Cultura hacker x corrupção

Cultura hacker

Brasília sediará entre 7 e 10 de novembro a 15ª Conferência Internacional Anticorrupção, que pela primeira vez acontece no Brasil. Chefes de estado, sociedade civil e representantes dos setores público e privado estarão reunidos em busca de fórmulas de combate à corrupção com ajuda da internet, por meio da cultura hacker.

Em meio às atividades, o evento chama a atenção pelo “Hackaton”, concurso que premiará as melhores iniciativas tecnológicas para solucionar problemas ligados à corrupção. O dono da melhor ideia levará para casa R$ 15 mil para viabilizar o projeto e outros participantes podem ser convidados a assistir a feira. (Saiba como concorrer)

A Conferência Internacional é representada pela Amarribo, organização que desde 1999 se empenha na mobilização social contra ilegalidades políticas. Criada em Ribeirão Bonito, interior de São Paulo, por simpatizantes à causa, a entidade viu no descaso das autoridades a oportunidade para empreender projetos sociais e combater a corrupção local.

O espírito intensificou-se e os resultados apareceram. Com investigações, provas e denúncias de atos ilícitos, pelas mãos da Amarribo dois prefeitos e diversos vereadores foram afastados de seus cargos nos últimos anos. A campanha resultou também na publicação do livro “O Combate à Corrupção nas Prefeituras do Brasil”, que percorreu várias cidades para estimular discussões sobre o controle e aplicação do dinheiro público. Hoje, aos 13 anos, a Amarribo conta com uma rede de 200 organizações afiliadas.

Nicole Verillo, porta-voz da organização, falou ao Olhar Digital. Na entrevista abaixo ela comenta os avanços da mobilização social, a importância da “webcidadania”, conceito que vem caindo no gosto do brasileiro, e diz que o governo federal tem cooperado – e muito – com a ampliação do acesso às informações públicas.

Como a cultura hacker ajuda a combater a corrupção de forma concreta e objetiva?

Nicole Verillo: A cultura hacker tem extrema importância na mobilização e no combate à corrupção ao contribuir para verificação dos sistemas de segurança de informações e dados, e também para a mobilização e participação de cidadãos pela internet. Muitas vezes o governo recorre a hackers para testar a segurança do sistema eleitoral e outros, visando garantir que não hajam fraudes.

O que a Conferência Internacional conquistou nestes anos todos?

Nicole Verillo: Cada conferência fornece uma oportunidade para destacar os avanços e desafios na gestão do país de acolhimento e combate à corrupção, com outras importantes questões econômicas e políticas de grande importância diplomática para o país anfitrião e de sua região.

As conferências influenciaram na agenda política e econômica global ao longo dos anos. A Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção e a Convenção da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também tiveram suas primeiras atividades por conta da IACC. Foi a IACC 2008 que contou com os primeiros debates sobre governança, transparência e prestação de contas na mitigação das mudanças climáticas e estratégias de adaptação, entre outros.

Além disso, a mobilização para a causa é real. A conferência mobiliza o governo local junto aos cidadãos e demais setores da sociedade. Busca mobilizar jovens e chamar atenção para a causa da corrupção, trazer interações e exemplos de mudanças reais feitas pelo mundo para que sejam disseminadas.

O trabalho de vocês é a prova de que é possível tornar mais confiável e transparente o cenário político brasileiro?

Nicole Verillo: O resultado do nosso trabalho é essa prova. Ver cidadãos se mobilizando em suas cidades, fiscalizando e cassando corruptos é a maior prova de que um país mais justo, ético e transparente é possível por meio das diferentes formas de participação cidadã, presencial ou pela web. Estamos punindo cada vez mais os corruptos. Avanços na legislação, como a Lei da Ficha Limpa, a Lei de Compra de Votos e a Lei de Acesso à Informação, são consolidados pelo trabalho de cidadãos e organizações sociais. O brasileiro está se mobilizando cada vez mais para o combate à corrupção.

O primeiro turno das eleições movimentou as redes sociais. A internet é a saída para fazer o brasileiro tomar gosto pela política?

Nicole Verillo: A internet é uma das vias fundamentais para isso. Vemos cada vez mais ferramentas de “webcidadania” que contribuem não só para o eleitor se mobilizar e tomar gosto pela causa, mas também para fiscalizar, reclamar e construir junto com outros cidadãos um novo cenário para sua cidade, estado e país. Estamos em um país mega conectado, um dos que mais possui usuários em redes sociais. Isso deve ser muito bem utilizado.

Há parcerias com outros grupos hackers no Brasil?

Nicole Verillo: A iniciativa do Hackaton foi pensada em parceira com a Transparência Hacker, que tem um olhar para as questões de cidadania e combate à corrupção e iniciativas interessantíssimas, como o Ônibus Hacker, que roda cidades brasileiras para divulgar ações políticas.

Na semana passada um grupo derrubou o site da Campus Party Brasil em protesto ao preço dos ingressos. Vocês são favoráveis a ações como esta?

Nicole Verillo: Como a Campus Party é uma iniciativa privada, com interesses e posições que desconhecemos, prefiro não comentar este assunto. De todo modo, em relação ao Governo, somos a favor de parcerias na qual hackers são desafiados a derrubar sites e sistemas, para que o Governo possa corrigir erros, identificar falhas etc.

A Controladoria Geral da União apoia o Hackaton. O governo tem cooperado com a abertura do acesso às informações públicas?

Nicole Verillo: O governo tem cooperado e muito. A CGU já recebeu diversos pedidos desde que a Lei de Acesso à Informação começou a valer. A Lei regulamenta o direito de acesso à informação pelo cidadão, que não precisa mais justificar um pedido de informação. O cidadão tem direito de receber a informação e o funcionário público que não fornecê-la pode ser punido, inclusive por improbidade administrativa.

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