O fascismo, antes de ser um regime, é um ambiente político e cultural contaminado

Fascismo pelo mundo

Tenho refletido e escrito sobre a perda de vitalidade da democracia. Mas acho que agora já entramos num perigoso caminho de desconstrução da democracia, uma ameaça que vem na esteira do golpe do impeachment e se expressa hoje no nosso governo híbrido, civil-militar, com sua agenda antidireitos. Claro, a institucionalidade democrática formal está mantida até aqui, mas algo por dentro vem corroendo os princípios e valores éticos e políticos vitais da democracia: o respeito incondicional da liberdade de ser, pensar e agir, a busca da maior igualdade possível, com direito à diversidade, convivendo em solidariedade coletiva e baseando tudo em ativa participação cidadã. Tais princípios constituem o substrato de qualquer democracia com potencial de transformar contradições e divergências, de potencial destrutivo, em forças construtivas de sociedades mais livres e justas.

Hoje reconheço um vírus implantado em nosso seio que pode acabar com a democracia e nos levar ao fascismo como regime político. Estamos diante de sinais inequívocos de tal vírus no campo de idéias e valores que foram se revelando e se condensaram na vitória eleitoral e nas falas do presidente e de integrantes do governo empossado. A leitura de um discurso de Umberto Eco, de 24 de abril de 1995, na Universidade de Columbia, Nova York, publicado em espanhol por Bitacora, sob o título Los 14 síntomas del fascismo eterno, me inspirou. Segundo Eco, as características típicas do “Ur-Fascismo” ou “fascismo eterno” não se enquadram num sistema, “…mas basta com que uma delas esteja presente para fazer coagular uma nebulosa fascista”(em tradução livre). Vou lembrar aqui apenas alguns dos indícios do eterno fascismo que Eco aponta e que deixo aos leitores desta minha crônica identificar as suas expressões na realidade brasileira.

Culto da tradição – como se toda a verdade já estivesse revelada há muito tempo e o que precisamos é ser fiéis a ela. O tradicionalismo é uma espécie de cartilha na disputa de hegemonia fascista sobre corações e mentes. O pensamento do principal guru dos “donos do poder”, a pregação das igrejas pentecostais e as falas – quando dizem algo – são impregnados de uma veneração da verdade já revelada em escritos sagrados e de valores espirituais mais tradicionais do cristianismo. “Deus, pátria, família e propriedade”, com a força que estão de volta como pregação, não deixam dúvida. Fascismo e fundamentalismo sempre vêm juntos.

Repulsa ao modernismo – que leva a considerar as conquistas humanas em termos de direitos e de emancipação social como perversidades da ordem natural. Nega-se, em consequência, a racionalidade e, com ela, toda a ciência e a tecnologia. Não falta gente com tal forma de pensar no governo e seus seguidores. Para eles, direitos iguais são um absurdo. Mudança climática é uma “invenção de comunistas”. E por aí vai.

Culto da ação pela ação – fazer e agir, acima de tudo. Como diz Eco, para fascistas “pensar é uma forma de castração”. Daí a atitude de suspeita à cultura, pois é vista como algo crítico. Em consequência, todo mundo intelectual é suspeito. Ainda Eco, “O maior empenho dos intelectuais fascistas oficiais consistia em acusar a cultura moderna e a intelligentsia liberal de ter abandonado os valores tradicionais”.

Não aceitação do pensamento crítico – pensar criticamente é fazer distinções e isto é sinal de modernidade, pois o desacordo é base do avanço do conhecimento científico. O fascismo eterno considera a divergência como traição. Deve-se aceitar a verdade da ordem estabelecida. Daí, “escola sem partido”, sem iniciação ao pensamento crítico e a liberdade de expressão e ação.

O racismo na essência – segundo Eco, com medo da diferença, o fascismo a explora e potencializa em nome da busca e da imposição do consenso. Os e as diferentes não são bem vindos. Por isso, o fascismo eterno é essencialmente racista e xenofóbico. Daí a identificar os diferentes como criminosos a linha é reta.

O apelo aos precarizados e frustrados – todos os fascismos históricos fizeram apelo aos grupos sociais que sofrem frustração e se sentem desleixados pela política. As mudanças no mundo do trabalho, promovidas pela globalização econômica e financeira, são terreno fértil para o fascismo.

O nacionalismo como identidade social – nação como lugar de origem, com os seus símbolos. Os e as que não se identificam com isso são inimigos da nação. Portanto, devem ser excluídos. Podem ser os nascidos fora da nação, como os imigrantes, ou por se articularem com forças externas – o tal “comunismo internacional” – ou, ainda, por não se enquadrarem no padrão “normal” de nacionalidade. O nacionalismo vulgar é o cimento agregador de qualquer fascismo.

A vida como guerra permanente – no fascismo, a gente não luta pela vida, liberdade, bem viver, mas vive para lutar. A violência é aceita como regra e a busca de paz uma balela. Vencem os mais fortes, armados. Há um culto pela morte na luta.

O heroísmo como norma – o herói, um ser excepcional, sem medo da morte, está em todas as mitologias. Aqui basta lembrar a exploração feita daquele atentado em Juiz de Fora. O herói vira mito real.

O machismo como espécie de virtude – em sendo difícil a guerra permanente e a demonstração de heroísmo, o fascismo potencializa as relações de poder na questão sexual, segundo Umberto Eco. Aqui também não faltam manifestações de patriarcalismo e machismo, com intolerância com o que é considerado divergente da norma em questões sexuais. Não há lugar para a liberdade de opção sexual e de gênero.

O líder se apresenta como intérprete único da vontade comum – o povo é o seu povo, o seu entendimento do que seja o povo e sua vontade comum. Como diz Eco, estamos diante de um populismo de ficção.

Chamei atenção aqui para indícios de fascismo total apontados por Umberto Eco – não todos, para não ser enfadonho e talvez desvirtuar o que o autor quis dizer – com a preocupação de dar atenção a idéias e imaginários que estão adquirindo legitimidade mobilizadora no nosso seio. Inspirado no atualmente renegado Antônio Gramsci, exatamente pelo emergente fascismo político e cultural, penso que a conquista de hegemonia no sentido de direção intelectual e moral precede o poder do fascismo pela força estatal. Ou seja, a ameaça de fascismo já está implantada entre nós, mesmo se o regime ainda não parece ser fascista.

Escrito por Cândido Grzybowski, sociólogo e presidente do Ibase.

Até quando?

Imagem aérea de Brumadinho, MG, após o rompimento da barragem

Estamos novamente diante de uma tragédia de grande impacto ecossocial: mais uma barragem de rejeitos de mineradora que se rompe, deixa mortes e “terra arrasada” no caminho da lama, descendo como avalanche. Mais uma vez, em Minas Gerais. Mais uma vez, trata-se da Vale, a mesma empresa envolvida na ruptura de outra barragem que soterrou um povoado em Mariana, com mortes, e contaminou todo o Rio Doce. Isto três anos e pouco atrás. A gente nem sabe direito quantas “bombas” de rejeitos de mineradoras existem pelo Brasil afora, ameaçando vidas humanas, a integridade dos territórios e todas as formas de vida.

Nossa solidariedade imediata às famílias das vítimas atingidas diretamente – funcionários da própria Vale e moradores dos povoados de Brumadinho – não deve ter limites. Precisamos, também, nos somar a todos que clamam por justiça e reparação, a mais rápida possível. A irresponsabilidade não pode, mais uma vez, ficar impune e esquecida. Mas nada, absolutamente nada, vai repor as vidas perdidas e devolver a integridade daquele território.

Será que tragédias assim podem ser toleradas como “efeitos colaterais” do tal desenvolvimento? Desenvolvimento econômico, assentado numa lógica de crescimento na busca desenfreada por lucros a todo custo e acumulação capitalista, está longe de se preocupar com a vida e a integridade da natureza. As empresas não pensam sua responsabilidade de uma perspectiva ética. Limitam-se fundamentalmente a gerar dividendos aos seus acionistas, com olho em sua cotação na bolsa de valores. E governos se esforçam para não dificultar a vida das empresas, mesmo com a sociedade cobrando mais e mais responsabilidade social e ecológica, com governança adequada e com total transparência. Para completar, estamos numa conjuntura política de um novo governo disposto a afrouxar controles sociais e ambientais em nome de um anacrônico absolutismo do livre mercado.

Penso que se faz necessário esclarecer alguns pressupostos que considero fundamentais para melhor situar meus argumentos.  Viver é trocar com a natureza. Não há forma de vida sem tal troca, pois somos natureza nós mesmos. O que mudou e muito foi a nossa capacidade tecnológica na relação com a natureza para satisfazer as nossas necessidades e desejos. Com o desenvolvimento científico e tecnológico desvendamos segredos da dinâmica ecológica natural e aumentamos em muito a possibilidade de produzir bens. Mais, hoje temos capacidade de destruir e já ultrapassamos em muito alguns dos limites naturais que garantem a integridade de sistemas ecológicos essenciais à biosfera no planeta. Ao invés de nos pensarmos como parte da natureza e nós mesmos como parte essencial em sua evolução, como força ecossocial, temos uma concepção dominante do domínio e exploração, sem limites, levando à destruição. Pior, o modelo dominante da economia é gerar lucros e acumular, destruindo  natureza e concentrando a riqueza gerada. Até quando?

Os exemplos de ruptura com as possibilidades de suporte e regeneração da natureza são muitos. Nossa civilização atual, por exemplo, é movida por energia fóssil. Extraímos carvão, petróleo e gás para mover nossas economias e nosso bem estar. Mas estamos queimando num curto período da história da humanidade o que a natureza levou milhões de anos para produzir. Pior, estamos queimando e emitindo gases que estão levando à mudança climática, tragédia anunciada para logo ali, mas que teimamos em não ver. E existem os vazamentos de petróleo, sempre grandes tragédias. Aliás, do petróleo sai o plástico, hoje uma grande ameaça para a integridade do ciclo da água, vital para qualquer forma de vida. Mas dá para conceber a vida que levamos sem petróleo? Hoje, já sabemos que tecnologicamente existem alternativas, mas o problema é mais de responsabilidade ecossocial das empresas e de poder na sociedade.

O extrativismo é uma atividade essencial, mas pode ser praticado com responsabilidade, tanto na extração em si como nos impactos ecossociais. Destruir territórios e sua população não pode ser tratado como uma fatalidade, pois não é. É atividade de riscos, que devem e podem ser evitados. De forma nenhuma é aceitável o extrativismo desenfreado, sem as devidas análises e medidas para garantir resiliência ecossocial no território impactado. As empresas não podem ser tão irresponsáveis, sem transparência, pois o extrativismo está entre as atividades mais lucrativas, mas de grande potencial destrutivo. Mesmo não acontecendo desastres, a jazida de minério um dia acaba. Sobra somente o buraco da mina, com os rejeitos, para o território e a cidadania local.

Como cidadania, temos uma gigante tarefa pela frente de repensar o lugar do extrativismo em nossa economia e o tipo de responsabilidade ecossocial a cobrar das empresas envolvidas e do próprio governo na sua regulação. Está em jogo a integridade dos territórios e de suas populações locais, mas sobretudo o próprio futuro coletivo. Afinal, a tal riqueza natural uma vez extraída empobrece o território e gera um passivo nosso em relação a futuras gerações, que não a terão e, talvez, dela fariam um uso mais sustentável. O debate sobre tais questões ainda é dominantemente deixado para os diretamente atingidos. Precisamos transformar isto em questão de cidadania. Precisamos de outra relação na troca com a natureza, diferente do predatório extrativismo. Outra economia é possível, mas estamos longe de conseguir emplacar o próprio debate a respeito. Tarefa difícil, mas inadiável. Basta ter presente o consenso que há no Brasil, hoje, sobre a “salvação” que representa para o país o extrativismo das reservas de petróleo do pré-sal, por exemplo.

Cândido Grzybowski, sociólogo e presidente do Ibase.
Rio de Janeiro, 28/01/2019

Destruição ecossocial e barbárie

meio ambiente destruido

A onda de calor que nos sufoca é, sem dúvida, um fenômeno climático típico de verão. Mas este, pelas médias históricas, como já é de conhecimento público, está bem acima do normal. O pior é que além do calor imediato, quem acompanha o debate científico em torno à mudança climática tem a cabeça fervendo nestes dias de péssimas notícias. Enquanto aqui no Brasil estávamos em plena disputa do segundo turno eleitoral, o Painel Internacional das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) divulgou um contundente estudo sobre os riscos de total descontrole climático se a temperatura média subir mais de 1,5°C acima do patamar da era pré-industrial. Apesar disto, a COP-24, em Katowice, Polônia, em dezembro último, não passou de um pobre acordo político de intenções mais do que engajamento efetivo na redução das emissões. Não deixa de ser uma grande ironia na conjuntura mundial que a COP, tendo no centro o mandato de enfrentar a descarbonização da economia e das sociedades, tenha acontecido no coração da indústria do carvão da Polônia. Pior seria ter acontecido nos EUA com o líder da maior economia mundial negando que o clima seja uma ameaça, apesar de estar lidando com a intensificação do número e tamanho dos ciclones, o registro de temperaturas particularmente extremas (inverno e verão) e com os devastadores incêndios.

Para nós brasileiros, a mudança climática já é dor de cabeça com febre e tudo. Logo após a vitória eleitoral, antes até de ser governo, Bolsonaro anunciou não queria sediar a COP-25, neste ano de 2019. Agora, já empossado, está tornando realidade a decisão de desligamento dos acordos climáticos e se alinhando com Trump e outros negacionistas da mudança climática, como se tal questão fosse de esquerda. Chega ser motivo de piada o que o nosso novo chanceler diz sobre o assunto. Como bem afirma Angelika Humbert, do Alfred Wegener Institut, da Alemanha, estudiosa do derretimento das calotas polares, “el cambio climático se puede medir, no se trata de creer o no creer”.

O pior já está acontecendo no Brasil. Começou a montagem de uma operação interna de desmanche do conjunto da institucionalidade e das políticas de proteção dos comuns, da biodiversidade, florestas e água, dos territórios indígenas, quilombolas, extrativistas. Tudo agora é uma questão de exploração, a mais rápida e intensa possível, da “riqueza” natural pelo extrativismo mineral e pelo agronegócio do boi e da soja e seus grileiros de terras e motosserras desmatadoras, com violência e morte do que se encontra no caminho. FUNAI e demarcação de terras, Reforma Agrária, licenciamento ambiental e muito mais de uma possível proteção da natureza estão na órbita do Ministério da Agricultura e da bancada ruralista. É como mandar a raposa cuidar do galinheiro.

Algo que se tenta separar, mas está intrinsecamente ligado, é toda a questão social com a questão ecológica. Não estranha em nada o fato que o mesmo desmanche da proteção ecológica seja praticado na questão dos direitos humanos, dos direitos trabalhistas e da educação, do combate à desigualdade social e pobreza, do enfrentamento ao racismo, ao machismo e à violência contra as mulheres. Estamos diante de uma ameaça de destruição ecossocial em nome de um agressivo, selvagem e reacionário desenvolvimento a ser regulado pela barbárie do livre mercado, entre não livres e nem iguais como importa frisar.

Comecei esta minha crônica com a intenção de pensar na ameaça maior e irreversível que a mudança climática anuncia, assim como um termômetro sinaliza a febre que pode matar. Aqui estou falando da humanidade como uma espécie viva que comparte a biosfera do planeta Terra e que dela depende. Nós, os humanos, já extinguimos uma grande parte da biodiversidade natural. Aqui no Brasil, nenhum dos biomas constitutivos do imenso território que nos cabe cuidar mantem a sua integridade de modo a se reproduzir. No andar de nossos jatos e foguetes (já não usamos carruagens, quando se cunhou a expressão), caminhamos para o desconhecido e, segundo os cientistas, ao irreversível em termos de biodinâmica, sobrando pouca de esperança de vida digna para a grande maioria das gerações futuras, tendo que viver sob a ameaça da extinção. A verdade é dura, mas precisa ser dita. O capitalismo extrativista, produtivista, consumista, controlado pelas grandes corporações financeiras globalizadas, é o motor da promoção de um futuro muito próximo – já está sendo proposto concretamente – de fortalezas e muralhas militarizadas, com muita barbárie e apenas um planeta destruído para uma parcela mínima da humanidade. Meus leitores vão concordar que se é assim o futuro próximo, a cabeça precisa ferver muito na busca de alternativas neste escaldante verão.

Como ativista da palavra, intelectualizado por ofício, é meu dever socializar estudos e artigos a que tenho acesso e leio. Resumo aqui um importante texto preparado pelo amigo e cúmplice nas articulações por movimentos de cidadania de dimensões planetárias, Roberto Savio, argentino-italiano, fundador do Inter Press Service (IPS) e hoje presidente de Other News , um serviço que o mercado não propicia. Ele, como eu, tenta criar consciência, muito além do simples entender o que se passa. Savio começa lembrando que na política os interesses imediatos, particularmente de acumulação de riqueza e poder político, estão acima de valores éticos e visão ecossocial e radicalmente democrática para o futuro. Apesar de transformada em questão mística para grandes massas, a mudança climática é efetivamente uma questão de interesses imediatos, do ganhar e acumular o máximo possível, o quanto antes se possível, não importando quanto de violência, a morte, a destruição é necessária.

O que espanta é o verdadeiro bloqueio na opinião pública que sofre a questão da mudança climática como algo que pode ser irreversível para a humanidade e a biosfera. Ela é discutida seriamente nos meios especializados, mas mal disputada como questão ética, filosófica, científica, política e econômica. O fato é que há um acordo mais do que majoritário entre cientistas de que as atividades humanas provocam a mudança climática. A oposição a isto é fundamentalmente financiada pela indústria extrativista do carvão e do petróleo, com o exemplo maior dos irmãos Koch, dos EUA. Aliás, no mundo todo, ao invés de combater a mudança climática, que tem uma das causas fundamentais no uso de combustíveis fósseis, subsidiamos o extrativismo de carvão, gás e petróleo. Pelos dados da ONU, segundo Roberto Savio, o montante poder ser entre US$ 775 bilhões a US$ 1 trilhão. Mas se considerarmos o uso do solo, água e as externalidades (nunca contabilizadas), os subsídios podem chegar a mais de US$ 5 trilhões anuais, cerca de 6,5% do PIB mundial.

Outro dado que destaco do artigo de Savio é sobre uma pesquisa da ONU, de 2015, com uma amostra de 9,7 milhões de pessoas no mundo, sobre seis temas considerados prioritários entre 16 apontados. Os temas sociais – educação em primeiro, saúde e melhores oportunidades de trabalho – foram os eleitos. O último dos 16 temas propostos, no geral, foi a “mudança climática”, até mesmo nos países mais pobres. Nem nos países ilhas, os mais ameaçados pela mudança, o clima veio em primeiro lugar. Conclusão: a mudança climática é ainda uma não questão hegemônica no seio da sociedade civil planetária. Pior, ainda estamos longe de associar direitos humanos e direitos da natureza como os dois lados de um mesmo drama. Não é possível fazer justiça social destruindo a natureza. O inverso também é impossível, pois estamos diante de uma questão ecossocial, de uma nova relação entre nós e a natureza. Somos natureza viva e consciente dependentes da natureza que nós dá, na troca que fazemos com ela, o essencial para viver. A humanidade, com a ciência e tecnologia, se tornou uma força ecossocial. Temos que rever profundamente nossas filosofias, conceitos e, particularmente, a relação de domínio e destruição da natureza junta com a dominação de uns sobre outros seres humanos.

Termino aqui esta minha crônica alarmista. Lembro, porém, que não se trata somente de uma questão da destruição ecossocial que temos diante de nós. Pelo que está acontecendo, ou estamos sendo privados de informação por interesses que nos dominam, ou evitamos olhar mesmo sabendo, ou, ainda, teimamos em ignorar e até agir no sentido de evitar mais destruição. Independentemente deste ou daquele governo, temos um desafio de humanidade pela frente. Se não agirmos agora, será tarde para a vida e o planeta Terra. A integridade ecossocial da natureza é um direito fundamental de futuras gerações. Esta sim é uma questão de vida ou morte. Será que ainda podemos ser solidários quanto a nossos filhos e netos e seus filhos e netos?

Artigo de Cândido Grzybowski, sociólogo e presidente do Ibase.

Fronteiras em movimento

Lula Livre

O que estamos vivendo no Brasil neste momento é um grande desafio para analistas políticos e ativistas que compartem os princípios e valores éticos da democracia que, sem dúvida, está ameaçada em termos práticos. Mas, admitamos, é muito simplista e nada útil atribuir tudo o que se passa a uma pouco analisada e explicada fascistização da política. Que estamos diante de uma ameaça de barbárie não dá para ter dúvidas. E ela está avançando no mundo inteiro, pelo selvagem processo de globalização capitalista, que se acapara de tudo e de todos e que nos dá – por vias tortas, mas reais, da extrema desigualdade social e destruição ecológica – a vivência e a consciência de um destino comum como humanidade num planeta ameaçado em sua integridade ecossocial. Diante do tal capitalismo com sua barbárie, será que o foco e as nossas categorias analíticas estão ajustados?

Estou refletindo sobre isto por necessidade de associar tudo o que venho pensando sobre as possibilidades históricas de produzirmos novos paradigmas que nos apontem caminhos de transformação e as inadiáveis tarefas emergentes e urgentes que a barbarização nos joga no colo. A primeira sensação é de estar diante de movimentos reais mais radicais e profundos ainda não bem radiografados e compreendidos. A segunda é a necessidade de ajustar a lente e mapear melhor os movimentos da estrutura do capitalismo globalizado e suas conjunturas e manifestações no campo da luta política, produzindo resultados ao mesmo tempo novos e extremados, pouco ou nada democráticos, como Trump, nos EUA, e Bolsonaro, no nosso meio, mas parte de uma grande onda que se alastra como um tsunami pelo mundo.

Nas buscas que estou fazendo, tive a oportunidade de ler a entrevista com Gabriel Tupinambá para Vitor Necchi, publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos. Como estou fazendo umas notas para a minha participação no VII Círculo – Rodas de Conversa Bakhtiniana – “Fronteiras”, na UNIOESTE, em Cascavel, Paraná, me deparei com o desafio imediato de entender as fronteiras políticas em movimento e aquelas novas neste mundo ameaçado pela barbárie. As pistas apontadas por Gabriel Tupinambá estão se revelando muito úteis para o desafio de ajustar o “mapeamento cognitivo”, na expressão por ele usada.

As fronteiras continuam sendo o que sempre foram: barreiras que separam e excluem. Elas são incontáveis em sociedades organizadas em classes antagônicas. Podem ser físicas ou simbólicas, geopolíticas ou ideológicas, impostas por Estados pela força militar, leis e instituições, ou aquelas sorrateiras, vividas e sentidas como realidade das relações sociais no cotidiano. O fato é que fronteiras existem como uma convenção social subjacente, dada e conhecida, um parâmetro para entender as sociedades e sua história, seja como categoria prática, para gente saber o seu próprio lugar na sociedade, ou para a análise mais científica. Mas como tudo, também as fronteiras estão sempre em permanente movimento pela força das contradições da estrutura social e sua manifestação nas lutas políticas.

As questões das barreiras aos migrantes, da xenofobia, da intolerância e ódio aos não “nacionais”, da violência exacerbada no cotidiano, no Norte e no Sul, no Leste e Oeste do planeta, são sinais reveladores de fronteiras em movimento. Será que as categorias políticas e as analíticas tradicionais sobre Estado Nação, soberania e interesse nacional, imperialismo, democracia x ditadura, países desenvolvidos x subdesenvolvidos e/ou em desenvolvimento – todas tendo como conceito referencial a fronteira política – dão conta das mudanças em curso, das fronteiras de segregação e exclusão que se movem? Em parte sim, mas não na sua essência. Com o novo modo de ser do capitalismo das grandes corporações econômicas e financeiras, inspirado no neoliberalismo sem nenhuma regulação, do 1% contra 99%, na periferia do sistema-mundo, mas também no seu centro, a precarização e o viver no precariado é a grande ameaça de exclusão/segregação que se soma e potencializa todas as outras, nunca resolvidas. Já há alguns anos venho usando as categorias analíticas da rede Great Transition Initiative, que trabalha com cenários das possibilidades contidas no movimento das contradições do mundo globalizado pelo capital. Segundo a rede, na atualidade, a barbárie de um mundo de guetos e de fortalezas para proteger poucos ou, até, uma catástrofe, deve estar no nosso horizonte analítico como uma grande possibilidade pelo que está acontecendo.

A pergunta que importa fazer de uma perspectiva de “mapeamento cognitivo” é ver o que é novo em termos estruturais com reflexo na consciência social e na política. Sem ajustar nossas categorias analíticas e, assim, entender a nova realidade, que move fronteiras do real e do pensar, não vamos entender nem encontrar respostas políticas para as novas questões. Ao invés do desenvolvimento e de mais inclusão social, o capitalismo neoliberal globalizado com sua determinante lógica de acumulação financeira está impondo a precarização e barbárie com novas fronteiras geopolíticas e internas. A precarização ameaça tanto as maiorias dos centros capitalistas desenvolvidos, como radicaliza a exclusão e o retrocesso em direitos no mundo todo. É isto que alimenta a onda atual anti sistema que está aí, autoritária, excludente, redefinindo tanto o modo de organização das sociedades como os desafios para a democracia e o nosso bem comum maior, o planeta Terra. Ao invés de mais democracia, estamos diante de mais barbárie e destruição. Esta é a chave analítica para entender o movimento teutônico das fronteiras da modernidade capitalista eurocêntrica, sem negá-las. Neste contexto, os fantasmas viram realidade.

Artigo de Cândido Grzybowski, sociólogo e presidente do Ibase.

Reflexões na passagem de ano

Militância Lula Livre e Haddad

Uma das maiores celebrações nos tempos atuais, entre nós e para muitos povos da Terra, é a passagem de ano. Como um momento essencialmente simbólico e criação cultural, a passagem vem carregada de religiosidade e da magia dos sonhos e esperanças, com reafirmação de amores e compromissos, com intenções de superação e busca de sucesso individual e coletivo. Porém – sempre temos algum porém –, a gente se lembra de amigos e amigas que nos deixaram no ano que passou e continuam povoando a nossa memória, das alegrias e dos sofrimentos que podemos ter infringido nas pessoas queridas com quem compartimos a vida, nos encontros e desencontros no dia-a-dia, nas iniciativas bem sucedidas e nos projetos frustrados, nas pequenas realizações e conquistas pessoais, enfim, no que fizemos e no que deixamos de fazer. E tem ainda tudo aquilo que nos fez vibrar ou lamentar por feitos coletivos, na verdade pouca vibração e muita decepção no ano de 2018, de um ponto de vista onde me situo como cidadão do Brasil.

O que a gente nunca pensa é o quanto isso tudo não passa de uma convenção social, um acordo tácito sobre usos e costumes, implícito, é assim porque é assim, o vivemos sem buscar as suas razões de ser o que é. Até esquecemos que estamos numa parte de globo terrestre que celebra a passagem de ano na noite de 31 de dezembro para o réveillon de primeiro de janeiro do ano seguinte. Para boa parte da humanidade ainda não é esta a data de passagem de ano e nem estamos em 2019. Os calendários são diferentes em diferentes culturas, apesar de nosso calendário ser o dominante na atual civilização eurocêntrica do capitalismo, com sua globalização abarcando o mundo todo. Ou seja, o calendário é também uma criação histórica que carrega em seu interior muitas contradições, muita história de dominação política, econômica e cultural. Mas, sem dúvida, é uma grande criação cultural que dá sentido e organiza o viver em coletividade. O calendário, como a linguagem, nos socializa; são processos construtores de coletividades, comunidades, povos e civilizações. Uso com destaque o verbo socializar para mostrar o absurdo do afirmado no discurso de posse realizada pelo novo presidente do Brasil para seus apoiadores, exatamente no dia 1º. de janeiro de 2019. Para sermos membros de um coletivo-povo como o Brasil, muito diversos, com dominações e desigualdades, precisamos nos socializar como parte de um todo, adotar convenções básicas comuns, como a língua, o calendário, a Constituição… E por aí vai a história da vida real que vivemos.

Muito concretamente, temos algo imutável que é o fato natural de um dia de sol ser seguido por uma noite sem sol, com lua mudando, e volta o dia e segue a noite, com lua mudando. Mas isso num processo circular contínuo, tanto da Terra em relação ao Sol, como da Lua em relação à Terra. Convencionamos historicamente chamar isto de processo de Leste a Oeste, e até criamos um horário mundial com 24 paralelos de Norte a Sul cobrindo o globo terrestre (louco, por sinal, de 24 horas, 60 minutos e 60 segundos), tendo o ponto central de referência o paralelo zero, que passa sobre Observatório de Greenwich, na Inglaterra (da dominação imperialista britânica quando instituído). Enfim, a terra gira em torno ao sol, criando dias e noites, variando de inclinação e distância em relação a ele, dando origem ao que denominamos de estações, binárias sempre: verão- inverno, outono-primavera, dependendo se estamos no que convencionamos chamar Norte ou Sul do planeta, também carregado de histórica de dominação, pois nos mapas (outra convenção) o Norte sempre aparece por cima e o Sul por baixo. Alguém se pergunta por que é representado assim, se estamos num universo complexo e até desconhecido? Claro, tais convenções não podem ignorar nuvens, chuvas, ventos e trovoadas, geadas e neves, secas e enchentes, tanto de dia como de noite, num processo ecológico que não controlamos. Definitivamente, criamos convenções culturais para viver num planeta cuja dinâmica ecológica condiciona toda a biosfera e particularmente nosso viver em sociedade. Fundamentalmente, nossa vida depende da integralidade de tais sistemas  ecológicos, mesmo sem pensarmos neles. Criamos convenções fundamentais, variáveis em muitos pontos de um povo a outro do mundo, para nos situarmos e podermos ir levando a vida.

Por que trago isto para reflexão? A razão é muito simples: a vida humana só é possível a gente sabendo se inserir – passiva ou criticamente – nas convenções sociais e históricas de nosso tempo de vida. Nós somos entes produtores de consciência, cultura e formas de comunicação. Por isso, criamos convenções e também as reinventamos, transformamos, pois cultura é a força social que se soma à natureza na moldagem da vida, toda vida e a biosfera, a própria evolução ecológica (basta lembrar aqui a perda da biodiversidade e a mudança climática). A linguagem é, no dia-a-dia, a mais indispensável, é a que nos torna gente, ator social, parte de um coletivo e base do relacionamento em todas as esferas da vida. Pode até ser só por sinais e não por voz, mas é linguagem. Outras nem são tanto, como o horário, mas que confusão seria viver nas complexas cidades de hoje sem horário convencionado como comum? Temos convenções mais abrangentes e aquelas mais restritas. A linguagem da música, por exemplo, é mais abrangente que a linguagem falada, mesmo se os ritmos e danças sejam linguagem específica de diferentes culturas e povos, mas são um bem comum universal. A verdade é que a mais estranha e nunca escutada ou vista manifestação musical nos fala, onde a gente estiver.

Muito poderia ser dito das diferentes convenções que organizam nossa vida como membros de coletividades. Mas o que quero chamar a atenção é para o calendário, para o muito que é e o nada que pode ser uma passagem de ano. O que mudou, verdadeiramente, foi um dia seguir outro. Mas isto é o viver. Ou seja, o ontem está na frente e não pode ser mudado, o amanhã está atrás e em tudo pode ser mudado, de um ponto de vista humano. Nosso futuro só em parte foi decidido em 2018, pois o que foi feito está feito, não pode ser mudado. Mas o amanhã não depende só de causalidades, sistemas ecológicos, donos do poder e nossos governantes, do que os donos de tudo farão e tudo mais. Este é apenas um dos lados da vida. O outro é que nós, humanos, temos capacidade de fazer mudar o curso da história, sempre. Talvez não amanhã, mas depois sim. Podem os outros fazer, sem nós ou sem nós termos, ao menos, tentado de impedi-los de fazer. Enfim a história de 2019 e dos anos vindouros ainda não está definida. Viver é um fazer história renovada, para o bem ou para o mal, a partir das convenções socioculturais existentes e explorando suas contradições.

Termino lembrando uma referência central de um livro autobiográfico crítico da ativista cidadã e amiga mexicana, Laura Sarvide, Ciudadanía intermitente. Hasta cuándo?, que acabei de ler. Laura começa lembrando papos de adolescente com seu avô, que para dar a sua versão da conturbada história mexicana partia da constatação: “unos lo hacen y otros lo permitimos”. E termina a reflexão sobre sua própria trajetória de ativista durante os últimos 50 anos afirmando: “Unos lo hacen y ya es tiempo que la ciudadanía no lo permitamos más…”.

Artigo de Cândido Grzybowski, sociólogo e presidente do Ibase.

 

Voltar a disputar sentidos, direções e propostas

Democracia em luta by dcvitti

Precisamos nos reerguer do tombo político. Desde aqui e agora, com ousadia e determinação, temos a longa e paciente tarefa de reconstrução de imaginários mobilizadores. Resistir é necessário, mas está longe de ser suficiente. Não podemos ficar simplesmente indignados diante do discurso autoritário de intolerância, violência e negação de direitos iguais de cidadania a todas e todos. Também não basta denunciar os riscos de grande destruição ecológica, com aprofundamento simultâneo da exclusão e da desigualdade social, e de uma ainda maior dependência econômica que está embutida no desenho da agenda ultra neoliberal do governo que será empossado em janeiro de 2019. Consolar-se com o fato que tal onda política se espalha na região e no mundo é ainda pior, pois é como resignar-se diante do possível desastre, precarização e barbárie que ameaçam a humanidade e a integridade do planeta como um todo.

O desafio é voltar a fazer política no sentido radical e profundo de disputa de visões e filosofias ativas sobre possibilidades e modos de nos organizar para viver em coletividade da forma mais inclusiva possível, sem discriminações ou exclusões, e no maior respeito à integridade do bem comum natural que nos dá a vida. Mas por onde recomeçar tal fazer cidadão da política? Por lá de onde nunca deveríamos ter deixado como lugar estratégico: a sociedade civil, berço real da democracia como processo transformador.

É no seio da sociedade civil que emergimos e agimos como sujeitos coletivos diversos de cidadania ativa. As vivências e percepções de relações sociais, prenhas de contradições e violações de direitos, em territórios e momentos históricos definidos, como experiências coletivas no cotidiano e na contemporaneidade, se tornam sementes do tecido social gerador de sujeitos coletivos de cidadania. Exatamente por isto, de uma perspectiva radical de democracia, a sociedade civil é o espaço fundamental para exercer nossa liberdade de pensar, propor e nos organizar para disputar e exercer o poder instituinte e constituinte de cidadania soberana popular sobre a nação comum. Nos movimentos sociais, que assim se formam, estão as principais fontes inspiradoras de visões e filosofias ativas, as forças centrais de grandes correntes políticas para democracias ecossociais transformadoras. Estou me referindo aos movimentos democráticos com imaginários irresistíveis capazes de transformar o Estado e a economia.

Uma espécie de desvio do foco de olhar prioridades do fazer política é como identifico o desafio que temos, como cidadania imbuída dos princípios e valores democráticos, diante da perda de vitalidade da nossa democracia conquistada trinta anos atrás, cuja institucionalidade está servindo até para nos levar a uma espécie de fascismo social, no nosso horizonte histórico concreto, legitimado pelo voto de outubro passado.  Estou propondo um voltar a fazer política tendo como fundamento uma concepção dos conflitos, gestados nas vivências e percepções das contradições de relações estruturais e processos sociais, como forças construtivas virtuosas da democracia, que tornam a cidadania ativa instituinte e constituinte de um poder estatal historicamente provisório e passível de mudança, de democratização da democracia. Isto se contrapõe a uma concepção autoritária de exclusão e criminalização dos conflitos pela força, de imposição de ditaduras e, até, de fascismos, como a história já mostrou. Para enfrentar isto, construir trincheiras de resistência, esperando que os negadores de direitos iguais de cidadania e de mais democracia se destruam pelas próprias contradições, está muito longe de ser a melhor estratégia e de bastar.

Fazer política como desafio de construir outro futuro com mais democracia é se engajar na disputa de hegemonia como proposta de ser e viver em conjunto, antes e acima de ser exercício do poder de gestão do Estado. Isto supõe disputa de idéias e imaginários no espaço público, inspirando-nos nas emergências e insurgências da cidadania. Precisamos, sim, reavaliar para transformar as profundas raízes coloniais de nossa formação, sobretudo o racismo, o patriarcalismo e a mercantilização da natureza como forças combinadas da colonialidade imposta pela civilização eurocêntrica do capitalismo. Ao mesmo tempo, temos que enfrentar a manifestação conjuntural de progressiva perda de intensidade e legitimidade da política e da própria democracia como possibilidades de lutar e transformar tal sistema, em sua forma globalizada, neoliberal e financeirizada, que nos está levando à barbárie como humanidade e como planeta.

Crônica de Cândido Grzybowski, sociólogo e presidente do Ibase.

A democracia: um bem comum político

dcvitti distribuindo o informativo ditadura nunca mais

Estamos em um momento histórico no Brasil que coloca em risco a própria democracia. Um processo eleitoral extremamente polarizado e com o candidato Bolsonaro negando qualquer resultado, que não seja a sua vitória e a imposição de sua agenda, carregam uma ameaça ao estado democrático. Como bem comum, ele não permite ser vivido e ao mesmo tempo negado, com exclusões e até discursos de eliminação de adversários e defensores de direitos. Bolsonaro já anunciou que pretende eliminar toda forma de ativismo cidadão, com a violência das armas se necessário. Aliás, ele não esconde que admira e tem como modelo a ditadura militar que nos foi imposta de 1964 a 1985. Já sabemos pela nossa história e de tantos outros povos a barbárie que praticam tais regimes.

Num certo sentido, é parte da virtude da democracia nos mostrar o quanto de rancores e raivas, intolerâncias e ódios, violências assassinas, racismo, machismo e misoginia estão enraizados no nosso seio. São visões, atitudes e práticas negadoras de direitos iguais na diversidade do que somos. Vir à luz do dia tudo isto e este discurso ser assumido abertamente por uma grande parte da população, em especial pelos amplos setores das classes dominantes e médias, é uma novidade dolorosa deste processo eleitoral de 2018, nos trinta anos da nossa Constituição. Devemos à democracia o fato de sentir, analisar e até poder combater tais visões e propostas. Mas precisamos tomá-las como uma sacudida em nós, ativistas da cidadania, e como uma sirene alertando sobre o risco do desastre político no dia de amanhã. É espantoso como tal discurso desperta e move paixões no nosso seio. Ainda não superamos nossa herança colonial escravista e autoritária, nosso patriarcalismo e racismo.

Ditadura nunca maisTambém é virtude da democracia ser alimentada pela disputa de visões e propostas, mas desde que o princípio da igualdade e liberdade cidadã não seja negado por nenhuma razão. A sua força transformadora reside no reconhecimento do poder instituinte e constituinte da cidadania, condição política de todas e de todos em nossa diversidade de sujeitos históricos concretos, com nossas identidades, crenças, culturas, visões e opções, cores, origens, tamanhos e lugares. Devido a isto, a democracia é uma permanente disputa por mais e mais direitos em nome da igualdade. Afinal, “todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Nisto reside o valor democrático e o seu caráter de bem comum político, compartido, não podendo ser negado a ninguém.

Neste momento, estamos diante de nossa certidão de nascimento como país da “ordem e do progresso” para poucos, donos de tudo, até de nossos corpos e vidas. Que isto nos sirva, ao menos, de sinal para a gravidade e a enormidade da tarefa de democratização como processo transformador de nós mesmos. Agora, a disputa deixou de ser entre essa ou aquela proposta democrática para o país. Viraram prioridade a defesa dos princípios e os valores da própria democracia.

Só o ativismo autônomo pode evitar o pior, mesmo com resultado adverso no segundo turno. Repito: Bolsonaro já avisou que pretende acabar com nossa atuação como ativistas. Mas a nossa força reside na autonomia, independente do Poder Executivo, do Congresso ou do Judiciário. Como sujeitos coletivos de cidadania ativa, em nossa imensa diversidade de identidades, vozes, práticas e vivências, deste maravilhoso país, somos os detentores de capacidade intrínseca de defender e ampliar o bem comum da democracia como forma de fazer política. Demonstremos desde já que sabemos defender nosso modo de atuar e que somos produtores de mais e mais democracia. Ativismo rima com direitos, mesmo nas piores situações. O amanhã nunca está resolvido, ele se faz desde o aqui e agora, mas seu resultado será sempre provisório, pois história é criação e movimento. Ganhe quem ganhar a disputa de 28 de outubro, a democracia depende da resistência, ousadia e determinação da cidadania.

Rio de Janeiro, 14/10/2018
Cândido Grzybowski, sociólogo, do Ibase

A cidadania ativa sacode a democracia

A cidadania ativa sacode a democracia - Crônica de Cândido Grzybowski #blogdodcvittiA uma semana das eleições, dá para sentir no ar a energia que só a cidadania pode propiciar nos processos eleitorais democráticos. Em meio à enorme tragédia social, econômica, ecológica e política do desastroso, totalmente ilegítimo e desaprovado governo Temer, fruto do golpe parlamentar contra a eleita Dilma Rousseff, estamos vendo ressurgir a vontade instituinte e constituinte da cidadania. Independentemente dos resultados em si, esta já é uma eleição que marca nossa ainda jovem democracia. As manifestações de sábado, 29 de setembro, nas grandes cidades brasileiras, protagonizadas pelas mulheres sob o lema “Ele não”, com apoio de muitos homens, é um vento profundamente renovador e portador de esperança de outro amanhã para um Brasil de bem consigo mesmo e com o mundo.

O amanhã, pós-eleitoral, terá diante de si uma vontade de cidadania – sofrida, desigual, dividida e polarizada – disposta a exercer o seu protagonismo diante daqueles e daquelas a quem ela delegar mandatos. Quem poderia prever emergir algo assim nesta difícil conjuntura? Tal onda poderá aprofundar oposições, ódios e intolerâncias, que estamos descobrindo quão vivos estão entre nós. Mas poderá, também, ser a renovação e revitalização da própria democracia como imaginário e como processo transformador de relações e estruturas que nos prendem ao passado. Certamente esta será a maior questão, pois no processo eleitoral atual é isto que estamos pondo como algo central em termos de disputa de hegemonia para o país que consideramos necessário. Serão tempos desafiantes e muito difíceis pela frente, sem dúvida, mas carregados de possibilidades e emoções, algo que só democracias podem propiciar.

Não vale a pena olhar para trás agora, o melhor é entrar na onda, com olho no que pode vir pela frente: a onda seguinte, que vem depois desta que está chegando na nossa praia cidadã, bem comum de todas e todos. É sintomático que “Ele”, o do “não”, comece a questionar o resultado eleitoral – o “como” a onda vai rebentar, literalmente – antes mesmo dos votos de milhões de cidadãs e cidadãos definirem as condições políticas imediatas: teremos para os próximos quatro anos um ambiente político, cultural e ecossocial de reconstrução e avanço da democracia, ou de retrocesso autoritário e fascista para uma economia neoliberal, de negação de direitos? Na verdade, a eleição é um marco divisor de águas em determinado momento histórico das sociedades democráticas, mas não o fim das disputas e sim o começo de novas. Nisto reside a vitalidade e a capacidade da democracia em nos fazer superar desafios e adversidades.

Aprendi com as cosmovisões indígenas, alicerçadas no movimento vital da natureza e do Planeta de que fazemos parte, que o futuro está por vir, vem vindo atrás do que já passou e ainda não está definido. O que está na frente é o passado, já se foi, não dá para mudar, como as águas de um rio,

ou o dia, a noite, a chuva… de ontem. A nossa própria vida está nos filhos e filhas, nos netos e netas, está num fazer-se enquanto nós, mães e pais, vamos nos desfazendo ao nos completar, por assim dizer. De tal perspectiva, em termos políticos, o importante é tirar da mobilização cidadãs de mulheres e de todas outras o potencial portador de amanhã. Ao escrever isto estou profundamente convicto de que o jogo mudou, mesmo com olhos marejados pela emoção diante tão fantástica vitalidade da cidadania brasileira.

Sei que não será fácil o amanhã. Mas nossas trincheiras de resistência ao risco do ódio e do neofascismo estão se revelando um espaço estratégico de construção do futuro. Estamos reaprendendo a dizer sim e não, de forma aberta, sem hesitar. Enfrentamos um movimento desorganizado, heterogêneo e raivoso de gente como nós mesmos, cidadãs e cidadãos, mas que vivem de privilégios, promovem exclusões e negam direitos.  Dadas as difíceis condições que vivemos, o apelo autoritário e neofascista tem, sim, terreno fértil para prosperar como proposta, sabiamente explorado por alguns novos grupos de extrema direita, constituídos entre nós na esteira de uma onda racista, xenofóbica e fundamentalista que se espalha ameaçadora sobre o mundo todo. As e os que nos engajamos com uma perspectiva ecossocial de direitos, de igualdade na diferença, de solidariedade, de democratização da própria democracia, em última análise, teremos uma árdua tarefa pela frente. Tal disputa política e cultural poderá ser facilitada se a as eleições produzirem um governo democrático e popular. Mas ela continuará no pós-eleições, pois por mais que discordemos dos defensores de outros caminhos para o país, eles são parte da cidadania brasileira e é seu direito nos enfrentar politicamente, hoje e amanhã.

Termino lembrando algo fundamental, que nos equaliza na diferença. O pressuposto da democracia é aceitar o embate e seu resultado. Ninguém, na disputa, pode questionar o que dizem as urnas antes da cidadania se manifestar. Esta é uma questão sine qua non de qualquer democracia. Precisamos denunciar e combater, desde aqui e agora, todas e todos que questionem a legitimidade e integridade do processo de disputa. Não é possível participar da disputa virtuosa da democracia e, de antemão, afirmar que seu resultado será inválido e passível de contestação.  Existe, como pressuposto da democracia, a legítima e essencial defesa de sua capacidade de construir legitimidade, nas condições históricas em que se realiza. Quem se sente derrotado deve começar no amanhã a se preparar para o depois de amanhã, como os próprios vitoriosos devem fazer. Afinal, democracia é uma aposta na virtude e possibilidades criativas da incerteza sobre o futuro.

Rio de Janeiro, 01/10/2018

Cândido Grzybowski
Sociólogo, do Ibase

Fundamentalismo econômico

Fundamentalismo econômico

O passado costuma ser conhecido por eras, como as dos coletores e caçadores, agricultores nômades e sedentários etc. Eras do cobre, do bronze, do ferro…

A antiguidade grega se destaca como era do nascimento da filosofia (embora ela tenha outra mãe além da grega, a chinesa), assim como a República romana se destaca como a era do direito.

Como a nossa contemporaneidade será conhecida no futuro? Meu palpite é que seremos conhecidos como a era do fundamentalismo econômico. Porque todas as nossas atividades giram em torno do dinheiro. Era do business. Time is money. Do lucro exorbitante. Da desigualdade social alarmante. Do império dos bancos.

Era na qual apenas oito homens dispõem de renda superior à soma da renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade. Era na qual tudo tem valor de troca, e não de dom.

Esse fundamentalismo submete a política à economia. Elege-se quem tem dinheiro. Todo o projeto político é pensado em função de ajuste fiscal, redução de gastos em programas sociais, cortes orçamentários, privatização do patrimônio estatal, redução da dívida pública.

No altar das Bolsas de Valores, tudo é ofertado, em sacrifícios humanos, ao deus Mercado. É ele que, com as suas mãos invisíveis, abençoa paraísos fiscais, livra os mais ricos de pagarem impostos, eleva as cotações do câmbio, abarrota a cornucópia da minoria abastada e arranca o pão da boca da maioria pobre.

Outrora meus avós, ao despertar de um novo dia, consultavam a Bíblia. Meus pais, a meteorologia. Meus irmãos, as oscilações do mercado financeiro.

Sucateia-se o ensino público para fortalecer a poderosa rede de educação particular. Propõe-se a reforma da Previdência para desobrigar o Estado de assegurar aposentadoria e transferir o encargo aos planos de previdência privada.

A saúde há tempos está privatizada: médicos preferem fazer parto por cesariana; cirurgias desnecessárias são recomendadas; o SUS não funciona; os planos de saúde e os medicamentos têm aumentos sazonais.

O mais nefasto efeito do fundamentalismo econômico é, de um lado, a acumulação privada e, de outro, a exclusão social. Quem tem dinheiro prefere guardá-lo no banco e aplicá-lo no cassino financeiro a usufruir uma vida mais saudável e solidária.

Quem não tem padece a humilhação da pobreza, da carência de bens e direitos essenciais, do salário minguado e do desemprego.

A exclusão reforça as vias criminosas de acesso ao dinheiro e ao fetiche das mercadorias: narcotráfico, roubo, sonegação e corrupção. Agora o rei já não proclama “L’État c’est moi”. Ele brada “In Gold we trust”.

Frei Betto

Escrito por Frei Betto. Assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com “Batismo de Sangue”, e 2005, com “Típicos Tipos”)