Devolvam o 11 de setembro para o Chile!

11 de setembro no Chile

Enquanto os brasileiros comemoram mais um pacato 7 de setembro como outro qualquer, o Chile vive uma jornada intensa: hoje, 11 de setembro de 2013, se comemoram 40 anos do violento golpe de estado perpetrado contra o único governo de orientação verdadeiramente socialista até então eleito pela via democrática no mundo. Literalmente se “comemora”, trazendo à memória, recordando as diferenças, realizando balanços e resultando em poucas, muito poucas mea culpa.

Enquanto O Glob,o em tom solene, reconhece tardia e discretamente ter sido um erro apoiar o golpe militar no Brasil, o Chile incrivelmente mantém condições que permitem que o principal jornal chileno El Mercurio critique o presidente milionário de centro-direita por atribuir responsabilidades à conivência da imprensa nos atropelos aos Direitos Humanos. Pior, continua buscando malabarismos retóricos para fazer-se de herói:

La única alternativa a ese modelo era entonces un esfuerzo incesante por relajar todas las restricciones, hasta llegar – caso al parecer sin precedente histórico – a que, al avanzar la década de 1980, hubiera medios de oposición beligerantemente activos durante el gobierno militar mismo, contribuyendo con eso decisivamente a una transición pacífica y democrática (Editorial de El Mercurio de 8 de setembro de 2013).

Enquanto os parentes de presos desaparecidos acendem velas, se preparam para marchar, protestar ou simplesmente chorar em silêncio as penas passadas, velhos fantasmas coniventes ou ativos do governo autoritário circulam livremente pelos corredores do palácio presidencial, administrações regionais, governos provinciais ou em funções administrativas, impunes e muitos deles, à semelhança do vergonhoso periódico El Mercurio, ainda convictos de ter agido bem.

Enquanto umas centenas de estadunidenses respiram fundo para celebrar seus parentes mortos no ataque às torres gêmeas logo na virada do século, milhares de chilenos continuam sofrendo os efeitos das bombas em La Moneda em 1973, entre exilados, marginalizados, torturados, desaparecidos, fuzilados, asfixiados, desmembrados, afogados, degolados, esquartejados e seus parentes.

Enquanto Obama hesita em empreitar outra cruzada catastrófica, desta vez contra meus ancestrais na Síria, para defender um suposto ideal democrático – o mesmo que atacou, na segunda metade do século XX, por toda a América, porque não podiam, nas palavras de Kissinger, deixar que o país se torne comunista pela “irresponsabilidade de seu próprio povo” –, o Chile, no fim do ano, irá optar se quer como próxima presidente a filha de um general assassinado na ditadura ou a filha do general assassino, conivente e protagonista da junta militar, suspeito de haver matado justamente o pai de sua oponente.

Enquanto procuram novos inimigos nacionais, outro arsenal de armas químicas (serão novamente imaginárias?), bodes expiatórios, eixos do mal, justificativas para o injustificável, será que os Estados Unidos não poderiam ao menos devolver o 11 de setembro para o Chile, já que eles mesmos patrocinaram o evento?

Por Marcelo Luis B. Santos é mestre em Ciências da Comunicação e Semiótica, professor, escritor e consultor em comunicação e democracia.

Anúncios

A matemática macabra do 11 de setembro

O mundo se tornou um lugar mais seguro, dez anos depois dos atentados de 11 de setembro e da “guerra ao terror” promovida pelos Estados Unidos para se vingar do ataque? A resposta de Washington ao ataque contra o World Trade Center e o Pentágono engendrou duas novas guerras – no Iraque e no Afeganistão – e uma contabilidade macabra. Para vingar as mais de 2.900 vítimas do ataque, mais de 900 mil pessoas já teriam perdido suas vidas até hoje. Os números são do site Unknown News, que fornece uma estatística detalhada do número de mortos nas guerras nos dois países, distinguindo vítimas civis de militares. A organização Iraq Body Count, que usa uma metodologia diferente, tem uma estatística mais conservadora em relação ao Iraque: 111.937 civis mortos somente no Iraque.

Seja como for, a matemática da vingança é assustadora: para cada vítima do 11 de setembro, algumas dezenas (na estatística mais conservadora) ou centenas de pessoas perderam suas vidas. Em qualquer um dos casos, a reação aos atentados supera de longe a prática adotada pelo exército nazista nos territórios ocupados durante a Segunda Guerra Mundial: executar dez civis para cada soldado alemão morto. Na madrugada do dia 2 de maio, quando anunciou oficialmente que Osama Bin Laden tinha sido morto, no Paquistão, por um comando especial dos Estados Unidos, o presidente Barack Obama afirmou que a justiça tinha sido feita. O conceito de justiça aplicado aqui torna a Lei do Talião um instrumento conservadora. As palavras do presidente Obama foram as seguintes:

“Foi feita justiça. Nesta noite, tenho condições de dizer aos americanos e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma operação que matou Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e terrorista responsável pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças”.

O conceito de justiça usado por Obama autoriza, portanto, a que iraquianos e afegãos lancem ataques contra os responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças. E provoquem outras milhares de mortes. E assim por diante até que não haja mais ninguém para ser morto. A superação da Lei do Talião, cabe lembrar, foi considerada um avanço civilizatório justamente por colocar um fim neste ciclo perpétuo de morte e vingança. A ideia é que a justiça tem que ser um pouco mais do que isso.

Nem tudo é dor e sofrimento

Mas a história dos dez anos do 11 de setembro não se resume a mortes, dores e sofrimentos. Há a história dos lucros também. Gordos lucros. Uma ótima crônica dessa história é o documentário “Iraque à venda. Os lucros da guerra”, de Robert Greenwald (2006), que mostra como a invasão do Iraque deu lugar à guerra mais privatizada da história: serviços de alimentação, escritório, lavanderia, transporte, segurança privada, engenharia, construção, logística, treinamento policial, vigilância aérea…a lista é longa. O segundo maior contingente de soldados, após as tropas do exército dos EUA, foi formado por 20 mil militares privados. Greenwald baseia-se nas investigações realizadas pelo deputado Henry Waxman que dirigiu uma Comissão de Investigação sobre o gasto público no Iraque.

Parte dessa história é bem conhecida. A Halliburton, ligada ao então vice-presidente Dick Cheney, recebeu cerca de US$ 13,6 bilhões para “trabalhos de reconstrução e apoio às tropas. A Parsons ganhou US$ 5,3 bilhões em sérvios de engenharia e construção. A Dyn Corp. faturou US$ 1,9 bilhões com o treinamento de policias. A Blackwater abocanhou US$ 21 milhões, somente com o serviço de segurança privada do então “pró-Cônsul” dos EUA no Iraque, Paul Bremer. Essa lista também é extensa e os números reais envolvidos nestes negócios até hoje não são bem conhecidos. A indústria da “reconstrução” do Iraque foi alimentada com muito sangue, de várias nacionalidades. Os soldados norte-americanos entraram com sua quota. Até 1° de setembro deste ano, o número de vítimas fatais entre os militares dos EUA é quase o dobro do de vítimas do 11 de setembro: 4.474. Somando os soldados mortos no Afeganistão, esse número chega a 6.200.

A matemática macabra envolvendo o 11 de setembro e os Estados Unidos manifesta-se mais uma vez quando voltamos a 1973, quando Washington apoiou ativamente o golpe militar que derrubou e assassinou o presidente do Chile, Salvador Allende. Em agosto deste ano, o governo chileno anunciou uma nova estatística de vítimas da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990): entre vítimas de tortura, desaparecidos e mortos, 40 mil pessoas, 14 vezes mais do que o número de vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Relembrando as palavras do presidente Obama e seu peculiar conceito de justiça, os chilenos estariam autorizados a caçar e matar os responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças.

Assim como no Iraque, nem tudo foi morte, dor e sofrimento na ditadura chilena. Com a chancela da Casa Branca e a inspiração do economista Milton Friedman e seus Chicago Boy’s, Pinochet garantiu gordos lucros para seus aliados e para si mesmo também. Investigadores internacionais revelaram, em 2004, que Pinochet movimentava, desde 1994, contas secretas em bancos do exterior no valor de até US$ 27 milhões. Segundo um relatório de uma comissão do Senado dos EUA, divulgado em 2005, Pinochet manteve elos profundos com organismos financeiros norte-americanos, como o Riggs Bank, uma instituição de Washington, além de outras oito que operavam nos EUA e em outros países. Segundo o mesmo relatório, o Riggs Bank e o Citigroup mantiveram laços com o ditador chileno durante duas décadas pelo menos. Pinochet, amigos e familiares mantiveram pelo menos US$ 9 milhões em contas secretas nestes bancos.

Em 2006, o general Manuel Contreras, que chefiou a Dina, polícia secreta chilena, durante a ditadura, acusou Pinochet e o filho deste, Marco Antonio, de envolvimento na produção clandestina de armas químicas e biológicas e no tráfico de cocaína. Segundo Contreras, boa parte da fortuna de Pinochet veio daí.

Liberdade, Justiça, Segurança: essas foram algumas das principais palavras que justificaram essas políticas. O modelo imposto por Pinochet no Chile era apontado como modelo para a América Latina. Os Estados Unidos seguem se apresentando como guardiões da liberdade e da democracia. E pessoas seguem sendo mortas diariamente no Iraque e no Afeganistão para saciar uma sede que há muito tempo deixou de ser de vingança.

*Artigo originalmente publicado na Carta Maior.