Mais um amigo está se despendido de nossa terrinha

Poizé! Mais uma dessas postagens que não gosto muito de fazer, mas isso é uma forma de homenager um amigo. Um grande camarada que aprendemos a conviver e a trocar experiências. Diego Ricardo [link de seu perfil no facebook] está de malas prontas e indo pra muito longe daqui, está a caminho do Rio Grande Norte, não pra aventura e sim a trabalho. Uma nova vida ele vai construir nas terras de potiguares. Diego é publicitário e um desenhista de mão cheia

Acima, postei alguns de seus vídeos publicados em seu canal no youtube, são bem bacana e mostra o potencial do guri em suas habilidades. Ele tem futuro e vai fazer a vida bem longe daqui. Só me resta desejar boa sorte e vida longa ao amigo. Que seus desejos se realizem e vou te mandar ótimas vibrações. Que Deus ilumine sua caminhada. Hasta la victoria y siempre! Poser!

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Há 91 anos nascia Leonel Brizola

Leonel Brizola, uma das maiores lideranças políticas do nosso país, antes, durante e depois da ditadura. Brizola liderou a Campanha da Legalidade bancando João Goulart como presidente, quando da primeira tentativa de afastá-lo do poder, e durante a ditadura foi exilado, só retornando anos depois quando fundou junto com seus colegas o PDT. Como governador do Rio de Janeiro, enfrentou e peitou poderosos tais como a Rede Globo (como podemos ver no vídeo acima) e deixou exemplo a outros políticos por não ter o “rabo preso”. Candidatou-se à presidência da república logo depois, e por pouca diferença não foi para o segundo turno contra Collor. O trem da história havia passado. Sua chance de ser presidente havia sido desperdiçada pelos golpistas e fascistas de 1964.

Brizola na Globo. Cid Moreira era a voz do dono, a voz de Roberto Marinho. Leonel Brizola ganhou na Justiça direito de resposta no “Jornal Nacional” – para responder às perseguições da Globo. Cid leu o texto de Brizola. Momento histórico na TV brasileira.

Empresa com pior atuação socioambiental

Empresa com pior atuação socioambiental

Eu não fiquei surpresa quando descobri que a Shell está entre as finalistas do Public Eye Awards. Nada mais justo do que a empresa que mais intimidou meu lar – e também dos ursos polares, das focas e de outras espécies – ser reconhecida publicamente como uma ameaça por tentar explorar petróleo no Ártico.

O Public Eye Awards anuncia todos os anos a empresa que teve a pior atuação socioambiental escolhida por voto popular. E a Shell faz parte das sete empresas indicadas para concorrer ao prêmio por suas inúmeras tentativas – e fracassos – de explorar petróleo no Polo Norte.

Divulgue a campanha

Os riscos para a exploração de óleo no Ártico, um dos ecossistemas mais inóspitos, são tão elevados que seria quase impossível conter um vazamentona região. Você pode ajudar a defender meu lar, assinando e compartilhando a petição que pede a criação de um santuário global no Ártico, protegendo-o da exploração de petróleo e de outras atividades industriais.

Você também pode se juntar ao Greenpeace tornando-se um colaboradorSeu apoio é fundamental para que possamos continuar trabalhando de forma independente pelo meio ambiente.

Documentário sobre o Napster estreia em março

Filme contará a história de um dos maiores serviços de compartilhamento de música.

O Napster, serviço pioneiro no compartilhamento de arquivos na internet, terá sua história contada em documentário. Batizado de Downloaded, o filme estreará no festival SXSW, Texas, no dia 10 de março.

A informação é do canal de televisão VH1, que financiou o longa. Dois dias depois, no mesmo evento, acontecerá um painel com Alex Winter, diretor do documentário, e com Shawn Fanning e Sean Parker, cofundadores do serviço.

O filme relatará a jornada do Napster desde o nascimento, em 1998, até a sua venda à Rhapsody, loja de música online, em 2011. Na trajetória será possível acompanhar mais detalhes da briga do Napster com a indústria da música e como ele perdeu audiência para outros serviços como iTunes e Spotify.

Corte reduz multa aplicada sobre coligação de Ilhota

Prefeito Daniel Bosi e seu vice Lauri Adão Júnior

Os juízes do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina decidiram nesta quarta-feira (16), por unanimidade, modificar parcialmente a sentença do juízo da 64ª Zona Eleitoral (Gaspar), que julgou  procedente a representação proposta pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) de Ilhota contra a coligação “Juntos Vamos Mudar” (PP, PDT, PT, DEM, PSDB e PSD), em virtude da veiculação de propaganda eleitoral irregular, determinando sua retirada e condenando a coligação ao pagamento de multa no valor de R$ 10 mil, com fulcro no artigo 39, parágrafo 8º da Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições). Da decisão, divulgada no Acórdão nº 27.958, cabe recurso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O fato que originou a representação foi a utilização de um caminhão ostensivamente decorado com painel de propaganda eleitoral, contendo a imagem dos então candidatos a prefeito Daniel Christian Bosi (PSD) e  vice Lauri Armindo Adão Junior (PSDB), que ultrapassava as dimensões estabelecidas em lei, que é de 4 m², criando o mesmo efeito visual de um outdoor, o que configura ofensa ao parágrafo 2º do artigo 37 da Lei nº 9.504/1997.

Em seu recurso ao TRE/SC, a coligação sustentou que a placa impugnada já havia sido retirada e não mais seria utilizado. Além disso afirmou que o painel só teria sido usado uma vez e não em duas oportunidades, aduzindo ainda a ausência da comprovação da metragem das placas fotografadas nos autos, assim como a data da utilização das mesmas.

Ao proferir seu voto, o relator juiz Marcelo Ramos Peregrino Ferreira assegurou que, “na hipótese presente, restou caracterizado o uso de engenho que ultrapassa o limite legal e busca produzir o efeito outdoor, devendo ser mantida a condenação da coligação ‘Juntos Vamos Mudar’ ao pagamento de multa”.

Entretanto, o relator observou que é entendimento da Corte catarinense que, à espécie, deve ser aplicável a multa prevista no parágrafo 1º do artigo 37 da Lei das Eleições (no valor de R$ 2 mil a R$ 8 mil). “Assim, como não vejo motivo suficiente à majoração da pena pecuniária, dou provimento parcial ao recurso apenas para diminuí-la ao mínimo legal”, declarou.

“Como o mínimo legal é R$ 2 mil e a propaganda irregular foi utilizada em duas oportunidades, deve a multa ser aplicada para cada irregularidade, perfazendo R$ 4 mil, com fundamento no parágrafo 1º do artigo 37 da Lei nº 9.504/1997”, concluiu o relator.

O que o filme “Lincoln”, de Spielberg, não diz sobre Lincoln

Filme Lincoln de Steven Spielberg

O filme “Lincoln”, produzido e dirigido por um dos diretores mais conhecidos dos EUA, Steven Spielberg, fez reviver um grande interesse pela figura de Lincoln, um dos presidentes que, como Franklin D. Roosevelt, sempre apareceu no ideário estadunidense com grande lembrança popular. Destaca-se tal figura política como o fiador da unidade dos EUA, após derrotar os confederados que aspiravam à secessão dos Estados do Sul daquele Estado federal. É também uma figura que se destaca na história dos EUA por ter abolido a escravidão e ter dado a liberdade e a cidadania aos descendentes das populações imigrantes de origem africana, ou seja, a população negra, que nos EUA se conhece como a população afro-americana.

Lincoln foi também um dos fundadores do Partido Republicano, que em suas origens foi diretamente oposto ao Partido Republicano atual – este altamente influenciado hoje por um movimento – o Tea Party – chauvinista, racista e reacionário, por trás do qual existem interesses econômicos e financeiros que querem eliminar a influência do governo federal na vida econômica, social e política do país. O Partido Republicano fundado pelo presidente Lincoln era, pelo contrário, um partido federalista, que considerou o governo federal como avalista dos Direitos Humanos. E entre eles, a emancipação dos escravos, tema central do filme “Lincoln” e para o qual o presidente deu maior expressão. Terminar com a escravidão significava que o escravo passava a ser trabalhador, dono de seu próprio trabalho.

Lincoln, inclusive antes de ser presidente, considerou outras conquistas sociais como parte também dos Direitos Humanos e, entre elas, o direito do mundo do trabalho de controlar não só a atividade em si, mas também o produto resultante dela. O direito de emancipação dos escravos transformava o escravo em uma pessoa livre assalariada, unida – segundo ele – em laços fraternais com os outros membros da classe trabalhadora, independentemente da cor da pele. Suas demandas de que o escravo deixasse de sê-lo e de que o trabalhador – tanto branco como negro – fosse o dono não só de seu trabalho, mas também do produto de seu trabalho, eram igualmente revolucionárias. A emancipação da escravidão requeria que a pessoa fosse dona do seu trabalho. A emancipação da classe trabalhadora significava que a classe trabalhadora fosse dona do produto do seu trabalho. E Lincoln demandou os dois tipos de emancipação. O segundo tipo de emancipação, entretanto, nem sequer é citado no filme Lincoln. Na realidade, é ignorado. E utilizo a expressão “ignorado” em lugar de “escondido” porque é totalmente possível que os autores do filme ou do livro sobre o qual se baseia nem sequer conheçam a história real de Lincoln.

A Guerra Fria no mundo cultural e inclusive acadêmico dos EUA (que continua existindo) e o enorme domínio do que ali se chama a Corporate Class (a classe dos proprietários e gestores do grande capital) sobre a vida, não só econômica, mas também cívica e cultural, explica que a história formal dos EUA que se ensina nas escolas e nas universidades seja muito distorcida, purificada de qualquer contaminação ideológica procedente do movimento operário, seja socialismo, comunismo ou anarquismo. A grande maioria dos estudantes estadunidenses, inclusive das universidades mais prestigiadas e conhecidas, não sabe que a festa de 1º de Maio, celebrada mundialmente como o Dia Internacional do Trabalho, é uma festa em homenagem aos sindicalistas estadunidenses que morreram em defesa de trabalhar oito horas por dia (em lugar de doze), vitória que transformou tal reivindicação exitosa na maioria dos países do mundo. Nos EUA, tal dia, o 1º de Maio, além de não ser festivo, é o dia da Lei e da Ordem – Law and Order Day – (ver o livro People’s History of the U.S., de Howard Zinm). A história real dos EUA é muito diferente da história formal promovida pelas estruturas de poder estadunidenses.

As ignoradas e/ou escondidas simpatias de Lincoln

Lincoln, já quando era membro da Câmara Legislativa de seu Estado de Ilinóis, simpatizou claramente com as demandas socialistas do movimento operário, não só dos EUA, mas também mundial. Na realidade, Lincoln, tal como indiquei no começo do artigo, considerava como um Direito Humano o direito do mundo do trabalho de controlar o produto de seu trabalho, postura claramente revolucionária naquela época (e que continua sendo hoje) e que nem o filme nem a cultura dominante nos EUA lembram ou conhecem, que está convenientemente esquecida nos aparatos ideológicos do establishment estadunidense controlados pela Corporate Class. Na realidade, Lincoln considerou que a escravidão era o domínio máximo do capital sobre o mundo do trabalho e sua oposição às estruturas de poder dos Estados sulinos se devia precisamente a que percebia estas estruturas como sustentadoras de um regime econômico baseado na exploração absoluta do mundo do trabalho.

Daí que visse a abolição da escravidão como a liberação não só da população negra, mas de todo o mundo do trabalho, beneficiando também a classe trabalhadora branca, cujo racismo ele via que ia contra seus próprios interesses. Lincoln também indicou que “o mundo do trabalho antecede o capital. O capital é o fruto do trabalho, e não teria existido sem o mundo do trabalho, que o criou. O mundo do trabalho é superior ao mundo do capital e merece a maior consideração (…). Na situação atual o capital tem todo o poder e há que reverter este desequilíbrio”. Leitores dos escritos de Karl Marx, contemporâneo de Abrahan Lincoln, lembrarão que algumas destas frases eram muito semelhantes às utilizadas por tal analista do capitalismo em sua análise da relação capital/trabalho sob tal sistema econômico.

Será surpresa para um grande número de leitores saber que os escritos de Karl Marx influenciaram Abraham Lincoln, tal como documenta detalhadamente John Nichols em seu excelente artículo “Reading Karl Marx with Abraham Lincoln Utopian socialists, Germam communists and other republicans” publicado em Political Affairs (27/11/12), e do qual extraio as citações, assim como a maioria dos dados publicados neste artigo. Os escritos de Karl Marx eram conhecidos entre os grupos de intelectuais que estavam profundamente insatisfeitos com a situação política e econômica dos EUA, como era o caso de Lincoln. Karl Marx escrevia regularmente no The New York Tribune, o rotativo intelectual mais influente nos Estados Unidos daquele período. Seu diretor, Horace Greeley, se considerava um socialista e um grande admirador de Karl Marx, quem convidou para ser colunista de tal jornal. Nas colunas de seu jornal incluiu grande número de ativistas alemães que haviam fugido das perseguições ocorridas na Alemanha daquele tempo, uma Alemanha altamente agitada, com um nascente movimento operário que questionava a ordem econômica existente. Alguns destes imigrantes alemães (conhecidos no EUA daquele momento como os “Republicanos Vermelhos”) lutaram mais tarde com as tropas federais na Guerra Civil, dirigidos pelo presidente Lincoln.

Greeley e Lincoln eram amigos. Na realidade, Greeley e seu jornal apoiaram desde o princípio a carreira política de Lincoln, sendo Greeley quem lhe aconselhou a que se apresentasse à presidência do país. E toda a evidência aponta que Lincoln era um fervente leitor do The New York Tribune. Em sua campanha eleitoral para a presidência dos EUA convidou vários “republicanos vermelhos” a integrarem-se a sua equipe. Na realidade, já antes, como congressista, representante da cidadania de Springfield no Estado de Ilinóis, apoiou frequentemente os movimentos revolucionários que estavam acontecendo na Europa, e muito em especial na Hungria, assinando documentos em apoio a tais movimentos.

Filme Lincoln de Steven Spielberg

Lincoln, grande amigo do mundo do trabalho estadunidense e internacional

Seu conhecimento das tradições revolucionárias existentes naquele período não era casual, e sim fruto de suas simpatias com o movimento operário internacional e suas instituições. Incentivou os trabalhadores dos EUA a organizar e estabelecer sindicatos antes e durante sua presidência. Foi nomeado membro honorário de vários sindicatos. Em sua resposta aos sindicatos de Nova York afirmou “vocês entenderam melhor que ninguém que a luta para terminar com a escravidão é a luta para libertar o mundo do trabalho, para libertar todos os trabalhadores. A libertação dos escravos no Sul é parte da mesma luta pela libertação dos trabalhadores no Norte”. E, durante a campanha eleitoral, o presidente Lincoln promoveu a postura contra a escravidão afirmando explicitamente que a libertação dos escravos permitiria aos trabalhadores exigir os salários que lhes permitissem viver decentemente e com dignidade, ajudando com isso a aumentar os salários de todos os trabalhadores, tanto negros como brancos.

Marx, e também Engels, escreveram com entusiasmo sobre a campanha eleitoral de Lincoln, em um momento em que ambos estavam preparando a Primeira Internacional do Movimento Operário. Em um momento das sessões, Marx e Engels propuseram à Internacional que enviasse uma carta ao presidente Lincoln felicitando-o por sua atitude e postura. Na carta, a Primeira Internacional felicitava o povo dos EUA e seu presidente por, ao terminar com a escravidão, haver favorecido a liberação de toda a classe trabalhadora, não só estadunidense, mas também mundial.

O presidente Lincoln respondeu, agradecendo a nota e dizendo que valorizava o apoio dos trabalhadores do mundo a suas políticas, em um tom cordial, que certamente criou grande alarme entre os establishments econômicos, financeiros e políticos de ambos os lados do Atlântico. Estava claro, a nível internacional que, como afirmou mais tarde o dirigente socialista estadunidense Eugene Victor Debs, em sua própria campanha eleitoral, “Lincoln havia sido um revolucionário e que, por paradoxal que pudesse parecer, o Partido Republicando havia tido, em suas origens, uma tonalidade vermelha”.

Filme Lincoln de Steven Spielberg

A revolução democrática que Lincoln começou e que nunca se desenvolveu

Não é preciso dizer que nenhum destes dados aparece no filme Lincoln, nem são amplamente conhecidos nos EUA. Mas, como bem afirmam John Nichols e Robin Blackburn (outro autor que escreveu extensamente sobre Lincoln e Marx), para entender Lincoln tem que entender o período e o contexto nos quais ele viveu. Lincoln não era um marxista (termo sobreutilizado na literatura historiográfica e que o próprio Marx denunciou) e não era sua intenção eliminar o capitalismo, mas corrigir o enorme desequilíbrio existente nele, entre o capital e o trabalho. Mas, não há dúvida de que foi altamente influenciado por Marx e outros pensadores socialistas, com os quais compartilhou seus desejos imediatos, claramente simpatizando com eles, levando sua postura a altos níveis de radicalismo em seu compromisso democrático. É uma tergiversação histórica ignorar tais fatos, como faz o filme Lincoln.

Não resta dúvida que Lincoln foi uma personalidade complexa, com muitos altos e baixos. Mas as simpatias estão escritas e bem definidas em seus discursos. E mais, os intensos debates que aconteciam nas esquerdas europeias se reproduziam também nos círculos progressistas dos EUA. Na realidade, a maior influência sobre Lincoln foi a dos socialistas utópicos alemães, muitos dos quais se refugiaram em Ilinóis fugindo da repressão europeia.

O comunalismo que caracterizou tais socialistas influenciou a concepção democrática de Lincoln, interpretando democracia como a governança das instituições políticas por parte do povo, no qual as classes populares eram a maioria. Sua famosa Expressão (que se converteu no esplêndido slogan democrático mais conhecido no mundo – Democracy for the people, of the people and by the people – claramente afirma a impossibilidade de ter uma democracia do povo e para o povo sem que seja realizada e levada a cabo pelo próprio povo. Daí vem a libertação dos escravos e do mundo do trabalho como elementos essenciais de tal democratização. Seu conceito de igualdade levava inevitavelmente a um conflito com o domínio de tais instituições políticas pelo capital. E a realidade existente hoje nos EUA e que detalho em meu artigo “O que não se disse nos meios de comunicação sobre as eleições nos EUA” (Público, 13.11.12)é uma prova disso. Hoje a Corporate Class controla as instituições políticas do país.

Últimas observações e um pedido

Repito que nenhuma destas realidades aparece no filme. Spielberg não é, afinal, nenhum Pontecorvo e o clima intelectual estadunidense ainda está estancado na Guerra Fria que lhe empobrece intelectualmente. “Socialismo” continua sendo uma palavra mal vista nos círculos do establishment cultural daquele país. E, na terra de Lincoln, aquele projeto democrático que ele sonhou nunca se realizou devido a enorme influência do poder do capital sobre as instituições democráticas, influência que diminuiu enormemente a expressão democrática naquele país. E o paradoxo brutal da historia é que o Partido Republicano se tenha convertido no instrumento político mais agressivo hoje existente a serviço do capital.

Certamente, agradeceria que todas as pessoas que achem este artigo interessante o distribuam amplamente, incluindo, em sua distribuição os críticos de cinema, que em sua promoção do filme, seguramente não dirão nada do outro Lincoln desconhecido em seu próprio país (e em muitos outros). Um dos fundadores do movimento revolucionário democrático nem sequer é reconhecido como tal. Sua emancipação dos escravos é uma grande vitória que deve ser celebrada. Mas Lincoln foi muito além. E disto nem se fala.

Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia. Este artigo foi publicado em http://blogs.publico.é/dominiopublico/6405/o-que-a-pelicula-Lincoln-não-dice-sobre-Lincoln/

Jovens militam além da rede e da rua

Jpmdb Ilhota

Um jovem morador do Complexo do Alemão (hoje com 18 anos) narra uma ocupação policial em tempo real através do Twitter, passa a ter mais de 39 mil seguidores e se torna celebridade, inspirando até personagem em novela da Globo. Uma estudante de 13 anos de Florianópolis conta as agruras da escola pública em que estuda em uma página no Facebook e, além de se tornar nacionalmente conhecida (mais de 344 mil pessoas curtem a página Diário de classe), conquista mudanças para o cotidiano escolar (e alguma dor de cabeça). René Silva e Isadora Faber são exemplos emblemáticos (e famosos) de um processo em curso. Eles expressam um momento em que ações nas redes sociais virtuais são rapidamente apropriadas e ressignificadas por outros meios de comunicação e pela sociedade, com repercussões imprevisíveis e pouco controláveis.

Aparentemente, em nosso perfil no Facebook ou no Twitter, estamos falando para aqueles tantos amigos ou seguidores. No entanto, potencialmente, nossas mensagens podem se perder num emaranhado sem fim de compartilhamentos e retuítes. Nesse mundo virtual em rede, qualquer um pode estar fadado ao sucesso instantâneo. No entanto, esses dois jovens também têm em comum o fato de serem pessoas cuja trajetória pública aponta para iniciativas mais ou menos coletivas e para uma certa preocupação com o social ou com a comunidade à sua volta. E, nesse sentido, eles estão lado a lado a uma legião de jovens e adultos nem tão famosos assim que vêm lançando mão de redes sociais virtuais, blogs, sites e outros mecanismos disponíveis na internet para compartilhar conteúdo a fim de expor publicamente suas mensagens, críticas, imagens, ou seja, sua visão da realidade.

Uma pesquisa iniciada em 2011 e ainda em curso, realizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) com apoio do Centro de Pesquisa sobre o Desenvolvimento Internacional (IDRC, na sigla em inglês), sobre o uso das novas tecnologias por jovens moradores de favelas e periferias para mobilização social revela que parte daqueles que se utilizam desses meios com a finalidade de denunciar violações de direitos e exigi-los encontra-se não apenas em redes sociais virtuais, mas participa presencialmente de grupos, organizações, coletivos etc., ou seja, redes sociais off-line de solidariedade e engajamento social e político que contribuem para conformar certa percepção sobre tais violações e sobre os direitos que estariam sendo violados.

Ainda assim, as novas tecnologias têm um papel fundamental nesse processo, seja como forma para apreender imagens e fatos do cotidiano (hoje muitas pessoas têm um celular capaz de tirar fotos ou fazer pequenos vídeos com razoável resolução), seja para dar visibilidade ao que se produz não apenas para pessoas fisicamente próximas. No entanto, isso não faz que todas as ações veiculadas pela internet ou mais especificamente pelas redes sociais tenham grande repercussão. Ao contrário, dentro de um mar de informações e de uma sociedade voltada para o consumo, não são em geral assuntos relacionados à mobilização social e à violação de direitos os que se tornam “trending topics” no Twitter. No entanto, ainda assim, o ano passado foi rico em exemplos sobre as possibilidades oferecidas por esses meios ou ferramentas.

Em 2011, foi como se, de uma só vez, uma série de manifestações sociais públicas protagonizadas sobretudo por jovens mostrasse de forma inconteste uma realidade já em curso e sem volta. Se os avanços tecnológicos são inegáveis e a popularização do acesso a determinadas tecnologias é uma realidade bastante disseminada, seria de esperar que diversos fenômenos sociais passassem a incorporar o uso de tais tecnologias.

A Primavera Árabe, o movimento Ocupar Wall Street, a revolta nas periferias londrinas e as feministas da Marcha das Vadias (SlutWalks) tinham em comum uma marca geracional: ainda que não fossem todos jovens do ponto de vista estritamente etário (seja qual for a norma instituída de juventude que usemos), traziam consigo uma experiência comum marcada, entre outras coisas, pelo maior acesso à internet e aos celulares, mas também por um conhecimento de como usar esses meios. No entanto, essa não seria a única marca geracional em jogo. Estamos falando de fenômenos distintos e, portanto, com explicações sociais, históricas e culturais também diferentes. De diversas maneiras e por variadas razões uma determinada geração dessas sociedades expressou suas insatisfações publicamente, ocupando, quebrando, marchando.

Para além da transnacionalização de lutas, essas novas conexões permitem acessar informações que, há pouco, levávamos muito tempo para conhecer e, quando conhecíamos, era pela visão dos grandes meios de comunicação ou pelo trabalho de mídias alternativas, que também ganham nova centralidade com a internet. A facilidade para a articulação e troca de informações é sem precedentes. O fato de a internet conseguir chegar a cada vez mais lugares e pessoas eleva exponencialmente a capacidade de temas ultrapassarem fronteiras e especificidades.

Não se desconhece o acesso profundamente desigual à internet, em especial no Brasil. E desigual em muitos sentidos. As novas gerações têm um acesso muito mais significativo à rede. De acordo com a pesquisa “Juventudes sul-americanas”, realizada por Ibase e Pólis, com apoio do IDRC, entre 2008 e 2009, em seis países da região, o acesso dos jovens à internet era mais do que o dobro do acesso dos adultos (no Brasil, 50% dos jovens acessavam a internet, enquanto entre os adultos esse percentual era de 21%). Essa pesquisa (e muitas outras) aponta também que, em uma mesma geração, o acesso é muito diferenciado entre campo e cidade, entre ricos e pobres, entre negros e brancos, entre os menos e os mais escolarizados.

Mas disponibilizar informações para um número de pessoas inimaginável há apenas alguns anos por meio de blogs, sites, redes sociais e torpedos via celular não faz que determinadas questões sejam relevantes e suficientes para que as pessoas saiam de casa e ocupem praças, ruas ou mesmo usem seu tempo assistindo a determinados vídeos ou replicando imagens e mensagens.

Na já citada pesquisa em curso, os entrevistados têm, no geral, a percepção de que a internet, suas redes e recursos são ferramentas. Ainda que esteja colocada a possibilidade da produção e visibilidade de conteúdo por pessoas que até há muito pouco tempo eram encaradas apenas como receptoras ou consumidoras de notícias, publicidade etc., eles têm clareza de que isso não substitui outros tantos recursos socialmente disponíveis para mobilizar seus locais de moradia ou suas redes sociais off-line. Cartazes, faixas, panfletos, boca a boca, rádio comunitária, jornal impresso compõem um cenário mais amplo e complexo para aqueles que militam, fazem ação ou trabalho social, para quem pretende mudar sua realidade ou o mundo.

Diversas manifestações públicas lideradas por jovens sul-americanos na última década tiveram forte vinculação com os meios de comunicação (comerciais e as ditas mídias alternativas) e com as novas tecnologias da informação. Muitas ações dos movimentos pressupõem uma face pública, se fazer ver e ouvir pelo restante da sociedade para mobilizar população e pressionar governos, empresas etc. E os meios de comunicação têm papel importantíssimo.

No Chile, em 2006, milhares de estudantes secundaristas protagonizaram o que ficou conhecido dentro e fora do país como Revolução dos Pinguins (referência ao uniforme dos estudantes). Eles ocuparam suas escolas por discordar dos encaminhamentos dados pelo governo em relação à educação, reivindicando educação pública, gratuita e de qualidade. Além da ocupação física do espaço escolar, a criação de blogs e fotologs das ocupações e do movimento ajudou a instituir o caráter nacional e descentralizado da manifestação (que se recusou a ter apenas um porta-voz) e a mobilizar cerca de 800 mil estudantes em dois meses de norte a sul do país. Nos últimos anos, e mais intensamente desde 2011, os estudantes chilenos voltaram às ruas e em seu repertório de ações trouxeram consigo intervenções artísticas e coreografias famosas orquestradas também pela internet, ressignificando ícones do pop por meio de suas demandas, devidamente filmados e disseminados via YouTube e redes sociais. A centralidade da reivindicação por educação pública de qualidade continuou e exigiu deles estratégias múltiplas para se fazerem ouvir.

Entre as demais ações estudadas inicialmente pela pesquisa “Juventude e integração sul-americana” (Ibase/Pólis, 2008), muitas se valem de blogs, fotologs e fóruns de debates virtuais para mobilizar e organizar suas ações. Assim como no caso chileno, nelas o uso de novas tecnologias combina-se a formas “tradicionais” de militância, e essas combinações possíveis também trazem pistas do jeito próprio de essa geração dar sentido a práticas políticas.

As mobilizações podem acontecer com a ajuda de redes sociais como Orkut, Facebook ou Twitter. No entanto, a ocupação das ruas e espaços públicos ou o fechamento de vias públicas e estradas continuam gerando repercussão social e política. A criatividade incorporada a formas de manifestações do gênero rendem imagens que serão replicadas em diferentes meios e não dependem apenas do interesse da grande mídia para se disseminar. E é ótimo que possam ser filmados e exibidos não apenas por “especialistas”, mas por qualquer pessoa que tenha à mão um celular e acesso à internet. Se sempre foi fundamental colocar o bloco na rua, hoje, mais do que nunca, é urgente compreender os vínculos entre as práticas individuais cotidianas – entre elas os usos da internet e das redes sociais por parcelas cada vez mais amplas da população – e o agir coletivo. Em tempos de novas combinações entre militância e comunicação, nem a rede nem a rua são o limite.