O rastro de mortos do desastre de Brumadinho

O rastro de mortos do desastre de Brumadinho [antes]O rastro de mortos do desastre de Brumadinho [depois]

Imagens de satélite registradas antes e depois do rompimento de uma barragem de rejeitos minerais perto da cidade de Brumadinho, Brasil, em 25 de janeiro de 2019 [Before: © CNES 2019 – Airbus DS; Source ESRI After: © 2019 Planet Labs]

Human Rights WatchO rompimento da barragem que matou 84 pessoas na semana passada representa a segunda tragédia do tipo em três anos, indicando falhas na supervisão por parte do Estado e uma necessidade urgente de reformas.

No dia 25 de janeiro, uma barragem de rejeitos minerais rompeu-se na cidade de Brumadinho, deixando 84 mortos e 276 desaparecidos, além de um dano ambiental catastrófico.

A cerca de 150 quilômetros de distância, uma barragem parecida rompeu-se em novembro de 2015 na cidade de Mariana, no que é considerado o pior desastre ambiental da história do Brasil. Um processo criminal pela perda de 19 vidas e danos ambientais massivos está em andamento.

A barragem de Mariana era da empresa Samarco, pertencente à anglo-australiana BHP Billiton e à brasileira Vale. A Vale também possui a barragem de Brumadinho.

Devido aos riscos claramente demonstrados pelo colapso da barragem de Mariana, as autoridades deveriam ter feito mais para prevenir que acidentes similares acontecessem. A ruptura da barragem de Brumadinho serve como uma trágica advertência da fragilidade da regulação e dos mecanismos de monitoramento.

Em 2018, a Agência Nacional de Águas (ANA) reportou que nem todas as barragens são oficialmente registradas e apenas 3 porcento das registradas foram fiscalizadas em 2017. A ANA identificou 45 barragens de maior risco. O fato de que Brumadinho não estava na lista levanta sérias dúvidas sobre como o Brasil monitora a segurança de suas barragens.

Para prevenir futuras tragédias, o Brasil deveria monitorar e garantir de forma efetiva que agentes públicos e privados respeitem os padrões regulatórios e ambientais. De acordo com os Princípios sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente, publicados no ano passado pelo relator da ONU sobre meio ambiente e direitos humanos, o Brasil também não deveria reduzir os níveis atuais de proteção ambiental e deveria adotar medidas sólidas para a proteção dos direitos humanos. 

Durante e após sua campanha eleitoral no ano passado, o presidente Jair Bolsonaro disse que licenciamento ambiental “atrapalha” projetos de infraestrutura e descreveu o Ibama, a principal agência federal encarregada da proteção do ambiente, como uma “indústria de multas”. Após assumirem os cargos, seu novo ministro do meio ambiente e o diretor do Ibama declararam que iriam acelerar o processo de licenciamento ambiental.

Após sobrevoar Brumadinho, Bolsonaro prometeu ajudar as vítimas, investigar o ocurrido, cobrar justiça e trabalhar para prevenir tragédias semelhantes. Isto requererá ações mais robustas para proteger o meio ambiente dos riscos representados por mineradoras e outras indústrias – uma mudança em relação às promessas de reduzir regulamentação feitas por Bolsonaro durante sua campanha.

Human Rights Watch

Até quando?

Imagem aérea de Brumadinho, MG, após o rompimento da barragem

Estamos novamente diante de uma tragédia de grande impacto ecossocial: mais uma barragem de rejeitos de mineradora que se rompe, deixa mortes e “terra arrasada” no caminho da lama, descendo como avalanche. Mais uma vez, em Minas Gerais. Mais uma vez, trata-se da Vale, a mesma empresa envolvida na ruptura de outra barragem que soterrou um povoado em Mariana, com mortes, e contaminou todo o Rio Doce. Isto três anos e pouco atrás. A gente nem sabe direito quantas “bombas” de rejeitos de mineradoras existem pelo Brasil afora, ameaçando vidas humanas, a integridade dos territórios e todas as formas de vida.

Nossa solidariedade imediata às famílias das vítimas atingidas diretamente – funcionários da própria Vale e moradores dos povoados de Brumadinho – não deve ter limites. Precisamos, também, nos somar a todos que clamam por justiça e reparação, a mais rápida possível. A irresponsabilidade não pode, mais uma vez, ficar impune e esquecida. Mas nada, absolutamente nada, vai repor as vidas perdidas e devolver a integridade daquele território.

Será que tragédias assim podem ser toleradas como “efeitos colaterais” do tal desenvolvimento? Desenvolvimento econômico, assentado numa lógica de crescimento na busca desenfreada por lucros a todo custo e acumulação capitalista, está longe de se preocupar com a vida e a integridade da natureza. As empresas não pensam sua responsabilidade de uma perspectiva ética. Limitam-se fundamentalmente a gerar dividendos aos seus acionistas, com olho em sua cotação na bolsa de valores. E governos se esforçam para não dificultar a vida das empresas, mesmo com a sociedade cobrando mais e mais responsabilidade social e ecológica, com governança adequada e com total transparência. Para completar, estamos numa conjuntura política de um novo governo disposto a afrouxar controles sociais e ambientais em nome de um anacrônico absolutismo do livre mercado.

Penso que se faz necessário esclarecer alguns pressupostos que considero fundamentais para melhor situar meus argumentos.  Viver é trocar com a natureza. Não há forma de vida sem tal troca, pois somos natureza nós mesmos. O que mudou e muito foi a nossa capacidade tecnológica na relação com a natureza para satisfazer as nossas necessidades e desejos. Com o desenvolvimento científico e tecnológico desvendamos segredos da dinâmica ecológica natural e aumentamos em muito a possibilidade de produzir bens. Mais, hoje temos capacidade de destruir e já ultrapassamos em muito alguns dos limites naturais que garantem a integridade de sistemas ecológicos essenciais à biosfera no planeta. Ao invés de nos pensarmos como parte da natureza e nós mesmos como parte essencial em sua evolução, como força ecossocial, temos uma concepção dominante do domínio e exploração, sem limites, levando à destruição. Pior, o modelo dominante da economia é gerar lucros e acumular, destruindo  natureza e concentrando a riqueza gerada. Até quando?

Os exemplos de ruptura com as possibilidades de suporte e regeneração da natureza são muitos. Nossa civilização atual, por exemplo, é movida por energia fóssil. Extraímos carvão, petróleo e gás para mover nossas economias e nosso bem estar. Mas estamos queimando num curto período da história da humanidade o que a natureza levou milhões de anos para produzir. Pior, estamos queimando e emitindo gases que estão levando à mudança climática, tragédia anunciada para logo ali, mas que teimamos em não ver. E existem os vazamentos de petróleo, sempre grandes tragédias. Aliás, do petróleo sai o plástico, hoje uma grande ameaça para a integridade do ciclo da água, vital para qualquer forma de vida. Mas dá para conceber a vida que levamos sem petróleo? Hoje, já sabemos que tecnologicamente existem alternativas, mas o problema é mais de responsabilidade ecossocial das empresas e de poder na sociedade.

O extrativismo é uma atividade essencial, mas pode ser praticado com responsabilidade, tanto na extração em si como nos impactos ecossociais. Destruir territórios e sua população não pode ser tratado como uma fatalidade, pois não é. É atividade de riscos, que devem e podem ser evitados. De forma nenhuma é aceitável o extrativismo desenfreado, sem as devidas análises e medidas para garantir resiliência ecossocial no território impactado. As empresas não podem ser tão irresponsáveis, sem transparência, pois o extrativismo está entre as atividades mais lucrativas, mas de grande potencial destrutivo. Mesmo não acontecendo desastres, a jazida de minério um dia acaba. Sobra somente o buraco da mina, com os rejeitos, para o território e a cidadania local.

Como cidadania, temos uma gigante tarefa pela frente de repensar o lugar do extrativismo em nossa economia e o tipo de responsabilidade ecossocial a cobrar das empresas envolvidas e do próprio governo na sua regulação. Está em jogo a integridade dos territórios e de suas populações locais, mas sobretudo o próprio futuro coletivo. Afinal, a tal riqueza natural uma vez extraída empobrece o território e gera um passivo nosso em relação a futuras gerações, que não a terão e, talvez, dela fariam um uso mais sustentável. O debate sobre tais questões ainda é dominantemente deixado para os diretamente atingidos. Precisamos transformar isto em questão de cidadania. Precisamos de outra relação na troca com a natureza, diferente do predatório extrativismo. Outra economia é possível, mas estamos longe de conseguir emplacar o próprio debate a respeito. Tarefa difícil, mas inadiável. Basta ter presente o consenso que há no Brasil, hoje, sobre a “salvação” que representa para o país o extrativismo das reservas de petróleo do pré-sal, por exemplo.

Cândido Grzybowski, sociólogo e presidente do Ibase.
Rio de Janeiro, 28/01/2019

As 10 multinacionais mais perigosas do mundo

As 10 multinacionais mais perigosas do mundo

Já não importa onde vivas, é impossível escapar da globalização. A única saída é informar-se para poder eleger com consciência antes de comprar.

Começar a cultivar e a fabricar teus alimentos, reduzir o consumo de petróleo e de seus derivados, reflorestar, comprar só o necessário, escutar a voz interior em vez da voz da publicidade… são alguns pequenos passos para escapar de grandes monstros. E recordar sempre que o poder de eleição está em nós; não vamos cair nas armadilhas que estão por aí!

Chevron

Várias das grandes companhias nessa lista; porém, a Chevron merece um lugar especial. Entre 1972 e 1993, a Chevron (na época, Texaco) verteu 18 bilhões de galões de água tóxica nos bosques tropicais do Equador, sem nenhum tipo de reparação, destruindo os meios de subsistência dos agricultores locais e enfermando as populações indígenas. A Chevron também contaminou, nos Estados Unidos, em 1998, Richmond (Califórnia), demandaram a Chevron por vertido ilegal sem passar por tratamentos de águas residuais, contaminando os subministros locais de água, idem em New Hampshire, em 2003.

A Chevron foi a responsável pela norte de vários nigerianos que protestaram contra a empresa por sua presença e exploração do delta nigeriano. A Chevron pagou a milícia local, conhecida por seus abusos contra os direitos humanos, para abafar os protestos e, inclusive, proporcionou-lhes helicópteros e barcos. Os militares abriram fogo contra os manifestantes e queimaram suas aldeias, sem deixar nenhum rastro de sua existência.

De Beers

Esta empresa não economiza em gastos e financia, apoia e cria autênticas guerrilhas e ditaduras do terror para poder continuar obtendo, mediante a exploração de crianças e adultos, a apreciada pedra preciosa. Em Botswana, a De Beers foi culpada pela “limpeza” da terra onde os diamantes são extraídos, incluindo o traslado forçado dos povos indígenas que haviam vivido ali durante milhares de anos. O governo, supostamente, cortou o subministro de água, os ameaçou, os torturou e enforcou publicamente aos que resistiram. Não deixemos de lado sua nula responsabilidade ambiental, seus nulos direitos trabalhistas, as vidas humanas e suas campanhas rançosas e machistas.

Phillip Morris

A Phillip Morris é a maior fabricante de cigarros dos Estados Unidos e do mundo. Sabe-se que causam câncer nos fumantes, bem como defeitos congênitos em crianças caso suas mães fumarem durante a gravidez. O fumo do cigarro contém 43 carcinogênicos conhecidos e mais de 4.000 substâncias químicas, incluindo monóxido de carbono, formaldeído, cianuro de hidrogênio amoníaco, nicotina e o arsênico. A nicotina, substância química, principal psicoativo no tabaco, tem demonstrado ser uma adição psicológica. Fumar aumenta a pressão arterial; afeta o sistema nervoso central e constrição dos vasos sanguíneos. As baganas de cigarro são um dos principais contaminantes que os fumantes lançam rotineiramente no solo; e isso se degrada lentamente. Muitos desses filtros se abrem na água ou no solo e seus produtos químicos se comportam como verdadeiras sanguessugas.

O tabaco não só contamina a terra durante seus extensos hectares de monocultivo, que são pulverizados com agrotóxicos, sua produção industrial contamina (são utilizadas enormes quantidades de papel, algodão, papelão, metal, combustíveis…), seu consumo contamina a atmosfera, causa dano ao seu comprador e aos que o rodeiam.

Coca-Cola

A bebida favorita do mundo, ou “o leite do capitalismo”, acumula demandas e sanções em, diversos países derivados de graves fatos de contaminação, más práticas trabalhistas e uso de águas não autorizado.

Na fase de produção, a companhia utiliza quase três litros de água para cada litro de produto finalizado. As águas utilizadas que a multinacional lança em lugares protegidos, como aconteceu na Colômbia, situação pela qual foi multada em agosto passado pela Secretaria Distrital do Ambiente da Prefeitura Maior de Bogotá, ao demonstrar que haviam descarregado seus dejetos em áreas alagadas de Capellanía, na zona de Fontibón, contaminando muito. O fato é considerado atentatório contra uma área de especial importância e proteção ecológica. O processo por contaminação da área alagada de Capellanía tem sua origem na caducidade da permissão de vertimentos, outorgado à multinacional por 5 anos e da não autorização da Secretaria de Ambiente para renovar essa permissão. Posteriormente, mediante visitas técnicas, foi verificado o estado da rede de saneamento da Coca-Cola e a realização de descargas industriais, evidentemente não autorizadas.

Uma situação similar aconteceu na Índia, em 2005, onde ao redor de mil manifestantes marcharam para pedir que a planta próxima a Varanasi fosse fechada; eles tinham a certeza de que todas as comunidades próximas às plantas engarrafadoras da Coca-Cola padecem com a contaminação de seus solos e lençóis freáticos. Análises toxicológicos registram a presença de altas porcentagens de pesticidas proibidos, como o DDT e como os “bons vizinhos” distribuíram seus dejetos industriais aos camponeses de Mehdigani com o argumento de que serviam para “adubo”. O resultado é que, hoje, os solos são estéreis.

E, como se fosse pouco, a bebida em questão, além de consumir água em excesso, não contém nenhum elemento nutritivo. Ao contrário, ao conter altas concentrações de açúcar, é um dos principais contribuintes da obesidade que atinge cada vez mais nossas populações do terceiro mundo, gerando por outra parte, problemas dentários. E o efeito de “matar a sede” é conseguido mediante o uso de ácido fosfórico.

Sabias que…?

  • A Espanha é o país europeu que consome mais Coca-Cola?
  • Outros produtos seus são a Fanta, Sprite, Aquarius, Nestea, Minute Maid, Tab, Sonfil, Finley, Nordic Mist ou Fruitopia (há 324 distintos)?
  • Uma lata de 33 cl. contém unos 35 gr. de açúcar?
  • Em 1931, a Coca-Cola mudou a vestimenta verde do Papai Noel para vermelho para uma campanha publicitária, fazendo jogo com sua cor corporativa?
  • Outras universidades em Atlanta, Toronto, Califórnia, Irlanda ou Berlim já expulsaram a Coca-Cola de seus Campi?
  • As garrafas de plástico da Coca-Cola na Espanha não são de material reciclado, mas de plástico virgem.
  • Casualidade que o ex-presidente mexicano Fox seja ex-representante da Coca-Cola? E que Adolfo Calero, ex-gerente da Coca-Cola, agente da CIA e figura pública da contra nicaraguense? E o embaixador dos EUA na Índia? E o magnata golpista Cisneros, na Venezuela? E o ministro Jorge Presno, do Uruguai?
  • Conta com delegações em mais de 200 países, incluindo paraísos fiscais como o Bahrein ou as ilhas Caimán, para evadir impostos por seus benefícios?
  • Em 2003, obtiveram benefícios fiscais em torno de 21.044 milhões de dólares (a metade dos gastos previstos pela ONU para garantir a educação básica a todas as crianças do mundo)?
  • Impulsiona potentes grupos de pressão: opôs-se ao Tratado de Kyoto, através de seus lobbys US Council for International Business e a Business Round Table; mudou regulações na União Europeia através do American Chamber of Comerce; foi fundadora do International Life Science Institute, muito influente na FAO e na OMS , etc?
  • Contém produtos transgênicos?

Na próxima vez que busques uma bebida, recorda a contaminação das áreas úmidas, o uso não autorizado de águas subterrâneas, a violência e que um litro equivale a três… Talvez seja melhor uma limonada!

Pfizer

Como se o uso massivo de Pfizer na experimentação animal não era suficientemente pungente, a corporação decidiu utilizar as crianças nigerianas como ‘coelhos da Índia’. Em 1996, a Pfizer viajou para Kano (Nigéria) para provar um antibiótico experimental no terceiro mundo, para combater enfermidades como sarampo, cólera e meningite bacteriana. Deram trovafloxacina para aproximadamente 200 crianças. Dezenas deles morreram no experimento, enquanto que muitos desenvolveram deformidades físicas e mentais. A Pfizer também pode, orgulhosamente, afirmar que se encontra entre as dez primeiras companhias nos Estados Unidos que provocam a contaminação da atmosfera. E não deixemos de lado os milionários “incentivos” que dão aos médicos e aos governos para que receitem seus “medicamentos”.

McDonald’s

A cada ano, milhares de crianças consomem a comida rápida de uma empresa que faz parte ativa no desmatamento de florestas, da exploração trabalhista e da morte de milhões de animais: McDonald’s. Estratégias de mercadotecnica habilmente desenhadas expandiram a empresa para mais de 40 países, onde a empática imagem de Ronald McDonald e sua “Caixinha Feliz” vende para as crianças o gosto pela comida rápida, associando-a ao ideal de alegria. Essa publicidade alcançou muito êxito em diferentes partes do mundo, contribuindo para altas taxas de obesidade infantil (ver artigo completo em espanhol). A alimentação que essa empresa entrega é totalmente carente de nutrientes. Essa comida ficou conhecida mundialmente como ‘comida sucata’, e não é sem razão que recebeu essa denominação.

Os hambúrgueres e “nuggets” que McDonald’s oferece provêm de animais que durante toda a sua vida foram mantidos em condições artificiais: privados de ar livre e de luz solar; permanecem isolados ao ponto de não poder estirar seus membros ou asas (no caso dos frangos), atolados de hormônios para acelerar seu crescimento e de antibióticos para enfrentar as múltiplas infecções as quais estão expostos devido as condições de insalubridade e amontoamento em que ‘vivem’. Os frangos são engordados de forma que suas patas não resistem ao seu peso.

Para estabelecer suas franquias, McDonald’s adquire terrenos a baixos preços em lugares onde haviam selvas tropicais desmatadas para a exploração pecuária. Paga salários mínimos a seus empregados, aproveitando-se das minorias étnicas e contratando menores de idade.

Os produtos de McDonald’s, com seu alto conteúdo de gorduras, açúcares e sal estimulam nas crianças o desenvolvimento de sobrepeso, a resistência à insulina e a consequente Diabete Tipo 2. Comentei que essa empresa foi uma das financiadoras da campanha de George W. Bush?

Nestlé

Nestlé e seu enorme manto de crimes contra as pessoas e a natureza, tais como o desmatamento massivo em Borneu –o hábitat dos orangotangos, em perigo crítico- para cultivar dendê e a compra de leite das granjas confiscadas ilegalmente por um déspota do Zimbábue. A Nestlé começou a provocar os ambientalistas por suas ridículas afirmações de que a água engarrafada é “ecológica”, daí em diante, foi aparecendo sua rede sinistra de controle e de destruição.

A Nestlé realizou esforços mundiais para instar as mães de países do terceiro mundo a utilizar seu substituto de leite para lactantes em vez da amamentação materna, sem advertir-lhes sobre os possíveis efeitos negativos. Supostamente, a Nestlé contratou mulheres vestidas de enfermeiras para entregar a fórmula infantil gratuitamente, que se mistura, com frequência, com água contaminada. Os meios não mencionaram as crianças que morreram de fome quando a fórmula se esgotou e suas mães não podiam mais pagar.

British Petroleum

Quem pode esquecer a explosão de 2010 de uma plataforma de petróleo na costa do Golfo que deixou 11 mortos e milhares de aves, tartarugas marinhas, golfinhos e outros animais, destruindo a pesca e a indústria do turismo na região? Esse não foi o primeiro crime de BP contra a natureza. De fato, entre janeiro de 1997 e março de 1998, a BP foi responsável por 104 derrames de petróleo. Treze trabalhadores da equipe de perfuração morreram em 1965 durante uma explosão; 15 em uma explosão em 2005. Também em 2005, uma balsa que transportava trabalhadores do petróleo da BP se chocou, matando 16 trabalhadores. Em 1991, a EPA cita a BP como a empresa mais contaminante nos Estados Unidos. Em 1999, a BP foi acusada de introdução ilegal de tóxicos no Alasca, e, em seguida, em 2010, por filtrar venenos muito perigosos no ar do Texas. Em julho de 2006, os agricultores colombianos ganharam um acordo com a BP depois que a companhia foi acusada de beneficiar-se de um regime de terror executado por paramilitares do governo colombiano, que protegem o oleoduto Ocensa.

Monsanto

A Monsanto, criadores e fomentadores dos alimentos geneticamente modificados, hormônios de crescimento bovino e o envenenamento por agrotóxicos. A lista da Monsanto inclui a criação da semente “exterminadora”, que cria plantas que nunca dão sementes para que os agricultores devam comprar a cada ano; o lobby para que etiquetem o leite e substitutos do leite para lactantes como “livres de hormônios” (encontra-se presente se o bovino ingeriu hormônios de crescimento, um comprovado agente cancerígeno), bem como uma ampla gama de violações ambientais e de saúde humana associados ao uso de venenos da Monsanto –Agente Laranja-, sobretudo”. Entre 1965 e 1972, a Monsanto verte ilegalmente milhares de toneladas de resíduos altamente tóxicos nos vertedouros do Reino Unido. Segundo a Agência do Meio Ambiente, os produtos químicos estavam contaminando as águas subterrâneas e o ar 30 anos após terem sido derramados!

A Monsanto é célebre por agredir aos próprios agricultores que diz pretende ‘ajudar’, como quando demandou a um agricultor e o encarcerou por guardar sementes da colheita de uma temporada para plantar na seguinte.

Vale

A mineradora Vale, transnacional brasileira presente em 38 países, é a maior empresa de exploração de minerais diversificados na América Latina e a segunda em âmbito mundial. Entre os méritos, destaca a participação da empresa no desenvolvimento da hidrelétrica de Belo Monte, situada em Altamira (Brasil), dado que o projeto afeta ao Rio Xingu, principal fonte de vida para a região. Como resultado da intervenção da empresa, hoje, a paisagem amazônica está sendo modificada severamente, como também a vida dos povos que vivem às margens de um dos principais rios do Brasil.

Em Carajás (Pará, Brasil), inúmeras famílias foram desalojadas, perderam suas casas e seus parentes morreram como resultado da construção da linha férrea construída pela empresa, também denunciada pelas péssimas remunerações e condições de trabalho sofridas por seus empregados.

Os impactos da ação da mineradora não se reduzem às denúncias no Brasil. Na região de Tete (Moçambique), um povo foi desalojado de suas terras para que a empresa pudesse explorar carvão mineral. Em troca, a empresa construiu um reassentamento no bairro Cateme, onde as casas e os serviços públicos não cumprem as condições básicas para o desenvolvimento da população.

Lamentavelmente, existem muitas outras corporações que deveriam estar presentes nessa lista; algumas como a Samsung, a Tepco, a Barklays, a Microsoft, a Intel, a Sony etc. Como o artigo seria enormemente extenso e triste, me comprometo a escrever a lista das 10 multinacionais mais responsáveis e comprometidas… Existirão? Logo saberemos…

Compromissos da Vale com o Brasil

O tema da saída do sr. Roger Agnelli da presidência da Vale enseja relembrar as circunstâncias da privatização em 6 de maio de 1997 da chamada “Jóia da Nação”, já então a maior produtora e exportadora do mundo de minério de ferro, gerando US$ 1,6 bilhão de divisas em 1996.

A Cia. Vale do Rio Doce criada por Getulio Vargas em 1942, depois de nacionalizar a Itabira Iron, durante seus 55 anos de estatal foi prestigiada por todos os presidentes da República, e tinha desenvolvido dois sofisticados sistemas integrados de produção e logística, desde a extração dos minérios e seu transporte por ferrovias até os terminais marítimos nos portos de escoamento. A formidável rede logística incluía as ferrovias Carajás, o porto de Itaqui no Maranhão e Minas e o porto de Vitória no Espírito Santo.

A Vale estatal teve ao longo de sua história excelentes presidentes e diretores, com destaque para a inteligência privilegiada, forte empreendedorismo e geniais iniciativas do engenheiro Eliezer Batista, que a presidiu por vários anos.

Dediquei 85 páginas do meu livro PRIVATIZAÇÕES DE FHC. A ERA VARGAS CONTINUA ao assunto da entrega da Cia. Vale do Rio Doce, demonstrando os inconvenientes da operação, principalmente sob três aspectos: 1) baixo preço; 2) o governo não se ter reservado uma Golden Share para coibir atitudes antinacionais e 3) venda de 31,7% das ações com direito a voto na Bolsa de Valores de Nova York, com o Poder Executivo renunciando ao direito de indicar dois membros do Conselho de Administração.

Após a privatização, a União ainda ficou dona de 31,17% de ações ordinárias da Vale, o que lhe dava o direito pela lei das sociedades anônimas de indicar dois membros do Conselho de Administração, órgão máximo que nomeia os diretores, e aprova rumos e diretrizes.

Em desrespeito ao Poder Judiciário, uma vez que centenas de ações judiciais para anular a privatização estavam subjudice, Fernando Henrique Cardoso determinou em 2001 a venda dessas ações na Bolsa de Valores de Nova York. Em agosto de 2000, ele já tinha negociado 31,72% das ações ordinárias (com direito a voto) da Petrobras nessa mesma bolsa norte-americana. É bom lembrar que subsistem na 1ª Vara Federal de Belém mais de 60 processos pedindo a anulação do leilão de privatização, e o Supremo Tribunal Federal ainda vai dar a palavra final.

A Vale foi vendida por R$ 3,388 bilhões, enquanto geólogos da Companhia de Pesquisas de Reservas Minerais – CPRM – (hoje Departamento Nacional de Pesquisas Minerais – DNPM) a avaliavam em R$ 1,7 trilhão.

Com a injustificável aquisição em 1996 da Inco do Canadá por US$ 18 bilhões a Vale aumentou seu endividamento de US$ 5,9 bilhões para US$ 21 bilhões e enfrentou, em 2010, greve de seus funcionários que durou um ano.

Todavia, o maior erro do sr. Roger Agnelli foi a tentativa de adquirir por US$ 90 a 100 bilhões a Xstrata, multinacional anglo-suíça, em 2007/2008, quando eclodiu a crise dos bancos norte-americanos, contaminando toda a sua economia. A Vale tinha acertado pacote de financiamento de US$ 50 bilhões com oito bancos: o Lehman Brothers, que quebrou nos EUA em setembro de 2008, HSBC Santander Calyon, Royal Bank of Scotland, BNP Paribas, Credit Suisse e City Bank. Para pagar o restante do preço, a Vale emitiria 1,2 bilhões de ações preferenciais do tipo A, que renderiam US$ 30 bilhões. Felizmente, os acionistas da Xstrata desistiram e a Vale livrou-se do negócio no qual teria vultosos prejuízos em conseqüência da crise estadunidense.

Outros malfeitos anti-Brasil da Vale: em 2010, encomendou da China 12 navios, ao custo de US$ 1,6 bilhão, no momento em que o governo Lula fazia extraordinários esforços para recriar a indústria naval brasileira. Em vez de fortalecer a sua empresa de navegação, a Docenave, Agnelli assinou contrato de 25 anos com a Mitsui para transportar minério para a China. Em plena crise de 2009, a Vale demitiu 1.300 funcionários. Agnelli não se interessava em projetos de industrialização de minérios do Brasil para agregar valor. Quase 40% do plano de investimento da Vale destinava-se a 39 países no exterior.

No final de 2007, a Vale fez torrencial propaganda na mídia, quatro páginas inteiras nos jornais e revistas, inserções nas televisões e rádios, para divulgar o novo logotipo. Foram gastos R$ 50 milhões na propaganda de uma companhia que praticamente só comercializa no mercado interno minério de ferro para poucos clientes. Em 2009, os dispêndios de publicidade da Vale alcançaram R$ 178,8 milhões.

Roger Agneli esmerou-se nas contribuições financeiras em campanhas eleitorais de 1996, utilizando-se das coligadas Caemi e MBR: R$ 4,5 milhões para Lula e R$ 3,2 milhões para Alckmin. Ajudou a eleger 54 deputados federais com doações de R$ 5,3 milhões. Esses números foram divulgados pelo Jornal Valor, de 29.11.2006, com dados do TSE. Não há dúvida de que houve uma blindagem, na imprensa, no executivo e no legislativo, para a gestão do presidente da Vale.

Não nego a capacidade administrativa do sr. Roger Agnelli, que catapultou a Vale a índices invejáveis na produção, exportação e lucratividade, embora ajudado pela elevação em mais de 500% dos preços do minério de ferro e pela ascensão ciclópica das compras pela China. Mas lhe faltou a percepção de que a Vale foi construída pelo dinheiro do povo brasileiro e que seu compromisso maior é com o Brasil.

 

Escrito por Léo de Almeida Neves, membro da Academia Paranaense de Letras, autor dos livros Destino do Brasil: Potência Mundial, 270 páginas, Vivência de Fatos Históricos, 534, Segredos da Ditadura de 64, 356, Privatizações de FHC, A Era Vargas Continua, 374.