Argumentos científicos sobre a ocorrência de um tsunami meteorológico na Ilha de Santa Catarina em 2009

Tsunami meteorológico

Documento final do 4º Seminário e Workshop em Engenharia Oceânica, FURG, Rio Grande/RS, realizado em novembro/2010

RESUMO

O presente artigo apresenta argumentos para explicar a “misteriosa” onda ocorrida no dia 19/11/2009 nas praias do Pântano do Sul e Armação, na Ilha de Santa Catarina/SC, como um Tsunami Meteorológico, similar ao ocorrido na praia do Cassino, RS em 1977 [2]. Aponta-se também similaridades entre o evento de SC e um outro ocorrido na praia de Daytona na Florida, EUA in 1992 [3]. Vídeos feitos durante e após o evento juntamente com observações de campo realizadas no local, indicam que a altura da onda pode ter atingido 3m na Praia do Pântano do Sul. Dados meteorológicos preliminares suportam a hipótese de que a onda tenha sido gerada por uma linha de instabilidade atmosférica que deslocou-se sobre a plataforma continental em condições de ressonância com uma onda longa ao longo da isóbata de 23m. São discutidos alguns mecanismos que, em tese, poderiam explicar a amplificação da onda nas praias acima mencionadas.

1. INTRODUÇÃO

As praias do Pântano do Sul e Armação, no sul da ilha de Santa Catarina em Florianópolis, foram palco de um inusitado evento no dia 19 de Novembro de 2009 (ver figura 1 para localização das praias). Segundo relatos de testemunhas, ao longo do dia o mar encontrava-se tranqüilo e as condições meteorológicas estáveis. Entretanto, no final da tarde, houve uma mudança brusca no tempo com a chegada repentina de nuvens pesadas acompanhadas de forte vendaval. Moradores e banhistas que se encontravam na praia do Pântano do Sul (figura 2) relatam que durante a passagem desse sistema meteorológico, surgiu um grande “vagalhão” que invadiu a praia, arrastando barcos de pesca que se encontravam ancorados próximos a costa, arrastando carros estacionados na praia e inundando restaurantes próximos ao mar.

O mesmo comportamento foi observado também na vizinha praia da Armação (figura 3). Segundo relatos, a onda veio de sul e atingiu o flanco sul da praia, vinda da praia do Matadeiro. A onda passou por cima do pequeno molhe e da passarela que liga a praia a Ponta das Campanhas seguindo em direção à costa. O efeito de inundação nessa praia foi menos danoso que no Pântano do Sul em vista da existência de um muro de proteção que lá existe porém deixou moradores e banhistas bastante assustados.

O fenômeno descrito acima assemelha-se muito ao misterioso “vagalhão” ocorrido na praia do Cassino no RS analisado por Melo et al [2] na primeira edição do SEMENGO. De fato, a praia do Cassino foi palco de uma onda com características similares no ano de 1977, igualmente acompanhada pela passagem de uma linha de instabilidade atmosférica e que foi explicado por esses autores como sendo um Tsunami Meteorológico: uma onda com características similares às de um tsunami “tradicional” (i.e. de origem sísmica), porém causada por forçantes meteorológicas. Conforme discutido no presente artigo, as evidências indicam que o fenômeno em Santa Catarina também tenha sido um Tsunami Meteorológico.

Diferentemente do evento da praia gaúcha que não teve qualquer documentação, o “vagalhão” de Santa Catarina foi filmado por um turista tendo sido o vídeo publicado na internet e obtido destaque no noticiário nacional da TV. Apesar de ser um vídeo amador, as imagens capturadas foram úteis para visualizar algumas características do fenômeno que no caso do episódio da praia do Cassino foram apenas conjecturadas.

Ressalta-se também que o primeiro autor tomou conhecimento recentemente de um artigo [3] sobre um evento similar ocorrido nos EUA em 1992 o qual apresenta uma explicação alternativa para o mecanismo de geração da onda mais simples do que aquele proposto na ref [2] para a praia do Cassino e que parece mais adequado para o caso de Santa Catarina.

O presente artigo, portanto, dá prosseguimento ao trabalho apresentado no SEMENGO de 2004 [2] sobre o mesmo tema, descrevendo o evento catarinense, apontando as similaridades com o caso ocorrido nos EUA e apresentando um mecanismo de resposta das águas costeiras à forçante atmosférica diferente daquele proposto anteriormente.

2. DESCRIÇÃO DO FENÔMENO

O vídeo que documentou o evento no Pântano do Sul foi feito de um ponto elevado, no costão que flanqueia a praia e, portanto, mostra a cena de um bom ângulo de visada. Observa-se que esse canto da praia do Pântano do Sul é bem abrigado das ondas graças à proteção natural que o grande maciço rochoso ali existente promove. O vídeo tem uma duração de cerca de 2 minutos. As imagens mostram uma onda de período longo atingindo a costa, entrando terra adentro e causando uma pequena inundação. Barcos de pesca que estavam ancorados próximos à praia e automóveis que encontravam-se estacionados na areia são arrastados pela onda e dois restaurantes construídos bem ao final da faixa de areia se vêem rapidamente circundados pela água. Guardadas as devidas proporções, as imagens lembram nitidamente cenas do famoso tsunami de Sumatra, confirmando que o fenômeno em questão teve características de um (pequeno) tsunami.

Lamentavelmente, não existiam (nem existem) estações maregráficas instaladas na área, portanto, do ponto de vista oceanográfico, o tsunami não foi capturado por nenhum instrumento. Em vista disso, os autores tiveram de recorrer a formas alternativas para avaliar a altura que a onda atingiu ao chegar a praia. Uma estimativa direta baseada no vídeo do momento do evento se mostrou imprecisa pela qualidade (precária) das imagens. Porém, entrevistas posteriores feitas por um dos autores (A.D.S.) com moradores locais, juntamente com uma inspeção visual de sinais e marcas (nas paredes dos restaurantes, por exemplo) que possibilitassem inferir o nível
máximo das águas e, ainda, a análise de cenas de um vídeo feito logo após o evento permitiram estimar com razoável precisão a altura da onda quando esta atingiu a praia do Pântano do Sul.

A figura 4 ilustra o resultado dessa estimativa. A figura contém um perfil médio da Praia do Pântano do Sul obtido de uma série de levantamentos topográficos realizados por um dos autores (U.R.O.). O estabelecimento do nível do mar na figura foi feito adicionando o nível da maré (astronômica) previsto para o porto de Florianópolis para a tarde do dia 19 / Nov (no valor de 1.0m – ref.: tábua de maré da DHN) ao nível ao qual os perfis foram referenciados. A seguir, o nível assinalado nas paredes dos restaurantes na praia foi identificado no perfil (linha pontilhada vertical), juntamente com a posição na rua de acesso a praia onde um dos barcos de pesca ficou encalhado após ser arrastado pelo tsunami (linha pontilhada inclinada na figura 4), de acordo com
imagens do vídeo supra-citado. Assim, levando em consideração o espraiamento (“run-up”) da onda na rampa da rua e possíveis imprecisões nas observações, pode-se inferir que a altura da onda na chegada à praia aproximou-se dos 3 metros em relação ao nível do mar (ver figura 4).

Do ponto de vista meteorológico, a “viração” (ventos fortes e com rajadas acompanhados de nuvens pesadas que surgem rapidamente) mencionada por testemunhas, foi monitorada pela estação meteorológica do aeroporto de Florianópolis localizado no sul da ilha de SC a cerca de 15 km da Praia do Pântano do Sul conforme mostra a figura 5.

Mesmo tratando-se de dados horários, as medições do aeroporto mostram claramente a passagem de uma perturbação atmosférica a partir das 15 h da tarde do dia 19/11/2009. Na medição das 16 h, o vento médio atingiu valores de cerca de 50 km/h (linha azul) com rajadas na 6 casa dos 80 km/h (linha magenta) e direção Sul (linha verde). O evento surgiu repentinamente e teve curta duração pois na medição das 17 h o vento já havia abrandado novamente.

Lamentavelmente, até o momento os autores ainda não conseguiram medições meteorológicas contínuas e que incluam o parâmetro pressão atmosférica o qual, conforme apontado na próxima seção, é de importância chave para o presente problema. Entretanto, é de se supor, pelo comportamento observado no vento, que a pressão atmosférica também tenha apresentado variações igualmente rápidas como ocorre usualmente durante a passagem desse tipo de sistema.

Imagens de satélite obtidas do banco de dados do CPTEC/INPE, confirmam a passagem de uma linha de instabilidade pela costa de Santa Catarina na tarde do dia 19/11/2009. A figura 6 ilustra uma dessas imagens.

Em resumo, as informações meteorológicas obtidas no aeroporto e no CPTEC mostram claramente que na tarde do dia 19/11/2009, a costa de SC foi palco da passagem de um peculiar sistema atmosférico sustentando, pelo menos do ponto de vista atmosférico, a hipótese do tsunami meteorológico.

A questão que se coloca nesse ponto é: poderia esse sistema atmosférico ter gerado uma onda no oceano com a magnitude da onda observada na costa de SC ? A resposta a essa questão é abordada a seguir pela apresentação de fenômeno similar ocorrido na praia de Daytona na Florida, EUA.

3. O CASO DA PRAIA DE DAYTONA, FLORIDA, EUA

O vídeo, os relatos de testemunhas e os aspectos meteorológicos reportados acima mostram que o fenômeno de SC teve grande similaridade com uma onda que atacou a praia de Daytona na Florida, EUA, no dia 3 / Julho / 1992, descrita por Sallenger et al [3]. Segundo reportado em [3], a onda aproximou-se da praia como uma parede de água “branca”, produzindo um ruído típico de zona de arrebentação e arrastando cerca de 20 veículos que estavam estacionados na praia resultando em múltiplas colisões. Apenas 20 pessoas sofreram ferimentos leves uma vez que a praia estava pouco movimentada. Os autores chamam a atenção que se o evento tivesse ocorrido 1 dia depois (4 de julho – feriado nacional nos EUA ) milhares de banhistas teriam corrido risco.

Curiosamente, ao contrário dos eventos de SC e do RS, as condições de tempo no local mantiveram-se calmas. Entretanto, um estudo das condições atmosféricas que antecederam o evento em Daytona mostrou que uma linha de instabilidade deslocou-se ao longo de 80 km de costa dissipando-se cerca de 10 km antes da praia de Daytona. A velocidade de deslocamento da tempestade, citada em [3], foi de 14 m/s, com ventos de 12 m/s e um pulso de pressão atmosférica de 2 mb. O evento em Daytona, portanto, resultou da onda que se formou mais a norte e se propagou até o local em questão.

Medições de anomalias do nível do mar obtidas por [3] num píer na praia de St. Augustine (a norte de Daytona) mostraram que a passagem do pulso de pressão foi acompanhada quase que simultaneamente por uma sobre-elevação de nível de 25 a 35 cm. Levantamentos indiretos feitos posteriormente indicaram que a água do mar na praia de Daytona chegou a atingir níveis até 2.5 m acima do nível do mar. Sallenger et al [3] chamam a atenção para a necessidade de se considerar o espraiamento da onda (“run-up”), antes de se inferir a altura da onda nesse tipo de observação. De qualquer forma, parece claro que a onda em Daytona foi maior do que os 25 a 35 cm medidos mais a norte. A amplificação de altura observada nessa praia é atribuída por [3] a efeitos de refração da onda ao longo da sua propagação. A refração, calculada em [3] por meio de modelo numérico indicou que a onda em Daytona atingiria uma altura máxima de cerca de 1 m.

4. O TSUNAMI METEOROLÓGICO DE SC EXPLICADO COMO UMA ONDA DE ÁGUAS RASAS GERADA POR UMA LINHA DE INSTABILIDADE (“SQUALLLINE SURGE”)

As medições da velocidade de deslocamento da linha de estabilidade feitas na Florida (14 m/s) sugerem que Melo et al [2] podem ter estimado razoavelmente bem a ordem de grandeza da velocidade de avanço desse fenômeno no evento da praia do Cassino (10 m/s). No caso do Cassino, entretanto, Melo e colaboradores [2], admitindo uma declividade uniforme da plataforma interna, consideraram a hipótese da onda excitada no mar ter assumido a forma de uma onda de borda (“edge wave”) em lugar de uma simples onda longa como fizeram Sallenger  et al [3]. Essa hipótese talvez seja razoável para a praia gaúcha que se prolonga para S sem qualquer obstáculo. Contudo no caso de Santa Catarina, as praias afetadas, além de situarem-se numa ilha, são praias de enseadas e, portanto, confinadas entre costões rochosos. Assim, no caso catarinense, faz-se necessário analisar um outro mecanismo conforme discutido nessa seção.

Inspirados pelo exemplo da praia de Daytona, vamos admitir que a linha de instabilidade tenha se deslocado sobre o mar ao longo de uma faixa de profundidade aproximadamente constante. A teoria de ondas longas forçadas por um pulso móvel de pressão que se desloca com velocidade U está apresentada no livro de Dean & Dalrymple [1] (seção 5.10) e pode ser sintetizada pela expressão:

Onde, η = altura da onda , h = profundidade , po = pressão (correspondente ao pulso móvel de pressão), ρ = densidade da água e g = gravidade

Para um caso estático (U = 0), a expressão simplifica-se para: que é a conhecida pressão hidrostática.

Entretanto, para casos em que a velocidade de deslocamento do pulso se aproxima da
velocidade de propagação de uma onda longa livre, isto é, há uma amplificação da resposta [ eq.(1) ] a qual, nessa solução simplificada, torna-se infinita pela ausência de dissipação. Esse, na verdade, é um exemplo claro do mecanismo de ressonância mencionado em [3] e que seria responsável pela amplificação da onda.

Voltando a atenção novamente ao fenômeno de SC, fica claro que o ingrediente fundamental da ressonância entre a forçante atmosférica e a resposta do oceano requer que a linha de instabilidade em SC tenha se deslocado sobre o mar numa direção aproximadamente paralela a costa (dir. Sul) e que tenha atuado por um período de tempo suficientemente longo para que uma quantidade de energia “razoável” pudesse ser transferida para a onda.

No intuito de elucidar essa questão, uma sequência de imagens de satélite similares a da figura 5 foi cuidadosamente analisada de modo a avaliar a direção e a velocidade de deslocamento da linha de instabilidade. O resultado dessa análise está mostrado na figura 7.

Analisando a figura, observa-se que a direção de deslocamento da linha de instabilidade é bem aproximadamente paralela à costa como esperado (vinda de S). A distância total percorrida pela linha de instabilidade sobre o mar não pode ser deduzida da figura pois não há informação anterior às 16:00 h. Porém, admitindo que, antes das 16 :00 h, ela já vinha avançando de modo similar ao que ocorreu depois, pode-se estimar que a distância percorrida sobre mar deve ter sido da mesma ordem de grandeza (i.e. muitas dezenas de km) daquela observada em Daytona (que foi de 80 km).

Finalmente, uma análise das posições sucessivas da linha de instabilidade permitiu estimar sua velocidade de avanço. De fato, medindo-se a distância entre a posição as 16:00 h (linha magenta) e a posição as 16:45 h (linha preta) chega-se a um valor de cerca de 40 km. A estimativa da velocidade de avanço, portanto, seria: Uma velocidade bem similar àquela encontrada na Florida.

Considerando a velocidade de 15 m/s como sendo a velocidade ( C ) que a onda no mar teria de ter para entrar em ressonância com a linha de instabilidade, pode-se, através da equação (3), obter-se a faixa de profundidade na qual a onda teria sido gerada: Com isso, todos os ingredientes necessários para a geração da onda por ressonância parecem ter sido atendidos nesse caso: a linha de instabilidade deslocou-se sobre o mar com velocidade de 15 m/s numa direção aproximadamente paralela à costa (vinda de Sul) atuando sobre a batimétrica de 23 m por um período de tempo suficientemente longo para que uma quantidade de energia “razoável” fosse transferida para a onda.

Para avançar na construção da hipótese, vamos admitir que, ao se aproximar da parte Sul da ilha de SC, a linha de instabilidade tenha diminuído de intensidade, se desviado, ou mesmo estacionado, “libertando” a onda de forma que esta pudesse propagar-se como uma onda livre. Uma observação minuciosa da figura 7, na verdade, sustenta essa hipótese pois a partir de 16:45h a linha de instabilidade parece ter estacionado(ver linha amarela) e, a seguir, mudado de rumoem direção ao mar.

A onda agora estando “livre” para propagar-se, teria sua direção guiada pela batimetria local pelo efeito da refração. Finalmente, se admitirmos que esse processo de refração dirigisse a energia da onda para a região das praias do Pântano do Sul e da Armação estaria aí montado o cenário que explicaria o evento observado. (A refração dessa onda será alvo de futura investigação).

No caso da praia do Pântano do Sul, é possível que o maciço rochoso tenha ainda contribuído para amplificar mais a onda refletindo-a parcialmente e servindo de “guia” para a mesma. Essa hipótese explicaria, talvez, porque a onda nessa praia foi maior do que na vizinha Armação (cujo costão está do lado oposto).

5. CONCLUSÃO

A “misteriosa” onda ocorrida nas praias do sul da Ilha de Santa Catarina no dia 19/11/2009 foi estudada no presente artigo. Vídeos e observações feitas no local após a passagem da onda permitiram estimar a altura da mesma na praia do Pântano do Sul em cerca de 3 metros. Fazendo uso de medições no aeroporto de Florianópolis e de imagens de satélite, os autores conseguiram documentar de forma simples a passagem de uma linha de instabilidade pela costa de SC e a partir daí montar um cenário que explica o fenômeno como um tsunami meteorológico gerado por uma iteração ressonante entre o pulso móvel de pressão associado à linha de instabilidade e uma onda longa na plataforma continental.

O presente trabalho representa um passo adiante no entendimento desse tipo raro de fenômeno que anteriormente só havia sido reportado no Brasil na praia do Cassino, RS [2].

6. REFERÊNCIAS

  1. DEAN, R.G & DALRYMPLE, R.A. Water Wave Mechanics for Engineers and Scientists. World Scientific, 356 pp, 1984.
  2. MELO Fo, E, CALLIARI, L.J.; FRANCO, D. & STRAUCH, J.C.S. Indídios da Ocorrência de um Tsunami Meteorlógico na Praia do Cassino, RS. 1º Seminário e Workshop em Engenharia Oceânica, FURG, Rio Grande, pp-11 (publicado em CD).
  3. SALLENGER, A.H.; JEFFREY H.L; GELFENBAUM, G ; STUMPF, R.P. & HANSEN, M. Large Wave at Daytona Beach, Florida, Explained as a Squall-Line Surge. Journal of Coastal Research (Technical Communication) Vol.11, no.4, 1995.

Fonte

Praia do Pântano do Sul em Florianópolis

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Teologia da Libertação e volta ao fundamento

Teologia da Libertação

Síntese do texto

Quer-se mostrar aqui que a Teologia da Libertação partiu bem, mas, devido à sua ambiguidade epistemológica, acabou se desencaminhando: colocou os pobres em lugar de Cristo. Dessa inversão de fundo resultou um segundo equívoco: instrumentalização da fé “para” a libertação. Erros fatais, por comprometerem os bons frutos desta oportuna teologia. Numa segunda parte, expõe-se a lógica da Conferência de Aparecida, que ajuda aquela teologia a “voltar ao fundamento”: arrancar de Cristo e, a partir daí, resgatar os pobres.

Queremos aqui, numa primeira parte, fazer um questionamento de fundo da Teologia da Libertação (=TdL). A intenção não é desqualificar a TdL, mas, antes, defini-la de modo mais claro e refundá-la sobre bases originárias. Só assim se podem garantir seus ganhos inegáveis e seu futuro.

Apresentaremos, num segundo momento, a lógica que o Documento de Aparecida pôs em operação. Entendemos mostrar por aí como a TdL pode ser reconduzida aos seus fundamentos, ser incorporada num horizonte mais amplo e, assim, assegurar o que ela tem de melhor.

Reconhecemos que a análise que faremos da TdL é um tanto trabalhosa e sinuosa, enquanto a de Aparecida é mais fluente e linear. De todos os modos, andaremos aqui a grandes passadas, sem podermos explicar tudo e nem nos determos em detalhes.

I – TdL E SUA FUNESTA AMBIGUIDADE

A questão: ambiguidade epistemológica acerca do fundamento

Falando em TdL, não visamos aqui a TdL ideal, tal como foi projetada e proposta por seus founding Fathers, sobretudo por Gustavo Gutiérrez. Falamos mais precisamente da TdL “realmente existente”, a que tem atrás de si quase quarenta anos de caminhada e cuja evolução já deixa ver traços exigindo crítica e retificação.

Ora, a atual TdL, prática e mesmo confessadamente, confere primazia (prioridade ou centralidade) ao pobre e à sua libertação. A “opção pelos pobres” seria seu eixo ou centro epistemológico. Diz-se também que o pobre ou a realidade do pobre é o “ponto de partida” dessa teologia. Esta adota a “ótica do pobre”. Tudo isso é sabido e é, aliás, o que caracteriza essa teologia.

A prioridade do pobre e de sua libertação se tornou na TdL um pressuposto quase que “evidente por si mesmo”. Aí está posto sem problemas. Contudo, está posto de modo teoricamente indeciso e confuso, permitindo ambigüidades, equívocos e reduções.

Sem nenhuma dúvida, na TdL, a “opção pelos pobres”, como tema fundamental, está fundada teologicamente (na Bíblia e na Tradição). Contudo, como princípio epistemológico particular, conferindo uma perspectiva determinada, permanece largamente impensada e não discutida nos meios “liberacionistas”. Está aí posta sem advertência epistemológica, gerando confusão tanto na teoria como na prática.

Neste ponto, a própria linguagem “liberacionista” é sem rigor. Jon Sobrino, por exemplo, fala dos pobres como a instância que dá a “direção fundamental” à fé e como sendo seu “lugar mais decisivo”. Com toda a evidência, estes dois qualificativos “fundamental” e “decisivo” são jogados aí de modo descuidado. Pois não cabem, em absoluto, aos pobres, mas sim à “fé apostólica transmitida pela Igreja”, como lembra, de modo pertinente, a “notificação” romana, questionando certos pontos da cristologia do referido teólogo (n. 2). Pode-se, no máximo, adivinhar e talvez justificar o que quer dizer Sobrino com aquelas expressões.

Agora, quando se questiona o pobre como princípio e se pergunta se não é antes o Deus de Jesus Cristo, a TdL costuma recuar e não nega. E nem poderia, pois Deus está em primeiro lugar, por definição. Razão e fé aqui se unem para afirma-lo. É, aliás, em teologia, o “óbvio ululante”, que paradoxalmente se torna uma “evidência ofuscante”. Não é que a TdL afirme “de pés juntos” a primazia epistemológica dos pobres e de sua libertação. Também não rejeita explicitamente a primazia de Deus e da fé. O que faz problema na TdL é sua indefinição sobre uma questão que é capital na esfera do método.

Se por “estatuto epistemológico” se entende o assento firme e o quadro seguro que conferem a uma disciplina científica a ordem de seu discurso (o étimo “st” de estatuo e de epistemologia o indica), devemos dizer que justamente isso parece faltar hoje à TdL.

E é de se temer que o uso, nesta teologia, da linguagem analógica (libertação: social e espiritual; pobre: econômico e existencial; Reino: de justiça e de graça etc.), em vez de resolver, complique ainda mais a falta de definição teórica, pelo fato de favorecer o caráter resvaladiço do discurso, permitindo que o teólogo, acossado num plano semântico, escorregue de modo sub-reptício para o outro. Aqui, a analogia, de indispensável instrumento de articulação teológica, torna-se o “subterfúgio da indecisão”.

Podemos, pois, dizer que a TdL vive o seguinte “drama teórico”: o que é decisivo permanece nela indeciso. Daí sua falta de consistência epistemológica. Mas sem consistência epistemológica, como pode uma teologia ser teoricamente consistente? E sem uma teologia consistente, como pode ser consistente a pastoral que nela se apóia?

Ora, numa situação de indefinição, a tendência é “para baixo”, e isso por razões que não é o caso aqui de discutir, mas que as narinas de qualquer teólogo podem perceber. Assim, em contexto de hesitação epistemológica, entre Deus e o pobre, o pobre leva vantagem. Entre salvação e libertação, esta é favorecida. Assim, com a cumplicidade do nevoeiro epistemológico em que mergulhou, a TdL introduziu furtivamente o prius teológico do pobre.

Em resumo:

Por falta de uma epistemologia rigorosa e clara, a TdL labora em ambiguidades; laborando em ambiguidades, cai no erro de princípio. E do erro de princípio só podem provir efeitos funestos, como veremos em breve

É um fato que a TdL é toda feita na “ótica dos pobres”. Ela assim o diz e assim o quer, e é também assim que praticamente o faz. É só analisar sua produção mais recente, onde o viés epistemológico “liberacionista” é mais evidente. A própria “pastoral da libertação”, levada adiante especialmente nas “pastorais sociais” e nas CEBs, é toda centrada nos pobres. É só assistir aos encontros dos agentes e militantes da libertação, para perceber como o bordão “pobres” domina o discurso. E o que ontem era viés virou hoje vezo.

Por outro lado, que seja a fé no Deus revelado o princípio primeiro da teologia, isso é aceito sem maiores problemas na TdL. Mas esse princípio não opera aí para valer. Representa apenas um dado pressuposto, que ficou para trás, e não um princípio operante, que continua sempre ativo. É um artigo de fé confessado, mas não uma perspectiva teórica que dá a cor dominante a todo o discurso libertador. Que dê alguma cor a esse discurso, é inevitável, já que se trata de teologia, mas é uma cor desbotada, para não dizer simples matiz.

Ora, é este o nó do problema. Pois o primado da fé, como não pode ser dado por descontado do ponto de vista existencial, também não pode sê-lo do ponto de vista epistemológico. O princípio-fé há de se manter sempre ativo, e isso não só na prática da vida, mas também na teoria teológica. Ora, sempre que esse princípio se manteve vivo, na forma de sensus fidei, ele imunizou os bons teólogos da libertação dos erros mais graves, como são os relativos ao princípio reitor da teologia.

A inversão e a consequente instrumentalização

Que acontece então na prática teórica da TdL? Acontece uma “inversão” de primado epistemológico. Não é mais Deus, mas o pobre, o primeiro princípio operativo da teologia. Mas, uma inversão dessas é um erro de prioridade; por outras, é um erro de princípio e, por isso, de perspectiva. E isso é grave, para não dizer fatal.

Que o pobre seja um princípio da teologia ou uma perspectiva (ótica ou enfoque), é possível, legítimo e mesmo oportuno. Mas apenas como princípio segundo, como prioridade relativa. Se assim é, a teologia que arranca daí, como é a TdL, só pode ser um “discurso de segunda ordem”, que supõe em sua base uma “teologia primeira”.

Contudo, não parece que a TdL tenha essa consciência, pois se pensa, para todos os efeitos, como uma teologia inteira à parte, substituindo ou dispensando a “teologia primeira” e fundindo ou, melhor, confundindo o nível “transcendental” com o “categorial”. Em sua prática teórica, continua a pôr o “pobre” como seu princípio, centro e fim. E ainda que não o faça com plena consciência e consentimento epistemológico, o resultado, na prática, é o mesmo, e isso, como dissemos, por causa da ambiguidade com que esta questão essencial é aí tratada.

Ora, quando o pobre adquire o estatuto de primum epistemológico, o que acontece com a fé e sua doutrina no nível da teologia e também da pastoral? Acontece a instrumentalização da fé em função do pobre. Cai-se no utilitarismo ou funcionalismo em relação à Palavra de Deus e à teologia em geral.

Que a fé seja útil, isso é certo, mas essa não é sua parte maior nem a mais importante. Uma fé usada principalmente de modo instrumental, sofre fatalmente uma capitis diminutio: é submetida a uma seleção e a uma interpretação de acordo com o que interessa à “ótica do pobre”. Sem dúvida, a fé preenche plenamente também esta ótica, mas também dela transborda por todos os lados, infinitamente.

Contra as críticas de que estaria usando “olheiras ideológicas”, a TdL apela para idéias como “margens de gratuidade” e “reserva escatológica” para afirmar seu respeito à transcendência da fé. Na verdade, a parte da transcendência é, nesta teologia, a parte menor e menos relevante, a “parte de leão” cabendo, como sempre, à “leitura libertadora” da fé.

O resultado inevitável é a redução da fé e, em especial, sua politização. Fala‐se aqui também, criticamente, da transformação da fé em ideologia. Isso procede toda a vez que se dá à ideologia o sentido preciso que lhe dá o Magistério: o de uma fé que decai de seu nível transcendente para a imanência da política.

Gravidade da questão e gravidade dos equívocos

Este é, pois, o ponto fraco da TdL: a falta de clareza quanto ao alcance epistemológico da opção pelos pobres. Esta é clara como tema, mas não como princípio de constituição e construção teológicas. Ora, a falta de clareza sobre o princípio leva necessariamente à falta de clareza sobre o caráter teológico do discurso. Daí a indefinição do atual discurso da TdL, balançando entre um discurso religioso e um discurso social e político.

Nada manifesta melhor a ambigüidade e confusão em que labora neste ponto a TdL do que a polêmica que levanta toda a vez que se trata do “ponto de partida” da teologia e da pastoral. Para a TdL é líquido e certo: o ponto de partida tem que ser a “realidade dos pobres”. Mas não vê que está aí confundindo dois sentidos de “ponto de partida”: como mero começo (material, temático, cronológico ou ainda prático) e como princípio (formal, hermenêutico, epistemológico ou ainda teórico). Ora, “pobre” pode ser “ponto de partida” como “começo” (começo de conversa), mas não como “princípio” (critério determinante).

Por certo, “pobre” pode ser também um princípio, fornecendo o que se chama de “ótica dos pobres”. Mas, mesmo aí, trata‐se apenas de um princípio segundo e regido, e nunca do princípio primeiro e regente, como dissemos acima. Ora, a TdL, nesta discussão, cai nesse qüiproquó, investindo inconscientemente seu ponto de partida, o pobre, com a dignidade de princípio primeiro ou fundamental. Daí o equívoco subseqüente de se tomar por uma teologia subsistente por si.

Mas, fazendo assim – e aqui o repetimos – a TdL mostra que ignora o seu estatuto próprio: o de ser precisamente uma “teologia de segunda ordem”, que pressupõe teoricamente uma “teologia de primeira ordem”, como a espécie pressupõe o gênero. Ela não se dá conta de que para ser um bom teólogo da libertação não basta ser apenas teólogo da libertação: precisa ser antes ainda, e principalmente, “teólogo da fé” (com o perdão do pleonasmo).

Portanto, por falta de rigor, clareza e vigilância epistemológica, a TdL se põe num plano inclinado, escorregando sempre mais e caindo na falha mortal apontada: o viés à inversão do princípio e a conseqüente instrumentalização social, política e ideológica dos conteúdos da fé. Digamos falha “mortal” porque, levada a termo, termina pela morte da TdL, o que seria uma imensa perda para os pobres e para a Igreja.

Como se vê, estamos aqui diante de uma “questão de princípio”. Ora, uma questão de princípio é, por definição, uma questão grave, cujas conseqüências podem ser fatais. E numa questão grave não é admissível uma posição problemática, nebulosa e equívoca. Uma questão de fundamento é uma questão fundamental. Se o fundamento é mal posto, todo o edifício é comprometido. Desse jeito, como pode uma teologia ir para frente sem esbarrar continuamente em aporias?

Gravidade das consequências

Se grave é, pois, a questão e graves seus equívocos, graves são também seus resultados. Pois o princípio informa todo um discurso. Quando se começa uma caminhada na direção errada, quanto mais se avança, mais se distancia do destino. E assim também os frutos da TdL, que são reconhecidamente notáveis, acabam “pegando broca” e com o tempo se deteriorando.

O resultado geral da inversão prática de princípio (de Deus para o pobre) é enfraquecer e mesmo esvaziar a identidade cristã, e isso em vários planos:

  1. No plano teológico. A teologia vai perdendo seu caráter próprio, para adotar um tom mais sociológico e político, agora de tipo religioso‐pastoral. Perde também fecundidade teórica, suas produções reduzindo‐se cada vez mais a serem meras “variações sobre o mesmo tema”. Pior, as grandes intuições da TdL viram chavões repetidos ad nauseam, sobretudo na “vulgata militante” da TdL.
  2. No plano eclesial. A “pastoral da libertação” se torna um braço a mais do “movimento popular”. A Igreja se “onguiza”. Então se esvazia mesmo fisicamente: perde agentes, militantes e fiéis. Os “de fora”, à exclusão dos militantes, sentem escassa atração por uma “igreja de libertação”. Pois, para o compromisso, dispõem das ongs, mas para a experiência religiosa precisam mais que de simples libertação social. Ademais, por não perceber a extensão e relevância social da atual inquietação espiritual, a TdL se mostra culturalmente míope e historicamente anacrônica, ou seja “alienada” de seu tempo.
  3. No plano da própria fé. Reduzida a ideologia mobilizadora, a fé vai perdendo cada vez mais substância, até se esvaziar totalmente. O que sobra é uma “hermenêutica cristã da existência humana”, tal como se exprime de modo modelar na vulgata teológica chamada “rahnerismo”, que subjaz à TdL e que aqui não é possível discutir. Em suma, a substância da fé acaba em mero discurso, portanto, em qualquer coisa de irrelevante. Pois, como se ouve nos meios “liberacionistas”, o que importa não é tanto a Igreja ou Cristo, quanto o Reino.

A “prova dos frutos” mostra que a TdL necessita de uma oportuna pulverização crítico-epistemológica e, mais ainda, de adubar suas raízes.

Por que a inversão de base da TdL: o choque do contato com a pobreza

Precisamos a esta altura compreender, sem necessariamente aprovar, as razões que levaram a TdL a se concentrar de fato no pobre, deixando na sombra o Fundamentum. Aqui seremos sintéticos ao extremo.

A explicação mais imediata é a mencionada: o descaso epistemológico e a inversão de princípio que ele tacitamente autorizou. Daí que o pobre e sua libertação tomaram o lugar primacial de Deus e de sua salvação (sem falar ainda da inversão existencial que subjaz à epistemológica e que tem a ver com o primado de Cris‐to na própria vida).

Falando agora de modo mais geral, pode‐se encontrar por trás dessa inversão um dado histórico-existencial, sobre o qual a TdL insiste com razão ao se referir à “experiência de Deus no pobre”: é o drama social da América Latina, feito de pobreza, opressão, exclusão.

A “irrupção do pobre” na Igreja abalou de tal modo a teologia que esta balançou realmente em seus próprios fundamentos. Ocorreu então um caso de hísteron próteron epistemológico: o depois veio antes. Não precisava ser assim (de jure), mas foi assim (de facto). A fé aí não pareceu bastante forte para manter ou então recuperar a pole position. Daí que o princípio in se cedeu diante do princípio secundum quid. O “regime das excelências”, onde Deus detém a primazia, foi atropelado pelo “regime das urgências”, vindo o pobre em primeiro lugar.

Deste modo, o “urgentismo histórico” levou a investir o quanto pode, do conteúdo da fé, no que foi tido como o opus maius: a libertação histórica dos oprimidos. Daí também a tentação de “qualqueirismo epistemológico” à la Feyerabend: anything goes em teologia, desde que os pobres tirem disso vantagem.

Mas, como o Magistério não cansa de lembrar, esse imediatismo, com todo o seu pathos, redunda, a médio ou longo prazo, em outras formas de pobreza e opressão. De fato, a história dá sobejos exemplos de que a inconsistência veritativa se paga com a inconsistência sociopolítica. Só a verdade liberta verdadeiramente (cf. Jo 8,32.36). Para se obter realmente a libertação é preciso mais que apenas a libertação: é preciso – digamo-lo sem medo – Salvação! Somente a Transcendência redime a imanência.

Cedimento ao espírito da Modernidade

Existe, contudo, uma razão mais ampla para explicar a concentração da TdL na questão da pobreza e de sua superação. É o tributo que ela pagou, de modo, aliás, bastante ingênuo, à decantada Modernidade e à sua glorificada “revolução copernicana”. De fato, a Modernidade pôs o homem no centro, em lugar de Deus. É a virada antropocêntrica: o homem, com sua razão, liberdade e poder, como o novo axis mundi.

Deixemos aqui de lado a tendência fática do homem pós-lapsário (e que não é só do homem moderno) para essa inversão e também as tentativas teóricas para justifica-la, como a dos Sofistas com seu lema “o homem, medida de tudo”, refutados por Platão, bem como a do estóico Varrão e sua “teologia política”, esse, contradito por Santo Agostinho. À diferença dessas tentativas, a da Modernidade reveste um caráter macroscópico, vale dizer, civilizacional.

O fato é que a teologia cristã também cedeu à deriva antropocêntrica do espírito moderno, e o fez sem clara consciência de seu preço para a fé. No Protestantismo isso se deu com Schleiermacher e a “teologia liberal”, controbatido por Barth com sua “teologia dialética” (mas que não foi bastante “dialética” a ponto de incorporar os legítimos desafios antropológicos levantados pela modernidade).

No Catolicismo, a “modernização” teológica veio, primeiro, com o movimento “modernista”, reprimido com a Pascendi de Pio X, e depois, sob o nome de “virada antropológica”, com Rahner e sua “teologia transcendental”, que teve seus êxitos, mas frente à qual grandes teólogos, como De Lubac, Von Balthasar e Ratzinger, mantiveram uma distância suspeitosa (sem contudo proceder a uma crítica cerrada). Foi assim que a teologia se “modernizou”, antropologizando-se: o homem como o sol, e Deus, seu satélite. Omnia ad maiorem hominis gloriam, etiam Deus.

Acrescentemos que essa antropologização modernizante teve, como seus grandes precursores, Lutero com seu soteriologismo (Deus-para-mim) e Kant com seu moralismo (Deus = postulado da ordem moral). Mas foi Feuerbach quem levou esse processo até às últimas conseqüências quando anunciou o primeiro princípio da “Filosofia do futuro”: “Os tempos modernos têm por tarefa… a transformação e a resolução da teologia em antropologia”. Eis aonde chega uma teologia que, na necessária dança com a modernidade, em vez de levar o parceiro, se deixa levar por ele.

Nesse contexto é compreensível que também a TdL tenha embocado a rota antropocentrizante do espírito moderno. Só que para ela o centro não era mais simplesmente o homem, mas o homem pobre. O seu era o antropocentrismo “da libertação”. Contudo, nela, também o novo centro temático e perspético ameaçava suplantar o antigo e perene Centro da fé, de maneira que, aqui, o lema da modernidade ressoaria assim: omnia ad maiorem pauperis gloriam, etiam Deus.

Da inversão antropocêntrica, seguiu-se a instrumentalização geral a que a Modernidade submeteu todos os valores. Nisso estão de acordo Weber e os pensadores da Escola de Frankfurt, com sua idéia de “pensamento instrumental”, assim como Heidegger com sua teoria do Gestell (instalação, dispositivo). De tal intrumentalização não escapou sequer a religião. No plano econômico, é por demais conhecida a manipulação que ela sofreu nas mãos do Capitalismo, o rebento mais robusto da Modernidade. Agora, no plano sociopolítico, a religião se torna mero instrumentum regni, como é claro em Hobbes e Rousseau. Já o swingliano Erasto será o primeiro teólogo a legitimar a submissão da religião ao poder de Estado.

Quanto à TdL, não se viu livre da tentação de politizar a fé, na medida em que encorajou os cristãos para a luta social sob a insígnia, de sabor maurrasiano, libération d’abord. Aqui o Cristianismo é tomado como instrumentum regni dos pobres, mas nem por isso deixa de ser usado instrumentalmente. Nessa ótica, a fé é vista, antes de mais nada, como função da libertação dos pobres.

A história mostra que, caminho andando, a religião politizada foi-se dissolvendo na própria política, de tal modo que esta absorveu a substância daquela, tornando-se ela mesma religião: Ersatzreligion. Os totalitarismos não passam da expressão extrema da “secularização da religião”, ou seja, de sua radical antropologização política, como viu, entre outros, K. Löwith. Por sua parte, C. Schmitt mostrou que a política moderna é, no fundo, religião secularizada. O Estado seria um deus visibilis, que Hobbes já representara na figura de Leviatã.

É assim mesmo: o destino fatal de quem se põe no lugar de Deus e o usa para seu benefício é tomar-se por deus. De modo análogo, uma TdL que “consome” fé cristã sobretudo para a libertação, se arrisca de “consumir” essa fé e também a si mesma. A “libertação” pode devorar a “teologia”.

O sobrenaturalismo da fé: responsável pela mundanização da fé

Mas, por que a Modernidade antropologizou e, mesmo, politizou tudo, inclusive a fé cristã? Como mostrou especialmente H. Blumenberg, isso se deu, em boa parte, em reação violenta contra o “totalitarismo teológico” da Igreja de cristandade, seja lá como esse totalitarismo tenha sido chamado: sobrenaturalismo, divinismo, augustinismo político, espiritualismo, fundamentalismo ou integrismo.

Portanto, o cristianismo histórico tem, por seu extremismo “divinista”, parte de responsabilidade no extremismo “mundanista” da Modernidade, que lhe é diametralmente oposto. Ademais, com o favor da abertura conciliar, o extremismo moderno conseguiu entrar, de forma irrompente e, mesmo, rupturista, no seio da própria na Igreja.

Por conseguinte, a “irrupção do mundo” no espaço eclesial envolveu o risco de “mundanização” da teologia, assim como a “irrupção dos pobres” o fez em relação à teologia latino-americana. Só que neste último caso o processo se deu à esquerda e o risco foi em boa parte contido sobretudo pelo vigor do sensus fidei tanto dos simples fiéis como dos pastores.

Mas, com a mudança epocal que está se abrindo, após a “tese” da Cristandade e a “antítese” da Modernidade, abre-se também para Igreja e a teologia a chance histórica de uma “síntese”: a harmonia entre fé e mundo e, em particular, entre fé cristã e política de libertação.

Fecho desta primeira parte

Encerrando esta primeira parte, queremos relembrar que o questionamento crítico feito até agora acerca dos fundamentos da TdL não entende refutar essa corrente, mas repô-la em seus fundamentos originários. Pois só assim poderá ser “salva”, “salvando” consigo os preciosos frutos que produziu, especialmente a opção preferencial pelos pobres e a fé como força de libertação.

Como se vê de imediato, esta primeira parte é apenas a pars destruens de nossa reflexão, ainda que os princípios de solução tenham sido claramente apontados. Para a pars construens, queremos recorrer a Aparecida. As razões dessa opção ficarão claras pelo que se dirá em seguida.

II – APARECIDA: A LIMPIDEZ DO PRINCÍPIO

Apreciação geral do Documento e razão de sua chamada em causa

Digamos, para começar, que Aparecida recapitula e leva à maturação toda a caminhada da nossa Igreja latino-americana e caribenha. É uma “surpresa do Espírito” (nada fazia prever este resultado magnífico), um “milagre de Nossa Senhora Aparecida” (que, a pedido do Papa, assumiu para valer a direção dos trabalhos), assim como um “dom do Pai das luzes” em favor de nossas igrejas. Esse Documento faz honra ao episcopado de nosso Continente.

Na base do sucesso do texto episcopal estão, entre outros, estes fatores: o amadurecimento da nossa Igreja latino-americana, tanto em seus pastores, como em seus teólogos e em suas comunidades eclesiais; o magistério de Bento XVI, especialmente sua mensagem na abertura da Vª Assembléia; e, sobretudo, o sopro do Espírito Santo, invocado por tantos fiéis de nossas comunidades “em união com Maria, mãe de Jesus” (At 1,14).

Mas o que nos leva a recorrer ao Documento de Aparecida, no que tange ao questionamento da TdL, é o fato de que esse texto é uma límpida demonstração de como é possível resolver a contento a vexata quaestio aqui levantada: a articulação correta entre fé e ação libertadora. Como vimos, esta relação, a TdL não a resolveu de modo satisfatório, e isso porque partiu de um princípio equívoco, para não dizer errôneo. Já Apareci‐da resolveu essa relação, articulando‐a de modo feliz, e isso justamente por ter partido do princípio claro e correto, como mostraremos em breve.

Instrutivo confronto entre Aparecida e TdL

É útil estabelecer aqui um breve confronto entre a metodologia da TdL e a de Aparecida. Podemos, de modo extremamente conciso, apresentar este confronto assim: a TdL parte do pobre e encontra Cristo; Aparecida parte do Cristo e encontra o pobre. Dizer que são metodologias reciprocamente complementares é pouco. É preciso também e principalmente ver as respectivas diferenças e a hierarquia que se impõe entre as duas.

Efetivamente, a metodologia de Aparecida é uma metodologia originária e principal, enquanto a outra só pode ser derivada e subalterna. Por isso também a primeira é mais ampla. Pois, se Bento XVI foi teologicamente certeiro quando, abrindo a V Celam, declarou: “a opção pelos pobres está implícita na fé cristológica”, então fica claro que o princípio-Cristo inclui sempre o pobre, sem que o princípio‐pobre inclua necessariamente Cristo. Por outras palavras: para ser cristão é preciso absolutamente se comprometer com o pobre: agora, para se comprometer com o pobre, não é, em absoluto, necessário ser sempre cristão.

Além disso, a metodologia de Aparecida é mais lógica: de Cristo vai-se necessariamente ao pobre, não, porém, necessariamente do pobre a Cristo. Por tudo isso, a metodologia de Aparecida pode incluir a da TdL e pode funda-la, enquanto que a recíproca não é verdadeira.

A questão decisiva: o ponto de partida formal ou fundante

Lembremos que nosso questionamento nesse trabalho gira todo inteiro em torno do principium ou do fundamentum da TdL. Ora, qualquer teologia, para se renovar e mesmo corrigir, precisa sempre “voltar à fonte”, que é o mesmo dizer: retornar a seu princípio vital, à sua raiz.

Pois bem, a fonte originária da teologia não é outra senão a fé em Cristo. É verdade: “só Jesus salva”, e “salva” inclusive, em teologia, a opção pelos pobres. Aí está o principium grande de tudo no Cristianismo, tanto na vida, como no pensamento. E desta arché, a fé em Cristo, abre-se a perspectiva verdadeira de toda teologia autenticamente cristã: ver tudo “à luz da fé”, por outras, à luz do Deus de Jesus Cristo. Aristóteles chama, às vezes, o “princípio regente” de kyrios. Ora, o kyrios da Teologia não pode ser outro senão o Kyrios da fé, da Igreja e da História. Mas, como se processa tal “senhorio epistemológico” no discurso concreto da teologia?

Ora, é precisamente nesse ponto que o Documento de Aparecida nos parece modelar. Nele, tudo parte de Cristo e, a partir dessa Arché, se recuperam todas as grandes questões que desafiam a Igreja, inclusive (e principalmente) a questão dos pobres e do compromisso libertador (e se recupera, ao mesmo tempo, a problemática atual da Sinnfrage e da busca do divino, de modo, assim, que o Documento “mata dois coelhos com uma cajadada só”).

E mesmo quando a V Conferência parte dos pobres, seguindo o método “ver, julgar e agir”, faz isso apenas materialmente (para contentamento dos TdL), pois formalmente parte sempre, antes ainda, de Cristo. Por outras palavras, a ótica dos pobres se põe essencialmente dentro de uma ótica anterior e maior, que é a da fé cristológica. Esta última não é aí apenas pressuposta, mas sustenta o discurso pastoral por inteiro, conferindo-lhe sua forma vital e mesmo linguística. É assim que o Documento sempre fala de Cristo em “um tom mais alto” de como fala dos pobres, para usar uma feliz ex‐pressão de Barth.

Em verdade, a feliz articulação que Aparecida estabeleceu entre fé e compromisso, partindo do primeiro termo, já estava dada em filigrana no próprio lema daquela Assembléia: (1) “Discípulos (2) e Missionários de Jesus Cristo, (3) para que n’Ele nossos povos tenham vida”. Os bispos só tiveram o trabalho de desenvolver em toda a sua amplitude os articuli aí postos.

Vamos analisar logo abaixo, como o episcopado latino-americano e caribenho, in actu exercito de seu discurso pastoral, se desincumbiu desta tarefa. Para tal análise, que método deveremos usar? Descartamos aqui, de entrada, como intelectualmente desonesta, uma “hermenêutica garimpeira”, que só pega o que quer pegar, perdendo o essencial do Documento.

Nosso método buscará, antes, destacar o andamento geral do Documento, ou seja, sua lógica interna, assim como os princípios que dão ao texto sua estruturação e seu dinamismo. Com o “principial”, esperamos colher o “essencial” da mensagem da Vª Conferência.

Acrescentemos que constatar “sombras” no magistério de Aparecida é um ato quase perfunctório de todo o teólogo que se quer crítico. Mas, em relação à problemática vertente, elas nos parecem tão irrelevantes que aqui as relevamos.

1. Ponto de arranco: fé como encontro com Cristo

O Documento começa bem. Começa por onde devia começar. “Começa pelo começo”: Cristo, a fé em Cristo, o Salvador, o Senhor, o Filho de Deus, o Amor do Pai manifestado ao mundo.

Explicitemos esse primeiro ponto. A fé em Cristo é aí apresentada como “experiência de encontro”. “Encontro” é a grande categoria, repetida mais de cinqüenta vezes. Ela define a essência íntima da fé cristã. Fé é encontro de pessoa a pessoa, encontro vivo com o Cristo vivo.

O Documento diz mais: diz que tal encontro é necessariamente transformador. Transforma toda a vida, em todos os seus níveis: pessoal, comunitário, social, e ambiental-ecológico.

Comentemos. O “ponto de partida” formal ou determinante do Documento de Aparecida não é a realidade, a história, ou a práxis, ou ainda o pobre e o sofredor. Mas também não é a doutrina da fé, os princípios dogmáticos. O ponto de partida é Aquele que é, nas palavras da Escritura, o próprio “Princípio”, o “Alfa” de tudo, o “Primogênito”, o “Príncipe” em absoluto.

O texto de Aparecida sublinha tão fortemente o primado da opção por Cristo que não quis se deter no lado negativo que existe realmente no mundo e mesmo na Igreja. Quis ser só a favor: a favor de Cristo, dos afastados da fé, dos pobres e de sua libertação.

A respeito da fé em Cristo, o Documento usa expressões que entendem tolher à fé o sentimento de banalidade com que vem freqüentemente envolta, devolvendo-lhe o sabor nascivo e a aura de excelência. Nessa linha, afirma que a fé é a “grande novidade” (n. 348), novidade perene, que não perde o viço; é a Boa-nova permanente da Igreja, mensagem sempre nova; é a “prioridade n° 1” da Igreja; é a grande “descoberta”, a “revelação”, o “acontecimento”, o “tesouro” e a “pérola preciosa” que a Igreja possui e que oferece ao mundo.

Está aí o princípio estruturante, e não só genético, de toda a vida da Igreja: de sua fé e de sua missão. Esse é o Fundamento de tudo. É a Fonte de água viva, jorrando permanentemente na Igreja e transbordando para o mundo. Nessa linha, o Documento declara que, em toda a vida da Igreja, se há de começar e “recomeçar de Cristo” (n. 12, 41 e 549).

Pondo Cristo no princípio do Documento, a Celam optou por uma embocadura plenamente teológica. E vazada em linguagem existencial. Que suscita simpatia e arrebata de imediato o consenso. Portanto, uma grande “jogada” de nossos Pastores, um magnífico tento, logo na entrada!

Que implicações concretas (existenciais e pastorais) têm o fato de nossa Igreja assumir ou, melhor, reassumir este “ponto de partida”?

Implica antes de tudo favorecer de todas as formas uma relação inter-pessoal, de amizade, de intimidade, de amor‐paixão pela pessoa de Cristo. É isso precisa‐mente que significa ser “discípulo”. Aqui, em verdade, somos remetidos à esfera da espiritualidade ou da mística.

Tal prioridade não vale só “para os outros”, como tendem a pensar os agentes de pastoral. Vale antes para cada cristão. A evangelização é, em primeiro lugar, auto-evangelização.

E nessa interpelação de encontrar Cristo através da oração, da Palavra, da Eucaristia, entram também os próprios Pastores (n. 177). Os bispos se auto-incluem (n. 186) e incluem também os outros pastores: os padres (n. 199), os párocos (n. 201), os seminaristas (n. 319) e os agentes de pastoral em geral (n. 352).

Impressiona e comove essa forma auto‐implicativa de falar de espiritualidade. É coisa nova e mesmo estranha num documento pastoral, que se dirige aos outros, ao povo, sem envolver normalmente os emissários.

Para operacionalizar pastoralmente esse “encontro com Cristo”, conteúdo existencial da fé, Aparecida oferece uma proposta concreta para todo o Continente (n. 277). Tal proposta, segundo o texto, deverá envolver todas as estruturas pastorais. Trata-se de um preciso “itinerário formativo (todo o cap. VI). Tal itinerário tem seu coração na mistagogia, isto é, numa primeira “iniciação à vida cristã” (n. 286-294).

O objetivo desse itinerário é, como diz o próprio termo “iniciação”, iniciar a pessoa ao mistério de Cristo, ou seja, leva-la, como pela mão, ao encontro direto com Cristo. Como? Através da escuta orante da Palavra, do exercício da oração, do amor à Eucaristia.

O primeiro efeito interior do Encontro é a conversão: o tornar-se “nova criatura”, filho de Deus. Isso é vida nova, coração novo. Eis o que é um cristianismo de “iniciados”, de gente que “experimentou” Algo, de “místicos”, como queria Rahner. É daí que irrompe, quase automaticamente, a missão e o compromisso no mundo, como veremos mais adiante.

Tal é o dado originário da vida da Igreja. Originário e também original, pois dá originalidade a tudo na Igreja: à palavra, à sua missão e ao seu empenho por justiça. Essa entrada cristológico-iniciática, além de ser acertada do ponto de vista teológico, é acertada também do ponto de vista pastoral.

Pois, nosso catolicismo popular, embora exaltado em Aparecida (n. 258‐265), inclusive como o “tesouro mais precioso que tem o povo”, é um catolicismo feito mais de tradição que de convicção pessoal, mais de cultura que experiência espiritual. Daí sua vulnerabilidade aos avanços, tanto das “seitas” e de seu proselitismo, quanto do atual “secularismo” e de suas seduções sensual-materialistas. E daí também o déficit, que, desde Medellín, diminuiu, mas que permanece ainda grande, em termos de consciência social e de compromisso político.

E mesmo o Catolicismo das minorias ou elites (bispos, padres, freiras, agentes, militantes, intelectuais) é mais doutrinário que experiencial, mais ideológico que personalista, mais gnóstico que existencial, mais moralista que místico, mais muscular que cordial, enfim, mais prático que teopático.

Notemos ainda a linguagem, estilo ou tom do Documento. Isso também foi acertado. Trata‐se de uma linguagem comunicativa, que desperta a alegria de crer, o entusiasmo de anunciar e o ardor de lutar. Além disso, é bastante homogênea. Sua unidade interna provém da unidade de seu centro vivo, que é Cristo, que é a fé viva em Cristo.

Enfim, é uma linguagem espiritual, ungida, alvissareira. É nova, original, justamente por ser originária, isto é, por nascer do estupor de um Encontro. Ela se mostra congenial a seu tema, “exprimindo de modo espiritual as coisas espirituais”, como queria S. Paulo (1Cor 2,13).

Como a Assembléia episcopal chegou a tal linguagem, de verdadeira comunicação evangélica? Não foi por um esforço meramente literário, que se trairia por sua artificialidade. Foi antes porque esta linguagem emanou da vida e da experiência de nossa Igreja, que os pastores e teólogos-assessores aí estavam interpretando. Uma linguagem dessas não se consegue em três semanas. É uma questão de vida. Ela fala da vitalidade espiritual e pastoral de nossas igrejas e de seus pastores.

Explicitemos rapidamente alguns dos traços mais evidentes da linguagem de Aparecida:

  • é leve: lê‐se bem; não é pesada ou enfadonha;
  • é clara: límpida, compreensível;
  • é positiva: prefere o incentivo à crítica, embora não deixe de ser realista e profética a seu tempo; usa de bom grado termos evocativos como: alegria, prazer, entusiasmo, ardor, audácia, felicidade, plenitude, beleza, maravilha, vida (muito), amor, esperança, graça, ação de graças, louvor, bênção, tesouro, riqueza, dom, presente etc.;
  • é estimulante: animadora, levando à adesão concreta; é prática, pastoral e propositiva;
  • é serena: e segura; faz “sentir firmeza”; infunde fé no poder da fé; mas sem falsa segurança ou presunção, porém com humildade;
  • é equilibrada: harmoniosa, ordenada, bem articulada.

Concluindo esta parte, digamos que o achado genial e inspirado dos bispos foi ter partido formalmente de onde parte e só pode partir a vida cristã: de Cristo, da fé em Cristo, do encontro vivo com Cristo.

“Ora – dir-se-á –, isso é o óbvio. É a evidência mesma”. Mas eis a grande ilusão: o déjà vu em relação ao Cristianismo; achar que já se conhece a fé cristã; que ela já não oferece mais nenhuma novidade; que não precisa mais ser, a cada vez e sempre, reencontrada em sua originalidade perene. Os bispos não: como os profetas (e os poetas e as crianças), viram o “óbvio”, proclamaram o “evidente”. Aí está sua genialidade.

Repitamos: Cristo, encontrado e seguido, é o princípio determinante de tudo o mais. O que os bispos dirão em seguida será todo informado e moldado por ele, como por um vento que verga todo um trigal na direção em que está soprando; como por um fermento que leveda toda a massa; como por um sal que dá gosto a toda a comida.

2. Os desdobramentos da fé: evangelização e compromisso

Toda a vida da Igreja flui do encontro com Cristo, da comunhão com Ele através da fé e, especialmente (e nisso insiste Aparecida), da Eucaristia. Portanto, a missão da Igreja provém do coração da fé. O encontro com Cristo impele necessariamente a Igreja para o mundo.

Essa missão tem dois momentos. O primeiro é o anúncio de Cristo, como Aquele que enche o coração humano de alegria e paz, e enche a vida de sentido (aliás, a “questão do sentido” é recorrente no Documento, sendo tematizada nos n. 36‐42). Pois, quem arde com o fogo de Cristo, ilumina e aquece naturalmente os outros. Portanto, o primeiro desdobramento da fé é a evangelização direta.

O segundo momento é o compromisso no mundo, na sociedade. É tornar-se “diante dos homens” luz de verdade e fermento de justiça. Aqui se situa toda a tradição profética e libertadora da nossa Igreja latino-americana. Se a primeira é propriamente a “missão religiosa” da Igreja, a segunda é especificamente sua “missão social” (cf. GS 42).

Notar a lógica entre a fé e a missão, seja ela evangelizadora, seja social; entre o encontro com Cristo e a tarefa de anuncia-lo às pessoas e torná-lo presente na ordem social. A lógica é esta: o segundo termo é sempre um desdobramento do primeiro. A prática da missão, tanto religiosa como sociopolítica, decorre da experiência da fé, assim como o rio flui da fonte, como a luz irradia do foco, e como a flor e o fruto provêm finalmente da raiz da árvore. Não há entre esses termos oposição nenhuma e nem mera justaposição, mas justamente desdobramento ou decorrência.

Explicitemos, a seguir, essas duas formas de missão, respectivamente evangelizadora e social.

2.1. Primeiro desdobramento da fé: a evangelização

Uma pessoa cheia de Cristo passa logo a anuncia-lo, como por transbordamento. O Documento fala da missão evangelizadora em termos extremamente positivos: trata-se de irradiar a Luz recebida, de comunicar a Alegria do encontro, de partilhar a Vida do amor (n. 145).

Voltemos a sublinhar a lógica que preside a missão de evangelização. Esta deriva como que espontaneamente do encontro com Cristo. É sua primeira conseqüência para fora. Da fé flui naturalmente o anúncio evangélico e evangelizador. O “discípulo” torna-se necessariamente apóstolo ou “missionário”, para evocar o lema de Aparecida.

Como se vê, a missão aqui não tem nada a ver com endoutrinação, propaganda ou preselitismo. É antes irradiação. É um “atrair”, como ímã, para Cristo, o verdadeiro “pólo norte do mundo espiritual”, como dizia Péguy.

Ao mesmo tempo em que proclama a alegria de crer, o discípulo‐missionário aprofunda, mediante a catequese, a “doutrina cristã”, ou seja, um conhecimento mais orgânico e completo da pessoa e da obra de Cristo.

Como no plano do “encontro de fé com Cristo”, também no da evangelização, Aparecida apresenta uma proposta concreta, que exige o envolvimento e a re‐estruturação de todas as pastorais: é a “Grande Missão Continental” (n. 362-364).

Trata‐se de passar de uma pastoral passiva, esperando que o povo venha a nós, para uma pastoral ativa, que “sai” ao encontro dos distantes (n. 370), dos que estão fora da comunhão de vida com Cristo, especialmente da grande massa dos católicos afastados. Esse não é um trabalho pontual, mas um esforço contínuo: é a Igreja que se põe, por inteiro, em estado permanente de missão evangelizadora.

O que motiva essa missão não é o intento de “reconquistar” os membros que a Igreja teria “perdido”, nem é de fazer “concorrência” com outros grupos religiosos. Trata-se mais simplesmente e mais puramente de comunicar a vida de Cristo e de partilhar a alegria do Evangelho. Que isso faça aumentar o rebanho católico é certamente um efeito feliz e mesmo esperado, mas não é a finalidade principal da missão continental. A glória da Igreja é a glória de Cristo.

2.2. Segundo desdobramento da fé: o compromisso de vida

Trata-se aqui do compromisso no campo ético, que, além da vida pessoal envolve a vida social. O compromisso na sociedade, “marca registrada” da pastoral latino-americana, é aqui retomado com novo vigor, vigor que no texto tem mais de teologia que de retórica.

Como é retomado o compromisso social? A resposta aqui é importante, pois diz respeito ao ponto verdadeiramente crucial do debate que levantamos na primeira parte.

Ora, no Documento, o compromisso social é retomado “a partir da experiência de fé em Cristo”. Portanto, aí o compromisso libertador deriva diretamente do seguimento. Quem ama Cristo, ama também os irmãos, especialmente seus preferidos, os pobres e todos os excluídos, cujos rostos o Documento descreve em várias passagens (n. 65, 402 e, especialmente, 407-430).

Notar igualmente aqui a lógica que anima o compromisso: ele arranca do encontro com Cristo. Quem encontrou Cristo vai ao encontro do irmão pobre e sofre‐dor. Aqui, o social deriva do espiritual.

É, aliás, a lógica que se vê também no NT, especialmente em João e nas cartas de Paulo. Ela se encontra inteira na fórmula: “Se sois luz, então comportai-vos como filhos da luz” (Ef 5,8). Portanto, essa lógica não é a dos bispos ou de quem quer que seja. Ela se funda na própria natureza da Revelação, que consiste numa vida nova, a qual leva naturalmente a um novo agir.

Com sua idéia de uma ação que jorra “da superabundância da vida contemplativa”, S. Tomás não diz outra coisa (cf. ST II‐II, q. 182, a. 1, ad 3). Nietzsche, por sua parte, pregava a “virtude dadivosa”, insistindo nu‐ma ação que fosse fruto da riqueza interior e não da carência pessoal (Zaratustra, parte I, último cap.). Mas, para que citar mais autores? Essa é a lógica das coisas mesmas: agere sequitur esse: a ação flui do ser. Aparecida nada mais fez que aplica-la à fé e à pastoral.

Sem dúvida, permanece a incontornável questão das mediações concretas entre fé e política, mas elas só se referem à forma externa da ação, não à sua substância íntima. A fé é chamada a ser a “alma” de toda política, mesmo em sua estrutura própria. A rigor, a política é autônoma, não autárquica. Isso significa que, apesar de gozar de leis próprias, a ação política permanece sempre dependente de seu Criador e, portanto, aberta a um investimento religioso. Deste modo, entre fé em Cristo e vida social não há mais paralelismo e, menos ainda, contradição.

Nesta ótica, plena e claramente espiritual, de tipo existencial e interpessoal, o compromisso de libertação vem todo impregnado de Cristo, que se encontrou no caminho da vida e que se quer amado na vida e reinando na sociedade. Deste modo, a fé informa e anima de alto a baixo toda a missão da Igreja, inclusive a sociopolítica.
Isso vale de modo todo particular para os cristãos leigos, que têm no social sua arena própria de prática direta e concreta da fé. Nisso insiste Aparecida, destacando, como dever pastoral da Igreja, a necessária formação política do laicato (n. 501-508). Mas que toda a prática social dos leigos se desenvolva “com Cristo, por Cristo e em Cristo”. É o sentido da cláusula “n’Ele”, introduzida pelo Papa na segunda parte do slogan da Vª Celam: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”.

De resto, o tema “vida” é a grande idéia que estrutura todo o Documento em suas três grandes partes, sendo nomeado no título de cada uma delas. A tripartição é feita de acordo com a metodologia, já clássica na América latina, do “ver, julgar e agir”, metodologia essa que, repitamos, tem antes uma validade material (temática e expositiva) que propriamente formal (determinativa e fundadora).

Igualmente, é na perspectiva da fé‐encontro que vem reassumida a irreversível “opção preferencial pelos pobres” (n. 391-398, esp. 396). Quem encontra Cristo não pode não encontrar o pobre. O Documento insiste na qualidade “evangélica” desta opção, no sentido de que deve ser toda embebida do espírito de Cristo. Por isso mesmo, tal opção é apresentada à distância de todo exagero ou “ideologismo”, chame-se isso politicismo, militantismo, ativismo ou mesmo moralismo.

Aparecida não evita o vocabulário da “libertação”, mas o usa escassamente, talvez pelas conotações ambíguas e polêmicas de que vem cercado. Recupera, contudo, seu conteúdo sob outros conceitos, como promoção social, amor feito justiça, transformação das estruturas, pobres: sujeitos de direitos etc.

De resto, a Vª Conferência não se detém nas dificuldades e crises de nosso tempo, nem na complexidade da sociedade atual com os imensos riscos da globalização. Apostam, antes, no Cristo vivo, presente na Igreja, com sua inspiração e sua força. Poderíamos dizer: os bispos “põem fé na Fé”.

À diferença dos outros dois pontos anteriores, para a parte social, Aparecida não ofereceu uma proposta continental concreta. Embora não deixe de oferecer indicações práticas, a V Assembléia parece apostar, mais que tudo, na “fantasia da caridade”. Esta é uma provocação à intervenção criativa e responsável dos cristãos leigos e também dos teólogos da libertação, enquanto ambos buscam “encarnar”, respectivamente na teoria e na prática, a Palavra eterna na “carne” do tempo.

Saída

Após todas essas observações críticas (na primeira parte) e propositivas (na segunda parte), como fica a TdL? A nosso ver, esta parece, grosso modo, estar ora se encaminhando na direção certa.

Observa-se, em primeiro lugar, que boa parte da TdL se incorporou naturalmente na teologia, sem mais. Ela passou, assim, a fazer parte integrante da “teologia normal” e do discurso da Igreja, em geral. Insere-se no órganon da teologia geral como seu “dispositivo social”. E continuará a se reabsorver lentamente no álveo da teologia global, levando aí toda a sua substância, como um afluente no rio principal. Assim também foi com os movimentos bíblico e litúrgico, que, de movimentos particulares, antes do Concílio, se tornaram depois bens comuns de toda a Igreja.

Que a TdL possa continuar, mesmo incorporada organicamente na teologia sine addito, arvorando a etiqueta que a designa, isso pertence ao legítimo pluralismo teológico. Poderá assim lembrar a toda teologia seu dever de integrar sempre mais a dimensão sócio-libertadora da fé, protagonizada pelos pobres. É assim também, aliás, que subsistem, na harmonia do corpo eclesial, os grupos mais diversos, cada um privilegiando um carisma particular.

Mas é também possível que parte da TdL resista e insista em se entender como uma teologia integral à parte, construída a partir de princípios próprios. Mas então será difícil evitar certa polarização em relação à teologia em geral, quando nada porque a inevitável desambigüização dessa corrente porá em evidência o caráter aporético de seu método. Pois o pobre não poderá agüentar por muito tempo nas costas o edifício de uma teologia que o escolheu por base: cederá, antes de ser esmagado por ela, como a história não se cansa de mostrar.

O certo é que a evolução teórica da TdL não se dará de modo automático, graças à simples “força das coisas”. Pois nenhuma situação histórica resolve por si só problemas teóricos. Problemas teóricos se resolvem teoricamente. Quando se tenta resolve-los por mera remoção (mediante repressão ou então por simples descaso), reaparecem como erva daninha, cuja raiz foi deixada.

Daí também a razão e a intenção destas linhas. Buscando rigorizar a discussão sobre o estatuto epistemológico da TdL e procurando assim esclarecer e resolver sua problemática de fundo, talvez possam contribuir a dissolver a polarização gerada por ela e favorecer, deste modo, a catolicidade sinfônica da teologia.

Isso só poderá redundar na felicidade dos pobres, na glória de Deus e na confusão do diabo (cf. LG 17).

Curitiba/PR, Brasil, agosto de 2007

Artigo assinado por Fr. Dr. Clodovis M. Boff, OSM
Filósofo e Teólogo. Professor na Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Extraído do portal Adital

Família e Religião, Teologia da Libertação

Tudo que você deveria ter aprendido em 2016, mas nunca é tarde pra aprender algo novo!

Bate papo

Sou um apaixonado por esse site, muito bem feito, simples e claro, totalmente descomplicado, facilitando o menos favorecido em saber entender as coisas.

O portal Politize! é uma rede de pessoas e organizações comprometidas com a ideia de levar educação política para cidadãos de todo o Brasil. Essa galera acreditamos que a tecnologia é uma grande aliada na difusão de conhecimento e que podemos fazer a diferença proporcionando conteúdo educativo sobre política de forma fácil, divertida e sem vinculações político-partidárias.

Nesse post, trago um resumo de alguns temas que todos deveriam ter lido, mas por falta de interesse, tempo, não deu. Talvez o Zap Zap, as Facebookadas foram prioridades e você perdeu algumas coisas. Mas… tu sabe tão bem quanto eu que 2016 foi bastante agitado no Brasil, certo? Muita coisa aconteceu e sabemos que não foi fácil acompanhar tudo e, principalmente, entender boa parte do que estava acontecendo.

Pensando nisso e pra possibilitar que você possa começar (meio tarde) 2017 com o pé direito, aprendendo coisas novas e desenvolvendo o senso crítico, reunimos vários conteúdos que abordam conceitos importantíssimos. Vamos lá:

Economia

Democracia

Pensamento político

Bandeiras políticas

O Politize! é um portal de educação política onde você encontra conhecimento de alta qualidade sobre o que há de mais importante para ser um cidadão consciente e engajado com a transformação do país.

O sonho de criar um portal de educação política foi concretizado em 1º Julho 2015! O vídeo abaixo foi nossa forma de comunicar a todos do que se tratava nosso sonho, que acabou se tornando coletivo. Se você ainda não nos conhece, vale assistir!

O DNA de rede permanece no Politize!, sempre estamos à procura de voluntários para a produção de conteúdo do portal. Seja um co-criador de conteúdo e faça parte da transformação da educação política no Brasil.

Guilherme Colgate, um exemplo de dizimista fiel

E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
Mateus 25:21

Não é por nada, mas tudo aqui pertence a Ele, mas… muitos agem diferente. Guilherme Colgate é um exemplo fiel de cristão. Segue mais alguns vídeos sobre a sua história.

Ler a mente e compartilhar pensamentos está próximo da realidade

Ler mente Professor Xavier X-Man

A primeira comunicação cérebro a cérebro “verdadeira” entre duas pessoas poderá ser realizada já no próximo ano, de acordo com expectativas da equipe do professor Andrea Stocco, da Universidade de Seattle (EUA).

As primeiras tentativas não vão se assemelhar muito à telepatia, como muitas vezes imaginamos. Isto porque o cérebro de cada um de nós funciona de maneira única, e a forma como cada um de nós pensa sobre um conceito é influenciada por nossas experiências e memórias.

O resultado é que os padrões de atividade cerebral que os equipamentos atuais conseguem medir, para fazer coisas como controlar equipamentos pelo pensamento, são muito diferentes de pessoa para pessoa.

É por isso que os equipamentos atuais exigem uma longa curva de aprendizado, com o usuário e o programa de computador precisando ser treinados para reconhecer como o cérebro sinaliza coisas simples, como “mova o braço” ou “feche os olhos”.

Treinamento cerebral

Mas, se os neurocientistas conseguirem aprender os padrões de um indivíduo, eles podem ser capazes de desencadear certos pensamentos no cérebro dessa pessoa. E, em teoria, eles poderiam capturar a atividade cerebral de uma pessoa, interpretá-la, e então traduzir o comando na forma de sinais neurais de outra pessoa, e então desencadear aqueles pensamentos nesta segunda pessoa.

Até agora, os pesquisadores conseguiram que dois voluntários, usando um capacete com sensores que realizam exames contínuos de eletroencefalograma, e sentadas em salas diferentes, jogassem uma partida de um jogo de 20 perguntas em um computador. Os participantes transmitiram respostas “sim” ou “não”, desencadeando uma corrente elétrica no cérebro do outro mediante uma técnica chamada estimulação magnética transcraniana.

Indo além, pode ser possível detectar certos processos de pensamento, e usá-los para influenciar os pensamentos de outra pessoa, incluindo decisões simples, como sentar, levantar ou mexer ou não a mão.

Treinar roupas robóticas

Outra abordagem que está sendo explorada consiste em reunir em um único dispositivo eletrônico a atividade cerebral de vários indivíduos. Isso já foi feito com animais. Três macacos com implantes cerebrais aprenderam a pensar juntos, cooperando para controlar e mover um braço robótico.

Um experimento similar foi realizado com camundongos, conectando seus cérebros em um “rede cerebral”.

O próximo passo é desenvolver um equivalente humano que não requeira cirurgia invasiva para colocação de implantes no cérebro, como tem sido feito com os animais. A ideia é que os voluntários só utilizem os capacetes de eletroencefalograma, que são feios e desajeitados, mas que são o melhor de que dispomos.

Os primeiros usuários provavelmente serão pessoas paralisadas.

A médio prazo, os neurocientistas esperam incorporar essa “rede cerebral” em uma roupa robótica, por exemplo, que poderá permitir que essas pessoas com paralisia obtenham ajuda de outra pessoa para treinar os exoesqueletos que finalmente lhes permitirão recuperar os movimentos.

Fonte: Diário Saúde com informações da New Scientist

Em 2017, seguimos em defesa dos direitos humanos

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Após cinco anos de muito trabalho, desafios e conquistas, me despeço da direção executiva da Anistia Internacional no Brasil. Agradeço a todos e todas que estiveram conosco nesse período, se mobilizando por justiça contra violações de direitos humanos no Brasil e no mundo.

Trabalhar pela promoção e proteção dos direitos humanos é estar comprometido com o desafio de mudar o mundo, para que ele tenha mais justiça e paz para todas as pessoas. Sigo comprometido com esse objetivo ao assumir meu próximo desafio, que será dirigir a Fundação Ford no Brasil.

A partir de fevereiro de 2017, Jurema Werneck assume a diretoria executiva da Anistia Internacional no Brasil e certamente levará a organização a novos patamares de atuação no país, renovando e abrindo novas frentes para o escritório nacional que completou cinco anos em outubro.

Seguirei fazendo parte da Anistia Internacional como Defensor da Liberdade e apoiador, integrando esse movimento global de mais de 7 milhões de pessoas ao redor do mundo que defendem os direitos humanos como o caminho para uma sociedade mais justa. Continuamos juntos nessa luta!

E, como último pedido, peço que mobilizem-se pelos casos e nos ajude divulgar a Maratona Escreva por Direitos 2016!

Grande abraço e votos de um 2017 de muita paz!

Anistia Internacional Brasil

Desenvolvida vacina contra a febre chikungunya

febre chikungunya

Vacina de vírus de insetos

Pesquisadores da Universidade do Texas anunciaram o desenvolvimento da primeira vacina para a febre chikungunya, que agora começará a ser avaliada em testes clínicos. A vacina foi feita a partir de um vírus específico de insetos, que não tem qualquer efeito conhecido sobre os humanos, o que tornaria a vacina segura e eficaz.

Nos testes em laboratório, a vacina produziu rapidamente uma forte defesa imunológica e protegeu completamente camundongos e primatas não-humanos da doença quando expostos ao vírus chikungunya.

Esta vacina oferece proteção eficiente, segura e acessível contra chikungunya e estabelece os fundamentos para o uso de vírus que só infectam insetos para desenvolver vacinas contra outras doenças transmitidas por insetos,
disse o professor Scott Weaver

Vacinas: riscos x eficácia

Desenvolvida primeira vacina contra a febre chikungunyaTradicionalmente, o desenvolvimento de vacinas envolve opções mutuamente excludentes, sobretudo entre a rapidez com que a vacina funciona e a segurança para quem toma. Vacinas vivas atenuadas, feitas com versões enfraquecidas de um patógeno vivo, tipicamente oferecem imunidade rápida e duradoura, mas têm mais riscos. Por outro lado, a incapacidade das vacinas inativadas para se replicar aumenta a segurança à custa da eficácia, muitas vezes exigindo várias doses e reforços para funcionar adequadamente.

Pode haver um risco de doença com os dois tipos de vacina, seja pela inativação incompleta do vírus ou pelo enfraquecimento incompleto ou instável do vírus vivo, que é reconhecido quando indivíduos com uma vulnerabilidade bastante rara desenvolvem a doença ao tomar a vacina.

Para superar esses compromissos, os pesquisadores usaram o vírus Eilat como uma plataforma de vacina, uma vez que ele só infecta insetos e não tem impacto sobre os humanos. Na verdade, a equipe usou um clone de vírus Eilat para projetar uma vacina híbrida – ela é baseada em vírus, mas contém também proteínas estruturais do vírus chikungunya.

Vacina híbrida

A vacina híbrida Eilat/Chikungunya mostrou-se estruturalmente idêntica ao vírus chikungunya natural. A diferença é que, embora o vírus híbrido se reproduza muito bem nas células do mosquito, ele não consegue se replicar em mamíferos. Após quatro dias de uma dose única, o candidato a vacina induziu anticorpos neutralizantes que duraram mais de 290 dias nos animais de laboratório.

Os resultados, publicados na revista Nature Medicine, são promissores porque os relatos mais recentes indicam que o vírus chikungunya pode ser mais grave do que os vírus que causam dengue e zika.

Fonte: Diário Saúde

Fiocruz obtém registro de teste para zika, dengue e chikungunya

Kit ZDC

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) obteve o registro do Kit ZDC, o primeiro do país com chancela da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que permite realizar o diagnóstico simultâneo de zika, dengue e chikungunya.

O novo teste auxiliará as ações de enfrentamento da situação de emergência sanitária causada por essas três doenças.

O Kit ZDC detecta o RNA dos três vírus através da plataforma tecnológica PCR (sigla em inglês para Reação em Cadeia da Polimerase) em tempo real e o resultado é obtido no mesmo dia. O produto efetua o diagnóstico molecular com detecção e diferenciação da infecção.

O kit pode ser usado para o diagnóstico laboratorial dos três vírus, para dois ou para cada um separadamente, permitindo ainda o diagnóstico na fase aguda da doença, quando os sintomas clínicos das três infecções se manifestam e necessitam de um diagnóstico laboratorial preciso e discriminatório.

O diagnóstico precoce pode auxiliar na conduta clinica dos pacientes e na indução de providências adicionais relacionadas à vigilância epidemiológica e prevenção de novos casos.

Nacionalização

Os primeiros lotes para atendimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) já estão sendo produzidos. As entregas se darão conforme a demanda do Ministério da Saúde. A produção e nacionalização dos kits poderá representar uma economia aos cofres públicos, além do aumento da qualidade e confiabilidade do diagnóstico.

A inovação é fruto do trabalho integrado do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) com o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), sob coordenação do Ministério da Saúde.

“Temos satisfação em entregar esta inovação à sociedade brasileira. Estamos mobilizados para responder à grave situação do vírus zika e da microcefalia, e esta é parte importante dos nossos esforços”, disse o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha.

Fonte: Diário Saúde

Alguns filmes mais atuais em versão VHS

VHS

Os maiores filmes atuais em versão do vintage como VHS. Trabalho magnífico. Então, isso ainda existe e é uma proeza criado por offtrackoutlet que cria VHS funcional dos maiores sucessos do momento do mundo do cinema. A oportunidade de descobrir como Star Wars, Interstellar, The Revenant ou Deadpool, em uma qualidade inigualável, devolvendo-lhe o charme do pré DVD. Veja mais em sua conta no Instagram. Confira algumas imagens do trabalho.

Filme em VHS Filme em VHS Filme em VHS Filme em VHS Filme em VHS

Estou na Amazon Prime Video, o mais novo serviço de streaming de vídeos e iniciamos hoje nossa transmissão

Amazon Prime Video

Estamos em mais um streaming de vídeos, agora no Amazon Prime Video Brasil que chegou no Brasil no dia 14/12. Hoje, criamos a conta lá no app, afinal, já estou há muito tempo na Amazon.com e que estava aguardando a chegada do Amazon Prime Video. Então… chegou! Agora, vamos nessa, vamos aproveitar a promoção dos dias free para teste e curtir a novidade. Ainda há muito o que melhorar, como suporte em português, sincronização com Chromecast, um catálogo mais honesto, enfim… estreou agora no país, vamos esperar melhorar a iniciativa e julgar com perfeição o serviço, mas de antemão, posso dizer que está bem longe do concorrente, ao qual prefiro bem mais o Netflix.

As avaliações lá no Google Play não são tão favoráveis assim para a galera da Amazon. Há muita crítica, como eu disse, temos que dar um tempo ao tempo. Precisa haver mais opções. Pode ser que a falta de opções seja pelo fato de terem acabado de lançar. Mas atualmente o app não tem muitas séries ou filmes. Enquanto não melhorarem o catálogo, é melhor continuar com a Netflix. Pelo tempo que esse aplicativo já existe na versão americana era pra ter muito mas títulos e em relação a versão dele no Brasil, muita falta de respeito com o país por vim todo em inglês, e produções sem legendas ou áudio em português mudo minha nota quando melhorar sem suporte pra web.

Tá uma coisa… e assim, a Amazon é uma gigante mundial e bem que poria chegar chegando, mas não chegou.

O que é o Amazon Prime Video

Bem… é um serviço de streaming de filmes e séries que promete competir com a Netflix e agora está disponível no Brasil. A novidade anunciada nesta terça-feira, dia 14/12, permite que usuários brasileiros assinem o serviço pelo preço econômico de US$ 2,99 (cerca de R$ 9,99) nos seis primeiros meses. Os títulos podem ser assistidos pelo aplicativo para celulares Android, iOS (iPhone), tablets Amazon Fire, além de versão web e de outra para Smart TVs. O serviço de streaming de vídeos está disponível em mais de 200 países no mundo e oferece legendas em diversos idiomas, inclusive o português.

No Amazon Prime Video é possível assistir seus filmes em até três dispositivos ao mesmo tempo e até baixar para ver offline no celular ou no tablet, recurso semelhante que foi lançado recentemente pelo Netflix.

A Amazon.com também promete ajustes automáticos na transmissão, se adaptando à velocidade de Internet. Com isso, deve-se limitar o consumo excessivo de dados móveis e apresentar menos interrupções ou lentidões no streaming.

Catálogo do Amazon Prime Video

No catálogo estão disponíveis títulos reconhecidos de filmes novos e clássicos, conteúdo original da Amazon, além de programas e séries de TV.  As séries originais produzidas pela Amazon oferecem ainda dublagem em português, além do francês, italiano e espanhol.

Vale lembrar que o preço no Brasil passa para US$ 5,99 (cerca de R$ 20 em conversão direta), depois do período promocional de seis meses. É possível cancelar a assinatura quando desejar pelo site. Para acessar é necessário fazer um cadastro na Amazon e adicionar um cartão de crédito.