Os pastores progressistas dispostos a discutir tabus

Os pastores progressistas dispostos a discutir tabus

É preciso parar de policiar corpos e atitudes morais, e anunciar um novo tempo em que a miséria e as desigualdades sociais sejam combatidas.

Logo da CartaCapitalNo bairro Barreirinha, na zona norte de Curitiba, o teólogo Mike Rodrigo Vieira, de 37 anos, sobe ao púlpito para mais um culto na comunidade Congrega Church. Em sua quase totalidade, o público é formado por jovens, adolescentes e crianças da classe média baixa. “São filhos de operários, donas de casa, desempregados. Nossa visão na igreja é, acima de tudo, inclusiva. A juventude quer e precisa ser ouvida para discutir seus dilemas e dividir seus medos. Não podemos desampará-los”, explica Mike.

Com treinamento missionário pela Steiger Missions School, na Alemanha, ele percebeu essa necessidade convivendo com comunidades periféricas em países do Leste Europeu, como Albânia, Kosovo e Hungria. Depois, percorreu o caminho de Che Guevara pela América Latina, retratado no filme Diários de Motocicleta. “A desigualdade que vi me chocou profundamente”, comenta Vieira. Mas foi na Nova Zelândia, evangelizando skatistas, que começou sua missão. “Senti que precisava fazer alguma coisa. Deixei o jornalismo para me dedicar em tempo integral aos jovens de periferias”, diz o hoje pastor, sempre combativo na defesa de bandeiras progressistas.

Drogas, homossexualidade, feminicídio, violência doméstica e nas ruas, aborto… Nenhum tema é tabu. Esses assuntos, sustenta Mike, precisam ser debatidos e vistos à luz do Evangelho, principalmente em uma sociedade que está cada dia mais em movimento. “Minha postura como cristão é não ficar em silêncio, mas agir em defesa dos mais necessitados. Nas igrejas, a onda contra movimentos LGBTs, por exemplo, nasceu de uma cultura fomentada por cristãos fundamentalistas e os ‘cidadãos de bem’ destas comunidades”. A igreja, emenda, precisa sair das quatro paredes, das clausuras, e entender que existe um mundo real. “Esse isolamento tem gerado cristãos desconectados da realidade social. Não percebem que assim se afastam da missão de Cristo, que é promover o amor ao próximo, a paz e a justiça”.

Em Niteróina Região Metropolitana do Rio de Janeiro, distante 850 quilômetros da capital paranaense, o pastor Henrique Vieira, de 30 anos, líder da Igreja Batista do Caminho, vive dilemas semelhantes. “Todos esses temas devem ser alvo de reflexão crítica e debate”. Para ele, são os setores fundamentalistas das igrejas que interditam o pensamento progressista, estimulam um ambiente de aversão à diversidade e ao debate fraterno de ideias. “Quem pensa diferente de certos líderes religiosos é rechaçado. Tratam de demonizar a dúvida e exaltar uma fé acrítica”, lamenta.

Sem laços de parentesco, ambos os Vieira defendem abertamente a descriminalização do aborto, por exemplo. “A proibição não inibe a prática, apenas resulta em um número enorme de mortes de mulheres, especialmente pobres e negras. A criminalização afasta o diálogo, gera medo e faz com que as mulheres muitas vezes tomem decisões precipitadas”, diz o curitibano Mike. O colega fluminense concorda. Ser favorável à descriminalização não significa o apoio ao procedimento, mas sim em buscar uma política pública que seja mais humana e acolhedora. “Tratar as mulheres que abortam como criminosas só gera um ambiente de culpa, medo, angústia, silêncio e morte. A descriminalização do aborto, portanto, é pela vida”.

Colunista do site Mídia Ninja, ativo nas redes sociais, Henrique Vieira não teme debater com milhares de seguidores sobre temas ousados, como o “LGBTfobia e o pecado”. “Por que o amor incomoda? Por que o afeto entre pessoas incomoda? Como discípulo de Jesus não posso ficar em silêncio diante de tanta violência com os LGBTs. Entendo que pecado é ausência de amor, é eliminar pessoas, é nutrir uma moral insensível. LGBTfobia mata a vida, em vida. Sejamos servos do amor, assim seremos livres de tudo!”, publicou recentemente em sua página no Facebook, com mais de 113 mil seguidores.

Ao contrário do que parece, não são apenas os pastores mais jovens que adotam posturas progressistas entre os mais de 42 milhões de brasileiros que se consideram “evangélicos”, segundo dados do IBGE. Hermes Fernandes, 50 anos, psicólogo, escritor e pastor, líder da Comunidade Reina, em Engenho Novo, no Rio de Janeiro, defende a descriminalização das drogas, do aborto, os direitos dos homossexuais e a regulamentação do trabalho das prostitutas. Para ele, tais questões não podem ser mantidas na penumbra, varridas para debaixo do tapete dos falsos escrúpulos e da religiosidade de fachada. “Um cristão comprometido com as demandas do evangelho jamais seria favorável à prostituição, mas não pode fazer vista grossa ao sofrimento desumano do qual prostitutas são vítimas nas ruas de nossas cidades”.

Fernandes apoia as pesquisas com células-tronco embrionárias, opõe-se à redução da maioridade penal e é defensor incondicional do Estado laico. “Martinho Lutero dizia que o Estado e a Igreja seriam os dois braços de Deus no mundo. Um seria o braço da lei. Outro, o braço da graça. Para que ambos sejam eficientes, devem manter-se em seus respectivos escopos de atuação”, explica.

Para o pastor, é indispensável assegurar a liberdade de culto, de forma que nenhuma fé exerça primazia sobre as demais. “Quando me deparo com grupos de umbandistas, em vez de criticá-los, enalteço-os pelo direito de viver em um país onde isso ainda é possível”, diz Fernandes. “Embora discorde teologicamente, não posso me esquecer que sou contemplado com a mesma liberdade que lhes é garantida pelo Estado”.

Após três décadas de experiência missionária, Fernandes acredita que a homossexualidade nas comunidades religiosas é “muito maior do que se possa imaginar”. No entanto, a quase totalidade dessas pessoas prefere se manter velada, temerosa de ser descoberta, exposta e excluída da comunidade. Por isso, condena o preconceito das lideranças, por vezes responsáveis pelo sofrimento emocional, depressão e até mesmo o suicídio de fiéis. “Trata-se de uma verdadeira tortura. As pessoas são submetidas a ritos de ‘exorcismo’, impedidas de participar de atividades e até expulsas da igreja ou de casa”.

O líder da Comunidade Reina considera o aborto uma questão de saúde pública e defende o direito de as mulheres terem um atendimento que não coloque em risco suas vidas. “Sou e sempre serei contra o aborto. Mas também sou e sempre serei contra a hipocrisia com que tratamos temas morais como este, fazendo vista grossa a milhares de mulheres que perdem suas vidas ou são tratadas como criminosas por interromperem uma gestação indesejada”.

Claudio Ribeiro, de 56 anos, serviu como pastor durante quase duas décadas na Igreja Metodista, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Para ele, as críticas exacerbadas das lideranças conservadoras fazem com que as mulheres que se submeteram a um aborto carreguem o peso da culpa pelo resto de suas vidas. “Ouvi o relato de muitas mulheres. Trazem consigo um enorme dilema emocional. Não encontram nas igrejas o refúgio, a paz e a busca pelo perdã.”. Como pastor, Ribeiro diz que sua missão é mostrar que existe sempre o “amor e a misericórdia de Deus na vida de todas as pessoas”.

Para esta parcela progressista, os grupos conservadores foram tragados pelo evangelho made in USA, que coloca o lucro e a propriedade privada acima da justiça social, os bens de consumo acima do ser humano, a moral acima da ética e os dogmas religiosos acima da ciência. “Precisamos de uma teologia que surja do nosso próprio contexto social, que considere nossas demandas e nos desafie a responder às questões que inquietam nossa harmonia social”, observa Fernandes.

Lusmarina Campos Garciateóloga e jurista, mestre e doutoranda em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, classifica o modelo neopentecostal como político-mercadológico, que adota a lógica do capital, da competição, do acúmulo, do enriquecimento e de poder. “Trata-se de uma lógica expansiva: quanto mais tem, mais procura ter. Nesse contexto, a busca incessante pelo poder transforma-se em desejo de domínio. É o que sucedeu com grande parte das igrejas evangélicas”.

As novas gerações de pastores, oriundos de seminários teológicos tradicionais, seguem o mesmo modelo e, por conseguinte, estão comprometidas com a agenda fundamentalista. Os que destoam são tachados de hereges, liberais, lançados na fogueira da nada santa inquisição cibernética. Discordar das lideranças tradicionais é pagar um alto preço. Mas existe uma parcela do segmento evangélico disposta a enfrentar essa realidade. Em tempos de mobilização das massas pelas redes sociais, há um movimento crescente de líderes e pensadores cristãos que tem abandonado o fundamentalismo estéril e abraçado um evangelho mais engajado e comprometido com as transformações sociais.

Hermes Fernandes sugere que as igrejas redescubram sua vocação primordial, que é “o exercício da misericórdia e a proclamação da justiça”. Para ele, é preciso parar de policiar corpos e atitudes morais, e anunciar um novo tempo em que a miséria e as desigualdades sociais sejam combatidas.

Carta Capital

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Teólogos e pastores reagem a apoio evangélico a Bolsonaro

Cristão contra Bolsonaro

A “Carta Pastoral à Nação Brasileira” é uma resposta a movimentos neopentecostais que se aproximam do candidato do PSL.

Em reação ao apoio de lideranças e movimentos evangélicos a Jair Bolsonaro, um grupo de teólogos, pastores e estudiosos da religião lançaram a “Carta Pastoral à Nação Brasileira”. Organizado por 88 religiosos, o documento reúne até o momento 425 assinaturas, mas os idealizadores esperam congregar mil nomes no abaixo-assinado nas próximas horas.

Em 12 tópicos, o grupo repudia qualquer “pretensão de haver um governo exercido em nome de Deus, bem como toda aspiração autoritária e antidemocrática”. O documento também denuncia a instrumentalização da religião para fins políticos e defende o Estado laico e das liberdades individuais. O nome da coligação de Bolsonaro é “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

No terceiro ponto, o texto convida os evangélicos a exercer sua cidadania escolhendo seus candidatos pelo alinhamento deles com os valores do Reino de Deus. E “evidenciados na defesa dos mais pobres e dos menos favorecidos, na crítica a toda forma de injustiça e violência, na denúncia das desigualdades econômicas e sociais, no acolhimento aos vulneráveis, na tolerância com o diferente, no cuidado com os encarcerados, na responsabilidade com a criação de Deus, e na promoção de ações de justiça e de paz”.

A carta é uma resposta a um movimento de apoio ao candidato do PSL de neopentecostais que integram a Confederação dos Conselhos dos Bispos do Brasil. Uma análise da pesquisa do Ibope de 11 de setembro feita pelo cientista político Oswaldo E. Do Amaral, do Observatório das Eleições, aponta que ser evangélico amplia em cerca de 65% a chance de um eleitor optar pelo ex-militar quando comparado a um católico.

Leia a íntegra do documento aqui abaixo ou acesse este link!

Carta Capital

“Estamos assistindo a uma espécie de revanche das elites”

Xavier Jean Marie Plassat

O dominicano Xavier Plassat, um dos líderes da luta contra o trabalho escravo na Comissão Pastoral da Terra, fala sobre o governo Temer. Artigo e de propriedade da Carta Capital.

O jovem estudante de Sciences Po de Paris – que tinha um pôster de Marighella em seu quarto – tornou-se dominicano, apoiou o atormentado frei Tito de Alencar no seu último ano de vida no convento francês e, depois de repatriar o corpo do amigo, em 1983, resolveu instalar-se no Brasil e pôr em prática as ideias da Teologia da Libertação na opção preferencial pelos pobres.

Depois de quase 30 anos de vida no interior do Pará e Tocantins, Xavier Plassat, de 67 anos, é atualmente o coordenador da campanha nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) contra o trabalho escravo.

Ele veio a Paris para a missa de corpo presente do dominicano Henri des Roziers, jurista que dedicou os últimos 40 anos de sua vida à defesa dos camponeses em processos que visavam punir os responsáveis pelo assassinato de líderes sindicais rurais em diversas localidades do Pará, onde morou.

Foi jurado de morte por fazendeiros e passou os últimos dez anos no Brasil sob proteção policial. Em 2013, depois de um AVC, voltou para Paris, onde morreu dia 26 de novembro. Na missa, cobriam o caixão as bandeiras do MST e da CPT.

CartaCapital: Qual é a situação atual no Brasil?
Xavier Plassat: Caótica. Estamos assistindo a uma espécie de revanche das elites que engoliram sapos durante os anos Lula e um pouco menos no governo Dilma. Eles agora tentam cuspir os sapos. Muitos direitos adquiridos, avanços sociais que foram construídos nesses anos foram desfeitos da maneira mais brutal, mais antidemocrática e, às vezes, da maneira mais inábil, o que nos favorece. Há algumas medidas que foram tomadas e que são tiros no pé.

CartaCapital: Quais?
Xavier Plassat: Particularmente, no setor que acompanho de perto, o direito do trabalho e a luta contra o trabalho escravo. No direito do trabalho, pretende-se pegar todas as decisões do TST e verificar quais foram desfavoráveis aos patrões e fazer com que a lei permita que todas as violações condenadas por essas decisões se tornem legítimas, legais.
É a reforma do direito do trabalho. Ela foi em grande parte votada e já carrega uma enorme mala de maldades, mas há ainda uma parte não votada, que por ora foi posta de lado por ser odiosa e escandalosa demais.
Como as regras que dizem respeito ao trabalho rural. A reforma das leis trabalhistas começou a ser aplicada há poucos dias, mas já temos sinais de seus efeitos nefastos na redução de 90% das ações dos assalariados na Justiça do Trabalho por queixas de violações.

CartaCapital: Por que elas diminuíram?
Xavier Plassat: Porque a nova lei prevê que, se você entra com ação na Justiça do Trabalho e perde, tem de pagar as custas. É uma violência contra os mais pobres, que não vão mais recorrer à Justiça para defender seus direitos quando se sentirem lesados.
Sobre a lei que vai reformar os direitos dos trabalhadores rurais, é importante lembrar que em 1988 a nova Constituição deu os mesmos direitos aos trabalhadores rurais e urbanos. A nova lei rompe essa equivalência e vai considerar normal o que até agora era condição degradante de trabalho.

CartaCapital: Por exemplo?
Xavier Plassat: Num lugar isolado, montanhoso da zona rural, com mais de 15 trabalhadores, o patrão não é mais obrigado a dar água potável, nem toaletes, tampouco dar o tempo para o trabalhador comer sentado à mesa. Na lei aprovada em 2003, que fazia do Brasil um dos países mais modernos do mundo, era considerada trabalho escravo “a imposição de condições degradantes”.
Se agora as condições degradantes não são mais consideradas desta maneira… Para piorar, uma portaria do Ministério do Trabalho [atualmente suspensa pela Justiça] diz que a definição do trabalho escravo não é mais a da lei. Para que o trabalho seja considerado escravo, é preciso que violações sejam acompanhadas por uma violência brutal e, praticamente, de prisão domiciliar. Assim, o crime de prisão domiciliar é assemelhado ao crime de trabalho escravo.
Dessa forma, só seria considerado escravo quem estivesse com amarras, impedido de ir e vir. É uma grande confusão, uma grande mentira histórica, jurídica e teórica considerar a escravidão como a proibição de ir e vir. Como diz muito claramente o papa Francisco, a escravidão é tratar alguém como coisa.

CartaCapital: No que consiste seu trabalho como coordenador da campanha nacional da Comissão Pastoral da Terra contra o trabalho escravo?
Xavier Plassat: A CPT faz uma campanha para alertar os trabalhadores e acolhe os que fogem de situações de escravidão. Trabalhamos para que o Estado adote programas sociais e políticas públicas que vão às raízes do problema porque sabemos que, apesar de termos libertado 52 mil escravos desde 1995, ainda não erradicamos a escravidão. Nosso trabalho não é apenas de misericórdia e escuta. É um trabalho em profundidade. Acabamos de lançar um novo programa, o “Rede de Ação Integrada para Combater a Escravidão”.
Conclamamos à ação as instituições que têm algo a fazer. Construímos uma espécie de rede local entre as regiões para que os trabalhadores que estão em risco de escravidão ou que acabam de ser libertados não voltem a cair nela. Trabalhamos para que ações públicas possam ser exercidas sobre populações que tentamos definir da maneira mais precisa, ou seja, as que estão em situação de grande vulnerabilidade.

CartaCapital: O que representa a morte de frei Henri des Roziers para o Movimento dos Sem-Terra?
Xavier Plassat: Sua morte é um grande luto, mas não inesperado. Sabíamos que sua saúde era frágil, mas ele ainda irradiava de tal forma uma forte presença com sua palavra, sua escuta, as visitas que muitos faziam a Paris e depois levavam notícias ao Brasil. Mas ele deixou intacta sua memória junto aos que com ele trabalharam.
Henri representou uma luz, mais ainda nessa noite escura que está descendo sobre nós depois do golpe. Jovens advogados, centenas de militantes, funcionários do Estado em nível federal e regional conviveram com Henri e muitas vezes foram alvo do fogo de sua cólera sagrada. Esses aprenderam a mudar de atitude e ver o que é importante.
Penso, por exemplo, no juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas: na missa de corpo presente, em Paris, informou que foi Henri quem lhe revelou a existência de trabalho escravo. Imagine… O juiz do Trabalho de Marabá, Jônatas, que se dedicou à luta contra o trabalho escravo, fez uma viagem a Paris e escreveu ter ficado com a impressão de estar ouvindo o papa Francisco quando Henri falava.
Penso nos procuradores do Trabalho, que organizaram uma homenagem a Henri, alguns anos atrás. Muitos inspetores do Trabalho aprenderam a trabalhar com a CPT, com Henri. Nós todos aprendemos a trabalhar com ele. Era um advogado de pés descalços a viver no meio de quem defendia. E ele sabia mobilizá-los porque o direito se conquista.

CartaCapital: O presidente da Corte Inter-americana de Direitos Humanos, Roberto Figueiredo Caldas, disse na missa que o Brasil tem uma excelente legislação para o controle do trabalho escravo.
Xavier Plassat: Ela é, de fato, muito avançada sob muitos aspectos, tem uma definição clara e contemporânea da escravidão, quatro tipos de ações que caracterizam a escravidão e uma delas é suficiente para caracterizar o trabalho escravo.

CartaCapital: A lei não mudou com o golpe?
Xavier Plassat: Não. Há anos o grupo de deputados que representa os grandes proprietários de terra e as grandes empresas de construção propunha projetos de lei que não conseguia aprovar. Foi por isso que o ministro do Trabalho assinou uma portaria há um mês e meio para impor o que a lei não prevê.
Despertou a indignação da Inspeção do Trabalho do próprio ministério, a oposição do Ministério Público Federal que lhe impôs o adiamento dessa portaria. A própria presidente do STF suspendeu-a dizendo que ela é ilegal e inconstitucional.

CartaCapital: A publicação da lista negra dos maus patrões é eficaz?
Xavier Plassat: No Brasil, ela se chama lista suja, publicada para o mercado e para a sociedade. Ela traz o nome dos empregadores que foram pegos com escravos em suas propriedades. É isso que os setores mais arcaicos querem impedir.

CartaCapital: O senhor deu números de trabalhadores libertados da escravidão. A situação melhorou desde que o senhor chegou ao Brasil?
Xavier Plassat: Diria que melhorou em termos de aceitação e aplicação dessa política de controle da escravidão. Mas de uma maneira contraditória porque hoje os golpistas estão fazendo um esforço enorme para abolir a legislação em vigor e dificultar ao máximo o trabalho dos inspetores. Esse é o sentido da portaria do ministro.
Para caracterizar o trabalho escravo, seria preciso que um policial o definisse como tal. Isso é contrário a todas as convenções da Organização Internacional do Trabalho. Mas a gente fez progressos porque o número de pessoas que encontramos em situação de escravidão foi reduzido de oito anos para cá.

CartaCapital: Isto é uma diminuição real ou a modificação das estratégias tornou essa situação menos visível?
Xavier Plassat: O trabalho escravo é o tipo de crime invisível, como os ataques sexuais. Difícil de provar, difícil de ver. É necessário, pois, fazer todo um trabalho de educação, de sensibilização. É preciso falar do trabalho escravo.

CartaCapital: O PT governou o Brasil durante 13 anos. Por que os governos Lula e Dilma não enfrentaram com o necessário empenho o problema da reforma agrária?
Xavier Plassat: Foi uma espécie de pacto das elites, sorrateiramente selado em nome do exercício e da manutenção do poder. Eleger um presidente como Lula não era impossível, mas ele sabia desde o início que não teria no Congresso os votos suficientes para governar.
Então, ele fez acordos contraditórios com esse pântano brasileiro que representa, provavelmente, 60% do Congresso e que vota a favor de quem dá mais, como num leilão.
Lula não fez a reforma tributária, a reforma fiscal nem a reforma agrária. Ele conseguiu canalizar muito mais recursos para os mais pobres, diminuiu a miséria, mas não reduziu os abusos das classes privilegiadas.

CartaCapital: Como o senhor vê o futuro da Igreja Católica no mundo?
Xavier Plassat: No mundo não sei, mas me preocupa verificar que mais do que nunca a religião é um instrumento do poder. É o caso do Brasil. Instrumentalizam as religiões para entorpecer a população, para oprimir, impor códigos morais inaceitáveis. Vemos com preocupação o avanço carismático na Igreja Católica ou entre os evangélicos.

CartaCapital: Quando o senhor entrou em contato com a Teologia da Libertação?
Xavier Plassat: Quando tinha 15 ou 16 anos, li um livro, A Igreja no Momento Latino-Americano, de François Outart e E. Pin. O livro relata as primeiras experiências das Comunidades Eclesiais de Base. Foi um pouco depois do Concílio Vaticano II. Este livro me impressionou. Na época, eu tinha um amigo cujo tio havia trabalhado no Brasil e me falava dessa terra distante.
Por outro lado, eu militava na Juventude Estudantil Católica e pude constatar a proximidade entre os objetivos da JEC e a Teologia da Libertação, uma experiência que visa integrar a vida real com a fé, fazer da esperança cristã uma coisa concreta, bíblica, na transformação da sociedade.
Esse é o modo de ação da JEC. Depois do movimento de maio de 1968, na França, aprofundamos isso nos apropriando de alguns dados do marxismo. Foi assim que fui educado na fé cristã.

CartaCapital: E o senhor decidiu ser dominicano bem depois?
Xavier Plassat: Sim. Tinha ideia de ser padre, mas afastava essa tentação. Só via ao redor de mim padres que não viviam nada disso, exceto o capelão da JEC. Encontrei o primeiro dominicano com 16 anos, pouco antes do vestibular.
Pensei, “eis uma maneira aberta, democrática, livre, inteligente de ser padre, de não ser prisioneiro, tampouco uma espécie de funcionário público da Igreja”. Temos uma gama de ações possíveis, estudamos, vivemos em comunidade, é democrático. Mas antes fiz meus estudos e só entrei na ordem dominicana depois de fazer o Instituto de Ciências Políticas (Sciences Po).

CartaCapital: Após a eleição do papa Francisco, a Igreja brasileira mudou no sentido de maior abertura para a Teologia da Libertação e sua clara opção pelos pobres?
Xavier Plassat: A Igreja é um imenso navio que se move lentamente. O problema é que a tripulação deste navio se formou no período anterior a Francisco. Os clérigos da Igreja brasileira cursaram uma escola cujos bispos foram nomeados por pontífices anteriores.
Um bom número deles, não todos, adotou uma linha mais distante do que próxima do Concílio Vaticano II. Ter um novo papa que evoca o Concílio não significa que a tripulação mude a rota. O barco hesita. Sinto que há um pouco de resistência. O papa sempre repete: “Quero uma Igreja que saia. Saiam das sacristias, dos quatro muros das igrejas, a verdadeira Igreja é o mundo”. Isso incomoda.
Eu trabalho numa paróquia há cinco anos, em Aragominas, no interior do Tocantins. Os fiéis são pessoas muito simples, camponeses assentados. Quando usamos as palavras do papa, eles entendem. A resistência pode vir dos que têm coisas a perder, como poder e reconhecimento.

CartaCapital: O Conselho Indígena Missionário, criado, como a CPT, pelo dominicano dom Tomás Balduíno e por dom Pedro Casaldáliga, tem condições de proteger os índios brasileiros tão ameaçados por toda espécie de agressão?
Xavier Plassat: É como perguntar se Davi tem como se defender de Golias. É a mesma coisa para os camponeses, para a CPT, para os escravos. Hoje, o Cimi está realmente só. Se não fosse o Ministério Público Federal… A procuradora federal dos direitos dos cidadãos é Deborah Duprat, grande defensora dos direitos indígenas, e mesmo Raquel Dodge é uma especialista da luta contra o trabalho escravo. Mas as iniciativas desde que Temer assumiu são desastrosas para os índios. A Funai não defende mais os índios, o Cimi está mais sozinho que nunca.

Fonte: Entrevista e texto de Leneide Duarte-Plon, publicado por Carta Capital, 01/01/2018.

Governo temerário traz a fome de volta

Fome

É preciso resistir mais que nunca e lutar para impedir os retrocessos. A maioria da população só tem a perder com o arranjo político em exercício

Por Nathalie Beghin e Iara Pietricovsky*

As Nações Unidas abrigaram recentemente em Nova York uma reunião de alto nível para discutir o progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Um dos temas em discussão foi o Objetivo 2, batizado de Fome Zero, inspirado na bem-sucedida experiência brasileira de eliminar a fome, atestada pela FAO em 2014.

Note-se a relevância que o Brasil já teve no cenário internacional, pois suas políticas públicas foram capazes de influenciar um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, assinada em 2015 por 193 países.

Em função desse debate global, começou a circular a informação de que o Brasil estava retrocedendo em um dos objetivos, o de erradicar a fome, pois a insegurança alimentar e nutricional voltou a assombrar o país.

Dados oficiais revelam que a pobreza vem recrudescendo. Segundo o IBGE, 9,2% de famílias tinham em 2015 rendimento per capita inferior a um quarto de salário-mínimo, um dos indicadores de medição da fome. Em 2014, essa proporção era de 7,9%, o que corresponde a um aumento de 16% em apenas um ano.

Como a redução da pobreza no Brasil nos últimos anos esteve fortemente atrelada à melhora real dos rendimentos das famílias, que vêm caindo desde 2014, a chaga da miséria se torna novamente uma questão em nosso país. O Banco Mundial diz a mesma coisa. Em estudo publicado recentemente, o Banco calcula que o número de pessoas vivendo na pobreza extrema no Brasil deverá aumentar entre 2,5 milhões e 3,6 milhões até o final de 2017.

Organizações da sociedade civil vêm produzindo dados na mesma direção. A Fundação Abrinq lançou relatório que evidencia que cerca de 6 milhões de crianças vivem atualmente na pobreza extrema, o que equivale a toda a população da cidade do Rio de Janeiro. Já a Oxfam Brasil nos informa que apenas 6 homens brancos detém renda equivalente à metade mais pobre da população brasileira, que equivale a 100 milhões de pessoas!

Apesar de evidências indiscutíveis, pois produzidas por entidades idôneas, o governo em exercício no Brasil tem a ousadia de afirmar que está tudo bem. Em relatório elaborado por conta da reunião de Nova York acima mencionada, o presidente da República chega a afirmar que tal relatório “constitui, também, exercício de prestação de contas, em primeiro lugar perante a sociedade brasileira, das medidas que nosso governo vem adotando em nome de um país mais próspero e justo, com oportunidades para todos – até mesmo para as gerações futuras”. A pergunta que não quer calar é: como o aumento da fome e da miséria pode ser resultado de medidas inclusivas e justas?

A afirmação do Temer no relatório brasileiro revela que o atual governo se mostra insensível ao aumento da pobreza e da fome, bem como da destruição dos recursos naturais do país. O Inesc vem mostrando, por meio de uma série de notas e textos, que todas as medidas implementadas nos últimos meses com o pretexto de “combater a crise” afetam, única e exclusivamente, os que menos têm.

Estamos nos referindo à emenda constitucional que congela os gastos públicos por 20 anos e que irá diminuir em termos reais os recursos disponíveis para saúde, educação, assistência social e segurança alimentar e nutricional, entre outros; aos cortes orçamentários que afetam proporcionalmente mais as políticas voltadas para os mais vulneráveis; à reforma trabalhista que resulta na precarização das relações de trabalho e na diminuição da renda dos trabalhadores e das trabalhadoras; à implementação de parcerias público-privadas que contribuem para enfraquecer ainda mais o combalido Estado e sua capacidade de promover políticas de combate às desigualdades, fome e pobreza além de constituírem-se em mecanismos de corrupção; à reforma da Previdência que penaliza a base da pirâmide e, especialmente mulheres e negros.

Especialistas como Luciana Jaccoud do Ipea mostram que a reforma da Previdência Social irá excluir 44% das mulheres urbanas ocupadas da aposentadoria, além de aumentar as desigualdades entre homens e mulheres, e de elevar a desproteção no campo. Estima-se que essa exclusão afete entre 60% e 80% dos que se aposentariam.

Temos ainda as medidas de flexibilização das leis ambientais, que impactarão os povos indígenas e os povos e comunidades tradicionais; a reforma ministerial que ceifou a institucionalidade voltada para os excluídos (agricultores familiares com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário; mulheres com a extinção da Secretaria de Políticas para as Mulheres; negros com a extinção da Secretaria de Igualdade Racial; povos indígenas com o esvaziamento da FUNAI); e o aumento de impostos indiretos (PIS e Cofins nos combustíveis) que agrava a regressividade da carga tributária fazendo com que os mais pobres paguem proporcionalmente mais.

A extorsão dos mais vulneráveis somam-se às benesses concedidas aos mais ricos: o direito de invadir terras indígenas e florestas para expansão do agronegócio e das mineradoras; o perdão de dívidas de grandes empresas; a privatização de serviços públicos que abre novos mercados para o setor privado; e a implementação de parcerias público-privadas que transformam a infraestrutura, em todos os níveis federativos, na nova fronteira de acumulação e lucratividade para investidores nacionais e estrangeiros.

Enfim, eliminam-se os obstáculos (institucionais, sociais, ambientais, culturais e trabalhistas) que possam postergar ou afetar a rentabilidade esperada pelo setor empresarial.

Na lógica dos governantes de plantão, comprovadamente corruptos, pouco importa a volta da fome, já que conseguem, mesmo sem voto e sem popularidade, a façanha de assegurar o enriquecimento das elites. Não há qualquer interesse, nem vontade política, de caminhar na direção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Por isso é preciso resistir mais que nunca, e lutar para impedir os retrocessos porque a grande maioria da população brasileira só tem a perder com esse arranjo político em exercício.

Nós – ONGs, movimentos sociais e ativistas do campo democrático e popular – temos a obrigação legal e moral de denunciar diuturnamente as violações de direitos humanos perpetuadas por esse governo temerário. Temos um longo caminho pela frente, mas a causa é justa e é isso que mantém nossa chama viva!

* Nathalie Beghin e Iara Pietricovsky são integrantes do Instituto de Estudos Socioeconômicos/INESC e do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Fonte: Carta Capital

Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?

Livro - Brasil em jogo o que fica da Copa e das Olimpíadas

Em meio a um crescente número de manifestações e um intenso debate sobre os impactos da Copa do Mundo em nossas cidades, a Boitempo Editorial amplia o debate ao lançar em junho a coletânea Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, editada no calor da hora, com contribuições diversas, como o jornalista investigativo escocês, Andrew Jennings; o secretário executivo do Ministério do Esporte, Luis Fernandes; a relatora especial da ONU, Raquel Rolnik; os urbanistas Ermínia Maricato (USP) e Carlos Vainer (UFRJ); o jornalista Juca Kfouri (quarta capa), entre outros. Para tornar o livro acessível ao maior número de pessoas, autores cederam seus textos, possibilitando que o volume chegue ao mercado a preço de custo (R$ 10,00).

Os megaeventos esportivos globais despertam, ao mesmo tempo, paixões e desconfianças. Um dos grandes méritos de Brasil em jogo é trazer argumentos dos dois lados em um embate de ideias que só tem a enriquecer o leitor. Assim, o livro apresenta perspectivas variadas sobre o papel do esporte na sociedade brasileira e na construção da identidade nacional, os impactos urbanísticos e as transformações dos megaeventos esportivos ao longo da história. A coletânea conta ainda com uma cronologia detalhada sobre os megaeventos esportivos, desde a origem até os tempos atuais.

O livro

Ter um olhar crítico sobre os megaeventos no Brasil não é patriótico nem antipatriótico. É apenas o necessário olhar crítico.
Juca Kfouri

Ao conquistar o direito de sediar a Copa do Mundo 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016, o Brasil aceitou o desafio de realizar dois megaeventos esportivos globais, que despertam, ao mesmo tempo, paixões e desconfianças. Há argumentos que defendem os eventos como uma janela singular e histórica de oportunidades, mas, longe do consenso, também surgem críticas que consideram tais projetos excludentes, potencializadores da desigualdade social nas cidades-sede e do endividamento público.

A polêmica abre espaço para um amplo debate sobre o que significa para o Brasil sediar os megaeventos esportivos mais simbólicos do mundo na atual conjuntura política, econômica e social. É nesse sentido que a Boitempo Editorial publica a coletânea Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, editada no calor da hora, com contribuições de Andrew Jennings, Luis Fernandes, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Carlos Vainer, Jorge Luiz Souto Maior, José Sergio Leite Lopes, Nelma Gusmão de Oliveira, Antonio Lassance, Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, João Sette Whitaker (apresentação) e Juca Kfouri e Gilberto Maringoni (quarta capa). O livro de intervenção chega às livrarias às vésperas da abertura da Copa do Mundo, na primeira semana de junho e traz perspectivas variadas sobre o papel contraditório do esporte na sociedade brasileira e na construção da identidade nacional, os impactos urbanísticos e as transformações dos megaeventos esportivos ao longo da história. A coletânea traz ainda uma cronologia detalhada sobre os megaeventos esportivos, desde a origem até os tempos atuais.

Brasil em jogo é o terceiro título lançado na já consolidada coleção Tinta Vermelha, publicada em parceria com o portal Carta Maior.  A obra segue a linha de Cidades rebeldes: passe livre a as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (2013), com o mesmo formato e preço (R$10,00 o impresso, R$5,00 o e-book). Para tornar o livro acessível ao maior número de pessoas, autores cederam gratuitamente seus textos e fotógrafos abriram mão do pagamento por suas imagens, possibilitando, assim, à editora colocar o volume no mercado a preço de custo. A proposta tem dado certo: em menos de um ano desde a publicação da primeira tiragem, venderam-se mais de 20 mil exemplares de Cidades rebeldes.

Por ocasião do lançamento de Brasil em jogo, a Boitempo promoverá debates em São Paulo e no Rio de Janeiro, na segunda-feira, 9 de junho de 2014. Em São Paulo, Raquel Rolnik, Jorge Luiz Souto Maior, João Sette Whitaker e Guilherme Boulos (MTST) se reunirão no Anfiteatro de História da FFLCH/USP. No Rio de Janeiro, Jose Sérgio Leite Lopes, Carlos Vainer, Nelma Gusmão de Oliveira e um representante do MTST se encontrarão no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ. Ambas atividades são gratuitas e acontecerão simultaneamente, às 18h.

Com a colaboração dos autores deste livro e de outros que fazem parte do catálogo da editora, a Boitempo seguirá, até o final da Copa, alimentando a reflexão no Blog da Boitempo, em uma seção especial disponível em: http://blogdaboitempo.com.br.

Ficha técnica

  • Título: Brasil em jogo
  • Subtítulo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?
  • Autores: Vários
  • Páginas: 96
  • Preço: R$ 10,00 | Ebook: R$ 5,00
  • Ano: 2014
  • Coedição: Boitempo e Carta Maior

Mais informações:

De Bonner para Homer

De Bonner para Home

O texto abaixo foi escrito pelo sociólogo e professor da USP, Laurindo Lalo Leal Filho, e publicado na revista Carta Capital em dezembro de 2005. Foi publicado na página do Anonymous Brasil em 22/01/2013 e resolvi publicar no blog pela sua relevância cultural a sociedade!

O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador padrão do Jornal Nacional. Ele é preguiçoso, burro e passa o tempo no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. Na reunião matinal, é Bonner quem decide o que vai ou não para o ar Pauta. A decisão do juiz Livingsthon Machado, de soltar presos, é considerada coisa de louco.

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão. Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.

A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático bom-dia, Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. Essa o Homer não vai entender , diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.

Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos atender ao Homer, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas praças (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela praça de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da oferta jornalística informa que a empresa venezuelana, que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível para serem vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano. Uma notícia de impacto social e político. O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela praça de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. Esse juiz é um louco, chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência. Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês matéria oferecida por São Paulo , o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS , ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública. Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global. Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo.

Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/laurindo_lalo_leal_filho.

 

A Apple vai sobreviver sem Steve Jobs?

Steve Jobs, fundador da Apple e considerado o maior gênio do mundo da tecnologia atual, morreu nesta quarta-feira (5). A empresa colocou uma foto do executivo e a inscrição “1955-2011″ em seu site. Ele vinha lutando contra um tipo raro de câncer de pâncreas nos últimos anos e deixara a presidência da companhia em agosto para se tratar.

Este foi o comunicado oficial da empresa em seu site: “A Apple perdeu um gênio criativo e visionário, e o mundo perdeu um ser humano incrível. Aqueles que tiveram a sorte de trabalhar com Steve perderam um querido amigo e um mentor inspirador. Steve deixou para trás uma companhia que só ele poderia ter construído e seue espírito será sempre a base da Apple”.

Vocação para as ideias e para os negócios

Jobs foi um dos muitos executivos que cresceram  no Vale do Silício, região da Califórnia famosa pelas empresas de tecnologia de ponta. Ele fundou a Apple em 1976 com os amigos Ron Wayne e Steve Wozniak – ele projetou um computador pessoal na garagem da casa de seus pais. Quatro anos depois, a empresa abriu seu capital para investidores.

A revolução dos computadores pessoais dos anos 1980 teve a participação da Apple e de Jobs. Em 1984, ele apresentou o McIntosh. Nos anos seguintes, as vendas de computadores explodiu por todos os Estados Unidos.

Jobs deixou a Apple após problemas de relaciomento com os sócios em 1985 e viu a empresa começar a afundar. Onze anos depois, volta à direção da companhia e foca no lançamento de produtos com desenho simples, eficientes e de fácil utilização. Adotou a estratégia de fazer lançamentos de produtos de maneira bombástica, como um show. Lançou o ipod em 2001, o iphone em 2007 e o ipad em 2009, produtos que passaram a servir de inspiração para muitos concorrentes.

Jobs também foi fundador da Pixar, principal produtora de animações do mundo. A Apple vai sobreviver sem Steve Jobs? Deixe seu comentário abaixo.

Venham todos ocupar Wall Street, pede Michael Moore

A manifestação “Ocupar Wall Street” chega ao décimo dia ignorada pela grande imprensa e cada vez mais “gritante” na mídia alternativa e blogs. As milhares de pessoas permanecem acampadas no local, enfrentando policiais cada vez mais violentos.

Lawrence O´Donnel, apresentador de uma emissora de TV alternativa, mostra em seu programa “The last World” a cena de um jovem sendo agredido. Ele questiona: “Por que os policiais estão batendo neste rapaz?”

Em seguida, Lawrence reapresenta a mesma cena em câmera lenta e explica: “Os policiais estão batendo no jovem porque ele está armado com uma câmera de vídeo”. Outra cena do programa mostra duas mulheres gritando muito após terem sido atingidas por spray de pimenta. Lawrence condena a brutalidade: “As pessoas são inocentes, pacíficas, não podem ser agredidas nem presas”.

O que causa espanto ainda maior, acrescenta o jornalista, é a falta de reação de quem assiste ao espetáculo de horror de braços cruzados. “Ninguém faz nada a favor dessas pessoas”, denuncia, afirmando que a violência policial contraria a lei, é crime. Diz ainda que a ação policial tem uma explicação: o governo sabe que a manifestação não terminará enquanto a população nas ruas não for ouvida.

Um internauta posta o programa de Lawrence no Youtube e pede: “Por favor, transformem isto num viral”, explicando que tem poucas linhas para expressar o horror que está ocorrendo nas ruas. Ele assina “moodyblueCDN” na postagem.

Abaixo do vídeo, segue o comentário: “E aqui vamos nós aos bastidores de Matrix”, comparando a bem engendrada política imperialista ao enredo do filme de ficção científica, no qual os personagens têm os destinos traçados por máquinas e só podem romper esse circuito de manipulação quando surgir o salvador.

Outro vídeo da internet mostra os jovens e sua demanda: “quem for honesto nos dará apoio, quem for heróico se juntará a nós”.

Lucas Vazquez está entre os jovens de Wall Street, é um dos organizadores do protesto, segundo um vídeo. Ele dá uma declaração tranqüila, mostrando-se surpreso com a reação dos policiais.

Os dez dias de protestos já deram origem a um documentário, O verão da Mudança (Summer of Change), de Velcrow Ripper. Ripper navega na praia hippie dos anos 1960 ao propor: “Como esta crise global pode se transformar em uma história de amor?”. O documentário foi produzido pelaEvolve Love.

Jovens, desobedeçam

Só a teimosia de quem gritou que algo estava errado no mundo, como a poetisa Ingrid Jonker na África do Sul do apartheid, permite enterrar velhas ideologias. Por Matheus Pichonelli

O grupo entra na sala de aula para uma prova e nem imagina que os outros colegas da classe são, na verdade, atores contratados para um estudo científico. A prova começa e, alguns minutos depois, alguém de fora grita que o prédio está pegando fogo. Os atores fingem que nada acontece e permanecem no local. A exemplo dos colegas, as “cobaias” não se movem: estão contaminadas pelo clima de que nada de grave está acontecendo.

Em outra situação, com outras “cobaias”, o mesmo grito de “fogo” é ouvido. Desta vez, os atores entram em pânico, que logo contamina os não-atores. E todos abandonam seus lápis e saem correndo. Nos dois casos, a inércia só fora quebrada (ou não) por um grito de alerta anterior.

Foi lembrando dessa pesquisa, sobre “comportamento de manada” e relatada nos tempos da faculdade, que deixei, na quarta-feira 28, a sessão de “Borboletas Negras”, cinebiografia da poetisa sul-africana Ingrid Jonker dirigida por Paula van Oest. O filme tem como pano de fundo a África do Sul dos anos 1960, época em que os absurdos do Apartheid eram ainda ofuscados pela calmaria vendida por quem tentava manter a ordem vigente. Ainda que a ordem vigente fosse separar brancos de negros, e manter estes à míngua (e à distância) de toda sorte de direitos.

Logo nas cenas iniciais, Paula van Oest leva longos segundos para filmar o movimento das ondas, numa praia da Cidade do Cabo, que são quebradas pelo vento em direção ao Oceano. Nessas águas, Ingrid (personagem de Carice van Houten) fica presa entre a corrente e a contracorrente. Sob risco, ela é socorrida pelo também escritor Jack Cope (Liam Cunningham). Ele passava pela praia, resolve ajudar a desconhecida e impede o seu afogamento. “Não adianta nadar contra a corrente”, alertou em seguida o escritor, com quem a poetisa viveria um longo e tortuoso romance.

Na África do Sul, negros tinham circulação restrita a áreas pobres e abandonadasSe tivesse seguido o alerta, na vida e na obra, talvez Ingrid Jonker não tivesse sido lembrada por Nelson Mandela, anos depois, como um dos símbolos da libertação de seu país. Para isso não foi necessário pegar em armas, mas romper, por meio da literatura, as amarras que a prendiam em seu próprio tempo. Para Ingrid Jonker, autora praticamente desconhecida no Brasil, este era um esforço duplo: seu pai, Abram Jonker, era um político africâner nacionalista que via a exclusão dos negros (para ele, seres inferiores) como algo natural. Era também responsável pelo departamento de censura do governo vigente. Escrever e influenciar o mundo não eram mais desafiadores para ela do que convencer o pai sobre os absurdos de sua época, da qual compactuava e reproduzia. Seu primeiro livro é dedicado ao pai, que a rejeita. Para ele, a filha era sua própria negação.

O intricado diálogo entre pai e filha deixa expostas as fraturas resultantes do embate entre uma geração que sai de cena, com seus velhos preconceitos e ideologias, e outra que tenta emergir – e cujas mudanças só vão se consolidar anos à frente. O combate, de um lado, é feito com qualquer pedaço de lápis que permita colocar para fora o fluxo de consciência por meio da poesia; de outro, é combatido pela lei, pelo silêncio ou pela censura. Isso na melhor das hipóteses: nas áreas reservadas aos negros, a violência explode com qualquer esboço de mudanças reivindicado pelos grupos recriminados.

Quando testemunha o assassinato de uma criança negra num bairro exclusivo para negros, Ingrid se dá conta de que aquela luta também era dela. O que a leva a escrever um de seus mais famosos poemas:

The child is not dead

The child lifts his fists against his mother

Who shouts Afrika ! shouts the breath

Of freedom and the veld

In the locations of the cordoned heart

São apenas palavras contra um país tomado por leis absurdas, que, como a contracorrente do início do filme, a afasta da terra firme. Mas se espalham feito rastilho de pólvora pelos guetos, grupos de intelectuais, e pessoas que começavam a perceber que, lá fora, alguém avisava que um prédio estava em chamas.

As consequências desse grito não são outras se não a tragédia provocada pelo rompimento não só histórico, mas também familiar e social. Drama que a empurra para a loucura.

Ingrid Jonker, no papel de Carice van Houten, vive romance atribulado com Jack Cope (Liam Cunningham)Influenciado pela história, baseada em fatos reais, lembrei também que, quando criança, fui escolhido como orador da formatura do meu pré-primário. Lembro até hoje do juramento, do alto dos seis anos de idade: “eu prometo ser honesto, honrar os mais velhos, cuidar dos mais novos” e uma série de blábláblá que meus colegas, como cordeirinhos, repetiam. Éramos crianças, mas já assumíamos o compromisso de que, acontecesse o que acontecesse, jamais romperíamos a ordem que nos acabava de ser entregue.

Era uma propagação gratuita, em escala industrial, da multiplicação de indivíduos dóceis, incapazes de sugerir ou encaminhar mudanças em seu próprio tempo e espaço. Tudo o que fosse contrário era desobediência ou rebeldia gratuita – que, 28 anos depois, me fazem pensar em quantas Ingrids Jonker sairiam daquela formatura caso não cumprissem à risca o juramento ou não fossem dopados, pelos pais, com remédios contra a hiperatividade.

Mesmo assim, se tudo der certo, os que tiveram coragem de apontar caminhos vão fazer com que, daqui a 50 anos, as pessoas estudem este tempo de absurdos em que potências ocidentais ajudavam a proliferar o terrorismo com o argumento de combate preventivo. Ou se debruçar para entender um tempo em que pessoas do mesmo sexo não tinham os mesmos direitos civis, de um tempo em que os próprios governos escolhiam os integrantes das Supremas Cortes, de um tempo em que só pobres iam para a cadeia e de um tempo em que as pessoas haviam perdido a modéstia ao defender em público a perpetuação de privilégios originados de um tempo de escravidão ancestral.

Um tempo em que tudo parecia certo porque tudo era vendido como natural. Porque tudo estava referendado pela ordem e pela lei.

Matheus Pichonelli, jormado em jornalismo e ciências sociais, é subeditor do site e repórter da revista CartaCapital desde maio de 2011. Escreve sobre política nacional, cinema e sociedade. Foi repórter do jornal Folha de S.Paulo e do portal iG. Em 2005, publicou o livro de contos ‘Diáspora’.

Na ONU, Dilma declara que redes sociais garantem transparência de governos

A presidenta Dilma, em Nova York desde o dia 18, fará discurso de abertura dos trabalhos da 66ª Assembleia Geral da ONU. Foto: Roberto Stuckert Filho/ PR

A presidenta Dilma Rousseff ressaltou hoje (20) a importância do acesso à internet e das redes sociais para a promoção de governos mais transparentes, durante o encontro do Governo Aberto, evento que ocorreu em paralelo à 66ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O grupo engloba 60 países que se comprometem a discutir e a executar políticas públicas transparentes. A partir dessa ação, os membros que integram o grupo pretendem colocar em prática medidas internas de transparência e prestação de contas.

Dilma defendeu que o uso das redes sociais é essencial para a promoção de governos mais acessíveis ao cidadão e para a melhoria dos serviços públicos como saúde, educação, infraestrutura e meio ambiente. “A internet e as redes sociais vêm desempenhando um papel cada vez mais importante para a mobilização cívica na vida política. Vimos o poder dessas ferramentas no despertar democrático dos países do Norte da África e do Oriente Médio sacudidos pela Primavera Árabe”.

Diante dos chefes de estado presentes no encontro, ela explicou que o Programa Nacional de Banda Larga vai solucionar o principal problema de acesso à rede que é o alto custo. A presidenta citou algumas experiências brasileiras para garantir o acesso às informações do governo como o Portal da Transparência, que publica na internet os gastos do governo, e o trabalho da Controladoria-Geral da União (CGU) no combate à corrupção.

Segundo ela, a divulgação desses dados na internet não permite apenas o acesso individual dos cidadãos, mas “trata-se também de assegurar a apresentação das contas, a fiscalização e a participação dos cidadãos, criando uma relação de mão dupla permanente entre governo e sociedade”. Dilma mencionou também que há uma “positiva vigilância da imprensa” que não é submetida a constrangimentos por parte do governo.

Fonte: Matéria originalmente publicada em Agência Brasil.