[Livro] Militares e a política no Brasil

Militares e a política no Brasil

O livro Militares e a política no Brasil (Jefferson Rodrigues Barbosa, Leandro Pereira Gonçalves, Marly de Almeida Vianna e Paulo Ribeiro da Cunha – orgs.) reúne textos de pesquisadores sobre o tema, trazendo um panorama histórico desde a constituição das Forças Armadas até seu papel na atualidade, enfatizando essa relação intrínseca entre esse setor e a vida política nacional. Com isso, busca-se demonstrar as diferentes correntes de pensamento e de posicionamento político que permeia as Forças Armadas.

De lá para cá, ela pôde ser observada tanto no interior dos partidos políticos – a esquerda e a direita – quanto nas práticas ilegais cometidas por militares alinhados com a ditadura, como, por exemplo, no atentado ao Riocentro no início da década de 1980. Além disso, a participação dos militares é patente também no desenvolvimento da pesquisa e da ciência e na efetivação de missões no campo humanitário ou da segurança, em âmbito nacional e internacional.

Tal como as demais forças sociais, esse setor também toma parte e é influenciado pela dinâmica da luta de classes, se posicionando também politicamente seja agindo para garantir as liberdades democráticas, seja para cumprirem a Garantia de Lei e Ordem (GLO).

Este livro é organizado com o intuito de colaborar para uma maior compreensão dos embates, dinâmicas e articulações entre os militares e a política no Brasil. Ele vem para instrumentalizar novas pesquisas e informar os leitores interessados em uma apreensão mais múltipla e polifônica das dimensões entre os integrantes das Forças Armadas como atores políticos e sociais e as instituições militares, como aparelhos políticos de hegemonia, nos contextos das lutas de classes e projetos de nação que permeiam a história brasileira contemporânea.

Autor: 
Jefferson Rodrigues Barbosa, Leandro Pereira Gonçalves, Marly de Almeida Vianna e Paulo Ribeiro da Cunha (orgs.)

  • Número de páginas: 500
  • ISBN: 9788577433254
  • Editora: Expressão Popular
  • Peso: 0.544 kg
  • Categoria: 
  • Para comprar, acesse esse link!

 

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Vídeos do lançamento de O Partido com paredes de vidro, de Álvaro Cunhal

Evento foi realizado na Livraria Expressão Popular e contou com palestra de Francisco Melo, editor da Avante!, e apresentação musical do grupo Cravos da Madrugada.

Este livro traz respostas a questões relativas aos comunistas. Ajuda a compreender porque resistiu o PCP ao desaparecimento da União Soviética e é um dos poucos partidos comunistas que na Europa sobreviveu intacto ao vendaval que desnaturou ou destruiu a maioria deles. A primeira edição de O Partido com Paredes de Vidro foi publicada em 1985.

Era inimaginável então a tragédia que destruiu a URSS e transformou a Rússia num país capitalista. No horizonte próximo o que se esboçava era a vitória do socialismo sobre o capitalismo. Mas a História tomou outro rumo.

No prefácio a esta sexta edição, Álvaro Cunhal apresenta por isso com espirito autocritico a perspetiva histórica da lª, mas reafirma que o capitalismo está condenado a desaparecer porque não pode superar «insanáveis contradições internas e continua a mostrar-se incapaz de responder às legítimas aspirações econômicas, sociais, políticas e culturais da humanidade.

Este livro traz respostas a questões relativas aos comunistas. Ajuda a compreender porque resistiu o PCP ao desaparecimento da União Soviética e é um dos poucos partidos comunistas que na Europa sobreviveu intacto ao vendaval que desnaturou ou destruiu a maioria deles. Enquanto outros, como o italiano, o francês e o espanhol, aderiram ao anti sovietismo, e adotaram linhas reformistas que os tornaram cúmplices do neoliberalismo, o PCP manteve-se fiel aos princípios e valores do marxismo-leninismo.

Partido com Paredes de Vidro não é apenas como ensaio uma demonstração brilhante do domínio pelo autor do materialismo dialéctico. O livro não seria o que é sem o talento e a imaginação que fazem dele uma obra marcada por poderosa criatividade.

Como somos, como pensamos, como atuamos, como lutamos, como vivemos,nós,os comunistas portugueses

livro O Partido com paredes de vidro, de Álvaro CunhalNa sua resposta, Álvaro Cunhal procura e consegue com frequência imprimir força de revelação à própria evidência. A personagem central é sempre o Partido. É nele que se inserem o abstrato- as ideias, a concessão do mundo-e o concreto-os homens que fazem do Partido um grande coletivo revolucionário.

O tratamento de questões teóricas surge entrosado em exemplos de uma práxis viva. Está ali praticamente tudo, exposto, comentado e explicado sem véus, nem omissões:a organização, o trabalho coletivo, o estilo e o tipo de direção,o  centralismo democrático, as eleições internas, o voto secreto, a prestação de contas, a experiencia, a renovação permanente, o consenso, a unanimidade, os quadros, a democracia, os deveres e direitos, a crítica e a autocrítica, a moral comunista.Com transparência cristalina.

A estrutura orgânica do Partido e a sua práxis revelam a natureza de classe, inseparável da raiz ideológica e da firmeza política e revolucionária. Alias, a manutenção da regra de ouro de uma maioria de operários nos organismos de direção tem sido justificada pelas respostas da História. Sem ela o PCP seria um partido muito diferente.

O tema do individuo, do militante inserido no coletivo, merece uma atenção especial.

Ser comunista- sublinha-não impede que se ria mais ou se ria menos, que se goste de estar em casa ou de passear ao ar livre, que se aprecie ou não se aprecie um bom petisco, que se fume ou não se fume, que se beba ou não se beba um copo, que se viva mais ou menos intensamente o amor (…) Amar o sol, o ar livre, a natureza, a terra e o mar, o ar e a água, as plantas e as flores, os animais, as pedras, a luz, a cor, o som,o movimento, a alegria, o riso, o prazer, é da própria natureza do ser humano (…) Que ninguém tenha vergonha de ser feliz. Alem do mais porque a felicidade do ser humano é um dos objetivos da luta dos comunistas

Trechos como estes, pela mundividência que expressam, derrubam pirâmides de mentiras erguidas pela propaganda anticomunista. Álvaro Cunhal sabe que não há comunistas perfeitos. Não apresenta portanto o PCP como um partido de santos. Mas acha que a exigência moral dos comunistas favorece o seu aperfeiçoamento individual.

Em cada ser humano- recorda- há imensas potencialidades de evolução para o bem e de evolução para o mal. O Partido, em relação aos seus membros tem de confiar que com a sua ajuda a evolução será para o bem

Aos que, caluniando o Partido, insistem em apresentá-lo como uma máquina que tritura os seus membros, Álvaro Cunhal responde com uma crítica profunda ao dogmatismo e ao sectarismo. Apontando erros cometidos, condena como inadmissível a tendência de alguns dirigentes e quadros a ingererir-se na vida privada dos militantes.

Não surpreendeu que livro de Álvaro Cunhal tenha suscitado reparos no Leste europeu. Em alguns países foi publicado com cortes. A transparência do PCP incomodou dirigentes que se sentiram retratados em críticas ao autoritarismo e ao dogmatismo. Uma certeza: a publicação pela Editora Expressão Popular do Partido com Paredes de Vidros é uma contribuição valiosa para um melhor conhecimento no Brasil do Partido Comunista Português, do seu coletivo revolucionário, da sua luta por um Portugal democrático,soberano,progressista. O livro de Álvaro Cunhal, sendo pessoal, é de todo o Partido, um ser único, com vida e vontade próprias cujo caminhar é traçado por todos e cada um.

Expressão Popular lança ebooks gratuitos em solidariedade a Hugo Chávez

Hugo Chávez

Obras de Marta Harnecker, Richard Gott e Núnzio Armenta podem ser baixadas no site da Expressão Popular e inauguram série de livros digitais a serem disponibilizados pela editora.

Em 4 de fevereiro de 1992, o então tenente-coronel Hugo Chávez Frias comandou um levante que buscava tomar o poder, convocar uma assembleia constituinte e mudar os rumos da política venezuelana. Mesmo que a ação tenha fracassado e que Chávez só tenha atingido o poder por via eleitoral em 1998, muitos consideram este 4 de fevereiro como marco inicial de um período de lutas anti-neoliberais que permanece até os dias atuais em nosso continente.

Em homenagem a esta importante data e também em solidariedade ao estado de saúde do presidente venezuelano, um dos símbolos da bandeira antiimperialista e em prol da soberania dos povos latino-americanos, a Editora Expressão Popular disponibiliza, de forma gratuita e em formato de Ebook, três livros sobre a trajetória de Chávez (para acessar os livros sobre Chávez clique aqui e faça o download. ou nos itens abaixo):

A iniciativa é parte do lançamento de diversos títulos da Editora Expressão Popular em Ebook. Em breve novas obras serão disponibilizadas para download gratuito em nosso site.

 

Imperialismo, estágio superior do capitalismo

Imperialismo, estágio superior do capitalismo

Desde 1912, Lenin tem a percepção de que a história mundial ingressava numa fase nova, na qual se consumava o desenvolvimento relativamente pacífico do capitalismo e se marchava para conflitos radicais e profundamente significativos, constatação que o conduzirá, entre 1912 e 1916, a um estudo vigoroso para relacionar a multiplicidade dos fatos na análise do imperialismo, exposta no ensaio de 1917.

O imperialismo constitui, para Lenin, uma nova etapa do desenvolvimento capitalista, com a inequívoca dominância dos monopólios e do capital financeiro. E o capital financeiro resulta da fusão das distintas formas de capital, uma vez que estas já se constituíram independentemente e se estruturaram monopolicamente. Sua existência, portanto, não é correlata à do capitalismo, mas própria da etapa monopólica. É neste sentido também que “o característico do imperialismo não é o capital industrial, e sim o capital financeiro”

O refinamento teórico da análise de Lenin manifesta-se na concepção de que, de um lado, o imperialismo aparece como um desdobramento dos avanços do capitalismo (“o imperialismo surgiu como desenvolvimento e continuação direta das propriedades fundamentais do capitalismo em geral”); de outro, entretanto, sua consolidação determina que propriedades fundamentais do capitalismo tendam a se converter em sua antítese. Isto significa que esta nova etapa do capitalismo contém elementos contraditórios que permitem caracterizá-la, ao mesmo tempo, como uma estrutura de transição (“O velho capitalismo caducou. O novo constitui uma etapa de transição e algo distinto”).

E a contradição maior resulta do fato de que a socialização alcança seu ponto mais elevado (abrangendo a totalidade dos processos produtivos, o processo de trabalho, os mercados, o Estado etc.) exatamente quando a concentração da propriedade privada chega ao limite. Em suma, o monopólio explicita de modo contundente a subordinação do social ao privado, no sentido de que a estruturação da vida social se vê regulada, em última instância, pelo movimento das massas centralizadas de capital. Isso significa que o monopólio exacerba a privatização das relações sociais. E, reversamente, é também então que se socializam as relações privadas, visto que é apenas nesse momento que se completa a socialização do capital, ou seja,o capital passa a ser propriedade de muitos, estando seu controle submetido ao domínio de poucos. A privatização das relações sociais e a socialização das relações privadas constituem, assim, a contradição característica do monopólio.

Entre outros aspectos cruciais, a análise de Lenin traz uma questão de relevante consequência política: “a dominação do capital financeiro, em vez de atenuar a desigualdade e as contradições da economia mundial, o que faz é acentuá-las”. Tampouco as crises são mitigadas com o advento do monopólio: ao contrário, “o monopólio que se cria em vários ramos da indústria aumenta e agrava o caos próprio de toda a produção capitalista em seu conjunto”. A partir de questões como esta, Lenin estabelece os nexos entre imperialismo, guerra, aguçamento das contradições de classe e revolução proletária, numa sofisticada articulação intelectual que assegura a originalidade de sua contribuição teórica.

Ronaldo Coutinho

O Marxismo de Che

Che Guevara

Che não foi apenas um heroico guerrilheiro, um lutador que entregou sua vida pela libertação dos povos da América Latina, um dirigente revolucionário que fez algo sem precedentes na história; deixou todos seus cargos para retomar o fuzil contra o imperialismo. Ele foi também um pensador, um homem de reflexão que nunca deixou de ler e escrever, aproveitando qualquer pausa entra duas batalhas para ter à mão caneta e papel. O seu pensamento faz dele um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, talvez o mais importante desde José Carlos Mariátegui.

Curiosamente, a maioria das biografias sobre o Che recentemente publicadas não tratam deste aspecto essencial de sua personalidade. Até os autores simpáticos à sua figura não compreendem ou menosprezam sua obra marxista. Por exemplo, no belo livro de Paco Ignacio Taibo II [Ernesto Guevara, também conhecido como Che], os escritos de Che quando da discussão sobre a lei do valor são postos de lado como um “labirinto de citações” inspirado em um “marxismo bíblico”. O jornalista francês Pierre Kalfon considera o brilhante ensaio “O socialismo e o homem em Cuba” como “um amontoado de fórmulas” inspiradas por “um dogmatismo de outros tempos”, isto é, pelo “palavrório marxista tradicional”!

Ora, se se ignora ou se despreza o pensamento de Che, suas ideias, seus valores, sua teoria revolucionária, seu marxismo crítico, como compreender sua coerência de vida, as principais razões de suas atitudes, a inspiração política/moral de sua prática, o fogo sagrado que o movia?

Diferentemente da maioria dos dirigentes da Revolução Cubana, Ernesto Guevara já possuía uma formação marxista antes de aderir ao Movimento 26 de julho, no México, em 1955. Ele descobriu o marxismo não apenas lendo Marx – graças à biblioteca de sua companheira Hilda Gadea e de seu amigo mexicano Orfila Reynal – e Lenin, ou os romances de Nazim Hikmet, Miguel Ángel Asturias e Jorge Icaza, mas também por meio de sua experiência política na Guatemala, quando do golpe contra Arbenz, vítima da CIA, da United Fruit e da traição das forças armadas.

Ele não chegou ao marxismo pela própria experiência revolucionária, mas tratou de, prontamente, decifrá-la recorrendo a referências marxistas, e, dessa forma, foi o primeiro a captar plenamente o significado histórico-social da Revolução Cubana, proclamando, em julho de 1960, que ela “descobriu também, por seus próprios métodos, os caminhos demonstrados por Marx”[3]Porém, algum tempo antes, em abril de 1959, ele já previa o rumo que o processo cubano tomaria depois da queda da ditadura de Batista: trata-se – dizia Che em entrevista a um jornalista chinês – de “um desenvolvimento ininterrupto da revolução”, até abolir “a ordem social existente” e seus “fundamentos econômicos”.[4]

De 1959 até sua morte, o marxismo de Che evoluiu. Ele se distanciou cada vez mais das ilusões iniciais sobre o modelo soviético de socialismo e sobre o estilo soviético – isto é, stalinista – de marxismo. Percebe-se, cada vez mais explicitamente, sobretudo em seus escritos a partir de 1963, a busca de um modelo alternativo, a tentativa de formular outra via ao socialismo, distinta dos paradigmas oficiais do “socialismo realmente existente”. Seu assassinato pelos agentes da CIA e por seus lacaios bolivianos, em outubro de 1967, interrompe um processo de amadurecimento político e de desenvolvimento intelectual autônomo. Sua obra não é um sistema fechado, um modelo acabado que possui resposta a todas às perguntas. Sua reflexão ficou incompleta em várias questões, como, por exemplo, a democracia sob a planificação econômica e a luta contra a burocracia.

O marxismo de Che se distingue das variantes dominantes em sua época; é um marxismo antidogmático, ético, pluralista, humanista, revolucionário. Alguns exemplos nos permitem ilustrar estas características.

Antidogmático

Marx, para Che, não era um papa ungido pelo dom da infalibilidade. Em suas “Notas para estudo da ideologia da Revolução Cubana” (1960), ele ressalta: mesmo sendo um gigante do pensamento, o autor d’O capital cometeu erros que podem e devem ser criticados. Por exemplo, no que toca à América Latina, sua interpretação de Bolívar ou a análise sobre o México que realiza junto com Engels, “em que admite determinadas teorias sobre raças ou nacionalidades que são hoje inadmissíveis”.[5]

Entretanto, os fenômenos de dogmatização burocrática do marxismo no século XX são mais graves que os equívocos de Marx; em várias oportunidades, Guevara se queixou da “escolástica que freou o desenvolvimento da filosofia marxista” – uma evidente referência ao stalinismo – e que impediu sistematicamente, inclusive, o estudo do período de construção do socialismo.[6]

Ético

A ação revolucionária é inseparável de certos valores éticos. Um dos exemplos é o trato aos prisioneiros da guerrilha: “A clemência mais absoluta o possível com os soldados que combatem cumprindo, ou que creem cumprir, seu dever militar (…) Os sobreviventes devem ser postos em liberdade. Os feridos devem receber cuidados utilizando todos os recursos disponíveis”.[7]Um incidente da batalha de Santa Clara ilustra o comportamento de Che: em resposta a um companheiro que propôs a execução de um tenente do exército, feito prisioneiro, diz Guevara: “Você acha que somos iguais a eles?”[8]

A construção do socialismo também é inseparável de determinados valores éticos, diferentemente do que advogam as concepções economicistas – de Stalin a Charles Bettelheim – que levam em conta apenas “o desenvolvimento das forças produtivas”. Em sua famosa entrevista ao jornalista Jean Daniel (julho de 1963), Che defendia, no que já se constituía uma crítica implícita ao “socialismo real”, que: “O socialismo econômico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação (…). Se o comunismo desconsidera os fatos da consciência, poderá ser um método de distribuição, mas não se constitui como uma moral revolucionária.[9]

Pluralista

Apesar de Che não ter formulado uma concepção acabada da democracia socialista, ele defendia a liberdade de debate no campo revolucionário e o respeito à pluralidade de opiniões. O exemplo mais marcante é sua resposta – em um informe de 1964 a seus companheiros do Ministério da Indústria – à crítica de “trotskismo” feita a ele por alguns soviéticos: “Com relação a isso, creio que ou temos a capacidade de destruir com argumentos a opinião contrária ou devemos deixá-la se expressar (… ). Não se pode destruir uma opinião por meio da força, pois isso interrompe todo livre desenvolvimento da inteligência. Além disso, há uma série de aspectos do pensamento de Trotsky que pode ser levada em conta, ainda que, como acredito, ele tenha se equivocado em seus conceitos fundamentais e sua ação posterior tenha sido errônea (…)”[10]

Revolucionário

Na América latina, durante anos e décadas, o marxismo serviu como justificativa a uma política reformista de subordinação do movimento operário à aliança com uma suposta “burguesia nacional”, com vistas a uma suposta “revolução democrática, nacional e antifeudal” ([Victorio] Codovilla, para mencionar apenas um nome simbólico de todo um sistema político de corte stalinista). Em sua “Mensagem à tricontinental” (1966), Guevara cortou o nó górdio que atava pés e mãos dos explorados: “As burguesias autóctones perderam toda sua capacidade de oposição ao imperialismo – se alguma vez a tiveram – e constituem apenas sua retaguarda. Não há mais mudanças a serem feitas: ou revolução socialista ou a caricatura de revolução”[11]

Todos os escritos e discursos marxistas de Che, de 1959 até sua morte, seja sobre a realidade latino-americana, sobre a guerra de guerrilhas, sobre a luta internacional contra o imperialismo, sobre os problemas econômicos de Cuba, possuem um objetivo central, concreto e urgente: a transformação revolucionária da sociedade.

Insistiu-se muito sobre a teoria do foco guerrilheiro nos escritos de Che. Mas ele sabia que a revolução social é uma tarefa não apenas de uma – indispensável – vanguarda, mas das grandes maiorias: são “as massas (as que) fazem a história como um conjunto consciente de indivíduos que lutam por uma mesma causa (…) que lutam para sair do reino da necessidade e passar ao reino da liberdade”.[12]

Humanista

A leitura de Marx feita por Che é totalmente distinta da vulgata estruturalista, “anti-humanista teórica”, althusseriana, que tanto se difundiu na América Latina nos anos 1960-1970. Referindo-se ao Capital, ele escreve: “O peso deste monumento da inteligência humana é tal que nos fez, frequentemente, esquecer o caráter humanista (no melhor sentido da palavra) de suas inquietudes.

A crítica ao capitalismo – sociedade na qual “o homem é o lobo do homem” –, a reflexão sobre a transição ao socialismo, a utopia comunista de um homem novo: todos os temas centrais da obra marxista de Che têm fundamento no humanismo revolucionário. Sua formulação mais profunda, mais original e mais pessoal está no ensaio “O socialismo e o homem em Cuba” (1965): “Deixe-me dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor”. Sem o amor aos povos, o amor à humanidade, sem estes sentimentos generosos “é impossível pensar num revolucionário autêntico”.[13]

A expressão concreta, prática, ativa do humanismo revolucionário é o internacionalismo. Em uma conversa com jovens comunistas, em 1962, Guevara insistia que o revolucionário deve “sempre se colocar os grandes problemas da humanidade como problemas próprios”, isto é, “deve se sentir angustiado quando, algum canto do mundo, um homem é assassinado, e até o ponto de se sentir entusiasmado quando, em algum canto do mundo, se levanta uma nova bandeira de liberdade”.[14] Para além de seus erros táticos, ou mesmo estratégicos, o compromisso pessoal de Che com a revolução no Congo e na Bolívia, arriscando sua vida, é a tradução destas palavras em atos.

O mundo – e a América Latina – passaram por muitas transformações nos últimos 30 anos. Não se trata de olhar para trás e procurar, nos escritos de Che, a resposta a todos nossos problemas atuais. Mas é fato que os povos continuam, hoje como ontem, sob a dominação do imperialismo; que o capitalismo, em sua forma neoliberal, continua produzindo os mesmos efeitos: injustiça social, opressão, desemprego, pobreza, mercantilização dos espíritos. O que é ainda pior: o capital financeiro multinacional nunca exerceu um poder tão aplastante, tão sombrio sobre todo o planeta. O capitalismo nunca conseguiu, como o faz agora, afogar todos os sentimentos humanos nas “águas glaciais do cálculo egoísta”. Por isso, necessitamos, hoje mais que nunca, do marxismo do Che, de um marxismo antidogmático, ético, pluralista, revolucionário, humanista.

No século XXI, quando os ideólogos neoliberais – que ocupam hoje a cena política e cultural – já estiverem esquecidos, as novas gerações ainda se recordarão do Che, e sua estrela continuará iluminando a luta da humanidade por sua emancipação.

Legendas

[1]Tradução de Miguel Yoshida.

[2]Diretor de pesquisas no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) e dirige um seminário na École des Hautes Études en Sciences Sociales e autor de O pensamento de Che Guevara, Editora Expressão Popular.

[3]Discurso de 28 de julho de 1960, “Para o primeiro Congresso Latino-americano de Juventudes”, in: Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967, La Habana: Casa de las Americas, 1970, v. 2, p. 392. Daqui em diante esta edição será citada como Casa.

[4]E. Guevara, Selected Works, Cambridge, MIT Press, 1970, p. 372.

[5]“Notas para estudo da ideologia da Revolução Cubana” inChe Guevara – Política, São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 115.

[6]Casa, v. 2, p. 190. Em um discurso, em abril de 1962, sobre Anibal Escalante e sua tentativa de stalinização do Partido Revolucionário Cubano, Guevara destaca a íntima relação entre alienação das massas, burocratismo, sectarismo e dogmatismo. In: Ernesto Guevara, Obra revolucionaria, Mexico: Era, 1967, p. 333.

[7]Che Guevara, “La guerra de guerrillas”, Casa, v. 1, p. 46.

[8]Citado en Paco Ignacio Taibo II, Ernesto Guevara,também conhecido como Che, São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 261.

[9]In: L’Express, 25 de julho de 1963, p. 9.

[10]Che Guevara, “Il piano i gli uomini”, Il Manifesto n. 7, dezembro de 1969, p. 37.

[11]Casav. 2, p. 589. É impressionante o paralelo com a tese de José Carlos Mariátegui, em 1929: “À América do Norte plutocrática, imperialista só se pode opor de maneira eficaz uma América Latina ou ibérica socialista. (…) O destino destes países, dentro da ordem capitalista, é o de ser simplesmente colônias”. (J. C. Mariátegui, El proletariado y su organizacion, Mexico, Grijalbo, 1970, p. 119-121.

[12]Casa, v. 2, p. 249, 375, 383.

[13]“O socialismo e o homem em Cuba”, in: Che Guevara – política, ed. cit., p. 265.

[14]“O que deve ser um jovem comunista”, in: ed. cit, p. 279, 277.

2012: tempo de transformar

Punho arichuna

2011 termina…

Como o TEMPO do capital extraindo mais-valia. Just in time… time is money…

Como o TEMPO das crises do sistema do capital, das ideologias e dos projetos políticos

Como o TEMPO das religiões – se a vida é “eterna”,  podemos esperar por dias melhores

Como o TEMPO do Estado conciliador e burocrático

Como o TEMPO da “primavera árabe”, do “Ocupe Wall Street”

Como o TEMPO do código florestal do agronegócio

Como o TEMPO da falta de ação e unidade dos comunistas e socialistas

2012 começa…

Como o tempo da DIALÉTICA e suas leis da negação e afirmação…

Como o tempo do QUE-FAZER da filosofia e da práxis

Como o tempo do TRABALHO DE BASE e organização política

Como o tempo das LUTAS sociais anticapitalistas

Como o tempo da HISTÓRIA da classe trabalhadora

Como o tempo da AFIRMAÇÃO do socialismo

Como o tempo da VIDA e da REVOLUÇÃO

Editora Expressão Popular

Cadernos de pesquisa marxista do Direito

O primeiro número dos Cadernos de Pesquisa Marxista do Direito traz uma longa entrevista com o Prof. Alaôr Caffé Alves,refletindo sobre diversos temas de interesse para a crítica jurídica, no momento em que acaba de lançar um novo livro, “Dialética e Direito”, resenhado ao final da revista por Josué Mastrodi Neto. A revista conta, ainda, com colaborações dos professores Ricardo Antunes e Eduardo C. B. Bittar, no dossiê “Direito e Crise”, e artigos de jovens pesquisadores críticos do direito, como Giselle Sakamoto Souza Vianna, Éder Ferreira e Vitor Bartoletti Sartori. Na seção “Clássico”, apresenta um excerto dos “Grundrisse” em que Marx trata do Direito, em tradução de José Carlos Bruni. Fechando a edição, 8 tiras da série “Quadrinhos dos anos 10” de André Dahmer. Editores: Celso Naoto Kashiura Jr., Oswaldo Akamine Jr., Tarso de Melo e Vinícius Casalino.

  • Livro: Cadernos de pesquisa marxista do Direito
  • Autor: Celso N. Kashiura Jr., Oswaldo A. Jr., Tarso de Melo, Vinicius Casalino (editores)
  • Páginas: 224
  • Editora: Expressão Popular
  • Valor:  R$ 20,00
  • Para comprar, clique neste link.

Capital: essência e aparência

Este livro, Capital: essência e aparência, não é para ser lido; na verdade é para ser estudado, pois pretende auxiliar os leitores a entenderem essa obra fundamental de Marx, qual seja, O capital. Mas, atenção, não pretendemos oferecer um manual. Ao contrário. Aqui as questões são apresentadas, na medida do possível e do necessário, com todas as suas complexidades, porém utilizando-se de uma redação a mais didática possível.

Este é o primeiro dos dois volumes que compõem o livro, constituído de ensaios de autores que apresentam uma perspectiva similar sobre o capitalismo e sobre a obra de Marx; e, nesse aspecto, embora escrito por diversas mãos, não se encontrarão divergência de interpretação nos textos aqui reunidos.

  • Livro: Capital: essência e aparência
  • Autor: Reinaldo Carcanholo (org.)
  • Páginas: 176
  • Editora: Expressão Popular
  • Valor: R$ 15,00
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Filosofia da práxis

Em coedição com a CLACSO, editamos este trabalho, que é um dos mais sólidos acerca do marxismo. Há trinta e cinco anos de sua primeira edição, este livro torna-se cada vez mais vigente, devido à necessidade de compreender e transformar nosso entorno social, político, econômico e cultural. Porém, sobretudo se converte em uma leitura indispensável pela riqueza de suas reflexões, distanciadas de todo dogmatismo e revitalizadoras de outras filosofias.

  • Livro: Filosofia da práxis (Reimpressão)
  • Autor: Adolfo Sánchez Vázquez
  • Páginas:   480
  • Editora:  Expressão Popular
  • Valor:  R$ 25,00
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As ideias estéticas de Marx

O exame deste livro, publicado originalmente numa quadra histórica em que o marxismo se renovava ao se desembaraçar das contrafações próprias do período stalinista, revela a fecundidade do legado marxiano no trato do objeto estético. A partir de uma criativa (e, por isto mesmo, polêmica) interpretação de Marx, Sánchez Vázquez recupera o potencial crítico e heurístico de suas ideias, expondo a sua riqueza e a sua atualidade para uma análise da arte que articule a sua contextualização sócio-histórica com a abordagem da sua especificidade estética. A relação arte/sociedade capitalista ancora o conjunto das reflexões de Sánchez Vázquez, oferecendo-lhe a base para a tematizar algumas das questões essenciais nela implicadas.

  • Livro: As ideias estéticas de Marx
  • Autor: Adolfo Sanchéz Vázquez
  • Páginas: 272
  • Editora: Expressão Popular
  • Valor: R$ 20,00
  • Para comprar, clique neste link.