras.

“A maioria dos estrangeiros usa, mas os chineses não. Pode ser por medo ou por desconhecimento”, conta. “O meu é gratuito e chama-se Pro XPN. Foi um amigo chinês que instalou para mim”, lembra a arquiteta.

Outra forma de enganar o rígido sistema são as VPNs, de acordo com Ariane. Estas redes virtuais privadas permitem codificar os dados, empacotá-los e fazê-los passar pelo controle do “Escudo de Ouro” sem nenhuma alteração. Por cerca de US$ 40 dólares ao ano é possível comprar uma rede virtual privada e acessar qualquer site bloqueado. “Só assim consigo acessar o Facebook, Gmail etc. Às vezes nem o proxy funciona”, comenta Ariane.

Veja abaixo uma galeria de imagens com as versões regulamentadas dos sites mais famosos do mundo como Facebook, Twitter, Google e YouTube.

Renren, o Facebook chinês

Baidu, o Google chinês

Tudou, cópia do YouTube

Weibo, o Twitter regulamentado

YouKu, outro site similar ao YouTube

Escrito por Stephanie Kohn

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