[Vídeo] Celso Amorim por Pepe Escobar

Assista entrevista de Pepe Escobar com o embaixador Celso Amorim que fala sobre a construção da política externa brasileira no governo Lula, do BRICS e de outros temas atuais. No canal da TV 247.

Haddad viveu na pele o que aprendeu nos livros

Fernando Haddad #LulaLivre

Um encontro com o patrimonialismo brasileiro*

Eu já havia trabalhado com Dilma Rousseff por um ano, ao longo da transição do Ministério da Educação para Aloizio Mercadante. Conhecia seu estilo tanto como ministra-chefe da Casa Civil quanto como presidenta da República. E, ao contrário do que se diz dela, que é “democrática” no tratamento duro que dedica aos subordinados, eu diria até que sempre me tratou com consideração. Em dezembro de 2012, ainda antes de minha posse no Edifício Matarazzo, fui a Brasília para aquela que seria a nossa primeira audiência de trabalho após minha eleição como prefeito de São Paulo.

Em um contato rápido que havíamos tido na manhã seguinte ao segundo turno, eu já havia insinuado à presidenta que entendia que o governo federal deveria tratar São Paulo de maneira singular, em função de sua importância. Ela então me olhou com um sorriso irônico, como quem diz “Não me venha querer levar vantagem”. Pensando em retrospecto, creio que a relação de Dilma com São Paulo nunca se resolveu completamente.

Dilma me recebeu em seu gabinete no 3º andar do Palácio do Planalto, ao lado dos ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Miriam Belchior, do Planejamento, Orçamento e Gestão. Comigo estava o secretário de Finanças Marcos Cruz, que o empresário Jorge Gerdau havia me apresentado e que deixara a consultoria McKinsey para organizar as contas da prefeitura.

As reuniões com Dilma têm sempre uma carga elétrica no ar. O ambiente nunca é relaxado, e aquele dia foi se tornando mais tenso à medida que o debate transcorria. Minha expectativa era realizar um primeiro encontro com ministérios estratégicos para definir o que Brasília poderia fazer para mudar a cara de São Paulo. Mas o que ouvi foi a demanda exatamente oposta: o que São Paulo faria para ajudar o governo federal? Sem muitos preâmbulos, a audiência passou direto a uma questão bastante específica: o reajuste da tarifa de ônibus no município. Percebi na hora que o clima de celebração pela minha vitória tinha passado e que aquilo era um balde de água fria.

A questão da tarifa havia se tornado um problema para a equipe econômica, que lutava contra o repique da inflação. Eu sabia que me seria demandado algo muito difícil: a manutenção do preço depois de um congelamento que já durava dois anos, já que o último reajuste da tarifa em São Paulo ocorrera em janeiro de 2011. Assim, cheguei à reunião com uma proposta alternativa.

Ainda durante a campanha, eu havia encomendado a alguns pesquisadores da Fundação Getulio Vargas, encabeçados pelo professor Samuel Pessôa, um estudo sobre a eventual municipalização da Cide como fonte de financiamento do transporte público. A Cide, Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, é um tributo de arrecadação vinculada, de competência da União, que incide sobre a importação e a comercialização de gasolina, diesel e derivados. A ideia seria a municipalização desses recursos a fim de que o transporte individual motorizado em nossas grandes cidades respondesse pelo subsídio ao transporte público.

Argumentei que o represamento do preço da tarifa não seria um bom expediente para combater a inflação. Mesmo que o Rio de Janeiro também o adotasse, como era o plano, estávamos falando de um único “preço”, em apenas duas cidades. Imaginar que tal congelamento pudesse colaborar significativamente para combater a inflação em âmbito nacional não me parecia razoável. Fiz, por fim, um apelo: “O tamanho do esforço que terei de fazer no plano local, com um impacto de 600 a 700 milhões de reais por ano, é desproporcional ao benefício que vocês terão. É um sacrifício enorme para um primeiro ano de mandato e não vai ter o efeito que vocês imaginam.” O governo, porém, mantinha-se inflexível.

Apresentamos, então, os números do estudo da FGV, provando inclusive que o resultado que se teria optando por aumentar a gasolina em vez da tarifa dos transportes coletivos seria deflacionário. O que oferecíamos ao governo federal, portanto, era uma alternativa que ia ao encontro daquilo que eles pretendiam, com um ganho de política pública indiscutível. Criava-se uma espécie de “pedágio urbano”, desestimulando o uso do carro e estimulando o do transporte coletivo, mais barato.

A equipe econômica levantou dúvidas sobre o caráter deflacionário da medida. Com o estudo à mão, eu dizia que, no frigir dos ovos, seria melhor optar pelo financiamento via Cide, pois o aumento da gasolina impacta menos na cesta de produtos que compõe o índice de inflação do que o aumento da tarifa. Além de ser uma solução estrutural e definitiva, em que a tarifa deixa de ser um problema que se repete a cada dois ou três anos em nossas cidades. A proposta de municipalização da Cide foi liminarmente descartada e o debate morreu, com a assertiva final de que não era “hora de mexer com o preço da gasolina”.

Estranhei a insensibilidade diante de uma oportunidade única: havíamos ganhado a cidade de São Paulo, derrotando no segundo turno o principal presidenciável tucano, José Serra. Na época em que fui ministro da Educação, eu sempre disse ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, desde 1932, o Brasil nunca havia se reconciliado de fato com São Paulo, nem São Paulo com o país. E quando Lula me encomendou o maior plano de expansão da rede federal de educação superior e profissional, com universidades e escolas técnicas que interiorizamos pelo país, fiz questão de lembrá-lo da pouca presença federal no principal estado da federação. Ele então questionou: “Mas São Paulo precisa? Já tem a USP, a Unicamp, a Unesp, a Fundação Paula Souza…” Insisti: “Mas não tem rede federal.” Assim, criamos a Universidade Federal do ABC, a Unifesp foi expandida pela região metropolitana e a UFSCar, pelo interior de São Paulo. Além do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, que ocupou o lugar do Cefet [Centro Federal de Educação Tecnológica] de São Paulo, que até então tinha apenas duas escolas e hoje tem mais de trinta.

Quando ganhei a eleição para a Prefeitura de São Paulo, pensei: “Quem sabe podemos começar nosso acerto de contas com 1932?”

Meu primeiro encontro de trabalho com Dilma mostrava que eu havia me equivocado. Ela encerrou a conversa, me acompanhou até a porta e disse uma frase de que não me esqueço: “Espero que o nosso próximo encontro seja mais produtivo.”

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Sou filho do casamento de um comerciante libanês com uma normalista. Aprendi em casa a negociar e conversar, e tenho um temperamento em geral tranquilo, mesmo nas situações mais adversas. As pessoas confundem isso com frieza, mas não é. Choro até com propaganda de tevê. Mas costumo ser focado e dificilmente perco a cabeça. Meu corpo, no entanto, às vezes reage. É uma coisa neuromuscular, incontrolável.

Na saída daquela audiência, quando entrei no carro com o secretário Marcos Cruz, essa reação corporal foi muito forte. Ele estranhou, achou que o contratempo na reunião não era para tanto. O que eu sentia ali era algo que já havia experimentado algumas outras vezes na vida: mais do que um mal-estar ou uma simples angústia, era uma espécie de intuição, a sensação nítida de que algo muito sério estava se passando, de que havia um risco real e iminente.

Alguma coisa estava muito errada: não se pensa em controlar a inflação de um país continental pelo represamento de uma tarifa municipal sem atravessar estágios intermediários e sucessivos de uma compreensão equivocada. Não se chega a um erro deste tamanho sem ter feito um percurso todo ele equivocado. Não se produz estabilidade macroeconômica por intervencionismo microeconômico. Foi essa sensação que me tirou do sério naquela manhã em Brasília.

Sensação semelhante, de percepção dos próprios limites diante de uma situação que indica maus presságios, eu tive em 2011, no Ministério da Educação, durante a crise do chamado “kit gay”. A história toda, a começar pela expressão preconceituosa, é um exemplo de como uma informação falsa pode ser criada (e deliberadamente mantida) com intenções políticas nefastas – e consequências sociais que reverberam até hoje.

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acertadamente, aprovou uma emenda de bancada ao orçamento, designando recursos para um programa de combate à homofobia nas escolas. O Ministério Público questionou o MEC sobre a liberação da emenda. Só então o MEC entrou na história, solicitando a produção do material a uma ONG especializada. No exato momento em que o material foi entregue para avaliação, eclodiu a crise do “kit gay”.

Desde o início, quem lia as notícias imaginava que aquela era uma iniciativa do Executivo, quando na verdade a demanda havia sido do MP e do Legislativo. Também se sugeriu que o material estivesse pronto e já distribuído, quando sequer havia sido examinado. Expliquei tudo à imprensa e às bancadas evangélica e católica do Congresso, e o mal-entendido parecia desfeito. Despreocupado, viajei no dia 25 de maio a Fortaleza para receber o título de Cidadão Cearense. Então, durante a minha ausência de Brasília, um material de outro ministério, o da Saúde, foi apresentado como sendo o tal “kit gay” do MEC para as escolas. Esse outro material se destinava à prevenção de DST/Aids e tinha como público-alvo caminhoneiros e profissionais do sexo nas estradas de rodagem – com uma linguagem, portanto, direta e escancarada.

O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) exibiu em plenário a campanha do Ministério da Saúde dizendo que eu havia mentido no dia anterior e que as escolas de Campos dos Goytacazes, onde a mulher dele, Rosinha Garotinho, era prefeita, já dispunham de exemplares para distribuir aos estudantes. Aquilo virou um caldeirão. Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete da Presidência, me telefonou alarmado. Eu disse: “Gilberto, pare dois segundos para pensar e se acalme. Isso não existe. O material para as escolas ainda está na minha mesa, não há chance de ele ter sido distribuído.”

Era, evidentemente, uma armação, explicada inúmeras vezes para a imprensa, mas a confusão já estava feita. E a polêmica do “kit gay” – que foi sem nunca ter sido – estendeu-se por meses. Em junho, às vésperas da Marcha pela Família, convocada por grupos religiosos em Brasília, recebi em meu gabinete o senador Magno Malta (PR-ES) para conversar sobre o assunto. Em determinado momento, ele elevou o tom e começou a me ameaçar. Disse que a Marcha ia parar na frente do MEC, que eles iriam me constranger. Mantive o tom calmo que sempre adoto: “Mas, senador, o senhor conhece a história, sabe que não é verdade.” Não adiantou. Percebi, então, que aquilo não era uma questão de argumentos, mas um jogo de forças. E eu disse, também com o tom de voz mais alto: “Então venham. Hoje à noite eu vou rezar um Pai-Nosso e amanhã nós vamos ver qual Deus vai prevalecer, o da mentira ou o da verdade.”

O senador parou, abriu um sorriso e pegou na minha mão: “Você é um homem de Deus. Se acredita n’Ele, eu acredito em você.”

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Voltei a esse episódio já relativamente antigo porque ele me parece exprimir muito bem um fenômeno que o ultrapassa. Em um artigo recente para a revista nova-iorquina Dissent, a filósofa norte-americana Nancy Fraser discutiu a eleição de Donald Trump e o que chamou de “derrota do neoliberalismo progressista”. No texto, Fraser mostra como se constituiu nos Estados Unidos a disputa entre duas modalidades de direita: o neoliberalismo progressista dos governos Clinton e Obama e o protofascismo de Trump, com seu discurso protecionista na economia e seu conservadorismo regressivo em relação aos costumes e direitos civis. Pode-se discutir se é correto enquadrar Obama no campo neoliberal, mas o que importa preservar do argumento da autora, nesse embate, é que a grande vantagem do neoliberalismo americano, que era o diálogo com as minorias – LGBT, mulheres, negros e imigrantes –, se perdeu.

O que vimos no Brasil dos últimos anos foi algo um pouco diferente: essas duas modalidades de direita em boa medida se fundiram, de modo que mesmo nossa direita neoliberal passou a cultivar a intolerância. A vitória socioeconômica do projeto do PT até 2013 foi tão acachapante – crescimento com distribuição de renda e ampliação de serviços públicos – que sobrou muito pouco para a versão civilizada da direita tucana. Ela não podia mais se dar ao luxo de ser neo-liberal e progressista. Para enfrentar a nova realidade, os tucanos passaram a incorporar a seu discurso elementos do pior conservadorismo.

Temas regressivos foram insuflados no debate nacional. A campanha de José Serra à Presidência em 2010 foi um momento importante dessa inflexão tucana. Embora talvez fosse o desejo íntimo de alguém como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o PSDB não conseguiu se transformar na versão brasileira da agenda democrata norte-americana. Pelo contrário, ao radicalizar o discurso conservador, o partido revolveu o campo político de onde floresceu a extrema direita no Brasil. Quem abriu a caixa de Pandora de onde saiu o presidenciável Jair Bolsonaro foi o tucanato. Embora essa agenda pudesse vir à tona em algum momento, foram os tucanos que a legitimaram. Um equívoco histórico. Quando, pela mudança de conjuntura, se tenta abdicar desse ideário, isso já não é mais possível, pois logo aparece alguém para ocupar o espaço criado. Foi exatamente o que aconteceu: a extrema direita desgarrou e agora quer tudo – a agenda tucana e muito mais.

Um movimento semelhante ocorreu com a imprensa. Curiosamente, o veículo que mais respaldou essa pauta foi aquele de quem menos se esperava uma aproximação com o obscurantismo: o jornal Folha de S.Paulo. Sob o manto moderno do pluralismo, uma pretensa marca do jornal, a Folha legitimou, tornou palatável e deu ares de seriedade a uma agenda para lá de regressiva. Adotando inclusive a expressão “kit gay”, criada pela bancada evangélica do Congresso, o jornal deu dignidade a uma abordagem que contribuiu para que o debate sobre direitos civis atrasasse cinquenta anos no país.

Embora tenha desandado na cobertura noticiosa, a Folha continua utilizando o espaço dos editoriais para se apresentar como uma espécie de vanguarda da modernidade. O expediente tornou-se tão incongruente com as opções do noticiário que em determinado momento a Folha precisou alardear em peças publicitárias, no próprio jornal e na tevê, aquilo que seria seu posicionamento oficial sobre temas mais delicados. Vejo isso como um caso singular de cinismo que maquiava o embarque do jornal numa espécie de “neo-liberalismo regressivo”.

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Um dos problemas do jornalismo no Brasil é a falta de regulação do mercado. Os meios de comunicação por aqui funcionam, do ponto de vista econômico, como oligopólio; e funcionam como monopólio do ponto de vista político. Chegaram a ponto de tentar tirar do ar, por via judicial, os portais de informação estrangeiros em língua portuguesa – como BBC BrasilEl País Brasil ou The Intercept Brasil –, invocando o artigo 222 da Constituição, que reserva aos brasileiros natos a propriedade de empresas jornalísticas.

Os grandes grupos de comunicação são geridos por famílias que pensam da mesma forma e têm a mesma agenda para o país, com variações mínimas. Em momentos cruciais de nossa história, como em 1964 e 2016, atuam em bloco.

Talvez a prova mais consistente de que esse oligopólio econômico funciona como monopólio político-ideológico seja o fato de que, à propriedade cruzada dos meios de comunicação, corresponde uma espécie de emprego cruzado no mundo do trabalho. Ou seja, os principais jornalistas do país, sobretudo aqueles que cumprem o papel de alter ego dos empregadores, podem estar – e rigorosamente estão – em qualquer lugar a qualquer tempo. Não se pode escapar da sua voz, imagem e comentários onipresentes, baseados ou não nos saberes dos “especialistas” de sempre, a não ser à custa de desesperado alheamento. Eles não só estão na emissora de tevê, na rádio e no jornal da mesma organização, como podem assinar uma coluna de jornal de um grupo de comunicação e, simultaneamente, comentar notícias na rádio ou tevê de outro. Em outras palavras, ocupam posições que só são plenamente intercambiáveis pelo caráter próprio do modelo. Algo que seria impensável em um país liberal como os Estados Unidos ou a Inglaterra, por exemplo. É bastante surreal que críticas ao modelo brasileiro de comunicação sejam apresentadas como um atentado à liberdade de imprensa, quando na verdade o modelo brasileiro é o que limita a atividade jornalística.

Claro que há limites para o poder desse monopólio político-ideológico. Num ambiente de relativa liberdade, os indivíduos trocam impressões, questionam, firmam contrapontos. Até as Organizações Globo, com todo o seu poderio, têm dificuldades em derrotar uma boa ideia. O Programa Bolsa Família, por exemplo, existe, apesar da Globo. Tentou-se por todos os caminhos deslegitimá-lo, desconstruí-lo, mas essa iniciativa de caráter eminentemente liberal é hoje recomendada a outros países do mundo pelo Banco Mundial. A promoção da igualdade racial é outro exemplo de ação que resistiu bravamente à tese “global”, bastante extravagante, da inexistência de racismo entre nós – tese que contraria absolutamente todas as evidências empíricas, em especial no que se refere à situação da mulher negra no país.

Por mais severo que fosse meu diagnóstico sobre a mídia brasileira, sempre procurei respeitar os profissionais da imprensa. O jornalismo, com todas as suas limitações, se bem exercido, é bastante útil à sociedade. Numa democracia, até uma imprensa ruim pode ajudar. O jornalismo crítico, mesmo quando desprovido de boas intenções, pode fazer bem ao poder público, fiscalizando a atividade política e trazendo pontos de vista novos que o administrador nem sempre observa, de modo a permitir aperfeiçoamentos e correção de rota.

Como prefeito, eu não nutria grandes expectativas sobre o tratamento que receberia da imprensa. Sabia que seria difícil. Vencer o would-be president José Serra na capital do assim chamado “Tucanistão” não ficaria impune. Mas confesso que, mesmo consciente das circunstâncias adversas que enfrentaríamos, os acontecimentos me surpreenderam.

Em dezesseis anos de vida pública, sempre mantive com as principais famílias proprietárias dos meios de comunicação uma relação cordial e respeitosa, em que pesem nossas diferentes visões de mundo. Não dispensava interlocução com os Marinho, os Frias e os Civita.

A abordagem destes três grupos de comunicação – Globo, Folha e Abril – em relação à minha administração oscilou da indiferença à tentativa de desconstrução das políticas públicas em curso. Era o melhor que se podia esperar: as críticas não eram pessoais; eram, em geral, políticas. À exceção do Bom Dia SP, da Globo, e sua destoante cobertura em comparação ao Bom Dia de qualquer outra capital do país, no que diz respeito a esses três grupos de comunicação as coisas andavam dentro do previsto, com uma ou outra exceção.

Houve casos insólitos, no entanto. A CBN certa vez publicou em seu portal reportagem cuja manchete anunciava: “Irmão de secretário de Haddad é denunciado por envolvimento na máfia do ISS.” Informada de que o denunciado era na verdade irmão de Rodrigo Garcia, secretário de Geraldo Alckmin, a emissora retificou a reportagem por meio de um duplo carpado hermenêutico para não mencionar o nome do governador.

A revista Veja São Paulo, por sua vez, alardeou, em matéria de 6 de fevereiro de 2015, que as ciclovias da prefeitura eram as mais caras na comparação com outras nove cidades estrangeiras. Misturaram alhos com bugalhos, desconsiderando projetos especiais que implicavam enterramento de fiação, readequação urbanística de canteiros etc. Mais de um ano de trabalho para desmentir o fato.

Em agosto de 2016, o Tribunal de Contas do Estado divulgou estudo denunciando que uma ciclovia provisória do Metrô de São Paulo havia custado “seis vezes mais que as ciclovias da prefeitura”, teoricamente uma das mais caras do mundo. A informação foi publicada na Exame. A gravidade das denúncias era inversamente proporcional à tiragem das revistas em que foram veiculadas.

Eu poderia citar dezenas de casos semelhantes. Mas problemas desse tipo não me incomodavam. O que de fato me deixava contrariado era a matéria jornalística que, para além de afetar a minha imagem ou a imagem do governo, afetava negativamente a vida dos beneficiários de políticas públicas. Mais ainda quando isso fazia crescer o preconceito e a intolerância em relação aos mais vulneráveis.

Não exagero em afirmar que o fim do programa De Braços Abertos é, em grande parte, resultado do tipo de cobertura da Folha. Até então, nenhum prefeito havia ousado atuar na Cracolândia, ao longo de vinte anos. O governo do estado, por sua vez, pouco êxito obteve na solução do problema ao longo dos mesmos vinte anos. Em apenas um ano o De Braços Abertos foi criado e o fluxo de moradores em situação de rua na Luz se reduziu em dois terços, de 1 500 para cerca de 500 pessoas. A situação dos acolhidos pelo programa foi atestada por uma pesquisa independente da Open Society Foundations, que reconheceu os méritos da política de redução de danos.

A publicação dos dados dessa avaliação externa só ocorreu na Folhaapós semanas de negociação – e foi seguida por reportagens que, na prática, isentavam completamente o governo do estado de responsabilidade pela ausência da polícia e consequente intensificação do tráfico na região. Do Recomeço, programa de internação do governo do estado, não eram exigidos resultados e muito menos avaliação externa. A cada eleição presidencial, o governo federal era cobrado pela vigilância de 17 mil quilômetros de fronteira seca, sem que o governo de São Paulo conseguisse vigiar um quarteirão da principal cidade do país.

Outros artifícios frequentes dos meios de comunicação são a omissão da autoria, o desvirtuamento da motivação ou a desigualdade de tratamento das políticas públicas. Existe uma diferença tênue entre capricho pessoal e construção de reputação. O primeiro caso atende pelo nome de vaidade; o segundo é uma exigência da democracia. O tratamento dado à informação pode impedir a construção da reputação de uns, enquanto alimenta a vaidade de outros. A inauguração do Hospital Vila Santa Catarina, na minha gestão, teve menos destaque que a recente reforma dos banheiros do parque Ibirapuera pela gestão de Doria.

Fantástico chegou a fazer uma série de matérias sobre um programa municipal chamado FabLab – laboratórios de impressoras 3D que se espalham pelo mundo fomentando o empreendedorismo. Não me lembro de que tenham feito menção à Prefeitura de São Paulo. O programa Transcidadania, de assistência socioeducacional a travestis, foi, segundo a revista Veja, motivado pelos menos nobres sentimentos decorrentes da disputa entre mim e a senadora Marta Suplicy, quando a verdadeira motivação era a vontade de retomar a agenda contra a homofobia.

O que se percebe muito rapidamente é que a esfera pública está contida na mídia em vez de envolvê-la. O Brasil tem pouco mais de cinquenta cidades com mais de 400 mil habitantes, número que corresponde, na média, ao de moradores de cada uma das 32 subprefeituras da cidade. Numa escala tão grande como essa, um político não consegue ser avaliado pela forma como se apresenta, mas pela forma como é apresentado. Isso confere à mídia um poder enorme: ela tanto pode impedir que boas iniciativas se colem à imagem de um gestor, condenando-o à invisibilidade, como obrigá-lo a compartilhar responsabilidades que recaem sobre outra esfera de governo, superexpondo-o indevidamente.

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Não bastassem os problemas estruturais de relacionamento da grande imprensa com qualquer governante de centro-esquerda, eu ainda tive problemas conjunturais com a segunda divisão dos meios de comunicação. Na minha percepção, foram muito mais danosos à imagem do governo do que os episódios até aqui narrados, porque impactaram diretamente a periferia da cidade. Nesses casos, a política transbordou para o pessoal.

Refiro-me, para ficar nos casos mais conhecidos, à atitude de desrespeito e escárnio do Estadão, da Record e da Bandeirantes perante a minha administração.

Estadão recebeu bem minha indicação para o Ministério da Educação, chegando a fazer referências elogiosas à minha trajetória acadêmica interdisciplinar na Universidade de São Paulo. Quando meu nome começou a ser ventilado para concorrer a cargos majoritários, o comportamento do jornal mudou radicalmente. Contei 413 editoriais do Estadão – eu os coleciono – contra minha gestão à frente do MEC e da Prefeitura de São Paulo. Um par deles é particularmente significativo. No início de 2016, o jornal apostou que, sendo eu um “demagogo”, jamais reajustaria a tarifa de ônibus em ano eleitoral, mesmo que isso fragilizasse as finanças municipais num momento de crise econômica. Eu jamais me renderia à demagogia, mesmo sabendo que o último reajuste em ano eleitoral acontecera vinte anos antes, em 1996. Após o inevitável aumento, o Estadãocritica a decisão num duro editorial intitulado “Cada vez mais caro e ruim”.

Com a Record, o contencioso envolvia a construção do Templo de Salomão. Quem licenciou a obra na gestão Kassab foi Hussain Aref Saab – então diretor do departamento de aprovação de edificações da prefeitura, acusado em 2012 de liberar obras irregulares em troca de propina. Entre outras coisas, a edificação invadia parte de uma zona especial de interesse social, destinada à moradia popular. A lei mandava demolir e esse argumento foi usado pela minha gestão para propor uma modalidade de acordo de leniência, aprovado por lei. A forma encontrada para indenizar a cidade previa a doação de um terreno com as mesmas dimensões e na mesma região, o que exigiria um dispêndio por parte da Igreja Universal do Reino de Deus de cerca de 40 milhões de reais. Essas negociações, que duraram anos, gerariam muito estresse em qualquer circunstância, mas o fato de a Record ter dentro de casa um candidato a prefeito, Celso Russomanno, agravava o quadro ainda mais.

Situação, aliás, muito semelhante à do Grupo Bandeirantes. Eu achava estranho o apresentador José Luiz Datena se recusar a conversar comigo. Dois almoços cancelados e uma animosidade incomum. Não imaginava que ele tivesse pretensões políticas, como mais tarde se revelou. O acesso à tela altera completamente as condições do jogo e os programas de tevê, nessas circunstâncias, se transformavam, um a um, em programas eleitorais. Foi difícil ter como potenciais adversários apresentadores de programas populares que dialogavam com a periferia diariamente.

O entrevero com a Band na verdade começou com o fim da Fórmula Indy. Cada edição custava 35 milhões de reais aos cofres paulistanos, piorava as condições do trânsito na Marginal Tietê e não trazia um centavo de retorno turístico para a cidade. Decidimos cancelar o evento. Plantamos vento e colhemos tempestade. A emissora promoveu uma campanha sistemática contra a atualização da planta de valores do IPTU e contra o plano municipal de mobilidade urbana. Premiado internacionalmente, o plano recebeu das emissoras de rádio do grupo o tratamento mais desqualificado que se poderia imaginar. Grande proprietário de terras na cidade, Johnny Saad chegou a me dar um telefonema dizendo: “Vamos para cima de você.”

Deixo a Jovem Pan para o final porque o comportamento da emissora em relação ao meu governo talvez seja a expressão mais transparente do déficit de republicanismo que há no Brasil.

Meus anos de universidade foram marcados pelo convívio com a nata da intelectualidade uspiana. Discutia filosofia com Paulo Arantes e Ruy Fausto, crítica literária com Roberto Schwarz, economia política com José Luís Fiori, história com Luiz Felipe de Alencastro, sociologia com Gabriel Cohn, direito com Dalmo Dallari e Fabio Comparato – e assim por diante. Estamos falando de grandes intelectuais a quem os jovens professores submetiam nossa produção acadêmica. Ver, de repente, e por imposição da atividade política, a minha produção acadêmica avaliada por comentaristas como Marco Antonio Villa e Reinaldo Azevedo foi um dos ossos mais duros de meu novo ofício. Em 1989, escrevi um livro intitulado O Sistema Soviético, uma crítica muito mais ácida àquele modelo do que, por exemplo, a elaborada por Bresser-Pereira no seu A Sociedade Estatal e a Tecnoburocracia, de 1981. Na verdade, minha tese antecipava o diagnóstico feito pelo pensador alemão Robert Kurz em O Colapso da Modernização. Não obstante, nossos dois comentaristas leram e não entenderam, considerando o livro, para meu espanto, uma defesa do comunismo.

Em relação a mim, a Jovem Pan não fazia propriamente jornalismo, mas algo como uma campanha persecutória. Basta ir aos arquivos da emissora para constatar. Villa resolveu utilizar seu tempo para me difamar diariamente a partir de uma análise pedestre da agenda institucional do prefeito. Diante da recusa da jp em considerar os dados oficiais sobre minha jornada de trabalho, adotamos um procedimento didático que desmoralizou nosso acusador. Por poucas horas mantivemos no portal da prefeitura uma agenda no padrão da cumprida por políticos que esse pseudointelectual gosta de bajular. Ele mordeu a isca e fez os comentários raivosos de praxe para me desqualificar. Então informei o trote pelo Facebook. Até aí, só bom humor. Inconformado, entretanto, o comentarista cobrou no ar, ensandecido, providências do Ministério Público. E elas chegaram na forma de uma ação de improbidade, da qual já fui absolvido, e de um inquérito criminal, em curso.

Li praticamente todos os clássicos sobre a formação do Brasil. Conhecia teoricamente o nosso país. Mas a experiência prática é insubstituível. Vivi na pele o que li nos livros.

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Brasil conheceu períodos democráticos em sua história, mas nunca um período republicano, ou essencialmente republicano, em que as instituições não se envolvem no mérito das disputas partidárias. A discussão sobre as contradições entre república e democracia foi exposta com perspicácia pelos federalistas norte-americanos, há mais de 200 anos. Os Pais Fundadores observavam que a democracia podia facilmente degradar-se em tirania da maioria. Pensaram então numa série de contrapesos, em instituições que pudessem impedir a tirania sobre minorias e preservar o país da ação de facções.

O Brasil deixaria Madison, Jay e Hamilton de cabelos em pé. Quando se olha para as instituições do país, vê-se logo que são tomadas por uma espécie de luta interna entre seus propósitos mais nobres e uma encarniçada disputa político-partidária, que obedece à lógica das facções. As instituições que deveriam apenas “garantir o jogo” democrático têm apetite por “jogar o jogo”, o que o torna menos democrático.

Costuma-se dizer que é complicado administrar uma cidade como São Paulo, mas a mim isso sempre foi extremamente estimulante. O problema é que instituições que deveriam funcionar para, na forma da lei, dar respaldo a quem ganha as eleições para executar seu plano de governo agem, muitas vezes, de forma facciosa. Hoje a bandeira a empunhar talvez fosse a da “justiça sem partido”.

No primeiro ano de mandato, além do impacto do represamento da tarifa de ônibus no orçamento municipal, outro evento – na verdade, uma decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) – fez com que, em dezembro, eu rebaixasse ainda mais as expectativas sobre minhas possibilidades de êxito.

A decisão judicial inexplicável, que trouxe graves prejuízos à administração, foi a que barrou a atualização da chamada Planta Genérica de Valores do IPTU, o Imposto Predial e Territorial Urbano, em dezembro de 2013, a partir de uma liminar pedida pelo PSDB e pela Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Não havia na jurisprudência precedente de um tribunal suspender a revisão da base de cálculo de um tributo. Mas aconteceu. Um erro que a Justiça só reconheceu um ano mais tarde, depois de termos perdido o equivalente na época a 850 milhões de reais de arrecadação, valor suficiente para a construção de vinte CEUs, o Centro Educacional Unificado. Além de estar prevista em lei municipal e na venerada Lei de Responsabilidade Fiscal, a revisão implicava uma redução significativa do imposto nas periferias e seu aumento no centro expandido, onde os imóveis experimentaram uma brutal valorização. Era, portanto, uma medida que promovia justiça social.

Tenho gravada na memória a audiência que tivemos com o ministro Joaquim Barbosa no dia 19 de dezembro de 2013 para tentar revogar a liminar. Primeiro ele atendeu o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, e seu advogado Ives Gandra Martins. Só depois a mim e ao procurador do município. Era nítida a diferença de tratamento, de postura, de tom, a nosso desfavor. Na audiência discutimos a situação política do país, a elevada carga tributária, e até o valor do IPTU do imóvel do ministro no Rio de Janeiro, na opinião dele muito alto. Questões eminentemente jurídicas não receberam nenhuma atenção. O pedido de cassação da liminar nos foi negado, fato só revertido no âmbito do Tribunal de Justiça de São Paulo, com larga margem de votos a nosso favor, um ano depois – leite já derramado. Infelizmente, na política, quando a Justiça tarda, ela falha.

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Se o primeiro ano de governo foi marcado pelo dissabor dessa decisão, no quarto ano vivi um episódio lastimável envolvendo um membro do Ministério Público Estadual. O caso gira em torno da Arena Corinthians, construída pela Odebrecht. Como se sabe, quando prefeito, Kassab aprovou uma lei que permitia ao Executivo emitir 420 milhões de reais em títulos, em nome do clube, que poderiam ser usados para pagamentos de tributos municipais. Com isso, viabilizava-se a construção do estádio para a abertura da Copa do Mundo. Um promotor de Justiça entrou com uma ação contra essa lei. E os títulos viraram um mico nas mãos do clube e da empreiteira. Alegando que haviam sido prejudicados pela ação, Corinthians e Odebrecht reivindicaram que a prefeitura, diante do imbróglio, recomprasse os papéis, invendáveis dada a insegurança jurídica provocada pela atuação do Ministério Público.

Obviamente recusei a proposta, que seria lesiva ao município. Foi quando fiquei sabendo de um suposto incidente gravíssimo envolvendo o promotor de Justiça Marcelo Milani. Fui informado de que, para não ingressar com a ação judicial, o promotor teria pedido propina de 1 milhão de reais. Eu respondi que essa informação não mudava o teor da minha decisão, contra a recompra, e que não me restava alternativa como agente público senão levar o fato relatado ao conhecimento da Corregedoria-Geral do Ministério Público, para que fosse devidamente apurado.

Por recomendação do meu secretário de Segurança Urbana, Roberto Porto, ele mesmo membro do Ministério Público, chamei em meu gabinete um assessor do corregedor do órgão, Nelson Gonzaga de Oliveira, e repassamos a informação do suposto pedido de propina. Fizemos isso com a maior discrição. Sem uma ampla investigação, não haveria como atestar a veracidade da informação contra o promotor, que eu sequer conhecia. Minha denúncia, contudo, chegou aos ouvidos do próprio Marcelo Milani. E desde então ele adotou uma atitude persecutória contra mim.

Dou exemplos. A Controladoria Geral do Município, que criamos, foi responsável por flagrar atos de corrupção no Theatro Municipal. Assim que a irregularidade foi detectada, nomeamos um interventor e estabelecemos uma parceria com o Ministério Público, bloqueando os bens comprados com o dinheiro da corrupção pelos envolvidos, que confessaram o crime. Uma CPI, de maioria oposicionista, criada pela Câmara Municipal decidiu excluir por unanimidade qualquer menção ao meu nome do relatório final, por entender que nada havia contra o prefeito neste caso. O promotor Marcelo Milani, ainda assim, encontrou uma maneira de propor uma ação de improbidade contra mim.

Mas talvez seja em outra ação de improbidade, relativa ao destino dos recursos de multas de trânsito, que o comportamento impróprio do promotor tenha ficado mais patente. Milani moveu duas ações semelhantes com o mesmo fundamento, uma contra a prefeitura, outra contra o estado. No primeiro caso, convocou-se uma coletiva de imprensa e o chefe do Executivo, o prefeito, figurava como réu por improbidade; no segundo, uma breve nota substituiu a coletiva de imprensa, o governador não figurava como réu e o processo acabou arquivado por perda de prazo pelo promotor. A isso eu chamo de comportamento faccioso. Fatos como esse são muito mais corriqueiros no Brasil do que se imagina.

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Volto a 2013, de onde parti, para enfrentar a pergunta fundamental se quisermos entender os últimos anos e a situação atual do país: como explicar a explosão de descontentamento ocorrida em junho daquele ano, expressa na maior onda de protestos desde a redemocratização? O desemprego estava num patamar ainda baixo; a inflação, embora pressionada, encontrava-se em nível suportável e corria abaixo dos reajustes salariais; os serviços públicos continuavam em expansão, e os direitos previstos na Constituição seguiam se ampliando.

Cabem, ao menos, três reflexões a respeito de 2013: sobre as classes médias, sobre a polícia e sobre as redes sociais.

O Marx da maturidade foi obrigado a ceder a um argumento que só seria apresentado formalmente décadas depois pelo economista Joseph Schumpeter. Foi quando a tese marxista da pauperização da classe trabalhadora deu lugar a um raciocínio mais sofisticado. Como decorrência do incrível progresso tecnológico próprio do capitalismo, os salários poderiam, segundo seus textos mais tardios, aumentar continuamente – o que significava dizer que a situação da classe operária poderia melhorar em termos absolutos.

Ainda assim, o velho Marx não se viu obrigado a rever, por força dessa inflexão, seus prognósticos sobre a evolução da luta de classes. Isso porque ele avaliou que o relevante para a dinâmica de classe era a posição relativa das classes, e não sua posição absoluta. Importava mais a distância que separa as classes entre si, num dado momento, do que a comparação de uma classe com ela mesma ao longo do tempo.

O advento da social-democracia representou para o marxismo um desafio adicional. Nos chamados anos dourados do capitalismo, que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, não só a posição absoluta dos trabalhadores nos países desenvolvidos – o núcleo duro do sistema – melhorou continuamente, como a classe trabalhadora desses países viu sua posição relativa se alterar favoravelmente. O fenômeno, expresso nos indicadores de desigualdade social, é reconhecido pela economia política em geral – seja ele consequência das guerras mundiais, do desafio soviético ou da lei de ferro que estratifica as economias nacionais, concentrando riqueza oligárquica no núcleo duro do sistema.

O Brasil, por sua vez, é um país fortemente estratificado: a desigualdade sempre foi a marca da nossa sociedade. Somos um misto de sociedade de “castas” com meritocracia. O indivíduo pode, por esforço e talento próprios, mudar de casta sem reencarnar – mas a posição relativa das “castas” há de ser mantida.

Durante o governo Lula essa estrutura começou a se alterar e, aparentemente, gerou grande mal-estar: os ricos estavam se tornando mais ricos e os pobres, menos pobres. Por seu turno, as camadas médias tradicionais olhavam para a frente e viam os ricos se distanciarem; olhavam para trás e viam os pobres se aproximarem. Sua posição relativa se alterou desfavoravelmente. Se os rendimentos dessas camadas médias não perderam poder de compra medido em bens materiais, perderam-no quando medido em serviços.

O verdadeiro shopping center das camadas médias brasileiras sempre foi o mercado de trabalho. A abundância de mão de obra barata lhes garantia privilégios inexistentes no núcleo duro do sistema. A empregada barata, a babá barata, o motorista barato. Serviços domésticos em quantidade eram a grande compensação pela falta de serviços públicos de qualidade.

A princípio, o desconforto não tinha como se expressar politicamente, pelo menos não da forma tradicional. Num dos países mais desiguais do mundo, defender a desigualdade não traria à oposição a projeção necessária nos embates no plano socioeconômico. Esse desconforto encontrou sua expressão possível pelo discurso da intolerância – contra pobres (Bolsa Família), pretos (cotas), mulheres (aborto), gays (kit) ou jovens (maioridade penal) –, que flertou com o fundamentalismo, violento ou religioso.

A panela de pressão estava ali, acumulando energia, e só não explodia porque o palpável sucesso econômico do governo a impedia. E, ao contrário do que já vinha acontecendo no restante da América Latina, na Venezuela, na Argentina, no Peru, no Equador e na Bolívia, a direita no Brasil ainda não tinha saído às ruas. A partir de 2006, em particular com a reeleição de Lula, apesar do aumento contínuo da aprovação ao governo, já se podia perceber um sentimento crescente de desalento por parte de setores mais tradicionais.

E veio a fagulha, acesa num protesto organizado pelo MPL, o Movimento Passe Livre, contra o aumento da tarifa de ônibus – um reajuste, é bom lembrar, de apenas 6% diante de uma inflação acumulada de 17%. Eu sabia que a situação exigia cuidado, que teria repercussão, ainda mais sendo eu o prefeito, mas imaginava que conseguiria estabelecer um diálogo com os manifestantes que, a princípio, recusaram o aceno.

Eis que entra em cena o “comando da polícia”, uma entidade desde sempre mais preocupada com a ordem pública do que com a segurança pública, mais preocupada com os deveres do cidadão do que com seus direitos.

Na ocasião, a administração municipal se desgastava com a cúpula da Polícia Militar em função da readequação das regras de remuneração da chamada Operação Delegada, programa criado por Kassab mediante o qual o município repassava mais de 100 milhões de reais para a corporação por serviços de combate aos ambulantes ilegais. Atrito, aliás, que já havia se manifestado na primeira Virada Cultural sob nossa administração, quando arrastões aconteceram diante de olhos displicentes de alguns policiais, segundo diversos relatos da época. E se agravaria com o boicote explícito ao programa De Braços Abertos, com a transferência dos excelentes policiais militares que inibiam a ação do tráfico na região da Cracolândia.

Em 13 de junho de 2013, a foto de um policial com o rosto coberto de sangue estampou a capa dos jornais. Ele havia sido agredido pelos manifestantes. Naquele dia eu voltava de uma viagem de trabalho com o governador Geraldo Alckmin e, até aquele momento, a situação nem de longe parecia fora de controle. Aquela foto, entretanto, me impeliu a dar um telefonema ao secretário de Segurança Pública do estado: era imprescindível um esforço para que não houvesse um revide da polícia. Mas ele veio. E então o país explodiu.

Para os padrões da classe média, a violência foi grande. Ainda tentando manter a situação sob controle, fiz uma crítica à atuação policial abaixo do tom, na esperança de criar algum espaço para a interlocução. Em vão. O MPL passou a me corresponsabilizar pela truculência da polícia, e a polícia, por seu turno, reprimia o movimento – a não ser quando os alvos da fúria eram prédios municipais, como o Edifício Matarazzo ou o Theatro Municipal. Nesses casos, a Polícia Militar simplesmente cruzava os braços. Apesar de um pedido que na ocasião fiz em audiência, Alckmin só viria a substituir o comandante-geral da PM ao final do seu mandato, em dezembro de 2014.

Alguém dirá, com razão, que nem o MPL nem a PM explicam a eclosão da crise. Aqui, é necessário introduzir um elemento sem o qual os eventos de 2013 não encontram explicação: a forma assumida pelas manifestações.

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Tradicionalmente, todas as modernas organizações contestatórias no Brasil, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (mst) ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (mtst), passando pela Central Única dos Trabalhadores (cut), pela União Nacional dos Estudantes (une) e demais movimentos sociais, sempre foram adeptas de alguma mediação político-institucional. Mesmo durante a fase mais aguda do neoliberalismo, essas organizações faziam atos, exerciam seu direito de protesto, mas buscavam a negociação com as instituições. Diante de governos de centro-esquerda, essa tendência se acentuava e trazia ganhos efetivos para os grupos representados.

Nos países do núcleo orgânico do sistema, onde essa mediação era menos provável, ganhou corpo desde os eventos de Seattle, em 1999, uma certa esquerda antiestatal, neoanarquista charmosa, que mantém distância dos governos e das instâncias de representação política em geral. Os protestos nessas circunstâncias ocorrem de forma inteiramente nova. Sem vínculos partidários nem pretensões eleitorais, a partir de uma agenda bastante específica e de difícil contestação, esses movimentos começaram a fazer sucesso mundo afora. E eles foram bastante críticos em relação à política e às formas tradicionais de negociação, que viriam inspirar os movimentos mais contemporâneos que se desenvolveram no Brasil, dentre os quais o MPL.

Traduzida para as condições locais, porém, a novidade provocou um curto-circuito. A forma dos protestos, muito mais do que o conteúdo de suas reivindicações, oferecia uma chave de contestação que se prestava à defesa de tantas outras bandeiras. Logo ficou claro que ela, a forma, poderia ser sequestrada e servir de embalagem para uma miríade de novas demandas. E a panela de pressão de que falávamos pareceu ter encontrado a válvula para dar vazão à energia que havia se acumulado por anos.

No intervalo de uma semana as ruas estavam cheias, com uma pluralidade de reivindicações desconexas e às vezes contraditórias entre si. Quando o sequestro da forma se consumou, o MPL se retirou das ruas, bem como a esquerda tradicional caudatária do movimento. E grupos de direita, apartidários, se organizaram para emparedar o governo federal, apropriando-se sintomaticamente da própria linguagem dos protestos originais, que ganhavam simpatia popular: MBL (Movimento Brasil Livre) é uma corruptela de MPL; Vem Pra Rua era um dos gritos mais ouvidos nos protestos; Revoltados On Line evoca diretamente a natureza daqueles eventos convocados via rede social.

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Sem tratar das redes sociais não se entende 2013 em sua totalidade. Criou-se uma ilusão nas esquerdas em relação ao potencial emancipatório da internet. Acho que as redes sociais estão mais para Luhmann do que para Habermas. Quero dizer com isso que a ênfase dada pelo filósofo alemão Jürgen Habermas às possibilidades de participação política proporcionadas pela modernidade talvez tenha sido exagerada. E que a visão mais pessimista de seu conterrâneo, o sociólogo Niklas Luhmann, seja mais adequada ao mundo de hoje.

De acordo com Luhmann, o advento da rede social representa uma ruptura radical entre a emissão e a recepção da mensagem. É uma ideia contraintuitiva numa época em que tudo se tornou instantâneo e tudo parece interligado. O ponto, segundo ele, é que hoje a reputação do emissor, a origem da informação, perdeu relevância. A técnica, diz Luhmann, “anula a autoridade da fonte e a substitui pelo irreconhecível da fonte”.

Imaginou-se inicialmente, sobretudo em ambientes de esquerda, que essa ruptura e o enfraquecimento da autoridade de quem fala reduziriam o poder de manipulação da indústria cultural. Entretanto, o que ocupou seu lugar parece tão ou mais perigoso que a força da tradição, com a difusão deliberada e em grande escala de informações com viés, sem o anteparo das instâncias costumeiras de validação. É nesse ambiente que prospera a chamada “pós-verdade”.

Há de se considerar ainda a dimensão econômica, o modelo de negócio da internet. Na verdade, as redes digitais são menos sociais do que se pensa. Por trás do black mirror há menos o desejo de promover a interação do que, por meio da interação, conhecer o feixe de relações do usuário para compor tanto quanto possível a “identidade” desse sujeito.

Somos decodificados a partir das nossas manifestações digitais e convertidos numa sequência binária de curtidas/não curtidas que revela nossas preferências e gostos, com um grau acurado de precisão. São essas preciosas informações que garantem o patrocínio às megacorporações como o Facebook e o Google. E, se essas informações podem ser usadas não somente para promover a venda de mercadorias, mas também a “venda” de ideias e ideais, estamos diante de um desafio considerável para a democracia.

A decorrência lógica desse processo é a formação de múltiplos nichos que exacerbam o individualismo e reforçam as “identidades digitais”. O indivíduo, nesse universo paralelo caracterizado pelo feixe de relações virtuais que estabelece, tende a adotar uma atitude francamente reativa e reacionária em relação ao contraditório.

Durante os protestos de 2013 no Brasil, a percepção de alguns estudiosos da rede social já era de que as ações virtuais poderiam estar sendo patrocinadas. Não se falava ainda da Cambridge Analytica, empresa que, segundo relatos, atuou na eleição de Donald Trump, na votação do Brexit, entre outras, usando sofisticados modelos de data mining e data analysis. Mas já naquela ocasião vi um estudo gráfico mostrando uma série de nós na teia de comunicação virtual, representativos de centros nervosos emissores de convocações para os atos. O que se percebia era uma movimentação na rede social com um padrão e um alcance que por geração espontânea dificilmente teria tido o êxito obtido. Bem mais tarde, eu soube que Putin e Erdogan haviam telefonado pessoalmente para Dilma e Lula com o propósito de alertá-los sobre essa possibilidade.

Eu estava decidido a manter posição diante dos protestos, apesar das pressões. Eis que recebo um telefonema do Eduardo Paes, a quem o Planalto também tinha pedido o adiamento do reajuste da tarifa, dizendo que era melhor ceder. “Não vou segurar, você vai ficar sozinho”, me disse o prefeito do Rio. A pressão interna sobre nós já atingia patamares insuportáveis e o telefonema era a gota d’água. Foi então que resolvi ir ao Palácio dos Bandeirantes e propor ao governador Alckmin que fizéssemos juntos o anúncio da revogação do aumento. Contrariado, certo de que aquilo nada tinha a ver com tarifa de ônibus, tentei com o gesto despartidarizar a questão e iniciar um processo de construção de uma política tarifária metropolitana.

Na chegada, quando apertamos as mãos, pouco antes da coletiva em que faríamos o anúncio, eu disse ao governador o que pressentia: “Podemos estar às vésperas de uma crise institucional.”

Tenho para mim que o impeachment de Dilma não ocorreria não fossem as Jornadas de Junho.

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crise internacional do neoliberalismo se desenrola desde 2008. Já no final dos anos 90, muitos economistas, dentre os quais me incluo, previam que a desregulamentação financeira provocaria uma crise de proporções consideráveis, cuja debelação não poderia contar com as clássicas políticas keynesianas que pressupõem, justamente, governança financeira global. Agregava-se a isso a chamada acumulação flexível, que, pelo incrível barateamento dos custos de transporte, comunicação e tecnologia da informação, desnacionalizou a produção, minando a base territorial dos sindicatos e demais organizações de trabalhadores, sobretudo no núcleo do sistema.

Os países periféricos, em particular os que se acoplaram como fornecedores de matéria-prima à locomotiva chinesa, beneficiaram-se do processo, impulsionados inclusive pelo overshooting do preço das commodities. Foi o caso do Brasil. Há muitas diferenças na forma como o país é visto por FHC e Lula, mas há um ponto em comum entre eles: ambos imaginaram, cada um à sua maneira, que o país poderia ter um lugar diferenciado no concerto das nações. Pressentiam que as especificidades brasileiras – o tamanho de sua população, a extensão do território, seus amplos recursos naturais, a terra agricultável e uma ciência ainda incipiente mas líder na América Latina – configuravam potencial suficiente para uma melhor inserção no mercado internacional. Para eles, o Brasil estava aquém da posição que poderia ocupar.

A diferença é que FHC e Lula definiram estratégias distintas para alcançar esse objetivo. O tucano dava mais ênfase ao capital estrangeiro e ao mercado externo. O petista priorizou o capital nacional e o mercado interno. Esses pontos de vista distintos determinaram políticas públicas muito discrepantes. Distribuir renda, por exemplo, pode representar uma ameaça, num caso, ou uma necessidade, no outro. Desnacionalizar as empresas pode ser uma exigência para o primeiro e um atentado ao desenvolvimento nacional para o segundo. E assim por diante.

Essas opções se refletem, às vezes, no alcance das políticas públicas. Um caso paradigmático é o Plano Nacional de Educação (PNE) de 2001. Aprovado pelo Congresso Nacional, o plano previa a universalização, em seis anos, do primeiro programa federal de transferência de renda. FHC vetou o dispositivo, alegando falta de fonte orçamentária. Lula percebeu que com ação semelhante poderia acabar com a fome na mesma medida em que dinamizava o mercado interno. Outros aspectos do PNE foram observados por Lula, que expandiu como nunca o acesso à educação superior, profissional e infantil das famílias de baixa renda. Transformou-se no “barão da ralé”.

No plano externo, Lula concebia a internacionalização da economia a partir do capital nacional. Toda a política externa de seu governo teve essa premissa: abrir mercados para as empresas brasileiras, agronegócio e construção pesada à frente, como vetores de um movimento mais amplo. As visitas que o ex-presidente fez a quase todos os países da África e do Oriente Médio, o desejo de fortalecer o Mercosul e a Unasul, o papel desempenhado pelo G20, a articulação dos Brics, todo o esforço da diplomacia Lula caminhava nessa direção. Ele realmente desejava que as empresas brasileiras crescessem e se internacionalizassem, imaginando que o Brasil também poderia engendrar, ainda que em escala menor, seus keiretsus e chaebols, os grandes conglomerados empresariais de Japão e Coreia, países de desenvolvimento tardio.

O mundo acompanhava tudo com atenção.

Fernando Henrique fazia uma outra leitura do papel que o Brasil poderia reivindicar no cenário internacional. Usando terminologia dos anos 60, eu diria que ele considerava que o país não tinha pernas para exercer uma posição de tipo subimperialista. O destino nos reservava um papel de tipo subcapitalista. O “príncipe da sociologia” nunca confiou na capacidade da burguesia nacional de empreender em escala internacional. Ao contrário, sempre a considerou limitada e condenada à submissão, cabendo ao país – mais com a ajuda do capital estrangeiro do que com a do capital nacional, estatal ou privado – promover o mero acoplamento à ordem internacional, deixando às nossas geográficas vantagens comparativas a função de nos situar numa posição mais favorável. O “entreguismo” de que foi acusado era apenas a tradução de sua visão sobre a baixa pretensão das nossas classes dirigentes.

No contexto brasileiro, a estratégia de Lula, por seu turno, se deparava com um enorme risco: o patrimonialismo brasileiro ou a versão beta do crony capitalism, o capitalismo clientelista ou de compadrio.

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patrimonialismo é, antes de mais nada, uma antítese da república. O despotismo é outra antítese da república. Entre nós, brasileiros, nenhuma obra do pensamento social e político descreve melhor o patrimonialismo, hoje com suas entranhas expostas no noticiário do país, do que Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro. O texto, publicado em 1958, deveria ser relido, cum grano salis, como veremos.

“Na peculiaridade histórica brasileira”, escreve Faoro, “a camada dirigente atua em nome próprio, servida dos instrumentos políticos derivados de sua posse do aparelhamento estatal.” Não há sutileza aqui: ele afirma que o Estado no Brasil é objeto de posse, tomado pela camada dirigente como seu. E prossegue: a comunidade política comanda e supervisiona todos os negócios relevantes, “concentrando no corpo estatal os mecanismos de intermediação, com suas manipulações financeiras, monopolistas, de concessão pública de atividade, de controle de crédito, de consumo, de produção privilegiada, numa gama que vai da gestão direta à regulamentação material da economia”. E conclui: “A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios como negócios privados seus, na origem como negócios públicos, depois em linhas que se demarcam gradualmente.”

A essa forma acabada de poder, institucionalizada num certo tipo de domínio, Faoro chama de patrimonialismo. E nota que, ao contrário do mundo feudal, que é “fechado por essência, não resiste ao impacto com o capitalismo, quebrando-se internamente”, o patrimonialismo se amolda “às transições, às mudanças, em caráter flexivelmente estabilizador do mundo externo”. Ou seja, Faoro já percebia que o patrimonialismo brasileiro – que segundo sua tese remonta à dinastia portuguesa de Avis (1385–1580) durante a expansão comercial lusitana para a África, Índia e Brasil – adaptou-se à chegada do capitalismo. Ou seja, ele o concebia como um modelo arcaico que sobreviveu à modernização.

Em um artigo publicado na revista Reportagem em janeiro de 2003, logo após a primeira eleição de Lula, eu alertava que o PT ainda não havia feito o diagnóstico adequado sobre a natureza do que chamei de “patrimonialismo moderno”.

Argumentei que, dada a natureza patrimonialista do Estado brasileiro, “a mera chegada ao poder de um partido de esquerda, por si só, ainda que prometesse respeitar todos os direitos constituídos e os contratos celebrados, seria percebida como um ato em si mesmo expropriatório”. E, portanto, passível de forte reação contrária. Mas que o nó da questão era, como o próprio Faoro apontava em sua obra, a possibilidade histórica de um patrimonialismo social-democrata, que empreendesse “uma política de bem-estar para assegurar a adesão das massas”.

Obviamente, quando escreveu essas linhas Raymundo Faoro pensava em Getúlio Vargas. Mas o PT, que em certa medida retomava o projeto trabalhista tantas vezes abortado, não poderia ter desconsiderado esse risco. Hoje, se eu pudesse apontar um grande equívoco do PT, seria esse: o de subestimar o caráter patrimonialista do Estado brasileiro.

O PT que chegou ao poder naquele ano de 2003 podia ser dividido em três grupos internos: uma esquerda socialista, uma direita republicana e um centro social-desenvolvimentista, hegemônico no partido. No artigo, eu sugeria que poderíamos cometer um erro histórico se o centro social-desenvolvimentista, ignorando as percepções das duas outras alas, entendesse que nosso projeto era realizável sem reformar profundamente as estruturas do estado patrimonialista.

A minha esperança, à época, era a inserção social do PT. Que, de fora para dentro do governo, o partido e sua militância poderiam oxigenar a máquina pública. O que de fato ocorreu, mas só até determinado ponto. Prova disso é que na administração direta, nas autarquias e fundações, o governo avançou muitíssimo, por exemplo, pela criação da Controladoria-Geral da União, pelo fortalecimento da Polícia Federal, pelo grau de autonomia do Ministério Público Federal etc. As práticas patrimonialistas se fixaram justamente onde esses órgãos tinham um espaço muito menor de atuação, o local privilegiado em que o poder político encontra o poder econômico: as estatais, federais e estaduais, as agências reguladoras, o Banco Central etc. E na Petrobras, que ocupa o imaginário brasileiro desde Getúlio Vargas e administra, de fato, um ativo estratégico para o desenvolvimento nacional.

Aliás, há um equívoco ao se falar de corrupção sistêmica ou de lobby no Brasil. A corrupção no país é mais do que sistêmica, ela é o corolário de nosso patrimonialismo. Afirmar que a corrupção, aqui, é sistêmica pode passar a impressão de que seria possível um patrimonialismo incorrupto. Da mesma forma com o lobby. Não há lobby no patrimonialismo. Na verdade, o lobby devidamente regulamentado seria até um avanço diante do que temos. O lobby pressupõe pelo menos dois lados, se não uma mesa quadrada, pelo menos um balcão. No patrimonialismo, o poder político e o poder econômico – “os donos do poder”, na definição de Faoro – sentam-se a uma mesa redonda. Não se distinguem os lados. Em um contexto como esse, não há vítimas, a não ser os que não estão à mesa; há negócios.

A pergunta que se coloca nesses tempos em que a Operação Lava Jato expõe parte do funcionamento de nosso patrimonialismo é: pode uma revolução ser conduzida pelo Poder Judiciário?

Não é preciso consultar Montesquieu para saber que não. O Poder Judiciário não tem a faculdade de criar um mundo novo. Nas condições locais, entretanto, ele pode concorrer para destruir o antigo, criando ou não as condições de que algo novo surja no horizonte, ou simular a destruição do velho para que tudo permaneça exatamente como é.

O debate sobre corrupção no Brasil sempre foi um faz de conta, um tema de conveniência e oportunidade, não de princípios. As instituições que deveriam garantir a imparcialidade das apurações são, regra geral, arrastadas para dentro da arena da disputa política e contaminadas pelo espírito de facção. Terminada a batalha, as condições anteriores são repostas e os negócios voltam à normalidade. Business as usual.

O interesse que a Operação Lava Jato desperta deriva do fato de que ela, contra todos os prognósticos iniciais, parece fugir a esse roteiro. Quando se olha mais de perto, na verdade, é impossível não identificar a tensão no interior da operação entre uma ala facciosa tradicional, com claros interesses políticos, e uma ala republicana que quer passar o país a limpo sem aparentemente se dar conta da escala dos seus propósitos.

A Lava Jato tem o mérito inquestionável de abrir a caixa-preta das relações público-privadas no Brasil – algo que Faoro intuía, mas que não havia sido exposto tão escancaradamente. Mas, se o desfecho for aquele pretendido pela ala facciosa da operação, o que teremos é uma simples troca de comando do patrimonialismo. Corremos o risco de aniquilar o velho apenas para que ele ressurja.

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que complica ainda mais a situação é a relação entre o Judiciário e a mídia. O caráter contramajoritário do Poder Judiciário é pedra angular da República. Num certo sentido ele é ademocrático, pois resiste à maioria em nome da Justiça. A espetaculosidade dos processos em andamento deixa pouca margem para o desfecho desejável de saneamento de todos os partidos políticos e gradação das penas imputadas proporcionalmente ao delito.

Vivi os bastidores de um episódio que merece relato. No dia 10 de março de 2016, participei de uma reunião com o ministro da Fazenda Nelson Barbosa, à qual estavam presentes diversas lideranças sindicais, alguns economistas, assessores e o ex-presidente Lula. O tema era economia, mas o debate enveredou pela política. Muitos de nós acreditávamos que o governo Dilma agonizava e não resistiria por muito tempo. Por semanas, tentávamos convencer Lula a assumir o governo na condição de ministro-chefe da Casa Civil e ouvíamos sempre a mesma resposta dele próprio: “Não cabem dois presidentes num só palácio.” Outro argumento contrário era de que a mídia tentaria caracterizar o gesto como busca de foro privilegiado, mesmo que àquela altura Lula não fosse réu. A relutância do ex-presidente à ideia foi enorme. Apenas depois de insistentes apelos, Lula concordou em conversar com Dilma sobre as condições da uma eventual ida para o governo – aceitas apenas depois de longa negociação. Anúncio feito, história conhecida: grampo ilegal de um telefonema impróprio, vazamento ilegal de uma conversa surreal e uma liminar que impede a posse. A Justiça fazendo política.

Se junho de 2013 foi o estopim do impeachment, em março de 2016 viria a pá de cal.

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Bem antes que se sonhasse com a Lava Jato, tão logo assumi a prefeitura tomei medidas que feriram interesses das grandes empreiteiras. Não renovamos o contrato de inspeção veicular, o que deixou a empresa responsável pelo serviço – a Controlar, do grupo CCR, formado por Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez – bastante contrariada. Vetei também artigos de lei do Plano Diretor que facilitavam a implantação de um aeroporto em Parelheiros, de interesse da Camargo Corrêa, além de desagradar a Odebrecht no caso da Arena Corinthians, já mencionado.

Nenhum desses casos, no entanto, supera a polêmica em torno do túnel Roberto Marinho. Ele é representativo de quanto o interesse público pode ser desconsiderado na relação da prefeitura com as empreiteiras. A obra foi suspensa logo no início da minha administração. Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, UTC, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Galvão Engenharia – o clube VIP das empreiteiras – compunham, duas a duas, os consórcios vencedores da licitação, dividida em quatro lotes. Tal divisão só havia se tornado possível graças a uma mudança na extensão do túnel promovida pela gestão Kassab. Dos 400 metros do projeto original, elaborado ainda na gestão de Marta Suplicy, chegou-se a longos 2,3 quilômetros na inflacionada versão final. Esse episódio, inclusive, põe em xeque a versão, contada por Mônica Moura em sua delação, de que a Odebrecht, sem meu conhecimento, teria pago parte da dívida da minha campanha assumida pelo PT.

Tendo sido eleito durante o julgamento do mensalão, sempre tive a clareza de que minha conduta tinha que ser exemplar. E minha passagem limpa pelo Ministério da Educação me dava confiança de que disporia de algum capital político para iniciar uma gestão inovadora na cidade. Afinal, o orçamento do MEC é o dobro do da cidade de São Paulo e no tempo em que estive à sua frente jamais se levantou qualquer suspeita sobre desvios de conduta.

Então, quando irrompe a crise da tarifa, imaginei que esse histórico pudesse ajudar. Pura ilusão. Apenas um mês depois da revogação do aumento da tarifa, pesquisas indicavam que eu havia perdido metade do apoio que tinha e já se questionava se seria capaz de me reeleger. Num final de tarde melancólico, sozinho na sala do meu apartamento no Paraíso, anoiteceu sem que eu me desse conta. “Pai, o que você está fazendo aí no escuro?”, perguntou meu filho Frederico ao chegar da rua. Disse a ele que estava pensando naquela situação toda e na dor de ver doze anos de dedicação à vida pública serem liquidados em seis meses de gestão à frente da prefeitura. Ele disse: “Mas, pai, ainda faltam três anos e meio de governo.” Respondi: “Eu sei, filho, mas aconteceu uma coisa muito séria e não há como não viver o luto.”

Minha intenção de ficar oito anos à frente da prefeitura provavelmente não se viabilizaria. Se a reeleição da Dilma não estava mais assegurada mesmo depois de dez anos de prosperidade, a minha reeleição parecia ainda mais distante. Agarrei-me àquilo que se mostrava a única vantagem. Tinha esses três anos e meio de mandato e poderia governar como se não houvesse outro. Pela experiência no MEC, sabia das vantagens do ciclo de oito anos na gestão pública: muitas políticas só se estabilizam com o tempo. Mas a história dificilmente me permitiria repetir a dose. Então tive que achar graça no curto prazo.

Para minha surpresa, 2014 foi um ano extraordinário para a Prefeitura de São Paulo. As coisas efetivamente aconteceram. Ocorreram mudanças estruturais que vão beneficiar a cidade por muitos anos. A primeira delas, a obtenção do grau de investimento, a partir sobretudo da exitosa renegociação da dívida com a União. A segunda foi a aprovação do PDE, o novo Plano Diretor Estratégico, que definiu as diretrizes do desenvolvimento urbano e possibilitou que os planos setoriais fossem deflagrados nas áreas de habitação, mobilidade, saúde, educação e cultura. Registraram-se ainda recordes na criação de vagas destinadas à educação infantil, na criação de faixas e corredores de ônibus e ciclovias, na construção de hospitais-dia, na extensão da coleta seletiva e na instalação de lâmpadas LED, entre outros. A cidade começou a responder favoravelmente. Atingimos em quatro anos, apesar da brutal recessão que assolou o país, o maior montante histórico de investimentos em valores absolutos. Em 2014, era possível sentir certo frescor nas ruas, sobretudo durante a campanha presidencial. Perto do fim do ano, nosso governo tinha recuperado parte da avaliação positiva. Começamos a sentir que tínhamos alguma chance. Depois da execução sumária de 2013, era quase uma ressurreição. Fizemos uma reunião de secretariado em que as pessoas manifestaram otimismo.

Entretanto, a crise que se instalou depois da reeleição de Dilma faria o pesadelo de 2013 parecer um sonho erótico.

⭐⭐⭐

No final de 2013, num encontro com o presidente Lula, com a discrição que o caso requeria, perguntei se ele, passados três anos desde que tinha deixado a Presidência, conseguiria projetar a situação do país dali a cinco anos. Ele me perguntou por que cinco anos. E eu lhe disse que esse era o tempo que ainda restaria a Dilma para governar o país no caso, que me parecia muito provável, de sua reeleição. Ele me respondeu com o corpo: cotovelos colados à cintura, palmas viradas para cima e uma expressão facial que indicava “Não sei” ou, talvez, “Quem é que sabe?”.

Poucos meses depois, cruzei com João Roberto Marinho descendo as escadas do Instituto Lula. Cumprimentei-o e segui para o encontro com o presidente. Perguntei a ele o motivo daquela visita. Era uma sondagem para que Lula fosse o candidato à Presidência em 2014, no lugar de Dilma.

Mais explícito foi o movimento feito por Marta Suplicy, que chegou a organizar um jantar de “Volta, Lula”.

O ex-presidente nunca mexeu um dedo, muito pelo contrário, nem por um terceiro mandato, nem pelo “Volta, Lula”. Dilma quis ser e foi candidata à reeleição e venceu o pleito como previsto. E, a não ser pelos dois ou três dias que antecederam a eleição, quando mídia e redes sociais ferviam com denúncias e boatos de toda ordem, e fac-símiles de uma capa da revista Veja distribuídos por toda a periferia da cidade, não imaginei que a vitória pudesse estar em risco.

O que me surpreendeu foi a pós-eleição. As principais lideranças do PSDB se dividiram: Aécio começou a trabalhar por novas eleições; Serra, pelo impeachment; e Alckmin, grande vencedor do pleito de 2014, pela normalidade institucional até 2018, cenário que mais lhe favorecia.

O movimento mais visível foi o de Aécio. Pediu recontagem dos votos, ação pela cassação da chapa Dilma–Temer por abuso de poder econômico, mobilizou todos os argumentos para que o resultado das urnas não fosse aceito. A tensão aumentava a cada dia.

Convidei FHC para um almoço na prefeitura. Dias depois, fomos juntos ao Theatro Municipal. Queria entender melhor o que ele pensava. Concordamos sobre a gravidade da crise. Mas meu diagnóstico sobre seu desenrolar se mostrou totalmente errado. A certa altura do almoço, arrisquei: “Ela não governa, mas vocês não a derrubam.”

A unidade do PSDB a favor do impeachment foi construída com a participação de FHC. Alckmin, o último que resistia à ideia, finalmente foi enquadrado e a tese de Serra saiu vitoriosa.

Ao longo do ano de 2015, Serra trabalhou intensamente pela causa. Seu papel no impeachment foi subestimado. O ex-governador tucano aproximou-se muito de Michel Temer e lhe garantiu apoio. Era Serra quem telefonava para os governadores, sobretudo do Nordeste, e depois de uma conversa política passava a ligação a Temer, que a concluía com a senha “Precisamos unir o Brasil”. A articulação de Miguel Reale Jr. e Janaina Paschoal com Hélio Bicudo, autores do pedido de impeachment contra Dilma, teve participação direta de Serra. E, no final de 2015, a ida de Marta para o PMDB foi acertada no Senado com a participação de Serra. A estratégia servia a dois propósitos: garantia o voto da senadora pelo impeachment e criava uma candidatura competitiva alternativa à minha na periferia. (A candidatura de Erundina pelo PSOL complicaria ainda mais o quadro já fragmentado e abriria uma avenida para João Doria.)

Após as eleições de 2014, diante das investidas do PSDB contra o resultado das urnas, me parecia evidente que Dilma não se sustentaria sem o PMDB. E, de fato, até certo momento, todas as declarações do PMDB eram no sentido de dar suporte ao governo Dilma, tanto por parte de Temer quanto de Eduardo Cunha. Procurei o então vice-presidente. Tinha com ele boa relação. Propus, então, em nome de uma aliança PT/PMDB para 2016, a vinda de Gabriel Chalita para a Secretaria Municipal de Educação. Conhecia Chalita havia muitos anos e reconhecia seu enorme talento para o diálogo com o magistério. Chalita, é bom lembrar, não concorreu à reeleição para deputado federal em 2014. Desde 2012, seu interesse pela política diminuiu. Entre o primeiro e o segundo turnos da eleição, a campanha de Serra, sabendo do apoio que ele me daria, forjou um dossiê com uma dezena de acusações ridículas e as encaminhou ao Ministério Público. Foram meses de transtorno até que os inquéritos fossem arquivados. Mas, diante das perspectivas que se abriram, Chalita animou-se com o acordo – celebrado na presença de Temer e de Lula.

Enquanto fazíamos esse gesto de aproximação com o PMDB no âmbito municipal, o governo federal movimentava-se na direção oposta. Com a intenção de tentar diminuir o espaço de atuação do PMDB no governo, o Planalto fortaleceu meu principal adversário em São Paulo, Gilberto Kassab, nomeando-o ministro das Cidades. Kassab depois daria o tiro de misericórdia em Dilma, pelas costas.

Como se não bastasse essa malfadada intervenção na base aliada, o governo deu uma guinada na política econômica, com a nomeação de Joaquim Levy. Era evidente que ajustes tinham que ser feitos porque, entre outras coisas, o governo tinha comprado uma agenda equivocada, elaborada em parte pela Fiesp: desonerações, redução da tarifa de energia elétrica, swap cambial, administração de preços públicos etc. Em vez do ajuste, entretanto, veio um giro de 180 graus. Ainda assim, é certo que a retração econômica jamais teria sido a maior da história não fossem os efeitos multiplicadores da crise política e sua pauta-bomba fiscal, potencializados pela Lava Jato.

Crise econômica, crise política, crise ética: as maiores do gênero. Crises sobrepostas que se retroalimentavam. O impeachment foi construído por engenharia jurídica reversa. Quem se importava se havia ou não crime de responsabilidade? Sem crime de responsabilidade e, portanto, sem cassação dos seus direitos políticos, Dilma foi afastada definitivamente da Presidência pelo Senado, em 31 de agosto de 2016, numa afronta ao texto constitucional. Pouco antes, em 29 de julho, Lula se tornava réu pela primeira vez. Nas semanas seguintes ao impeachment, um de seus ex-ministros, Antonio Palocci, teve prisão decretada em 26 de setembro. Outro ex-ministro, Guido Mantega, teve a prisão decretada e relaxada no mesmo 22 de setembro. Tsunami sincrônico ao período eleitoral.

Quando jornalistas me perguntam a que atribuo minha derrota em 2 de outubro de 2016, contenho o riso e asseguro: “Faltou comunicação.”

⭐⭐⭐

Por trás do golpe parlamentar, o possível fim da Nova República. O que está em jogo é o pacto de 1988, expresso na Constituição. Por ironia, o partido que não assinou a carta constitucional, por considerá-la tímida demais, foi o único que lhe deu consequência. O governo Temer exerce um poder desconstituinte, com agenda política que jamais passaria pelo crivo do voto popular. Até a eclosão da nova crise patrocinada pela delação da JBS, o governo federal vinha promovendo contrarreformas em ritmo revolucionário. Em função do calendário, parecia editar a cada semana um Ato Institucional diante de um Congresso de joelhos, que não revela a quem presta contas.

O atual emparedamento de Temer coloca o país diante de um impasse, cujo desfecho ainda não é claro no momento em que concluo este texto. Só em 2018, se tudo der certo, saberemos se o Brasil do século XXI cabe no figurino da República Velha. Saberemos se o trabalhador que sentiu pela primeira vez a brisa ainda tênue da igualdade e da tolerância saberá prezá-la e cultivá-la.

Lula terá no próximo pleito papel central. A política brasileira organiza-se em torno dele há quatro décadas. Desde o final dos anos 70, é o personagem mais importante da história brasileira. Tudo o mais é circunstancial. A própria eleição de FHC foi obra do acaso – como o próprio reconhece. Lula participará da sua oitava eleição presidencial, seu nome estando ou não na urna eletrônica. Independentemente disso, as eleições do ano que vem podem se dar na arena da grande política ou num programa de auditório. A escolha está sendo feita agora.

*O artigo tem como base uma série de depoimentos do autor concedidos ao jornalista Ivan Marsiglia.

Revista Piauí

Fernando Haddad #LulaLivre

“Estamos assistindo a uma espécie de revanche das elites”

Xavier Jean Marie Plassat

O dominicano Xavier Plassat, um dos líderes da luta contra o trabalho escravo na Comissão Pastoral da Terra, fala sobre o governo Temer. Artigo e de propriedade da Carta Capital.

O jovem estudante de Sciences Po de Paris – que tinha um pôster de Marighella em seu quarto – tornou-se dominicano, apoiou o atormentado frei Tito de Alencar no seu último ano de vida no convento francês e, depois de repatriar o corpo do amigo, em 1983, resolveu instalar-se no Brasil e pôr em prática as ideias da Teologia da Libertação na opção preferencial pelos pobres.

Depois de quase 30 anos de vida no interior do Pará e Tocantins, Xavier Plassat, de 67 anos, é atualmente o coordenador da campanha nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) contra o trabalho escravo.

Ele veio a Paris para a missa de corpo presente do dominicano Henri des Roziers, jurista que dedicou os últimos 40 anos de sua vida à defesa dos camponeses em processos que visavam punir os responsáveis pelo assassinato de líderes sindicais rurais em diversas localidades do Pará, onde morou.

Foi jurado de morte por fazendeiros e passou os últimos dez anos no Brasil sob proteção policial. Em 2013, depois de um AVC, voltou para Paris, onde morreu dia 26 de novembro. Na missa, cobriam o caixão as bandeiras do MST e da CPT.

CartaCapital: Qual é a situação atual no Brasil?
Xavier Plassat: Caótica. Estamos assistindo a uma espécie de revanche das elites que engoliram sapos durante os anos Lula e um pouco menos no governo Dilma. Eles agora tentam cuspir os sapos. Muitos direitos adquiridos, avanços sociais que foram construídos nesses anos foram desfeitos da maneira mais brutal, mais antidemocrática e, às vezes, da maneira mais inábil, o que nos favorece. Há algumas medidas que foram tomadas e que são tiros no pé.

CartaCapital: Quais?
Xavier Plassat: Particularmente, no setor que acompanho de perto, o direito do trabalho e a luta contra o trabalho escravo. No direito do trabalho, pretende-se pegar todas as decisões do TST e verificar quais foram desfavoráveis aos patrões e fazer com que a lei permita que todas as violações condenadas por essas decisões se tornem legítimas, legais.
É a reforma do direito do trabalho. Ela foi em grande parte votada e já carrega uma enorme mala de maldades, mas há ainda uma parte não votada, que por ora foi posta de lado por ser odiosa e escandalosa demais.
Como as regras que dizem respeito ao trabalho rural. A reforma das leis trabalhistas começou a ser aplicada há poucos dias, mas já temos sinais de seus efeitos nefastos na redução de 90% das ações dos assalariados na Justiça do Trabalho por queixas de violações.

CartaCapital: Por que elas diminuíram?
Xavier Plassat: Porque a nova lei prevê que, se você entra com ação na Justiça do Trabalho e perde, tem de pagar as custas. É uma violência contra os mais pobres, que não vão mais recorrer à Justiça para defender seus direitos quando se sentirem lesados.
Sobre a lei que vai reformar os direitos dos trabalhadores rurais, é importante lembrar que em 1988 a nova Constituição deu os mesmos direitos aos trabalhadores rurais e urbanos. A nova lei rompe essa equivalência e vai considerar normal o que até agora era condição degradante de trabalho.

CartaCapital: Por exemplo?
Xavier Plassat: Num lugar isolado, montanhoso da zona rural, com mais de 15 trabalhadores, o patrão não é mais obrigado a dar água potável, nem toaletes, tampouco dar o tempo para o trabalhador comer sentado à mesa. Na lei aprovada em 2003, que fazia do Brasil um dos países mais modernos do mundo, era considerada trabalho escravo “a imposição de condições degradantes”.
Se agora as condições degradantes não são mais consideradas desta maneira… Para piorar, uma portaria do Ministério do Trabalho [atualmente suspensa pela Justiça] diz que a definição do trabalho escravo não é mais a da lei. Para que o trabalho seja considerado escravo, é preciso que violações sejam acompanhadas por uma violência brutal e, praticamente, de prisão domiciliar. Assim, o crime de prisão domiciliar é assemelhado ao crime de trabalho escravo.
Dessa forma, só seria considerado escravo quem estivesse com amarras, impedido de ir e vir. É uma grande confusão, uma grande mentira histórica, jurídica e teórica considerar a escravidão como a proibição de ir e vir. Como diz muito claramente o papa Francisco, a escravidão é tratar alguém como coisa.

CartaCapital: No que consiste seu trabalho como coordenador da campanha nacional da Comissão Pastoral da Terra contra o trabalho escravo?
Xavier Plassat: A CPT faz uma campanha para alertar os trabalhadores e acolhe os que fogem de situações de escravidão. Trabalhamos para que o Estado adote programas sociais e políticas públicas que vão às raízes do problema porque sabemos que, apesar de termos libertado 52 mil escravos desde 1995, ainda não erradicamos a escravidão. Nosso trabalho não é apenas de misericórdia e escuta. É um trabalho em profundidade. Acabamos de lançar um novo programa, o “Rede de Ação Integrada para Combater a Escravidão”.
Conclamamos à ação as instituições que têm algo a fazer. Construímos uma espécie de rede local entre as regiões para que os trabalhadores que estão em risco de escravidão ou que acabam de ser libertados não voltem a cair nela. Trabalhamos para que ações públicas possam ser exercidas sobre populações que tentamos definir da maneira mais precisa, ou seja, as que estão em situação de grande vulnerabilidade.

CartaCapital: O que representa a morte de frei Henri des Roziers para o Movimento dos Sem-Terra?
Xavier Plassat: Sua morte é um grande luto, mas não inesperado. Sabíamos que sua saúde era frágil, mas ele ainda irradiava de tal forma uma forte presença com sua palavra, sua escuta, as visitas que muitos faziam a Paris e depois levavam notícias ao Brasil. Mas ele deixou intacta sua memória junto aos que com ele trabalharam.
Henri representou uma luz, mais ainda nessa noite escura que está descendo sobre nós depois do golpe. Jovens advogados, centenas de militantes, funcionários do Estado em nível federal e regional conviveram com Henri e muitas vezes foram alvo do fogo de sua cólera sagrada. Esses aprenderam a mudar de atitude e ver o que é importante.
Penso, por exemplo, no juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas: na missa de corpo presente, em Paris, informou que foi Henri quem lhe revelou a existência de trabalho escravo. Imagine… O juiz do Trabalho de Marabá, Jônatas, que se dedicou à luta contra o trabalho escravo, fez uma viagem a Paris e escreveu ter ficado com a impressão de estar ouvindo o papa Francisco quando Henri falava.
Penso nos procuradores do Trabalho, que organizaram uma homenagem a Henri, alguns anos atrás. Muitos inspetores do Trabalho aprenderam a trabalhar com a CPT, com Henri. Nós todos aprendemos a trabalhar com ele. Era um advogado de pés descalços a viver no meio de quem defendia. E ele sabia mobilizá-los porque o direito se conquista.

CartaCapital: O presidente da Corte Inter-americana de Direitos Humanos, Roberto Figueiredo Caldas, disse na missa que o Brasil tem uma excelente legislação para o controle do trabalho escravo.
Xavier Plassat: Ela é, de fato, muito avançada sob muitos aspectos, tem uma definição clara e contemporânea da escravidão, quatro tipos de ações que caracterizam a escravidão e uma delas é suficiente para caracterizar o trabalho escravo.

CartaCapital: A lei não mudou com o golpe?
Xavier Plassat: Não. Há anos o grupo de deputados que representa os grandes proprietários de terra e as grandes empresas de construção propunha projetos de lei que não conseguia aprovar. Foi por isso que o ministro do Trabalho assinou uma portaria há um mês e meio para impor o que a lei não prevê.
Despertou a indignação da Inspeção do Trabalho do próprio ministério, a oposição do Ministério Público Federal que lhe impôs o adiamento dessa portaria. A própria presidente do STF suspendeu-a dizendo que ela é ilegal e inconstitucional.

CartaCapital: A publicação da lista negra dos maus patrões é eficaz?
Xavier Plassat: No Brasil, ela se chama lista suja, publicada para o mercado e para a sociedade. Ela traz o nome dos empregadores que foram pegos com escravos em suas propriedades. É isso que os setores mais arcaicos querem impedir.

CartaCapital: O senhor deu números de trabalhadores libertados da escravidão. A situação melhorou desde que o senhor chegou ao Brasil?
Xavier Plassat: Diria que melhorou em termos de aceitação e aplicação dessa política de controle da escravidão. Mas de uma maneira contraditória porque hoje os golpistas estão fazendo um esforço enorme para abolir a legislação em vigor e dificultar ao máximo o trabalho dos inspetores. Esse é o sentido da portaria do ministro.
Para caracterizar o trabalho escravo, seria preciso que um policial o definisse como tal. Isso é contrário a todas as convenções da Organização Internacional do Trabalho. Mas a gente fez progressos porque o número de pessoas que encontramos em situação de escravidão foi reduzido de oito anos para cá.

CartaCapital: Isto é uma diminuição real ou a modificação das estratégias tornou essa situação menos visível?
Xavier Plassat: O trabalho escravo é o tipo de crime invisível, como os ataques sexuais. Difícil de provar, difícil de ver. É necessário, pois, fazer todo um trabalho de educação, de sensibilização. É preciso falar do trabalho escravo.

CartaCapital: O PT governou o Brasil durante 13 anos. Por que os governos Lula e Dilma não enfrentaram com o necessário empenho o problema da reforma agrária?
Xavier Plassat: Foi uma espécie de pacto das elites, sorrateiramente selado em nome do exercício e da manutenção do poder. Eleger um presidente como Lula não era impossível, mas ele sabia desde o início que não teria no Congresso os votos suficientes para governar.
Então, ele fez acordos contraditórios com esse pântano brasileiro que representa, provavelmente, 60% do Congresso e que vota a favor de quem dá mais, como num leilão.
Lula não fez a reforma tributária, a reforma fiscal nem a reforma agrária. Ele conseguiu canalizar muito mais recursos para os mais pobres, diminuiu a miséria, mas não reduziu os abusos das classes privilegiadas.

CartaCapital: Como o senhor vê o futuro da Igreja Católica no mundo?
Xavier Plassat: No mundo não sei, mas me preocupa verificar que mais do que nunca a religião é um instrumento do poder. É o caso do Brasil. Instrumentalizam as religiões para entorpecer a população, para oprimir, impor códigos morais inaceitáveis. Vemos com preocupação o avanço carismático na Igreja Católica ou entre os evangélicos.

CartaCapital: Quando o senhor entrou em contato com a Teologia da Libertação?
Xavier Plassat: Quando tinha 15 ou 16 anos, li um livro, A Igreja no Momento Latino-Americano, de François Outart e E. Pin. O livro relata as primeiras experiências das Comunidades Eclesiais de Base. Foi um pouco depois do Concílio Vaticano II. Este livro me impressionou. Na época, eu tinha um amigo cujo tio havia trabalhado no Brasil e me falava dessa terra distante.
Por outro lado, eu militava na Juventude Estudantil Católica e pude constatar a proximidade entre os objetivos da JEC e a Teologia da Libertação, uma experiência que visa integrar a vida real com a fé, fazer da esperança cristã uma coisa concreta, bíblica, na transformação da sociedade.
Esse é o modo de ação da JEC. Depois do movimento de maio de 1968, na França, aprofundamos isso nos apropriando de alguns dados do marxismo. Foi assim que fui educado na fé cristã.

CartaCapital: E o senhor decidiu ser dominicano bem depois?
Xavier Plassat: Sim. Tinha ideia de ser padre, mas afastava essa tentação. Só via ao redor de mim padres que não viviam nada disso, exceto o capelão da JEC. Encontrei o primeiro dominicano com 16 anos, pouco antes do vestibular.
Pensei, “eis uma maneira aberta, democrática, livre, inteligente de ser padre, de não ser prisioneiro, tampouco uma espécie de funcionário público da Igreja”. Temos uma gama de ações possíveis, estudamos, vivemos em comunidade, é democrático. Mas antes fiz meus estudos e só entrei na ordem dominicana depois de fazer o Instituto de Ciências Políticas (Sciences Po).

CartaCapital: Após a eleição do papa Francisco, a Igreja brasileira mudou no sentido de maior abertura para a Teologia da Libertação e sua clara opção pelos pobres?
Xavier Plassat: A Igreja é um imenso navio que se move lentamente. O problema é que a tripulação deste navio se formou no período anterior a Francisco. Os clérigos da Igreja brasileira cursaram uma escola cujos bispos foram nomeados por pontífices anteriores.
Um bom número deles, não todos, adotou uma linha mais distante do que próxima do Concílio Vaticano II. Ter um novo papa que evoca o Concílio não significa que a tripulação mude a rota. O barco hesita. Sinto que há um pouco de resistência. O papa sempre repete: “Quero uma Igreja que saia. Saiam das sacristias, dos quatro muros das igrejas, a verdadeira Igreja é o mundo”. Isso incomoda.
Eu trabalho numa paróquia há cinco anos, em Aragominas, no interior do Tocantins. Os fiéis são pessoas muito simples, camponeses assentados. Quando usamos as palavras do papa, eles entendem. A resistência pode vir dos que têm coisas a perder, como poder e reconhecimento.

CartaCapital: O Conselho Indígena Missionário, criado, como a CPT, pelo dominicano dom Tomás Balduíno e por dom Pedro Casaldáliga, tem condições de proteger os índios brasileiros tão ameaçados por toda espécie de agressão?
Xavier Plassat: É como perguntar se Davi tem como se defender de Golias. É a mesma coisa para os camponeses, para a CPT, para os escravos. Hoje, o Cimi está realmente só. Se não fosse o Ministério Público Federal… A procuradora federal dos direitos dos cidadãos é Deborah Duprat, grande defensora dos direitos indígenas, e mesmo Raquel Dodge é uma especialista da luta contra o trabalho escravo. Mas as iniciativas desde que Temer assumiu são desastrosas para os índios. A Funai não defende mais os índios, o Cimi está mais sozinho que nunca.

Fonte: Entrevista e texto de Leneide Duarte-Plon, publicado por Carta Capital, 01/01/2018.

A Internet é um grande software livre

Internet é um grande software livre

Nesta entrevista à revista A Rede, o brasileiro Marcelo D’Elia Branco, assessor de estratégia para o desenvolvimento de software livre, na secretaria da Sociedade da Informação do governo da Catalunha, defende que a revolução tecnológica atual está a produzir novas formas de relacionamento social e econômico, a partir da internet e da produção em rede. Ele lembra que a internet é um grande software livre. “Os protocolos que fazem a internet funcionar são de domínio público; ninguém paga licenças, ninguém paga royalties, nada é patenteado. A internet é um grande êxito do software livre e os seus criadores são os mesmos criadores do software livre”.

Oportunidades da revolução digital

A revolução digital traz uma nova oportunidade para os países em desenvolvimento, que ficaram em posição subalterna na sociedade industrial. Como essa nova sociedade não nasceu do grande capital, mas dos grupos sociais anti-establishment, as bases da comunicação em rede foram estabelecidas sobre protocolos de domínio público e conhecimento compartilhado. É bem verdade que, nos anos 90, a revolução digital foi impulsionada pelo grande capital – e o resultado dos investimentos especulativos foi o estouro da bolha na viragem do século. Mas as bases da revolução digital ainda não se alteraram e, neste momento, há uma disputa de poder em torno de modelos, entre os grupos e movimentos sociais que investem colaborativamente no desenvolvimento da comunicação em rede e o grande capital. Ou seja, a nova sociedade não será necessariamente mais democrática ou mais justa. Tudo vai depender dos resultados dessa disputa.

Essa é, em síntese, a visão de Marcelo D’Elia Branco, um gaúcho [do Rio Grande do Sul, Brasil] que há dois anos trabalha como assessor de estratégia para o desenvolvimento de software livre, na secretaria da Sociedade da Informação do governo da Catalunha, na Espanha. Em Setembro, Marcelo, que construiu a sua carreira profissional na Embratel, então estatal, com passagens pelas empresas públicas de processamento de dados de seu estado, volta ao Brasil. Aceitou o convite para dirigir o Campus Party Brasil, que será realizado em São Paulo, em Fevereiro. É a primeira vez que o evento, uma festa de entretenimento eletrônico e comunicação em rede, será realizado fora da Espanha.

Marcelo D'Elia Branco

A Rede: Você tem dito que estamos a viver não só uma revolução tecnológica, mas um processo maior, pois envolve a mudança na relação entre as pessoas. Como é isso?
Na minha visão, estamos a viver uma etapa histórica da humanidade que não é só uma revolução tecnológica, caracterizada pela comunicação em rede. A partir das novas perspectivas criadas com essa revolução tecnológica, surge uma nova forma de relacionamento entre os seres humanos. Uma mudança tão profunda como foi a revolução industrial no séculos 18 e 19, da qual se originaram todas as organizações que conhecemos hoje, sejam elas empresas, organizações sociais, partidos políticos e o próprio Estado.
A revolução tecnológica atual, que está em desenvolvimento nos últimos 14, 15 anos, está a produzir novas formas de relacionamento social e econômico. As mudanças ocorrem a partir dos novos atributos proporcionados pela Internet, pela revolução digital. Então, sem sombra de dúvidas, a humanidade está a passar por uma grande transformação.
E, nesse período de transformação, é necessário que os países discutam como será a sua transição do modelo de revolução industrial para o modelo da sociedade em rede. Os países e as regiões que não transitarem bem, ou que demorarem ou se atrasarem nessa transição para a sociedade em rede, serão os países subalternos no século 21.
O que a gente observa é que está a haver um reposicionamento dos países e das regiões na esfera global, assim como ocorreu na revolução industrial. Países que eram líderes no período anterior, mas não acompanharam a transição ou demoraram a chegar ao processo da tecnologia industrial, ficaram para trás; enquanto países que fizeram rapidamente essa transição, como Inglaterra, Estados Unidos e países europeus, lideraram o processo da revolução industrial. A mesma coisa está a acontecer agora.

A Rede: Você acredita que essa nova revolução vai, necessariamente, produzir uma sociedade melhor?
Não é simplesmente o novo patamar tecnológico, ou o grau de digitalização da sociedade nessa nova forma de relacionamento que vai produzir uma sociedade melhor. A sociedade em rede tanto pode ser uma sociedade mais democrática, com mais liberdade e maior desenvolvimento econômico, com distribuição de rendimentos, como poderá ser uma sociedade mais autoritária, com maior concentração de renda e menos liberdade para o cidadão. Na revolução industrial, a corrida por avanços tecnológicos produziu diferentes tipos de sociedades: das fascistas, na Europa, à de inspiração de esquerda mais autoritária, no Leste Europeu, passando pela sociedade liberal individualista, como é o caso dos Estados Unidos, e pela sociedade do bem-estar na Europa. Todos esses modelos sociais, apesar de bastante distintos, tinham o objectivo de serem os mais avançados nas tecnologias geradas a partir da revolução industrial.
Agora, também começam a ser desenhados modelos diferentes pelos que, hoje, lideram a sociedade da comunicação em rede. A Finlândia, que reproduz o modelo europeu do bem-estar social; Singapura, onde praticamente toda a população e toda a economia estão conectadas em rede, vive uma ditadura; e os Estados Unidos continuam uma sociedade individualista, liberal e com traços autoritários na legislação. É importante salientar que a legislação norte-americana é um dos piores exemplos para a construção de uma sociedade democrática, nesse novo paradigma tecnológico.

A Rede: Quais são as oportunidades que essa revolução, baseada na comunicação em rede, traz para os países em desenvolvimento?
A Finlândia, exemplo que citei, não foi líder no processo da revolução industrial; no entanto, hoje, é um país que regista elevadas taxas de crescimento e de produtividade, porque conseguiu transitar para um modelo social em rede. Acho que essa pode ser uma grande oportunidade para o Brasil, desde que existam políticas públicas associadas às já realizadas pela sociedade civil, que possam ser potencializadas através de ações governamentais, e com participação da iniciativa privada.
O Brasil, que perdeu a corrida da revolução industrial, pode ter um papel protagonista nesse novo cenário da revolução digital, onde novas disputas se estabelecem. E pode ser um dos líderes nessa transição, porque, por traço cultural e de comportamento, o brasileiro tem grande facilidade em transitar pela Internet e de se apropriar dos benefícios da comunicação em rede. Apesar de termos ainda um grau baixo de inclusão digital, somos 50 milhões de brasileiros conectados à Internet, muito mais que uma Espanha inteira, e com uma grande familiaridade com a rede. Somos 70% do Orkut e quase a metade do Second Life; temos uma das maiores comunidades de software livre do mundo e as melhores comunidades de desenvolvedores de criação digital.
Os brasileiros têm mostrado que esse novo cenário tem a ver com a sua cultura, com as suas características de fácil relacionamento. Não é apressado dizer que a parcela dos brasileiros conectada à Internet já está a viver a sociedade em rede. Enquanto isso, muitas empresas privadas, principalmente as pequenas e médias, ainda estão fora, da mesma forma que os governos. O sector público tem dificuldade de entrar nesse novo cenário e mudar as suas formas de relacionamento com a população. O mesmo se observa nos partidos políticos.
Como, na Sociedade da Informação, o principal capital é o conhecimento, a colaboração em rede transforma-se num elemento-chave para alavancar o desenvolvimento econômico. A colaboração é um atributo dessa nova sociedade, e, através da colaboração entre pequenos conhecimentos, pode construir-se um conhecimento muito grande. O Brasil, que tem um grande contingente de pequenos desenvolvedores de tecnologia e muitas pequenas empresas de software independentes, tem tudo para, reunindo esse potencial em rede, ser um país que absorva esse conhecimento e possa ser um gerador de novos conhecimentos, até para o mercado internacional.
Para o Brasil caminhar nessa direção, o que falta, entre outras medidas, é que as políticas de inclusão digital sejam consistentes com as nossas políticas industriais. Hoje, não conseguimos fazer isso, infelizmente. O Brasil, por exemplo, defende, na Organização Mundial de Propriedade Intelectual a flexibilização da propriedade intelectual. Noutros fóruns, ao lado da Argentina, lidera a chamada agenda de desenvolvimento. Nas cúpulas da Sociedade da Informação, tanto de Genebra como de Túnis, o Brasil foi o grande defensor do software livre e da cultura livre. Temos programas de inclusão digital bastante interessantes em todo o território nacional, mas a nossa política industrial é totalmente desconectada dessas bandeiras. Não conseguimos nem derrubar as barreiras para que as pequenas e médias empresas, que desenvolvem em software livre, possam ser contratadas como fornecedoras do governo, porque o sistema de contratação beneficia o modelo do software proprietário. O modelo de exportação de software, com que o país trabalha, é uma ideia antiga que não teve êxito, porque é um modelo já ultrapassado. Ele não utiliza as vantagens dos novos atributos da Internet, da revolução digital.
Mesmo assim, acredito que o Brasil tem grandes possibilidades de dar um salto de desenvolvimento econômico e social nesse novo modelo de sociedade em rede. Basta reorientar a política industrial e de desenvolvimento tecnológico em direção ao novo paradigma da sociedade digital. Isso vai permitir dinamizar todo o conjunto do sector industrial de serviços.

A Rede: Como aproveitar as vantagens da comunicação em rede para alavancar o desenvolvimento do país, a democratização do acesso à informação e apropriação do conhecimento de uma forma mais homogênea na sociedade?
As escolhas a ser feitas pelo governo brasileiro, pela sociedade civil e pelo sector privado é que vão determinar o grau de democracia que o nosso país vai viver nesse novo cenário. Depende de como se vai tratar a questão do software, da propriedade intelectual, se será estimulado o conhecimento colaborativo e a cultura livre, ou não. Quanto mais o país ousar nesse novo cenário, em direção ao conhecimento compartilhado, às novas relações entre o produtor de uma obra intelectual ou de um produto tecnológico, seja ela um filme, uma música ou um software, e o consumidor, mais democrático ele será.
Hoje, o que encarece o produto para o consumidor é a cadeia de intermediação; é ela que tem parte relevante dos benefícios das leis de propriedade intelectual, proteção e ampliação de direitos autorais, etc. A possibilidade de construirmos, no Brasil, uma referência não só no plano de desenvolvimento da sociedade em rede, mas também no plano dos direitos do indivíduo de acesso ao conhecimento – e esse deve ser o eixo das legislações sobre Internet -, vai ser determinante para que o Brasil seja um país democrático no século 21. No período anterior, essa indústria intermediária até tinha um sentido, porque transformava matéria-prima em produto, seja na produção de CD ou do disco de vinil, de películas de filmes, de livros de papel. Na sociedade da comunicação em rede, a distribuição é feita pela tecnologia, pela Internet. Por isso, não faz sentido manter o mesmo modelo econômico, de pagar o mesmo preço por uma música, por exemplo, ou de os produtores intelectuais continuarem a ter de vender a propriedade de seu conhecimento para o intermediário.
Creio que as possibilidades, nesse novo cenário, estão abertas e são melhores para o nosso país. Tudo vai depender das escolhas feitas pelo Parlamento brasileiro, pela sociedade civil e pelo Executivo. Eu acho que o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo, sobre crimes na Internet, é um mau começo para o país. No lugar de o Congresso estar a legislar sobre os direitos dos cidadãos frente à tecnologia, sob a óptica dos direitos humanos, vamos partir do princípio de que a Internet é um lugar de criminosos. Não temos que ter uma lei especial para crimes na Internet, como não tivemos uma lei especial para crimes por telefone, etc. Crime é crime e, como tal, deve ser investigado e punido. Não há nada na legislação brasileira que impeça que pedofilia na Internet seja reprimida, que os crimes econômicos praticados através da Internet sejam reprimidos, que os abusos de qualquer ordem sejam enquadrados como crime. Essa ideia de o Brasil ter uma legislação que criminaliza práticas na Internet, antes da definição dos direitos, parece-me um retrocesso muito grande.

A Rede: Você aponta o software livre como um dos motores dessa sociedade em rede. Por que? Qual é o papel que ele exerce?
O sistema operacional GNU/Linux é o projeto mais conhecido do mundo do software livre, mas não podemos esquecer que a Internet é um grande software livre. Os protocolos que fazem a internet funcionar são de domínio público; ninguém paga licenças, ninguém paga royalties, nada é patenteado. Essa ideia de que o software livre é uma coisa e a Internet é outra, como querem os grandes capitalistas conservadores, não procede. A Internet é um grande êxito do software livre e os seus criadores são os mesmos criadores do software livre. Por isso, não existe nenhuma área do conhecimento humano que tenha tido maior êxito na Internet que a do software livre.
Isso não ocorre por uma razão alheia à história dos desenvolvedores das tecnologias do mundo. Sempre quem cria a tecnologia é capaz de, num primeiro momento, usar melhor os seus potenciais e atributos. Essa é a razão de a comunidade de software livre ser o grande êxito da Internet. O trabalho colaborativo desenvolvido por ela e as licenças comuns começam a expandir-se para outras áreas do conhecimento: temos, na produção cultural, as licenças Creative Commons; na economia, os clusters de produção sistemas locais. Não há como pensar na sociedade do futuro sem que esta lógica esteja presente.

A Rede: Dentro desse contexto, o que pode representar a realização do Campus Party no Brasil, no próximo ano?
O Brasil foi escolhido exatamente por ser uns dos países importantes no contexto da comunicação em rede. Apesar do atraso de alguns sectores, parte da sociedade brasileira, mesmo quem frequenta os pontos de acesso colectivos, movimenta-se muito bem na Internet, do ponto de vista de uso das redes sociais. Isso torna-nos um mercado potencial para as empresas de tecnologia, em função da dimensão do nosso país. Soma-se a isso o facto de eu estar a trabalhar na Espanha, de conhecer o Campus Party e de ter aceitado desenvolver essa atividade no Brasil, aproveitando os conhecimentos que adquiri na minha experiência profissional fora do país.
Acredito que o Campus Party no Brasil não será só a maior festa da Internet abaixo da linha do Equador. Será uma oportunidade para o Brasil conhecer o Brasil, aquele Brasil que faz sucesso no exterior, em áreas como software livre, astronomia, robótica, arte com computador, criação colectiva por computador. Muita gente, no Brasil, não sabe o que os grupos brasileiros estão a fazer nessas áreas. O Campus Party poderá, por isso, ser um momento de o país conhecer e reconhecer o seu potencial nesse novo cenário tecnológico. Também será um momento para empresas nacionais, em colaboração ou não com empresas estrangeiras, mostrarem o que estão a desenvolver e como se colocam nesse novo cenário. Além disso, vai permitir a troca de experiências e conhecimento entre brasileiros e espanhóis, ampliando os laços entre as duas culturas, por meio das sociedades em rede.

Dossier: 057: Software Livre

Por Lia Ribeiro Dias da revista A Rede em 10/8/2007

Fonte: www.esquerda.net

Reforma política: o que esperar do Congresso Nacional?

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Tema recorrente no debate político brasileiro, a reforma política voltou à pauta do Congresso Nacional. E a julgar pelos discursos das principais lideranças, com mais força do que esperamos de nossos parlamentares, acostumados a serem eleitos e reeleitos pelas regras atuais.

Um acordo entre Senado e Câmara definiu que cada Casa tratará de pontos específicos da reforma, com debates conjuntos. Dessa forma, aguarda votação pelos senadores a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 36/2016, que propõe o fim das coligações nas eleições proporcionais, a instituição da cláusula de barreira e a fidelidade partidária, entre outros pontos. De sua parte, a Câmara instalou recentemente uma Comissão Especial para discutir o sistema eleitoral que deve vigorar no país.

Houve, então, uma mudança de atitude entre os parlamentares? Para Wagner Iglecias, doutor em sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP, a resposta é negativa. “é difícil esperar que a classe política, e sobretudo um Congresso dominado por forças tão comprometidas com o modelo eleitoral vigente, vá promover mudanças no sentido de prejudicar os interesses dos atuais parlamentares e dos chefes partidários”, ele afirma em entrevista concedida ao Observatório via redes sociais.

Mesmo descrente, ele vê pontos positivos em medidas que reforcem o “enraizamento social dos partidos” e alerta para a necessidade de continuar a discussão sobre o financiamento eleitoral, buscando limitar doações de indivíduos ricos e a influência de meios de comunicação e igrejas.

Leia a íntegra da entrevista:

Observatório: A discussão da reforma política sempre foi um tabu no Congresso e muitos vêm com ceticismo a possibilidade de parlamentares realizarem mudanças que prejudiquem seus interesses. Acha que a conjuntura é diferente?

Wagner Iglecias: A conjuntura política muda o tempo todo, mas de fato é difícil esperar que a classe política, e sobretudo um Congresso dominado por forças tão comprometidas com o modelo eleitoral vigente, vá promover mudanças no sentido de prejudicar os interesses dos atuais parlamentares e dos chefes partidários. Outras demonstrações nesse sentido já foram dadas no passado recente, quando aprovou-se, ainda sob a presidência de Eduardo Cunha na Câmara, a tal minirreforma política e tudo o que foi votado representou um retrocesso ainda maior em relação ao sistema vigente, que já tem inúmeros problemas

Observatório: Não há ainda um consenso em torno do conteúdo da reforma em discussão, mas alguns pontos parecem avançar: cláusula de barreira e fim das coligações, ambos apontando para uma diminuição no número de partidos. São medidas que prejudicarão partidos pequenos, seja os de aluguel ou partidos ideológicos, como PSOL, Rede, Partido Novo. Corremos risco de travar demais o sistema, excluindo ideias e grupos minoritários do debate?

Wagner Iglecias: O Brasil é um país continental e a sociedade brasileira é de fato bastante complexa, com inúmeros atores sociais buscando pautar a agenda pública. Apesar disso não faz sentido nosso sistema político ter dezenas de partidos, a maioria dos quais desprovidos de ideologia conhecida e dos quais pouco se sabe que interesses representam. Qualquer medida que reforce o enraizamento social dos partidos parece positiva. Infelizmente a cláusula de barreira traz esse risco de, se por um lado se diminua bastante a atuação de legendas de aluguel, por outro se exclua do debate público e da vida parlamentar partidos ideológicos e programáticos. Talvez uma solução intermediária, como a possibilidade de criação de federações de partidos possa atenuar esse problema.

Observatório: Outro consenso aparente é sobre a manutenção da proibição do financiamento empresarial de campanhas, definida pelo STF, inclusive com apoio de partidos que foram contra, como PSDB e DEM. Como interpreta essa mudança, levando em conta as eleições municipais?

Wagner Iglecias: Não tenho certeza de que esta seja uma questão fechada. Nas últimas semanas houve sinalizações, partindo de pontos diversos, pela liberação do financiamento empresarial. Sobre as eleições municipais recentemente ocorridas, as primeiras já sob a nova legislação, o que se viu foi gente rica doando para as próprias campanhas e também para campanhas de correligionários. A campanha foi visivelmente mais pobre, do ponto de vista da busca do voto na rua, e um peso ainda maior do que já vinha ocorrendo para a formação de alianças partidárias visando maximizar o tempo de televisão na chamada propaganda eleitoral gratuita de rádio e TV.

Observatório: Ainda sobre financiamento, o PT levanta a questão de limitar as doações de indivíduos milionários, que acabaram desequilibrando as arrecadações. Como avalia a questão? Existe (e é interessante) como limitar a influência de personalidades midiáticas e/ou ligadas a igrejas?

Wagner Iglecias: Esse é um debate que várias democracias têm feito. Nos EUA, por exemplo, há fortes discussões sobre os limites para as doações empresariais e as doações feitas por indivíduos. O fato é que dinheiro privado em campanha eleitoral é e sempre será um fator de desequilíbrio, que atrapalha a competição entre os partidos e entre os candidatos e desvia a atenção do eleitor para a maior ou menor visibilidade de uma campanha em detrimento da discussão de ideias e de programas de governo.

Observatório: Outro debate é sobre o modelo de votação, também caminhando, aparentemente, para uma mudança do modelo atual, em lista aberta. Que caminho te parece mais interessante para unir representatividade com governabilidade?

Wagner Iglecias: O caminho da lista fechada. Os partidos precisam ter vida política interna mais intensa, e ninguém melhor do que eles para definirem a ordem dos candidatos a serem apresentados ao eleitorado. É urgente desfulanizar o voto no Brasil, mudando assim nossa cultura política, que ainda é pautada pelo voto em pessoas e não em programas partidários. Obviamente que podem ocorrer distorções nos processos internos aos partidos de escolha de candidatos e ordenamento da lista, mas cabe também ao eleitor começar a acompanhar melhor como esses processos ocorrem e quais os elementos que definem quais candidatos os partidos privilegiam ou não nos processos eleitorais.

Por Nicolau Soares, do Observatório

Mar congelante, crocodilos e tubarões: fotógrafo relata perigos do ofício

Fotógrafo brasileiro Daniel Botelho

Fotógrafo brasileiro Daniel Botelho já ficou cara a cara com crocodilo do Nilo e nadou ainda com tubarões, baleias, lulas gigantes e um elefante.

Como quem desdenha da sorte, Daniel Botelho faz da vida uma aventura recheada de perigos. Em 2011, por exemplo, ficou cara a cara com um crocodilo de 6 m nas águas do Nilo e, ao contrário de outras centenas de pessoas que topam com o predador africano anualmente, voltou – e com as provas do ato.

Não pense, contudo, que ele é apenas alguém que desafia a lógica levianamente, pelo prazer do risco. Fotógrafo profissional há mais de seis anos, especializado em imagens da vida selvagem – especialmente as submersas -, Botelho conhece os limites entre a segurança e a irresponsabilidade que margeiam cada missão que aceita. Para conseguir manter uma vida de trabalho integrada à natureza, ele sabe que precisa ter um planejamento minucioso, o que garante o suporte necessário para ir atrás de flagras inéditos nos lugares mais inóspitos.

Nos últimos meses, Botelho esteve envolvido na produção de imagens entre a região das Malvinas, da Geórgia do Sul e da Antártida Foto: Daniel Botelho / DivulgaçãoEnvolvido há alguns meses na produção de imagens entre a região das Malvinas, da Geórgia do Sul e da Antártida – um dos quatro trabalhos que realiza simultaneamente -, Botelho, carioca, 32 anos, já programa um retorno aos mares gélidos do Sul para dezembro, quando o verão possibilitará que se mergulhe na água fria sem congelar. O projeto renderá o livro Frozen Atlantic (Atlântico congelante, em tradução livre), já encomendado por um editor e com previsão de publicação em 2015.

A seguir, confira a entrevista exclusiva do fotógrafo ao Terra, em que ele fala do último projeto e detalha como foi se aventurar entre crocodilos, tubarões, baleias, lulas gigantes, elefantes…

Terra: Daniel, qual a sua especialidade?

Daniel Botelho: Minha especialidade é foto em baixo d’água. Mas queria mostrar que também faço foto fora d’água. E o bom é que os editores me liberaram. Mas foi uma coisa natural estar submerso, pois sempre mergulhei. Mas é o mercado que demanda. Gosto também de predadores, é uma das minhas especialidades.

Terra: Quando foi sua última viagem para fazer essas fotos nos mares do Sul? Quando será a próxima?

Ele também foi o primeiro brasileiro a mergulhar para fotografar uma baleia azul de aproximadamente 35 m Foto: Daniel Botelho / DivulgaçãoDaniel Botelho: A última foi em dezembro de 2012. A produção ainda está acontecendo. Já fiz duas viagens e farei mais duas até 2014. Devo voltar em dezembro deste ano, mas, ao contrário de 2012, desta vez quero voltar ao Rio para as festas (Natal e Réveillon). Depois, em janeiro, retornaria pra lá. É verão, não está tão frio, é a época em que os pinguins filhotes estão um pouco maiores, começando a nadar – e sendo atacados por predadores.

Terra: Como é a logística para ir a Antártida fotografar? Quanto tempo costuma levar uma expedição dessas?

Daniel Botelho: É uma logística complexa, que envolve até mesmo planejamento de resgate aéreo. Fiquei mais de dois meses por lá, e ainda vou ficar mais 60 dias até o fim do projeto.

Terra: Você trabalha sozinho? Quem te dá apoio durante esses projetos?

Daniel Botelho: Tenho sempre uma equipe preparada para me dar suporte. Costumo contratar um mergulhador local. De preferência, o melhor e mais experiente, pois é mais fácil, mais barato e mais seguro. Às vezes levo assistente, mas depende muito. Quando as fotos são com objetivo turístico, muitas vezes tenho de levar modelos também.

Terra: Ficar submerso por duas horas em água gelada, como já ocorreu com você, deve ser algo extremamente perigoso. Como funciona com a equipe?

Daniel Botelho: Nesse caso (da expedição à Antártida), como precisava criar “intimidade” com os pinguins, não podia ter gente em volta. Por isso, a equipe ficava à distância, longe, me monitorando por binóculo. Combinamos um sinal para que fossem me resgatar se fosse preciso.

Terra: Entre tantas, qual foi a situação mais extrema em que você já se meteu?

Daniel Botelho: Destacaria as 120 horas que passei fora da gaiola com tubarões brancos e meu mergulho sem proteção com crocodilos de 6 metros no Nilo como sendo as duas coisas mais extremas que fiz.

Terra: Desculpa, mas parece loucura encarar um crocodilo desse tamanho.

Daniel Botelho: Se não me engano, a média das últimas duas décadas é de aproximadamente 700 mortes por ano (de pessoas que topam com esses animais). Ano passado, teriam sido 900 ataques fatais na África, número que fez o crocodilo passar o hipopótamo na lista de predadores que mais matam. Mas é uma expedição de risco calculado. Tem que observar a natureza, o ambiente do animal. Existem protocolos a serem seguidos, desde a escolha da data até a hora de ir para a água.

Terra: Que protocolos são esses? Qual o melhor período?

O crocodilo do Nilo é um dos animais que mais matam pessoas no continente africano Foto: Daniel Botelho / DivulgaçãoDaniel Botelho: Na transição de junho para julho. A água fria, em torno de 14°C, deixa o crocodilo letárgico. Tanto que antes das 10h nem saíamos para fotografar porque eles nem se moviam. A temperatura é um ponto crucial. Em 2012, um grupo foi fazer isso de forma irresponsável e houve um acidente. Eles foram em setembro, com a água mais quente, em época de reprodução, desconsiderando a questão do territorialismo. Nós (ele foi com mais dois assistentes, um deles cinegrafista) estávamos preparados para cair na água.

Terra: Além da questão do clima, que outras regras devem ser seguidas?

Daniel Botelho: Nunca ficar na superfície. O crocodilo ataca muito na superfície. E como lá tem muita correnteza, precisamos usar três vezes mais lastro (peso usado para se manter submerso) para ficarmos ancorados no fundo do rio, de tanto que corria. Depois, dentro desse ambiente, não pode ir direto para cima do crocodilo. O mergulhador pode perder o controle e passar por cima do animal. Ele vai se virar e vai morder.

Terra: Como foi sua abordagem?

Daniel Botelho: No caso do crocodilo que eu fiquei cara a cara, perguntei para o cinegrafista, que era da região, qual a melhor forma de me aproximar. Ele disse que era pela cauda. Estava na horizontal e me movia com a ponta dos pés e das mãos, com toda calma, igual se vê em desenhos animados. O fotógrafo tem de entrar em posição de forma imperceptível. E na volta também. Tem de voltar devagar, igualmente na ponta dos dedos.

Terra: Não parece menos perigoso?

Daniel Botelho: Foi um risco administrável, e com pessoas com conhecimento da região. Mas até o cinegrafista, que é local, disse que jamais conseguiu ficar cara a cara com um crocodilo como eu fiquei.

Terra: Que perfil precisa ter um fotógrafo de predadores?

Daniel Botelho: Tem que ser um cara que planeja. Que busque uma pauta e veja se ela é jornalisticamente operacional. Tem que montar a logística, saber liderar a expedição. E depois tem a parte técnica da fotografia, e a interação com animal. Cada uma dessas etapas são coisas separadas que o cara tem de desempenhar. Por fim, tem o teu dia a dia com a câmera. A foto de vida selvagem tem uma coisa importante que é o contato visual. A mente humana, quando vê uma foto de animal, busca uma similaridade de olhos, nariz, boca. E a foto não pode ser roubada.

Terra: Como assim?

Daniel Botelho: Quando fotografei a baleia azul na Califórnia, por exemplo. Não adianta bater perna pra ver se ela se move. Tem toda uma questão de rastrear o animal, de estudar qual vai ser o melhor barco para isso para não perturbá-la. Nesse caso, usei um caiaque e fiquei cinco quilômetros longe do barco de apoio. Passei 15 dias, das 9h às 17h, sentado no caiaque à espera. E ainda precisava de uma bola de cristal: ‘acho que ela vai levantar ali, não aqui’. E um cara atrás remando na direção. Mas também envolve sorte. Se o bicho não quiser, não tem jeito. Com essa baleia, deslizei silenciosamente para a água e comecei a me aproximar. Era uma baleia de 180 toneladas e 35 metros, do tamanho de um edifício. Ela olhou pra mim, ficou com medo, deu meia volta e foi embora. Imagina! Um animal com uma língua do tamanho de um elefante macho, e teve medo de mim. Fui o primeiro brasileiro a ter entrado na água com esses animais.

Terra: E como foi com os tubarões?

Daniel Botelho: Nadei com tubarões brancos em outubro de 2012. Foi um trabalho para a Disney. Liderei uma expedição de turistas. Fui como safety diver (mergulhador de segurança). Aliás, no meu ramo, tem isso. Para estar nesses lugares, lidero expedições, faço produção para programas de TV (cita Globo, ABC, CNN, BBB, entre outras), participo como diretor de fotografia. E sempre aproveito para fazer minhas fotos.

Crise traz oportunidade de novo paradigma

estamos de olho

Com uma taxa de desemprego que atinge mais de 25% da população ativa, a Espanha vive uma crise que tem trazido cada vez mais ebulição social ao país. O movimento pela autodeterminação da Catalunha ganha força enquanto novos movimentos sociais autônomos, como o 15M, despontam nas praças e nas redes. Para o sociólogo catalão Carlés Riera, é preciso aproveitar o momento, favorável às práticas que podem apontar reais alternativas ao capitalismo.

“O desafio está, contudo, em conciliar o caráter cada vez mais global das necessidades trazidas pelo atual sistema econômico, que exigem uma proposta comum, com a diversidade de movimentos, que não pode ser ignorada”, alerta Riera.

Presidente da Fundación Desarrollo Comunitario e vice-presidente da CIEMEN, instituição de pesquisa, promoção e proteção dos direitos coletivos dos povos, o sociólogo participou da VI Plataforma Ibase, evento que reuniu representantes de movimentos sociais para debater a luta em prol do bem viver. Na ocasião, ele conversou com o Canal Ibase sobre a crise europeia e as dificuldades para se chegar a um novo paradigma civilizatório.

Como você começou a militância nos movimentos sociais?

Minha formação é como sociólogo, comecei a militância  na Catalunha, onde sempre participei ativamente dos movimentos de esquerda e nos movimentos pela autodeterminação de meu país. Nunca até hoje participei diretamente na política institucional, em partidos políticos. O meu trabalho tem sido na sociedade civil ou nos movimentos sociais, há 20 anos trabalho na fundação Desarollo Comunitario, que é uma organização bem parecida com o Ibase em seus objetivos e temas. Há um tempo também trabalho em outra ONG, que se chama SIEME, que sempre trabalhou, não só na Catalunha como internacionalmente, pelos direitos dos povos e das minorias. Por essa prática que encontrei o Ibase há mais de 10 anos e desde então temos uma boa colaboração. Também participo de uma rede chamada Euralat.

Em suas falas e estudos, você critica o imaginário homogeneizante da esquerda, que reprime as multiplicidades. Os movimentos sociais mais novos que têm surgido, como Occupy e Indignados, conseguem dar uma resposta à necessidade de um novo imaginário para a esquerda?

A esquerda europeia sonhou com uma sociedade igualitária, justa, democrática, mas seguindo os mesmos valores, modelos e instituições do imaginário europeu ocidental de direita. Isso gerou grandes problemas e muito sofrimento no mundo. Se observarmos experiências em lugares onde a esquerda tomou o poder, vemos que a sociedade avançou mais na homogeneização do que na igualdade. Aí há um desafio histórico: a esquerda pensou a transformação do mundo como processo de assimilação, calcado na tradição iluminista racionalista europeia, na utopia de igualdade para todos, isso muitas vezes violentando e destruindo formas de resistência e de organizações sociais e políticas alternativas, populares, que já existiam antes em todo o mundo e que foram interpretadas como atrasadas, como contrárias aos princípios da esquerda e da revolução. E em muitos casos se quis impor um estilo de mudança cujos objetivos finais não respeitavam a diversidade cultural, política, a história, a memória dos distintos lugares do mundo. Na época que estamos vivendo agora, temos um grande desafio comum neste mundo globalizado, com ameaças globalizadas e necessidades comuns. E este desafio é  reconhecer a diversidade como algo fundamental para a defesa dos objetivos comuns. O paradoxo é que quanto mais se globaliza o mundo e mais comuns são os desafios, mais necessidade temos de redescobrir a diversidade de caminhos. Desta tensão dialética entre o desafio comum e a diversidade é de onde sai a criatividade local e global.

Eu acredito que o futuro será duro para o mundo. Em alguns lugares mais, em outros menos, em alguns mais cedo, outros mais tarde. Mas o modelo de desenvolvimento capitalista é muito agressivo, destrói e descompõe não só territórios, mas povos, culturas, relações sociais. Então virão tempos muito difíceis, as instituições e as formas de organização social e política que conhecemos vão entrar em crise. Creio que isso vai dar lugar ao pior, mas também ao melhor. Também vai liberar o espaço social, o espaço político, para muita criatividade e muita diversidade. E aí teremos que observar as novas práticas, os novos discursos para a transformação e para a mudança e articulá-los para construir novos paradigmas. Creio que não vai haver uma proposta que englobe as demais ou que seja dominante em relação às demais, mas, a partir do reconhecimento, da ajuda mútua, da solidariedade, da reciprocidade e das trocas entre os distintos movimentos pode sair uma agenda comum e uma maneira de enfrentar os desafios. As Primaveras Árabes, os Ocuppies, os Indignados, os movimentos de defesa pela terra e pelo bem viver, antidesenvolvimentistas, novos socialismos, novas economias sociais, lutas antirracistas e antipatriarcalistas… todos são distintas expressões que vão construindo uma visão comum e uma proposta comum.

Mas é possível criar essa agenda comum com a atual fragmentação dos movimentos, como os que defendem a inclusão social e os mais voltados à questão ambiental?

É muito importante que seja feito um debate social, político e popular amplo. Existem dois caminhos. O primeiro que pretende conseguir a melhora da qualidade de vida, o progresso e o bem viver da maioria da sociedade seguindo um padrão de consumismo que transforma cidadãos em consumidores massivos do grande mercado capitalista, o que gera muitos problemas. No segundo prevalece o crescimento de bens comuns, da educação, da saúde, da cultura, da moradia digna, da prosperidade nas áreas rurais por meio do apoio à economia rural familiar de qualidade, das novas tecnologias de e para a sustentabilidade, que podem, por exemplo, compatibilizar o desafio da mobilidade com o respeito ao meio ambiente e à terra. Enfim, há um campo imenso de crescimento que pode gerar bem estar e qualidade de vida muito diferente do modelo de crescimento que pretende gerar bem estar por meio do consumismo, da mobilidade contaminante, da produção de alimentos contaminados por agrotóxicos, do uso extensivo e massacrante da terra e por aí vai. E não há oposição quanto a isso entre os movimentos. São dois caminhos distintos para chegar ao bem estar, mas em ambos o ambiental e o social não estão apartados. Então é uma falácia dizer que existe qualquer incompatibilidade.

O que vemos hoje, principalmente na Europa, onde a crise está mais acirrada, é um aumento das políticas de austeridade, que vão de encontro a esse caminho que privilegia os bens comuns. É possível estimular o crescimento das formas coletivas de bem estar com orçamentos restritos?

Esse é um debate ideológico, há distintas maneiras de questionar a crise. A crise é provocada por muitas razões, sendo a principal delas o crescimento ilimitado do capital financeiro e da economia não produtiva, e portanto a geração de riqueza falsa, sem nenhum fundamento na economia real,  possível graças à corrupção na relação entre o mundo político e financeiro. É uma crise que foi provocada pelo próprio capitalismo para poder introduzir feitos ideológicos e políticos que até então não havia conseguido introduzir, como a precarização do mercado de trabalho, a perda de qualidade de vida de uma grande maioria da cidadania que está mais precária e vulnerável ao mercado capitalista, dando ao capital melhores condições para impor seu modelo. Tem sido uma crise de reorganização global do capitalismo para retomar taxas de lucro em lugares onde estavam reduzidas, privatizando todo tipo de políticas e serviços públicos que podem ter rentabilidade econômica passem a mão do setor privado. A crise financeira dos Estados não é senão uma estratégia para que o dinheiro da produção, dos impostos, dos trabalhadores, passem à mão dos bancos, em vez de ir para os serviços públicos, de modo que a taxa de transferência da riqueza da população à economia financeira seja a maior de todas.

Como se enfrenta esse situação?

A partir da construção de uma nova esquerda que confronte e discuta não só o neoliberalismo, mas também a política socialdemocrata que abriu espaço para tudo isso na Europa, porque os partidos sociais democratas foram os grandes responsáveis por esse processo de crise. Desde logo, devemos  defender que a institucionalidade política volte a fortalecer as políticas públicas, o investimento público, a economia pública. Não devemos pagar uma dúvida que não é nossa, devemos nos negar a entrar na lógica capitalista da crise, só assim a riqueza dos trabalhadores poderá voltar às finanças públicas e gerar riqueza, empregos e crescimento de bens comuns. Conseguir que a política volta a imperar sobre a economia e as finanças. Isso requer uma nova esquerda. E essa nova esquerda só pode sair dos novos movimentos sociais que estão questionando a política e a economia como estão agora. É um processo de médio prazo.

A mudança virá da força coletiva, dos movimentos sociais que se autonomizam do Estado, dos partidos e da instituições e que criam uma proposta de retomar o espaço público. Isso permite um novo nível de auto-organização da sociedade que passa a ter capacidade de ser um ator político democrático e, a partir daí, instituir novas esquerdas que serão capazes de uma transformação nos Estados em favor dos bens comuns e públicos e cortar a relação perversa com a economia capitalista e financeira. Tudo isso vai gerar uma transformação tão profunda nos Estados que eu creio que nas próximas décadas já não teremos mais Estados nacionais como hoje. Passaremos épocas difíceis, teremos que dar passos atrás para dar outros adiante, viveremos o melhor e o pior, veremos emergências de neofascismos, mas também veremos a emergência de processos transformadores muito interessantes.

Você acredita que caminhamos para uma realidade onde não haverá mais Estados nacionais, mas a emancipação da Catalunha tem sido uma das lutas mais fortes na Espanha. Como explicar isso?

Os Estados nacionais na Europa têm sido superados pela complexidade social e pelas instituições supranacionais políticas ou financeiras, que os tornam estruturas frágeis. No caso espanhol, o Estado não conseguiu dar conta da sua própria pluralidade, não foi capaz de reconhecer e incorporar sua pluriculturalidade, seu plurilinguismo, etc. É um Estado com graves crises de legitimidade, especialmente quando surgem casos de corrupção,  crises econômicas e políticas. O movimento pela autodeterminação da Catalunha é muito antigo, foi inclusive um ator na luta contra o franquismo. Atualmente, está formado pelos independentistas de sempre e por uma outra parte da população, que não fazia parte do movimento, mas que já opta pela independência porque não aceita um Estado governado pela direita e em plena regressão democrática. Em lugar de reconhecer a diversidade catalã, esse Estado está indo contra isso. Então o povo catalão vê no processo de independência uma oportunidade de mudança, uma oportunidade de construir  um novo modelo de política. Contudo, o desafio é que, a partir da crise e da oportunidade de independência, se consiga efetivamente experimentar uma radicalidade democrática, aplicando os princípios de justiça social e ambiental, fazendo frente ao modelo de capitalismo atual.

Mesmo com o aumento dos movimentos populares na Europa, os governos dos países europeus são cada vez mais conservadores. Da mesma forma, após a Primavera Árabe, elege-se uma pessoa de cunho conservador. Por que há esse descolamento entre a vontade popular e as políticas expressas pelos governos?

No caso dos países árabes é diferente. No Egito, por exemplo, o partido Irmãos Muçulmanos, força política que foi eleita e está agora no poder, faz parte de um movimento histórico de oposição democrática ao regime de Mubarak e ao colonialismo. Quando há uma fratura no governo, sendo uma força histórica da oposição real e tendo uma base popular muito ampla, é quase certo que esta força assuma o poder.

No caso da Europa, há razões fundamentais para o que ocorre. Uma delas é que os novos movimentos sociais têm uma desconfiança e uma crítica em relação a todo o sistema político, esquerda institucional inclusive, pela qual eles não se sentem representados, então o desgaste não é só para a direita. Todavia, é um movimento que não amadureceu ainda o suficiente para gerar novas ações políticas, uma nova esquerda. Eu creio que isso vai ocorrer. Como eu disse, a mudança vai partir de movimentos autônomos em relação a partidos, a instituições políticas tradicionais. Contudo, a expressão política disto, que inclui ocupar espaços institucionais e participar de eleições, ainda não chegou, e a atual já não serve, então há um vazio. Por outra parte, a ideologia conservadora, toda a campanha política e cultural do neoliberalismo no mundo, teve êxito, se criou uma sociedade consumista e conservadora que defende o status quo. Mesmo que isso signifique uma política repressiva contra a dissidência. E isso vai chegar aqui no Brasil.

O que explica o fracasso da esquerda nesse contexto?

Na Espanha, por exemplo, quem começou a aplicar as políticas neoliberais foi o partido socialista, foi a social democracia. Com isso, ela perdeu sua raiz ideológica, cultural e política e se desconectou dos movimentos sociais tradicionalmente de esquerda, de modo que se enfraqueceu. O caminho da direita sempre foi mais coerente, então ela consegue manter o seu eleitorado mais fiel. Ao contrário da esquerda, que se abstém diante da decepção ou se fragmenta. A social democracia optou pelo capitalismo como modelo, e pelo desenvolvimento, porque seu objetivo é distribuir e não questionar o capitalismo ou a propriedade privada, o enriquecimento, a financeirização econômica. Então a ideia é crescer muito, gerar muita riqueza, para ter um bolo maior para repartir. Quando uma crise de crescimento e uma crise ambiental impedem que as políticas distributivas aconteçam, esse tipo de esquerda fica sem armas.

E como não ficar só na  pauta negativa, anticapitalista?

Isso que estamos tentando construir em plataformas como essa. Este é um desafio. De que estamos a favor? Qual o nosso paradigma propositivo? E é um desafio que temos agora e que precisamos compartilhar com os novos movimentos sociais. Esse é o passo que nos falta, construir as propostas de uma mudança efetiva.

“O abuso israelense contra as crianças palestinas é inaceitável”

crianças palestinas

Representante da ONU critica em especial as forças armadas por seu tratamento inflexível com as crianças, na maioria dos casos acusadas de jogar pedras contra os militares.

Uma missão de investigação da Organização das Nações Unidas (ONU) no território palestino de Gaza concluiu que as crianças desse povo suportam abusos inaceitáveis das forças de ocupação israelenses.

O presidente do Comitê Especial para Investigar as Práticas Israelenses que Afetam os Direitos Humanos do Povo Palestino, o embaixador Palitha Kohona, representante permanente do Sri Lanka na ONU, criticou em especial as forças israelenses por seu tratamento inflexível com as crianças, na maioria dos casos acusadas de jogar pedras contra os militares armados.

“Soldados israelenses cercam as casas das crianças em altas horas da noite, lhes jogam granadas e arrombam portas, também disparam projéteis letais e não apresentam nenhuma ordem judicial”, descreveu. Eles prendem os menores e vendam seus olhos, depois os levam em veículos militares, acrescentou.

Em entrevista à IPS, Kohona disse que a situação nos territórios ocupados não apresenta melhoras significativas desde as últimas três visitas à região. Segundo testemunhos, as crianças detidas são proibidas de receber visitas de seus familiares e de terem defesa legal, permanecem presas em celas com adultos, lhes é negado o direito à educação e, inclusive, com 12 anos de idade são julgadas em tribunais militares israelenses, contou Kohona.

O Comitê também recebeu denúncias que dão conta que 192 crianças e adolescentes detidos, dos quais 39 eram menores de 16 anos, disse Kohona. A prática israelense de demolir casas palestinas continua e também aumentou a violência dos colonos judeus, assinalou.

O Comitê Especial, criado pela Assembleia Geral em dezembro de 1968, é formado por mais outros dois diplomatas: Dato Hussein Haniff, da Malásia, e Fod Seck, do Senegal.

A seguir, confira o que mais o representante da ONU disse à IPS sobre a situação em Gaza:

Como descreveria o tratamento que as autoridades israelenses dão às crianças palestinas?

Palitha Kohona: O Comitê chegou à conclusão de que as autoridades ocupantes não estavam cumprindo com suas obrigações legais internacionais para com os habitantes dos territórios ocupados. Por exemplo, o principal resultado do bloqueio de Israel à Faixa de Gaza foi converter 80% dos palestinos dependentes da assistência humanitária internacional. É admirável a resiliência dos palestinos de Gaza, capazes de sobreviver com tão pouco, especialmente com a inadequada atenção à saúde, as severas limitações de suas atividades habituais, os frequentes cortes de eletricidade e os habituais incidentes de violência que marcam a vida cotidiana. O bloqueio de Israel a Gaza é ilegal. As necessidades de segurança de Israel, sem dúvida, podem satisfazer-se sem recorrer a algumas destas duras políticas. O bloqueio, segundo muitos, equivale a castigar coletivamente a 1,6 milhão de palestinos. E já teve um impacto devastador em suas vidas. Muitas testemunhas perguntaram se várias destas duras políticas eram realmente necessárias para manter a segurança ou se, na realidade, estavam destinadas a exacerbar o sentimento de desesperança.

Considerando que estas violações aos direitos humanos são cometidas em territórios ocupados, equivalem a violar as convenções de Genebra sobre o tratamento a prisioneiros em situações de conflito?

Palitha Kohona: Há importantes personalidades que pensam assim e o Comitê está de acordo com esta avaliação.

Israel permitiu alguma vez uma visita do Comitê Especial para registrar sua versão dos fatos? Em caso negativo, qual é a desculpa apresentada?

Ao Comitê Especial não permitiu visitar Israel nem os territórios ocupados da Cisjordânia e Jerusalém (ocidental) ou aos locais de Golán. Israel tem uma política de não cooperação com o Comitê.

Você visitou três vezes a região na qualidade de presidente do Comitê Especial. Qual é sua avaliação dos territórios ocupados?

A situação não tem melhorado de modo significativo. Em Gaza, as importações estão em menos de 50% dos volumes previstos pelo bloqueio. 85% das escolas de Gaza trabalham em turno duplo. E como Israel proíbe quase todas as exportações de Gaza, o crescimento econômico é sufocado e os empregos são escassos. Entre 30 e 40% da população economicamente ativa da Faixa de Gaza está desempregada. Em torno de 1,2 milhão de palestinos de Gaza receberam assistência alimentar da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA). Além disso, 90% da água não é potável. Os negócios estão em ponto morto, sem possibilidade de importar novos equipamentos ou de exportar produtos. A pobreza afeta a 39% da população, segundo o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

O que a ONU pode fazer para melhorar a situação dos palestinos nos territórios ocupados? Você acredita que é impotente ante a intransigência israelense?

As agências da ONU desempenham um papel importante para impedir que a situação humanitária se deteriore mais, mas também sofrem a pressão da escassez de fundos causada pela crise financeira mundial. Necessitam de mais financiamento por parte dos doadores.

O eleitor tá querendo ver o mundo colorido

Altair Hoppe em entrevista ao Jornal Diarinho

Entrevistão do meste Altair Hoppe, o mago do Photoshop no Brasil e um dos 10 do mundo onde concedeu uma parte do seu tempo as páginas do Jornal Diarinho, publicado em  5 de setembro de 2010 em que o Blog do dcvitti faz um revival dessas publicações marcantes. Leia e relembra um pouco de sua história. Essa postagem foi chupado do site do Jornal Diarinho sem autorização, que pelo Altair, nós fazemos  qualquer coisa pra ajudá-lo.

O escritor e especialista no programa Photoshop revela os segredos das montagens de fotos, o abuso do recurso nas campanhas políticas e os casos escabrosos que resolveu no Fantástico.

O escritor e especialista no programa Photoshop, Altair Hoppe, 36 anos, se parece com tudo, menos com uma celebridade. Com a visibilidade que seu trabalho adquiriu nos últimos anos por causa da consultoria que presta ao programa ‘Fantástico’, da TV Globo, pro quadro “Detetive virtual”, era de se esperar que o sucesso subisse à cabeça deste leonino que luta contra a vaidade, própria de seu signo. Ele só se revela um ‘astro’ quando sobe no palco e dá suas palestras sobre Photoshop por todo o país. Segundo ele, fica ‘possuído’, como se recebesse uma entidade espírita.

Seria este o segredo do sucesso deste jovem, que desde cedo foi empreendedor, abrindo um jornal combativo em Ilhota, aos 21 anos, antes mesmo de entrar pra faculdade de jornalismo? Ele conta que nada foi planejado. As coisas, simplesmente, aconteceram, resultado também de seu trabalho pioneiro e de formiguinha, de levar a informação para os recantos mais longínquos do país, trabalho que ainda não tem concorrentes.

Pra isso, contou também com a sorte, e a empatia com a platéia, que levou o garoto de Presidente Getúlio a patamares nunca dantes imaginados, e com uma carreira em plena ascensão, depois de quatro livros publicados.

Na entrevista que deu às jornalistas Renata Rosa e Marina Fiamoncini, com fotos de Deivid Couto, Altair conta sua trajetória desde a experiência em Ilhota, a faculdade de Jornalismo, a passagem pela revista Photos e a abertura da nova empresa, a iPhotos, na Maravilha do Atlântico (Balneário Camboriú). Também revela os segredos das montagens de fotos, o abuso do recurso nas campanhas políticas, e casos escabrosos que resolveu no programa global.

Diarinho: Na época em que cursava a faculdade na Univali, o senhor tinha um jornal em Ilhota que denunciava irregularidades. Você sofria represálias?

Altair Hoppe: Todo dia. [risos]. Eu comecei com o jornal em 1993 e fiquei com ele até 2004, foram 11 anos. Era um jornal independente. Apesar de ser uma cidade pequena, não tinha dependência nenhuma, como habitualmente acontece, de prefeitura, essas coisas. [E você é de lá?] Eu não nasci lá. Nasci numa cidade de Santa Catarina chamada Presidente Getúlio. Morei no Rio Grande do Sul por alguns anos e depois voltei a morar em Ilhota quando eu tinha 12, 13 anos. A cidade não tinha jornal e eu montei o jornal sempre com esse cunho – de ser independente, um jornal bem crítico e de muita opinião. Nunca foi um jornal informativo. Eu não curto muito o jornalismo informativo. Eu gosto do jornalismo opinativo, investigativo, e isso numa cidade pequena, de uma cultura muito de domínio, com coronelismo, era bem complicado. Recebia desde ameaça de morte, o prefeito me bateu, deu soco em mim. Deu BO e tudo porque eu não quis deixar passar em branco. Aconteceu esse tipo de situação, mas isso nunca me desmotivou, ao contrário, eu sempre me motivei ainda mais. O jornalismo, acho que tem essa função: quando o jornalismo tá agradando todo mundo é porque ele não tá cumprindo o papel dele.

Diarinho: E por que acabou ‘A Folha de Ilhota’?

Altair Hoppe: Eu terminei com um sentimento de missão cumprida, entendeu? Eu fiquei 10 anos com o jornal. Levei pancada de tudo quanto é lado e suportei isso, consegui passar por todas essas fases. Quando a cidade criou uma estrutura, um pouco de cultura e senso crítico, que era isso que buscava despertar nas pessoas através do jornal, aí, eu acho que a minha missão foi cumprida. E aí, eu optei por um caminho diferente, de buscar outra coisa dentro da minha profissão. Não que Ilhota seja pequeno. Lugar nenhum do mundo é pequeno pra qualquer pessoa. Pra mim, aquilo era o meu universo, o meu mundo, eu era a pessoa mais feliz do mundo fazendo aquilo. Mas eu também queria ter oportunidade de fazer coisas diferentes. Durante 10 anos eu fiz com o maior prazer do mundo e tenho só pontos positivos dessa história toda, aí eu comecei a fortalecer essa área na qual trabalho hoje. Eu comecei a trabalhar na editora Photos, de Itajaí, como um humilde arte-finalista, um diagramador.

Diarinho: Quais os motivos que fizeram você trancar a faculdade de jornalismo? Você continua tendo contato com o jornalismo?

Altair Hoppe: Na verdade, pra me formar, eu levei oito anos. Eu comecei a fazer jornal antes de pensar em fazer uma faculdade, que foi em 98. Eu já tinha levado porrada de tudo quanto é lado e o jornalismo surgiu, sei lá, por pura intuição, né? Era uma época muito diferente da de hoje porque a gente não tinha internet. Na época que a gente fazia o jornal em Ilhota, os jornais que a gente tinha eram só os regionais, regionais entre aspas, era só um jornal de Gaspar e o Jornal de Santa Catarina. Não tinha Diário Catarinense, o próprio Diarinho, a gente não tinha acesso, apesar da proximidade com Itajaí, isso é incrível, né? E isso aconteceu no ano 2000. Eu parei por um ano e meio, dois anos porque a faculdade foi meio frustrante pra mim. Chegou um ponto em que a faculdade não fazia muito sentido porque não era exatamente aquilo que eu tava buscando. Tinha alguns professores que me alimentavam na esperança do jornalismo que eu fazia lá (em Ilhota), um jornalismo mais crítico, mas, no geral, a universidade tenta te preparar pro mercado e eu não tenho um espírito de mercado ou pra entrar num determinado padrão. Eu achava terrível e me sentia muito frustrado. Eu gostava da faculdade quando sentava no corredor e ficava conversando com os professores. Ficava apático quando entrava na sala de aula porque, daí, eles tentavam me enquadrar dentro do sistema. Falavam no tal do lide que, pra mim, é um modelo que foi criado numa situação de guerra porque a história conta, a tecnologia não permitia transmitir as informações muito longas, entendeu? Mas hoje, nós estamos numa época diferente e as pessoas precisam pensar e o jornalismo, de maneira geral, não faz as pessoas pensarem. Virou um produto o jornal, a revista. Daí, eu optei em priorizar a minha carreira. Eu fiquei dois anos e meio, três anos parado e me dediquei a me desenvolver e escrevi o meu primeiro livro. Eu trabalhava durante o dia, e durante a noite me dedicava ao livro. Isso foi em 2004. E eu acho que fiz a aposta certa, de não priorizar a faculdade. Depois, é claro, eu voltei, porque, afinal, já havia feito um investimento financeiro. A razão pela qual voltei foi fazer valer o que já tinha investido. E, também, é claro, a universidade te ensina várias coisas, mas, como eu falei, fora da sala de aula. Às vezes, a pessoa sai pior da faculdade do que quando entrou. Isso é uma coisa muito engraçada. Acho que a universidade, em alguma situação, cria uma espécie de soberba nas pessoas na forma de ver o mundo. Você sabe pouco e você sai da universidade com a sensação de que você sabe muito. Quando você entra, você sabe que você sabe pouco. E se infla com uma sensação de conhecimento. A gente nunca deve ter a sensação de que a gente sabe muito. Eu, a cada dia que passa, tenho a sensação de que menos eu sei. E mais tenho a aprender. E isso nas relações pessoais, na própria profissão. Porque quando a gente pensa que sabe muito, aí, de fato, a gente tá no caminho da limitação, da pouca evolução.

Diarinho: A guinada na sua carreira profissional começou a partir da revista Photos? Como surgiu a ideia de escrever livros sobre o Photoshop e dar cursos sobre o programa?

Altair Hoppe: Não foi uma guinada. De fato, comecei como arte-finalista, que dentro de um jornal, uma editora, é a menor escala, é um estagiário um pouquinho melhorado. É o cara que só faz o alinhamento de colunas, se todas as fontes estão dentro do padrão, eu comecei assim. E eu busquei ser o melhor arte-finalista que pudesse existir no mundo. Com esta dedicação, fazendo uma tarefa simples. Fui pra diagramador e dentro da diagramação, fui pra área de linguagem e comecei a ter mais contato com o Photoshop. A gente tava dentro de uma revista de fotografia, e neste período de transição do analógico pro digital, eu percebi que muitas pessoas tinham dúvidas com relação ao Photoshop. Eu ofereci pra minha chefe, na época, escrever uma coluna sobre Photoshop. Eu fazia tratamento de imagem e isso pode ser uma coisa interessante pros leitores aprenderem algumas dicas de como usar o Photoshop. Aí, depois de umas seis, sete edições, eu passei a receber muitos e-mails com mais e mais dúvidas. E se eu continuasse só a publicar os artigos, não ia atender às expectativas das pessoas, até pela necessidade de mercado. Eu fiz uma pesquisa de mercado no Brasil e vi quais livros havia sobre Photoshop e descobri que não havia livros sobre Photoshop em português, voltado para fotógrafos. Aí, eu conversei com minha chefe perguntando se podia escrever um livro, ela disse que eu poderia escrever, mas também não ia garantir que ele fosse publicado. Eu tinha que escrever e ver o resultado. Isso porque a editora nunca tinha publicado um livro; só tínhamos uma única revista. Demorei seis meses pra escrever o livro. Ela disse: “Tu podes escrever o livro, mas tu não podes escrever durante o teu trabalho. Tu podes usar a estrutura da editora, mas escreve à noite, nos finais de semana”. E foi este motivo que me fez largar temporariamente a universidade. Então, eu priorizei isso. Quando eu terminei, imprimi tudo em papel sulfite, só num lado pra dar um volume gigantesco, cheguei lá, joguei em cima da mesa da chefe. Eu disse: “Ó, taí o livro. Terminei de escrever”. Um calhamaço. Ela disse: “Tá, vou dar uma olhada”. Eu acho que ela nunca leu o livro, porque era muita coisa e era coisa mais técnica, mas ela aprovou e a gente lançou o livro. A ideia nossa inicial, como a gente não tinha experiência nesse mercado, era vender 300 livros porque com 300 livros se pagava o custo de impressão do material, do investimento. Aí, a gente fez o lançamento e em 50 dias, vendemos os livros. Em 50 dias esgotou a primeira edição. E hoje, o livro já tá na sétima edição e a gente já vendeu 30 mil livros. A gente conseguiu um diferencial que foi traduzir para uma linguagem simples um programa que é muito técnico. Nisso o jornalismo me ajudou bastante porque se eu fosse só um cara técnico, não teria a mesma facilidade, mas como sou da área da comunicação, eu consigo interpretar melhor as informações. Agora, eu estou lançando o quarto livro dessa série.

Diarinho: A partir do primeiro livro, você já começou a dar cursos?

Altair Hoppe: Essa história de curso, eu também não tinha muita intenção de dar. Quando eu escrevi o volume 1, eu achava que tinha reunido conteúdo suficiente pras pessoas aprenderem Photoshop tranquilamente. Eu nunca sonhei escrever o volume 2. Não só escrevi esses livros como houve pedidos, as pessoas queriam também o curso ao vivo. E aí eu comecei a fazer os workshops. O primeiro workshop foi em Balneário Camboriú como cobaia, um teste, deu certo, apesar de que eu não tinha experiência nesse negócio de palestra, né? [Teve que abandonar a timidez?] No meu dia-a-dia eu sou uma pessoa muito comedida, mas quando eu viro palestrante, eu sou uma pessoa muito diferente. Bem diferente do que você tá vendo aqui. As pessoas ficam assombradas, inclusive. Eu sou meio Chico Xavier, dá uma incorporada, eu viro um outro ser. Fico possuído. É meio um transe. Daí começou esse negócio de workshop e no primeiro ano, a gente foi a 21 cidades do país, e sempre priorizou as capitais. Fomos a São Paulo, Rio e já estou há seis anos fazendo o circuito nacional com esta média de 15, 16 capitais por ano. Eu não consigo fazer workshop em cidades que a gente chama de interior, não dá porque a demanda é muito grande. A gente prioriza as capitais para que o pessoal do interior possa se deslocar às capitais e fazer os cursos. É, e se eu só desse workshop não teria capacidade de fazer outras coisas. Só que eu não privilegio São Paulo. Nunca. Nós somos pessoas do interior, eu sou uma pessoa do interior, e eu acho que devo fazer um trabalho nacional e dar oportunidade para todo mundo. Em São Paulo, eu dou um único curso por ano. No Rio de Janeiro – um único curso por ano. Por ser uma cidade gigantesca, eu poderia dar 10 cursos em São Paulo, mas como as pessoas lá de Fortaleza vão assistir à palestra? O acesso à informação em São Paulo é melhor. Um amigo meu disse que eu criei um tipo de “caravana Holiday”. [Do filme ‘Bye bye Brasil’ de Cacá Diegues?] Exatamente.

Diarinho: Como surgiu o convite pra participar do quadro “Detetive virtual” no ‘Fantástico’? E quais os casos mais escabrosos que você já desvendou?

Altair Hoppe: Os workshops que criaram o convite pro “Detetive virtual”. Eu dei um workshop em Brasília, em 2007, no sindicato dos jornalistas e um dos jornalistas, do Correio Brasiliense, era amigo do Tadeu Schimitt, que apresenta o ‘Fantástico’. O Tadeu perguntou pra esse amigo se conhecia algum especialista em Photoshop. O Caio tinha feito o workshop e sabia que eu tinha três livros publicados e não tinha nenhum outro autor com tantos livros e fazendo esse trabalho nacional. É impressionante como o Brasil é um país que carece de desenvolvimento. De melhoria na informação. E aí, ele recomendou o meu nome. O Tadeu entrou em contato comigo e conversamos a respeito. Eu nem acreditei porque, na verdade, essas coisas a gente não planeja, simplesmente acontecem. [E até quando vai o contrato?] A gente não possui um contrato. Nós temos um acordo verbal de parceria. Eles precisam de consultoria, eles precisam da informação, eles precisam de um especialista pra aguentar o rojão, entre aspas, né? Pra se responsabilizar pela avaliação das imagens. E pra mim também é bom porque me dá credibilidade. Se fosse uma situação normal de trabalho, a gente trabalharia com imagens melhores, mas são todas imagens de internet, e imagens de internet são complicadas porque a resolução é muito baixa. Então, às vezes, você não tem uma condição técnica boa de imagem pra descobrir se é uma montagem ou não. Daí, eu não posso deduzir que houve um recorte, uma fusão de imagem. A foto, às vezes, não te dá essa condição, é horrível. E aí eu parto para outros elementos pra identificar se é uma montagem. Por exemplo: perspectiva. Eu analiso a perspectiva dos objetos, a sombra dos objetos, a textura, a luz, a proporção, eu analiso vários elementos pra conseguir identificar a montagem. Teve casos bem difíceis já. O fantasma de Wem town, que é uma cidade na Inglaterra. Aconteceu um incêndio, o fotógrafo fez uma foto e apareceu uma menina no fogaréu. Complicado, né? Como é que você vai explicar? Numa lógica simples eu poderia dizer que a foto é uma montagem porque fantasma não existe. Eu não posso fazer isso, entendeu? Eu tenho que dar uma explicação técnica. Então, depois de uns dois dias que eu consegui encontrar um elemento, que provasse que aquilo era uma montagem. E era uma montagem, mas demorou. Têm tantos casos cabeludos… Tem um que não foi ao ar que eu não consegui resolver porque demandaria mais pesquisa. Teve um lançamento de um carro no interior de São Paulo, numa pista de testes, com vários fotógrafos de várias revistas fazendo a cobertura. Um fotógrafo fez uma foto de um carro em primeiro plano e no fundo tava o céu. Era 17h30, no entardecer, e aí, no céu, apareceram alguns objetos estranhos. Como se fosse ovni, né? Eu consegui a foto em alta resolução do fotógrafo, com todos os metadados, tava tudo correto, a foto era real, não havia montagem, e a gente não conseguiu identificar os objetos. Podia ser um mosquito, um meteriorito, três, na verdade, porque eram três objetos, poderiam ser jatos, e eu tentei investigar tudo isso. Tentei com o Inpe [instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], tentei investigar na internet se havia algum tipo de exibição, show aéreo naquele período em Indaiatuba, onde era essa foto, e eu não consegui uma resposta até hoje. Isso, é claro, nunca me foge à mente, eu sempre fico pensando em outras possibilidades. São coisas complicadas e eu quero descobrir. Tem casos que caem também. Eu dou um parecer que a foto é verdadeira e a matéria acaba não saindo porque não eles não conseguem encontrar o personagem que prove que, aquilo, de fato, é uma situação real. Teve o caso do ‘viajante do tempo’. É uma foto antiga de uma reabertura de uma ponte em 1940. E aparece, no meio das pessoas, que estavam todas de terno, de chapéu, um sujeito estranho com óculos escuros e uma câmera fotográfica com uma teleobjetiva moderna. Eles queriam saber se era montagem. E eu dei um parecer de que era uma montagem porque havia alguns elementos apontando pra isso. Essa foto tá num museu no Canadá e a matéria acabou não entrando até hoje. Um fator muito forte que pra mim evidencia que é uma imagem falsa é a luz da orelha do tal ‘viajante do tempo’. O que eu analisei? Na foto, a sombra tá projetada mais na lateral do rosto, ou seja, a fonte de luz do sol estaria mais nessa posição. Mas no ‘viajante do tempo’, o que acontece? A projeção do sol na orelha dele é muito intensa no rosto. Como se existisse uma fonte de luz vinda de trás. Teoricamente, isso não seria possível. Esse foi um dos elementos, eu elenquei, pelo menos, cinco.

Diarinho: Se o senhor fosse coordenador de campanha política, o que jamais faria usando o Photoshop?

Altair Hoppe: Eu não usaria o Photoshop porque a classe política já tem esse conceito de mentira, né? E aí você pega a foto do candidato e começa mentindo na foto? O candidato nem abriu a boca e ele já tá mentindo. Se você usa o Photoshop pra dar um retoque no candidato, muda a pele, as marcas de expressão… No meu modo de entender, um dos predicados para que a gente vote em alguém, normalmente, é a experiência, a pessoa tem que mostrar que tem experiência de vida. E não tem coisa melhor pra mostrar que a pessoa tem experiência do que as marcas da vida, as marcas de expressão. Então, eu acho que é desnecessário o uso do Photoshop. Você pode, por exemplo, maquiar a pessoa, põe uma basezinha, dá uma retocadinha, pronto. Suaviza a olheira do candidato com a maquiagem tradicional, não é necessário mentir. Já começa com descrédito.

Diarinho: Qual o pior produto com o uso de Photoshop na campanha dos candidatos de Santa Catarina?

Altair: De todas as imagens que eu vi, a pior foi da Ideli [Salvatti – PT]. Inclusive, nacional. É uma coisa absurda! É muito feio! Não se reconhece. Quem a vê ao vivo num comício, não vai reconhecer, vai procurar. “Vai ver que aquela que tá no palanque é uma assessora” porque a diferença é brutal. Continuo achando que isso é um fator negativo porque não se tá vendendo a beleza do candidato. Em política, não se vende a beleza do candidato, você vende a capacidade dele de viver em sociedade, de poder encontrar soluções, e a política tá virando muito publicidade, tá virando produto de marketing. Por isso que a gente tem esses deputados que a gente tem. Parece que quem tem mais dinheiro é mais capaz, e o eleitor, pela massificação, fica seduzido por isso, infelizmente, por essa estética. O eleitor tá querendo ver o mundo colorido. Na verdade, as pessoas, nessa cultura moderna, querem se ver bonitas, e se elas não se enxergam bonitas, compram coisas que as projetam dentro desta questão da beleza. Então, infelizmente, os políticos também tão caindo nessa. Tem muita gente que vai votar por uma questão estética porque o cara é bem apessoado. Como se ele se cuida bem, ele é bonito, automaticamente, ele vai fazer coisas bonitas também na política. Isso é mentira. Então, é um conceito perigoso.

Diarinho: Há um critério profissional que defina o limite entre o bom senso estético e o exagero?

Altair Hoppe: O critério que eu uso pra fazer qualquer retoque é a realidade. Eu não faço retoque com conceito surreal. A gente trabalha com a realidade, seja no segmento moda, publicidade, na fotografia social mesmo. A gente tem que partir do conceito de realidade, não pode criar um mundo abstrato, um conceito abstrato a partir dos recursos que o Photoshop permite a gente usar. Todo retoque que a gente faz influencia as pessoas de uma maneira direta ou indireta, cria uma influência na vida das pessoas. Então nós temos uma responsabilidade. Por exemplo: quando a gente faz um tratamento e alisa uma mulher completamente, como acontece, por exemplo, no caso da Playboy, a gente tá criando um conceito de sociedade. Para o cara que faz a manipulação de imagem é um simples trabalho, ele não tem a dimensão do quanto isso vai afetar a vida das pessoas. Quantas meninas e jovens vão adotar aquele padrão como sendo o belo, como sendo o bonito e vão se matar com creme, com academia pra chegar naquele padrão. Isso é uma atrocidade com o ser humano. Por isso que eu falo, o limite é a realidade. Eu tenho que fazer correções que levem em consideração a característica natural das pessoas. É possível que aquela pessoa a qual eu estou tratando a imagem, tenha aquela pele, aquela textura, na vida real? Eu mostro no meu trabalho possibilidades surreais, mas com opção de linguagem artística, mas toda vez que a gente entender que as pessoas vão se influenciar, que elas não vão ter um entendimento que é uma coisa abstrata, que você tá querendo dar um conceito mais artístico, você tem que puxar pra esse limite. E existem dois campos nesse mundo do Photoshop. Existe o campo da manipulação e o campo do tratamento. Toda imagem sofre um tratamento. Até antes da era digital. Seja no laboratório, no minilab digital ou através do Photoshop. Sempre houve a correção de cor. O próprio ajuste de exposição, a escolha de um balanço de branco, isso aí faz parte da fotografia analógica e digital. Mas a manipulação já é um pouco diferente. O Photoshop ampliou essas possibilidades. A manipulação também sempre existiu na fotografia. Têm casos de 1915 com manipulação de Lênin; de 1936, de Hitler; através daquele processo em chapa, em vidro, eles faziam retoque nas imagens pra excluir pessoas das imagens. Isso é muito antigo e o Photoshop facilitou isso. Então, a gente tem que evitar as manipulações, principalmente quando afetam a moral das pessoas. Tem um caso que eu sempre lembro e cito: eu recebi um caso bem dramático de uma menina do Rio Grande do Sul, ela mandou um e-mail, dizendo que ela tinha sido vítima de uma manipulação. Ela postou algumas fotos no Orkut, e alguém que não gostava dela pegou o rosto dela, pegou fotos pornográficas, colou de uma maneira absolutamente tosca, de uma maneira ridícula, mal feita, sem proporção, nada, simplesmente recortou e jogou para toda a rede de uma universidade onde ela estudava e onde o marido era professor universitário. A menina ficou mais de um mês sem ir pra universidade tamanho o constrangimento.

Diarinho: Aconteceu um caso recente com a Cláudia Leite, fotos dela foram colocadas em sites pornôs…

Altair Hoppe: E cada vez mais isso acontece. A culpa não é do Photoshop. As pessoas buscam atribuir a culpa das manipulações, dos retoques, no Photoshop, mas isso é um grande erro. É desconhecimento do processo. Tudo que a gente faz na vida parte de uma intenção nossa. Quem tem a ferramenta na mão é que decide. A ferramenta por si só não decide nada. Um policial usa um revólver pra defender a sociedade, o bandido pode usar o mesmo revólver pra fazer atrocidades, para matar uma pessoa. Um fotógrafo pode usar uma câmera fotográfica pra registrar uma coisa bela, uma coisa bonita, como também pode usar o instrumento fotográfico pra invadir a privacidade das pessoas. Tudo parte daquilo que a gente quer fazer. Essa história de que o Photoshop é culpado é senso-comum.

Diarinho: Qual ensaio fotográfico da Playboy o uso do Photoshop ficou mais evidente? Dá pra acreditar que as mulheres que aparecem nuas nas revistas são elas mesmas?

Altair Hoppe: Tem tratamento em toda edição. Teve um caso engraçado agora em junho. A Playboy lançou uma edição com uma menina do Big Brother, eles colocaram que não foi usado Photoshop. É uma coisa tão inédita que eles anunciaram que naquela edição não foi usado Photoshop. Mas, em julho, eles deram um azar gigantesco porque fizeram uma aberração no Photoshop. Parece até que foi pra um contraponto. Saiu uma menina, uma apresentadora de TV, sem o mamilo. Eles removeram o mamilo da menina. Não é a primeira vez que a Playboy faz isso. Tinha o seio, a forma toda e aí excluíram o mamilo. Mas por que eles fizeram isso? Nesse caso, foi por uma questão da legislação. Não é permitido colocar na capa de uma revista que circula em banca um seio exposto. [Mas aparece…] Elas sempre dão um jeitinho. O seio aparece, mas o mamilo não. Tem um fotógrafo amigo meu, o Luiz Garrido, que é um dos gênios do retrato no Brasil, talvez do mundo, ele contou um episódio que no regime militar não poderia aparecer a foto com os seios expostos, mas tinha uma restrição: só era proibido se fossem dois seios. Então, uma das fotos que ele fez, fez a mulher só com um único seio. Fez um corte e a mulher ficou meio aleijada, mas ele conseguiu fazer [risos].

Diarinho: É possível modificar uma imagem sem deixar pistas?

Altair Hoppe: É possível. Os recursos que a gente tem no Photoshop, pra quem tem conhecimento, é possível fazer uma foto idêntica à realidade, sem praticamente deixar rastro de que é uma montagem. Claro que tem que haver um planejamento na captura das fotos. Você não vai pegar qualquer foto e juntar com outra. Isso é uma diferença entre um trabalho profissional e um amador. O amador junta uma relação de fotos que não tem relação, que não foram planejadas, e tenta fazer a montagem. É isso que acontece na internet e no detetive virtual. Não são profissionais da área, são pessoas comuns que fazem e sempre deixam um pequeno errinho e a gente consegue descobrir. Mas profissionais mesmo, se eles fizeram as montagens com capricho, não tem como descobrir. Na publicidade, por exemplo, se cria todo um cenário e todo um conceito.

Diarinho: Que dicas você dá pra identificar quando uma foto é montagem?

Altair Hoppe: As sombras em posições diferentes são o erro mais comum de uma montagem. Você tentar identificar na cena a fonte de luz, de onde ela tá partindo, e tentar identificar a direção da sombra. O recorte das fusões é mais simples. E alguns erros de perspectiva também podem acontecer. Eu tive uma convicção muito grande com esse viajante do tempo nessa questão da luz. O fato de criar uma sombra da orelha não é uma coisa possível. Quando a gente salva em jpg, a foto perde bastante informação, aí a textura da imagem, a diferença de granulação, praticamente desaparece. Esse é um elemento que poucas vezes eu consigo considerar, só se a imagem é em alta resolução, tem bastante definição, mas a maioria das vezes eu trabalho na questão da perspectiva, da sombra.

Diarinho: Hoje em dia é possível trabalhar para grandes empresas sem abandonar sua cidade? O que ainda é preciso fazer in loco? Você nunca pensou em ir morar no eixo Rio – SP pra impulsionar a carreira?

Altair Hoppe: Quando eu comecei a trabalhar, a gente era uma editora de Itajaí que editava uma revista de circulação nacional. Os caras não acreditavam como que alguém de Itajaí ia fazer uma coisa boa numa era que só tinha revista em São Paulo. A gente conseguiu quebrar isso mostrando qualidade. Eu acho que é o grande mérito de quem vem do interior. Quem vem do interior sabe que precisa mostrar que tem capacidade. É um desafio. Com a chegada da internet isso só foi potencializado. Hoje, eu consigo fazer o meu trabalho aqui em Balneário ou em qualquer parte do Brasil com a mesma qualidade que as pessoas fazem em São Paulo. Na verdade, hoje todo mundo imagina que eu sou de São Paulo. As pessoas se espantam quando eu digo que sou de Santa Catarina, de Balneário Camboriú, principalmente as pessoas aqui da região. Hoje, quando eu digo que moro aqui no Vale do Itajaí as pessoas dizem “nossa, tu mora no paraíso”. Aqui a gente tem tudo que a gente precisa, consegue fazer um trabalho extremamente bom num outro ritmo. Eu tô aqui na empresa, não pego trânsito, não me preocupo tanto com a questão da violência, então isso dá tranquilidade pra gente trabalhar. Na verdade, cada vez eu quero estar num centro menor. O meu planejamento de vida é poder ter uma vida cada vez mais simples porque eu tenho certeza que isso vai me fazer cada vez mais feliz. [Mas sem abandonar a tecnologia…] De forma alguma. É a tecnologia que permite fazer exatamente isso. Hoje, a galera que trabalha aqui comigo no meu escritório, poderia trabalhar em casa. Se a gente fizer uma reunião e definir isso é possível fazer esse tipo de coisa hoje. Ou eu ter um funcionário lá de Fortaleza, um lá do Rio Grande do Sul, a tecnologia permite isso. Hoje nós estamos em condição de igualdade, hoje o que determina a diferença desses profissionais é o querer. A questão geográfica ela inexiste.

Diarinho: A única coisa que você faz presencialmente são os workshops?

Altair Hoppe: Ainda. Daqui a pouquinho não vai ser mais. Temos um projeto de fazer isso à distância, na verdade, há dois anos a gente trabalha essa ideia. A partir de 2011 eu acredito que a gente vá começar a viabilizar os cursos à distância. Vamos atingir um número maior de pessoas. Hoje eu faço os cursos só nas capitais, isso restringe um pouco o pessoal do interior, que tem menos capacidade de investimento. Eu fazendo curso à distância na internet, o custo vai ser bem menor, porque eu não vou ter que viajar, não vou ter que alugar estrutura de hotel, coffe-break, etc.

Diarinho: A sua mulher também é fotógrafa. O senhor também faz consultorias a ela?

Altair Hoppe: Na verdade eu não dou conselho, eu dou esporro [risos]. Eu dou mais conselhos na parte estratégica. Eu não interfiro no processo de edição, eu dou minha opinião sobre como, estrategicamente, ela pode desenvolver a carreira. Eu dou esporro como companheiro que busca apoiá-la através da minha experiência de mercado. Eu poderia influenciar meu filho, tornar ele um mini Altair, mas eu não falo nada com ele a respeito de Photoshop. Eu não vou impor meu conceito de mundo pra ele.

Raio-X

  • Nome: Altair Hoppe.
  • Idade: 36 anos.
  • Natural: Presidente Getú­lio/SC.
  • Estado civil: casado com Juliana Hoppe.
  • Filhos: Dois – Alecsander, 12 anos; e Nicholas, 4 anos.
  • Formação: Jornalismo, na Univali.
  • Carreira: Criador da Fo­lha de Ilhota; revista Photos, onde começou como arte-finalista até chegar a sócio; e criador da editora iPhoto.