Filosofia contemporânea versus realidade anacrônica

Marx e Nietzsch

Aquele que desiste de criar o mundo com suas próprias mãos cai na interdição, mas numa interdição específica que é a de estar fadado a sonhar e se enredar nos seus sonhos sem nunca nada realizar

Não é exata esta citação, mas o sentido é preciso e acredito que duas posições diametralmente opostas se explicitam filosoficamente aí. Me refiro a Marx e a Nietzsche. O primeiro se entregou à criação do mundo não só por suas próprias mãos mas também com a daqueles que no mundo só produzem com suas próprias mãos. O segundo se entregou a seus sonhos e neles se enredou de tal modo que foi ao encontro daqueles que só estão entregues a seus sonhos e neles enredados a tal ponto que ficam fora da realização, fora da realidade e são conhecidos como loucos.

Mas, na Alemanha, dizia o jovem Marx, a única realidade contemporânea à realidade inglesa e francesa, isto é, contemporânea à realidade contemporânea era a filosofia ou o mundo dos sonhos, o mundo do idealismo alemão. O jovem Marx fugiu da Alemanha e foi viver na Inglaterra, o país europeu mais avançado no sentido de realizador da realidade contemporânea ou capitalista. Nietzsche, jovem e velho, permaneceu na Alemanha e, quando muito, viajou para Itália, então, permaneceu no país cuja realidade era a mais não contemporânea (me falta a palavra para aquilo que está no passado e fora da contemporaneidade, a qual, se não me engano, começa com a letra a) e, cuja contemporaneidade era exclusivamente a filosofia ou o mundo do pensamento, dos sonhos, logo, é possível compreender Nietzsche como ele mesmo se compreendeu, como um póstumo, tanto no sentido de sua realidade cotidiana não ser contemporânea, quanto no sentido de sua realidade contemporânea ser só um mundo onírico. Além disso, é possível ver a sociedade alemã oscilando entre a realização da contemporaneidade do mundo onírico por meio da filosofia social-democrata e a permanência no anacronismo (a palavra que faltava: anacrônica) da realidade alemã por meio da mitologia nacional socialista ou nazista.

Se consideramos verdadeira a observação de Marx sobre a Alemanha, então fica claro que a contemporaneidade e atualidade da Alemanha estão na filosofia e racionalidade de seu mundo de sonhos e pensamentos que são realidades em outros países europeus, ou seja, a realização da filosofia alemã só é possível como realização do internacionalismo, logo, sempre que a Alemanha impede a realização da filosofia alemã ela se prende firmemente no nacionalismo ou se afunda no isolamento de sua realidade anacrônica.

A social-democracia alemã viabilizou a Grande Guerra ou a Primeira Guerra Mundial renunciando ao internacionalismo e realização da filosofia social-democrata em prol do nacionalismo e isolamento profundo na sua realidade anacrônica. E o nazismo viabilizou a Segunda Guerra Mundial porque, herdando a renúncia internacionalista da social-democracia ou a queda e entrega desta ao nacionalismo, passou a absorver na sua realidade anacrônica a filosofia ou sonho do socialismo como mito e/ou exacerbação do nacional-socialismo.

Ao que parece a realização da filosofia social-democrata na Alemanha atual passa pela continuidade do euro e efetivação duma muito forte e irreversível União Européia, já o afundamento da Alemanha no anacronismo de sua realidade nacionalista (ou o nacionalismo de sua realidade anacrônica), ao que parece, passa pela descontinuidade do euro, hegemonia do marco, dissolução da União Européia e muito forte constituição do Império Alemão e da Vassalagem Européia. Os movimentos direitistas na Europa atual se mostram marcados com o selo do nacional-socialismo ou nazismo.

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