A vida não se resume à uma eleição


Lula vale a luta

Hoje, o Brasil escolheu dar um salto no escuro, ninguém sabe o que vai acontecer no futuro próximo e nem distante.

O resultado não se deu com base num projeto e sim na força da rejeição ao PT e ao “sistema”, que não apresentou nenhuma alternativa decente, permitindo uma onda ao que se apresentou como contra-tudo-o-que-está-aí. Aos que venceram cabe a responsabilidade de mostrar ao que vieram e deverão andar pela linha tênue entre governar e fazer política, embora, no caso deles fazer política pode significar reprimir quem se opõe.

O futuro será incerto e a melhor postura é “muita calma nessa hora”. Observar, analisar e planejar bem, antes de cada decisão importante. Sem precipitação, um passo de cada vez.

O mais longo período democrático da história do Brasil (míseros 29 anos, de 1989 até 2018) sequer alcançou a idade adulta e já sofreu seu mais duro golpe, ou seja, foi eleito democraticamente um Presidente que declarou, de muitas formas, uma postura antidemocrático. Infelizmente, ninguém se preparou para o pior cenário ou sequer acreditou que ele pudesse se concretizar, por isso, o PT nunca pensou no que fazer se perdesse essas eleições (que representou a consolidação do golpe de 2016), tampouco, houve um processo de reorganização de base para o momento que estivesse na defensiva. Agora só resta essa opção, pois, a vida não se resume à eleições.

Fernando Haddad fez uma campanha impecável: manteve-se firme na defesa do programa apresentado e construído sob a coordenação dele mesmo; não escondeu Lula, nem o PT, e, nem por isso, deixou de ter apoio de todos os partidos do “sistema”; enfrentou, chamou para o debate, e, enfim, manteve-se de cabeça erguida. Mostrou-se um grande líder, a altura do que o PT precisa daqui para frente, que não se envergonha do passado, mas que quer sobreviver e voltar a ser alternativa futura.

Mas, qual o “sistema” que foi derrotado?

Não foi o sistema econômico, pelo contrário, o capitalismo haverá de ser ainda mais cruel e desigual com o novo governo.

O sistema social, que tem como base a confiança interpessoal e nas instituições já vinha fortemente abalado e sofrerá mais ainda, pela perseguição e discriminação das minorias, não necessariamente pelo governo, mas pelos civis conservadores que se sentirão autorizados pelas declarações grotescas dos governantes. Enfim, o sistema que representa o campo política é mais ameaçado, que caracteriza uma crise nas instituições.

Primeiramente, o sistema eleitoral, praticamente não restaram partidos fortes depois dessas eleições e o maior deles ainda é o PT (com apenas 55 deputados, pouco mais de 10% do Congresso e 5 governadores/a), ou seja, um sistema totalmente esfacelado e ingovernável.

Em segundo lugar, o sistema política da relação e equilíbrio entre os poderes, demonizado pela chaga da corrupção, que trará as maiores contradições para os que venceram essas eleições.

Contudo, o mais tênue e contraditório aspecto à ser observado será: o que farão em relação à democracia, ou, ao sistema democrático brasileiro?

A crise de confiança no sistema se refletiu diretamente contra o PT, que havia se proposto a ser a última esperança do sistema e que depois de quatro vitórias consecutivas (nunca antes na história desse país) enfrenta uma derrota, com apenas 5% menos da metade dos eleitores. Portanto, não se constituiu num grande derrota (como a Globo tenta repetir desde o primeiro segundo depois do resultado), mas o PT perde de cabeça erguida, e, diante desse resultado eleitoral, o PT vai continuar tendo muita responsabilidade.

Por que o PT há de sobreviver, apesar dessa derrota pontual e do cerco midiático, político e social?

Porque o PT tem uma característica específica, praticamente único no sistema partidário brasileiro, que o pesquisador Pedro Ribeiro (2008) em sua tese de doutorado classifica como “partido anfíbio”, ou seja, um partido que disputa eleições, fortemente institucionalizado nas últimas duas décadas, mas ainda mantém vínculos sociais importantes e traços de partido de massa, ou seja, além das instituições.

Esse aspecto é praticamente imperceptível pelos adversários e inclusive pelo próprio PT. Por isso, em momento como um segundo turno eleitoral, quando se coloca em jogo dois projetos antagônicos muitas mulheres e homens, que não estão engajados na política e sequer mantém filiação com o PT ou outro partido de esquerda, se mobilizam e se posicionam no campo político de esquerda, em defesa da justiça social, da democracia, dos direitos humanos e do meio ambiente.

Diferentemente da onda anti-tudo que venceu essas eleições, trata-se de uma base social silenciosa mas consolidada que se mobilizou no segundo turno de 2014, se repetiu nas manifestações contra o golpe em 2015 e 2016, voltou a se mobilizar em torno do “ele não” em 2018 e que também não se sente representada ou disposta à militância partidária de alta intensidade.

Infelizmente, as grandes mudanças políticas não se dão para melhor, ou seja, teremos grandes desafios pela frente, temos que pensar no futuro, como afirmou Haddad no discurso de hoje (28/10/2018) após declarado o resultado das eleições.

As dúvidas são muitas, mas algumas lições precisam ser compreendidas: a vida não se resume às eleições.

“Recosturar” um projeto de nação (HADDAD, 2018), não será tarefa de um único partido e sim de uma frente ampla de esquerda, que hoje conseguiu mobilizar quase metade dos votos do Brasil.

“Retecer” a confiança num projeto de futuro, que vai além das instituições, além do sistema, fortalecendo especialmente o aspecto social, de massa, na luta política, ou seja, o pulmão anfíbio que permitiu ao PT respirar em águas turvas no momento atual, poderá transformar-se em resiliência de uma frente ampla em defesa da justiça social, da democracia, dos direitos humanos e do meio ambiente.

Por José Roberto Paludo, doutor em Sociologia Política (UFSC), tese: “Participação de alta intensidade e militantismo dos filiados de base do PT no Brasil” (2017). Paludo é o meu companheiro e importante liderança da corrente interna que participo no PT.

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