[Filme] Batismo de Sangue

São Paulo, fim dos anos 60. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por terríveis torturas.

Crítica do Câmera Lenta

A produção nacional “Batismo de Sangue”, dirigida e escrita por Helvécio Ratton, em parceria com Dani Patarra, é mais uma dentre tantas obras que descrevem o período mais crítico da política brasileira, a Ditadura Militar.

Uma salva de palmas para Ratton que, ao contrário de Bruno Barreto no adorado “O que é isso, companheiro?”, não se manteve em cima do muro, não humanizou carrascos militares, nem demonizou revolucionários de esquerda. O diretor e roteirista colocou cada personagem em seu respectivo lugar.

Quem estudou sobre a história da Ditadura Militar no Brasil, sabe que os padres tiveram grande participação na luta em favor da democracia, liberdade e direitos civis. E o filme de Ratton, sob um olhar macroscópico, mostra isso. Conta a história mais conhecida do envolvimento de padres contra os militares naquele período. A razão de o fato ser tão famoso, é o livro homônimo de Frei Betto, lançado em 1983 e ganhador do prêmio Jabuti.

Betto, também jornalista, escreveu do que viveu ao lado de Frei Tito e os frades dominicanos Oswaldo, Fernando e Ivo, em São Paulo.

Comovidos com tantas notícias de violência contra os jovens por parte dos militares, e motivados por ideais de cristianismo e democracia, os frades decidem se unir ao grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, liderado por Carlos Marighella, o revolucionário mais procurado pela Ditadura à época.

Na busca por Marighella, os padres acabam pegos e torturados por militares comandados pelo delegado Sérgio Fleury, um dos piores carrascos do Regime. Frei Tito, cujo olhar norteia o andamento do filme, consegue ser liberto. No entanto, fica severamente perturbado após as sessões de tortura nos porões do Dops. Mesmo exilado na França, as memórias das violências sofridas no Brasil o atormentam.

Um longa-metragem altamente informativo, sem perder a humanidade. Uma brilhante atuação de Caio Blat, como o protagonista Frei Tito. Daniel de Oliveira encarna o narrador, Betto. O filme levou para casa os prêmios de melhor diretor e melhor fotografia no Festival de Cinema de Brasília.

Ficha técnica

Anúncios

Fundamentalismo econômico

Fundamentalismo econômico

O passado costuma ser conhecido por eras, como as dos coletores e caçadores, agricultores nômades e sedentários etc. Eras do cobre, do bronze, do ferro…

A antiguidade grega se destaca como era do nascimento da filosofia (embora ela tenha outra mãe além da grega, a chinesa), assim como a República romana se destaca como a era do direito.

Como a nossa contemporaneidade será conhecida no futuro? Meu palpite é que seremos conhecidos como a era do fundamentalismo econômico. Porque todas as nossas atividades giram em torno do dinheiro. Era do business. Time is money. Do lucro exorbitante. Da desigualdade social alarmante. Do império dos bancos.

Era na qual apenas oito homens dispõem de renda superior à soma da renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade. Era na qual tudo tem valor de troca, e não de dom.

Esse fundamentalismo submete a política à economia. Elege-se quem tem dinheiro. Todo o projeto político é pensado em função de ajuste fiscal, redução de gastos em programas sociais, cortes orçamentários, privatização do patrimônio estatal, redução da dívida pública.

No altar das Bolsas de Valores, tudo é ofertado, em sacrifícios humanos, ao deus Mercado. É ele que, com as suas mãos invisíveis, abençoa paraísos fiscais, livra os mais ricos de pagarem impostos, eleva as cotações do câmbio, abarrota a cornucópia da minoria abastada e arranca o pão da boca da maioria pobre.

Outrora meus avós, ao despertar de um novo dia, consultavam a Bíblia. Meus pais, a meteorologia. Meus irmãos, as oscilações do mercado financeiro.

Sucateia-se o ensino público para fortalecer a poderosa rede de educação particular. Propõe-se a reforma da Previdência para desobrigar o Estado de assegurar aposentadoria e transferir o encargo aos planos de previdência privada.

A saúde há tempos está privatizada: médicos preferem fazer parto por cesariana; cirurgias desnecessárias são recomendadas; o SUS não funciona; os planos de saúde e os medicamentos têm aumentos sazonais.

O mais nefasto efeito do fundamentalismo econômico é, de um lado, a acumulação privada e, de outro, a exclusão social. Quem tem dinheiro prefere guardá-lo no banco e aplicá-lo no cassino financeiro a usufruir uma vida mais saudável e solidária.

Quem não tem padece a humilhação da pobreza, da carência de bens e direitos essenciais, do salário minguado e do desemprego.

A exclusão reforça as vias criminosas de acesso ao dinheiro e ao fetiche das mercadorias: narcotráfico, roubo, sonegação e corrupção. Agora o rei já não proclama “L’État c’est moi”. Ele brada “In Gold we trust”.

Frei Betto

Escrito por Frei Betto. Assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com “Batismo de Sangue”, e 2005, com “Típicos Tipos”)

Frei Betto recebe prêmio da UNESCO por sua contribuição para a justiça social na América Latina e Caribe

Frei Betto

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) concedeu a Frei Betto o Prêmio Internacional José Martí 2013, por sua  ”contribuição excepcional” para a construção de uma cultura universal de paz, justiça social e direitos humanos na América Latina e no Caribe. A escolha do brasileiro foi feita através da recomendação de um júri internacional.

“O laureado foi escolhido em reconhecimento a seu trabalho como educador, escritor e teólogo; por sua oposição a todas as formas de discriminação, injustiça e exclusão; e sua promoção de uma cultura de paz e direitos humanos”, disse (11) a agência da ONU em um comunicado de imprensa.

O Prêmio Internacional José Martí foi criado em novembro de 1994 pelo Conselho Executivo da UNESCO por iniciativa do Governo de Cuba e homenageia organizações e indivíduos que se destacaram  na causa da unidade e integração da América Latina e Caribe, com base no respeito às tradições culturais e valores humanistas. Também foi criado para aumentar a conscientização sobre os direitos humanos e a igualdade, particularmente entre os tomadores de decisão.

Autor de mais de 50 livros, Frei Betto nasceu em Belo Horizonte, em 1944. Durante o tempo da ditadura militar no Brasil foi preso duas vezes, em 1964 e novamente de 1969 a 1973. O Prêmio homenageia o político e pensador cubano José Martí, importante figura na independência de Cuba da Espanha.  O Prêmio será entregue dia 30 de janeiro na cidade de Havana.

Adeus Europa

Lembram-se da Europa resplandecente dos últimos 20 anos, do luxo das avenidas Champs-Élysées, em Paris, ou da Knightsbridge, em Londres? Lembram-se do consumismo exagerado, dos eventos da moda em Milão, das feiras de Barcelona e da sofisticação dos carros alemães?

Tudo isso continua lá, mas já não é a mesma coisa. As cidades européias são, hoje, caldeirões de etnias. A miséria empurrou milhões de africanos para o velho continente em busca de sobrevivência; o Muro de Berlim, ao cair, abriu caminho para os jovens do Leste europeu buscarem, no Oeste, melhores oportunidades de trabalho; as crises no Oriente Médio favorecem hordas de novos imigrantes.

A crise do capitalismo, iniciada em 2008, atinge fundo a Europa Ocidental. Irlanda, Portugal e Grécia, países desenvolvidos em plena fase de subdesenvolvimento, estendem seus pires aos bancos estrangeiros e se abrigam sob o implacável guarda-chuva do FMI.

O trem descarrilou. A locomotiva – os EUA – emperrou, não consegue retomar sua produtividade e atola-se no crescimento do desemprego. Os vagões europeus, como a Itália, tombam sob o peso de dívidas astronômicas. A festa acabou.

Previa-se que a economia global cresceria, nos próximos dois anos, de 4,3% a 4,5%. Agora o FMI adverte: preparem-se, apertem os cintos, pois não passará de 4%. Saudades de 2010, quando cresceu 5,1%.

O mundo virou de cabeça pra baixo. Europa e EUA, juntos, não haverão de crescer, em 2012, mais de 1,9%. Já os países emergentes deverão avançar de 6,1% a 6,4%. Mas não será um crescimento homogêneo. A China, para inveja do resto do mundo, deverá avançar 9,5%. O Brasil, 3,8%.

Embora o FMI evite falar em recessão, já não teme admitir estagnação. O que significa proliferação do desemprego e de todos os efeitos nefastos que ele gera. Há hoje, nos 27 países da União Européia, 22,7 milhões de desempregados. Os EUA deverão crescer apenas 1% e, em 2012, 0,9%. Muitos brasileiros, que foram para lá em busca de vida melhor, estão de volta.

Frente à crise de um sistema econômico que aprendeu a acumular dinheiro, mas não a produzir justiça, o FMI, que padece de crônica falta de imaginação, tira da cartola a receita de sempre: ajuste fiscal, o que significa cortar gastos do governo, aumentar impostos, reduzir o crédito etc. Nada de subsídios, de aumentos de salários, de investimentos que não sejam estritamente necessários.

Resultado: o capital volátil, a montanha de dinheiro que circula pelo planeta em busca de multiplicação especulativa, deverá vir de armas e bagagens para os países emergentes. Portanto, estes que se cuidem para evitar o superaquecimento de suas economias. E, por favor, clama o FMI, não reduzam muito os juros, para não prejudicar o sistema financeiro e os rendimentos do cassino da especulação.

O fato é que a zona do euro entrou em pânico. A ponto de os governos, sem risco de serem acusados de comunismo, se prepararem para taxar as grandes fortunas. Muitos países se perguntam se não cometeram uma monumental burrada ao abrir mão de suas moedas nacionais para aderir ao euro. Olham com inveja para o Reino Unido e a Suíça, que preservam suas moedas.

A Grécia, endividada até o pescoço, o que fará? Tudo indica que a sua melhor saída será decretar moratória (afetando diretamente bancos alemães e franceses) e pular fora do euro.

Quem cair fora do euro terá de abandonar a União Européia. E, portanto, ficar à margem do atual mercado unificado. Ora, quando os primeiros sintomas dessa deserção aparecerem, vai ser um deus nos acuda: corrida aos saques bancários, quebra de empresas, desemprego crônico, turbas de emigrantes em busca de, sabe Deus onde, um lugar ao sol.

Nos anos 80, a Europa decretou a morte do Estado de bem-estar social. Cada um por si e Deus por ninguém. O consumismo desenfreado criou a ilusão de prosperidade perene. Agora a bancarrota obriga governos e bancos a pôr as barbas de molho e repensar o atual modelo econômico mundial, baseado na ingênua e perversa crença da acumulação infinita.

Escrito por Frei Betto, escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros. Website: http://www.freibetto.org/. Twitter: @freibetto.

Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal(0)terra.com.br)

11 de setembro: E o mundo mudou mais uma vez

Uma análise das transformações de 1961 aos dias de hoje

Uma análise das transformações de 1961 aos dias de hoje.

Deixou de ser uma data qualquer. No botequim, na escola, no escritório, no Brasil ou em outro país, quando alguém menciona “11 de setembro”, o interlocutor logo relaciona à manhã daquele dia de 2001 em que dois aviões comerciais se chocaram contra as Torres Gêmeas, o World Trade Center, em Nova York.

Os prédios desmoronaram em duas horas. Outro avião caiu sobre o Pentágono, nos arredores de Washington, e um quarto na Pensilvânia. Ao todo, cerca de três mil pessoas, incluindo os 19 sequestradores dos aviões, morreram.

O mundo mudou. O imperialismo, regido por George Walker Bush, iniciava sua jornada de “luta contra o terror”. Com ela, viriam invasões territoriais, assassinatos de civis, torturas. Que continuam mesmo após o recente assassinato do mentor dos ataques, o líder da Al Qaeda Osama Bin Laden.

Entretanto, outros eventos que “mudaram” o mundo nos últimos 50 anos também completam “aniversários redondos”. A declaração do caráter socialista da Revolução Cubana e a posterior Invasão da Baía dos Porcos, em 1961; o fim do sistema de Bretton Woods, em 1971; o início da era Ronald Reagan, em 1981; e o fim da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), em 1991, marcaram a história contemporânea e contribuem para a compreensão do 11 de Setembro.

Contextualizar o início da Guerra Fria pode auxiliar na acepção desses fatos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram responsáveis por cerca de 48% da produção industrial de todo o mundo. Até 1952, por meio do Plano Marshall, o país forneceu 14 bilhões de dólares para a recuperação econômica europeia.

Com o propósito de desestimular qualquer investida soviética sobre a Europa Ocidental, os Estados Unidos forjaram a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), que os unia aos países europeus. No mundo árabe, também em 1952, o coronel Gamal Abdel Nasser toma o poder no Egito e marca um movimento pelo nacionalismo árabe. “Nasser começa um processo de aliança civil e militar e cria um grande movimento popular de massas, toma medidas de caráter antiimperialista, como a nacionalização de vários setores da economia e do Canal de Suez, e investe nas áreas sociais”, explica Marcelo Buzetto, professor de geopolítica da Fundação Santo André. Esse movimento se expandiu para outros países da região, como Síria, Iraque, Argélia e Líbia.

Num contexto polarizado, esses países acabaram se aproximando da então URSS. “Não eram regimes socialistas de modo algum, eram autoritários, mas, no plano internacional, alinharam-se à União Soviética”, explica Igor Fuser, acadêmico da Faculdade Cásper Líbero e autor do livro Petróleo e poder: o envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico.

Outro elemento que leva os países a se aproximarem do bloco soviético é o surgimento do Estado de Israel, criado em 1947 e com a independência declarada em 1948, como resultado da Segunda Guerra Mundial. Na época de sua criação, contou com o apoio da União Soviética, que depois passou a uma posição mais próxima do mundo árabe. “Na Guerra Fria, a própria existência do Estado de Israel acabou empurrando muitos países árabes a uma aproximação maior com a União Soviética. Não todos, mas uma parte”, aponta Buzetto.

A revolução é socialista

O impacto mais sentido pelos Estados Unidos no início da Guerra Fria foijustamente onde eles chamavam de “seu quintal”.

Há 50 anos, logo após a declaração do caráter socialista da Revolução Cubana por Fidel Castro, em 16 de abril de 1961, mercenários da ilha, treinados pela CIA (a agência de inteligência estadunidense), invadiam a Baía dos Porcos. Devido à resistência dos cubanos, a ação fracassou.

“Eu acompanhei muito de perto a revolução. E também a declaração de seu caráter socialista. Isso me deu um alento de que o Brasil, quem sabe, pudesse caminhar na mesma direção”, conta o escritor Frei Betto. Na época, tinha 16 anos e era vice-presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Belo Horizonte.

Fato é que, para que a revolução popular cubana se desenvolvesse, a declaração de seu caráter socialista tornava-se irremediável. “Cuba, na verdade, não fez uma revolução pelo socialismo, mas pela independência e soberania nacionais. Ocorre que, como havia a Guerra Fria e Cuba está apenas a 600 milhas [965 Km] dos Estados Unidos, houve muita pressão quando a revolução começou a socializar os bens e principalmente nacionalizar as empresas estadunidenses que ali haviam se instalado”, explica o escritor.

Ou seja, num período de Guerra Fria, era preciso escolher um lado. Cuba encontrou- se praticamente obrigada a se alinhar à URSS. “Graças a isso, a Revolução Cubana se manteve. Evidentemente, com algumas heranças não muito positivas, como é normal”, pontua Frei Betto.

“Um aviso de luz verde”. O escritor cubano Félix Contreras aponta que o caráter socialista da revolução significou que era possível vencer os poderosos inimigos do socialismo. Como lembra, a Revolução Cubana inspirou as guerrilhas na Guatemala e na Nicarágua, além de surtos insurrecionais e protestos em todo o continente.

Para o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Virgílio Arraes, a revolução na pequena ilha do Caribe e seu posterior alinhamento à União Soviética afetou mais a moral estadunidense do que propriamente a corrida da Guerra Fria. “Com a guerra hispano-americana de 1898, aquela região definitivamente entrou para a esfera de influência estadunidense, cobiçada desde a declaração Monroe, de dezembro de 1823 [A América para os americanos]”, lembra. De acordo com ele, por isso a insistência dos Estados Unidos em punir Cuba até hoje. “Não somente pela adesão em si ao socialismo como projeto, já findo com a extinção da URSS, mas por desafiar a autoridade estadunidense”, defende.

Na economia, eu mando

Após Cuba, a escalada do embate geopolítico da Guerra Fria pode ser ilustrado por meio da Guerra do Vietnã (1959 a 1975). Mas, paralelamente à disputa externa de hegemonia política, os Estados Unidos enfrentavam problemas de competitividade econômica. “Eu estava preso [entre 1969 a 1973]. Senti menos o impacto da mudança, até porque não mexo com finanças”, lembra Frei Betto.

Mas tal impacto é sensível até os dias de hoje, seja por quem entende de finanças ou não. Há exatos 40 anos, em agosto de 1971, o governo do republicano Richard Nixon (presidente dos Estados Unidos de 1969 a 1974) informou ao mundo que não trocaria mais o dólar por ouro, rompendo com as regras internacionais estabelecidas em 1944 no Tratado de Bretton Woods e “dolarizando” toda a economia mundial.

Foi determinado o fim da conversibilidade fixa do dólar ao ouro. “Ao romper o acordo, desvalorizou-se rapidamente o dólar e, de um dia para o outro, os custos produtivos dos Estados Unidos ficaram mais baratos”, explica o historiador Valério Arcary. O economista Reinaldo Gonçalves lembra que a desvalorização do dólar na época foi de 10%, favorecendo as exportações.

Apesar de ter tomado uma iniciativa defensiva para fortalecer a economia doméstica, o governo Nixon acabou atacando o padrão de vida do trabalhador. “Por que as exportações dos alemães e japoneses eram mais altas? Porque o padrão de vida dos trabalhadores estadunidenses era mais alto. A maneira mais fácil de reduzir o valor do salário real era favorecer a inflação. A inflação resultaria, como de fato resultou, numa queda de salário médio do trabalhador e na redução dos custos para o setor produtivo estadunidense”, elucida Arcary.

Resumindo, o fim do padrão-ouro, segundo Virgílio Arraes, permitiu aos Estados Unidos um endividamento “sem par” e a sua reestruturação econômica ao longo das décadas seguintes, “uma vez que a desvalorização ajudou a recuperar a capacidade de sua indústria e a repartir os custos de sua própria inflação com o mundo, por ter o dólar como moeda de reserva de todos os demais países”, explica.Mesmo assim, o anseio por um crescimento econômico baseado, sobretudo, na capacidade produtiva – ao vender bens muito mais baratos que os produtos exportados em marco alemão e iene japonês – não vigorou. “O que aconteceu na sequência foi que o impacto do preço do petróleo elevou de tal forma o valor dos custos da economia estadunidense, unido a outros fatores mais estruturais, que a fez mergulhar, ao lado de outros países centrais, na recessão”, analisa Arcary.

No entanto, Virgílio Arraes salienta que, apesar de a primeira metade dos anos 1970 ser simbólica para os Estados Unidos por aparentar uma decadência, o período representou também uma renovação tecnológica do sistema capitalista, com a Terceira Revolução Industrial: a microeletrônica, que possibilitou novo salto de produtividade.

Entretanto, embora o fim do sistema de Bretton Woods tenha significado um maior domínio econômico estadunidense sobre as demais potências, sob o ponto de vista do domínio geopolítico toda a década de 1970 foi marcada por derrotas importantes.

No xadrez geopolítico, ascendia a influência comunista que se espalhava em meio às guerras civis de países africanos como Angola e Etiópia, em 1975. Algumas ditaduras européias caíam: na Grécia, em 1973, depois em Portugal, em 1974. Acontecia também a Revolução Sandinista na Nicarágua, em 1979. No Oriente Médio, os Estados Unidos perdiam um grande aliado no Irã, com a queda do então xá Muhammad Reza Palie e a ascensão do regime fundamentalista eantiestadunidense do aiatolá Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini.  “A queda do xá muda o tabuleiro político completamente em todo o Oriente Médio”, salienta o historiador Valério Arcary.

Porém, nem tudo estava perdido para o Tio Sam. O Egito abandonava sua posição de liderança anti-imperialista ao reconhecer o Estado de Israel, em 1973, depois da derrota na guerra de Yom Kippur.

Novo modelo

Nos anos 1970, os Estados Unidos, além de verem a URSS avançar no campo geopolítico, voltavam a ter dificuldades devido à crise do petróleo. Diante dessa situação, o país põe em marcha uma contraofensiva a partir do primeiro ano de mandato de Ronald Reagan, há redondos 30 anos.

O republicano corta os impostos cobrados a empresas e “diminui” o Estado. “Ele utiliza um discurso de que é preciso destruir o poder dos sindicatos, um discurso irmão do utilizado por [Margareth] Thatcher [então primeira-ministra do Reino Unido]. De que tinha que acabar com o ‘Estado babá’ e introduzir uma flexibilização das relações de trabalho”, lembra Valério Arcary. O neoliberalismo mostrava sua cara.

Como ressalta o historiador, era trabalhado um ideal “anti-igualitarista” dentro do país. Dessa forma, a ideologia direcionada à população parecia tão importante quanto as ações de política externa. “Havia um discurso, digamos, de quase ‘darwinismo social’ a favor de valorizar quem trabalha duro. Tratava-se de uma resposta à crise de liderança estadunidense, que estava sendo condicionada por uma onda revolucionária marcada basicamente pela ascensão de revoluções pelo mundo”, relembra Arcary.

O governo Reagan fazia questão de exagerar o perigo comunista para arregimentar apoio às suas políticas expansionistas e de intervenção em países alinhados à URSS, doutrina que ganhou seu nome. Aliás, uma estratégia de sucesso, copiado posteriormente por outros presidentes estadunidenses, republicanos ou democratas.

Frei Betto relata sua experiência pessoal em 1981. “Foi o primeiro ano em que fui a Cuba. Estava estabelecendo equipes de educação popular e senti o recrudescimento das ações de agressão do governo dos Estados Unidos em relação ao povo cubano. Era sensível no povo. Havia denúncias de voos clandestinos em território cubano”, relata o escritor.

Para ele, a imposição do modelo neoliberal de Reagan possibilitou não o que, segundo ele, muitos denominam equivocadamente de globalização, mas sim a “globo-colonização neoliberal”. “Esse modelo veio, numa primeira etapa, reforçar ditaduras militares na América Latina e, posteriormente, impor governos messiânicos neoliberais, como o [Fernando] Collor, no Brasil, o [Carlos Saúl] Menem, na Argentina, [Alberto] Fujimori no Peru, o [Rafael] Caldera na Venezuela e outros tantos”, enumera.

Um caso exemplar

Um exemplo dos efeitos da Doutrina Reagan sobre o Oriente Médio foi o caso do Afeganistão. Para reagir ao movimento de aproximação entre a URSS e alguns países árabes, os Estados Unidos adotaram como política apoiar movimentos contrários aos governos mais próximos dos soviéticos. Aí entrou um “terceiro ator” no jogo de forças do Oriente Médio: o islamismo político.

“Em nenhum lugar do mundo a aliança entre o islamismo político e o imperialismo estadunidense foi tão orgânica quanto no Afeganistão. A União Soviética ocupou o país em 1979 em apoio a um governo laico, progressista. Na lógica da Guerra Fria, os Estados Unidos se alinhavam com qualquer um que fosse contra a URSS”, relata Igor Fuser.

Ele explica que grupos religiosos de expressão política eram vistos como uma alternativa ao nacionalismo árabe, ainda que fossem uma aliança tática para os Estados Unidos, pois o projeto do islamismo militante também se configurava como anti-imperialista. Grosso modo, tais grupos defendiam que os povos eram dominados (seja por A ou B) porque não estariam seguindo corretamente os ensinamentos do Alcorão.

Assim, os Estados Unidos financiaram e treinaram organizações dispostas a lutar contra os soviéticos. Entre elas, os mujahdin, que contavam com o apoio da Arábia Saudita e em cujas fileiras militava Osama Bin Laden, membro de uma rica família árabe. “Os Estados Unidos sempre estimularam essas organizações terroristas, paramilitares, para ter o controle. Para a CIA, nunca teve problema a questão da religião. Aliás, eles usavam a religião para atacar a União Soviética”, destaca Marcelo Buzetto.

Por isso, nas palavras de Frei Betto, o governo dos Estados Unidos, de “tradição terrorista”, ajudou a criar, de certo modo, o “seu duplo”: a Al Qaeda, de Bin Laden. “Essas figuras execradas”, pontua.

“Em 1991, esses chamados ‘guerreiros da liberdade’ conseguem se fortalecer. Explode uma guerra civil no Afeganistão. Com a retirada das tropas soviéticas, o território fica profundamente em disputa. O Talibã, força majoritária, toma o poder em 1996 e impõe uma série de leis repressivas, que não têm muita relação com o Islã, mas com o agrupamento deles”, contextualiza Buzetto.

O professor de história contemporânea da USP Osvaldo Coggiola lembra que depois da vitória dos talibãs e da retirada dos soviéticos [final dos anos 1980], os árabes que participaram da jihad no Afeganistão – que não é um país árabe – não tinham para onde voltar, pois não eram mais bem-vindos na Arábia Saudita ocupada pelas tropas estadunidenses. “Eles já não tinham apoio dos talibãs, que chegaram a oferecer Osama Bin Laden para os Estados Unidos”, aponta.

Com a vitória sobre os soviéticos, o setor do islamismo político liderado por Bin Laden muda de adversário. “O inimigo principal não é mais a União Soviética, não é mais o nacionalismo árabe, são os Estados Unidos”, afirma Igor Fuser. Outros países árabes continuam recebendo apoio dos Estados Unidos, como o Iraque, que fazia parte do bloco de influência da União Soviética e contou com a ajuda estadunidense na sua guerra contra o Irã, de 1980 a 1988.

“Vários regimes que eram pró-soviéticos, ainda durante a existência da URSS viraram pró-estadunidenses. Um caso típico foi Saddam Hussein. Era visto como pró-soviético, mas, depois da Revolução Iraniana, passou a combater o Irã armado pela França, pelos Estados europeus e Estados Unidos. No fundo, ele foi enforcado porque fez um serviço porco, porque não conseguiu ganhar a guerra. Esse foi o motivo pelo qual Saddam Hussein já era um cabra marcado para morrer: por ter sido um mau serviçal, e não por ser um ditador”, destaca Osvaldo Coggiola.

Ruiu por dentro

Enquanto isso, a União Soviética passava por dificuldades. Apesar de tentar sustentar seu poderio militar e sua influência sobre diversos países, o país lidava com crises econômicas e enfrentava problemas com as repúblicas que a compunham.

Após a queda do muro que dividia a cidade de Berlim entre um lado oriental e outro ocidental, em 1989, e o colapso de regimes socialistas na Europa Oriental, foi lançado um novo plano de reforma econômica, conhecido como perestroika.

Em 1991, Mikhail Gorbachev sofreu um golpe de Estado, abortado meses depois. Com poucas condições políticas de seguir governando, renunciou ao cargo no fim do mesmo ano e declarou que a URSS deixaria de existir como união das repúblicas socialistas. Os países que a compunham foram reconhecidos como Estados independentes.

Faz 20 anos. Chegava ao fim a União Soviética. Qual o peso do neoliberalismo sobre isso? “Superestimam-se os anos Reagan: a URSS caiu mais por si mesma do que por causa dos Estados  Unidos”, atesta o professor de relações internacionais da UnB Virgílio Arraes. “Esquece-se de que a retórica de confrontação do primeiro mandato mudou no segundo, com a abertura propiciada por Mikhail Gorbachev [nomeado secretário-geral do Partido Comunista em 1985]”, explica.

Frei Betto acompanhou de perto o processo que levou à queda da URSS. Ele esteve no país por três vezes durante a década de 1980. “Eu já sentia que o sistema soviético estava deteriorado, que aquilo não tinha futuro. Percebia-se nitidamente o desagrado do povo. Não fui surpreendido”, conta o escritor. Ele também esteve na Alemanha Oriental na semana anterior à queda do muro de Berlim, a ponto de haver uma dúvida se, ao retornar ao Brasil, deveria seguir ao aeroporto da Alemanha Ocidental ou ao do lado Oriental. “A minha guia disse para irmos ao Oriental, ‘que ainda estava em funcionamento’. Ou seja, já sabiam que logo ele seria fechado”, destaca.

Para o professor Virgílio Arraes, o “socialismo real” no leste europeu terminou, sobretudo, porque não conseguiu evoluir do ponto de vista tecnológico e dispor à sociedade uma vida melhor, apesar das conquistas científicas.

Osvaldo Coggiola acrescenta que o motivo histórico para a queda da URSS foi o fracasso do socialismo num só país. Segundo ele, apontam-se causas conjunturais, como a corrida armamentista, como o problema das nacionalidades, da democracia, do unipartidarismo, da falta de artigos de consumo, do percentual do PIB destinado a produzir armas, mas “o problema era mais profundo: não poderia haver um desenvolvimento econômico na União Soviética que superasse o capitalismo, quando o capitalismo contava com a divisão internacional do trabalho a seu favor”, explica o historiador.

Assim como no mundo inteiro, o fim da União Soviética teve forte impacto no Oriente Médio. “A correlação de forças se desequilibra. Enquanto a URSS existia, os Estados Unidos eram obrigados a manter um certo respeito pelos regimes do nacionalismo árabe, porque eles tinham um aliado poderoso”, aponta Igor Fuser.

Justamente em 1991, outra guerra foi deflagrada na região, cumprindo o papel de demonstrar a supremacia militar dos Estados Unidos no mundo: a Guerra do Golfo. No ano anterior, tropas do Iraque invadiram o Kuwait, por disputas territoriais e por conflitos sobre os preços de petróleo. Saddam Hussein não aceitou o embargo da ONU que, por sua vez, autorizou o uso de força contra o país.

Uma coalização liderada pelos Estados Unidos massacra as tropas iraquianas e recupera o território do Kuwait. “A partir desse momento, os Estados Unidos se impõem como a única superpotência no planeta”, analisa o professor da Faculdade Cásper Líbero.

Torres Gêmeas

Nesse período, os Estados Unidos colocaram, de certo modo, um ponto final na Guerra Fria e imprimiam um novo capítulo da História. De acordo com Fuser, o único império do mundo iniciava, então, uma grande ofensiva no Oriente Médio, para ajustar contas com os regimes nacionalistas sobreviventes e para impor a sua vontade na região. “Eles tinham dois interesses: o controle do petróleo e a garantia dos interesses de Israel”, completa.

Nas duas décadas anteriores, paralelamente a todo o tecer político, econômico e ideológico dos Estados envolvidos diretamente na Guerra Fria, ocorria o declínio das ações dos movimentos populares e revolucionários, sobretudo a partir do fim da Guerra do Vietnã (1975). O socialismo ia deixando de ser uma perspectiva imediata para alguns povos que, por sua vez, começavam a buscar alternativas para enfrentar a globalização capitalista.

A prática do terrorismo se estabelece entre as consequências mais nefastas desse contexto descendente da resistência popular. Nas palavras do cientista político Wladimir Pomar, o terrorismo, que embora no passado já tivesse demonstrado ser incapaz de resolver os problemas dos povos, trazendo mais prejuízos que soluções às lutas, ressurgiu com força, em especial entre os diversos fundamentalismos religiosos. “Para as correntes políticas de esquerda, isso recolocou a questão não só de resgatar o socialismo como uma perspectiva real de superação do capitalismo, mesmo como processo de transição, mas também de se opor a qualquer tipo de terrorismo”, defende Pomar.

“Sem perspectiva material, parte das pessoas volta-se para o espiritual e pode aproximar-se de fundamentalismos”, salienta Virgílio Arraes. O acadêmico da UnB acrescenta ainda que a arrogância dos Estados Unidos na transição de uma nova ordem em 1991 também estimulou, mesmo indiretamente, o que denomina “ato de barbárie do 11 de Setembro”. “A sociedade muçulmana não viu com bons olhos a presença de tropas no Oriente Médio, após a primeira Guerra do Golfo. Parecia a renovação do período pós-otomano, com protetorados”, arremata.

“O 11 de Setembro ofereceu o pretexto para acelerar o processo que já estava em curso, como foi deixado claro em inúmeros livros do establishment de Washington e na sugestão de Condoleeza Rice [então secretária de Estado estadunidense] no dia seguinte aos ataques, de que ‘deveríamos usar isso para fazer as coisas da nossa maneira’. E eles fizeram”, afirma Tariq Ali, escritor e ativista paquistanês.

Em seguida aos ataques dos aviões – quatro aeronaves foram sequestradas e duas se chocaram contra as Torres Gêmeas –, que custou a vida de quase três mil civis, os Estados Unidos lançaram a “guerra ao terror”.

O termo abrangia a organização que teria cometido o atentado, a Al Qaeda, seu líder Osama Bin Laden e qualquer outra ameaça que pudesse ser incluída na categoria. “Com o 11 de Setembro, o terrorismo se torna a palavra-chave. Quem não está com os Estados Unidos, está do lado dos terroristas. O presidente Bush impõe essa lógica nas relações internacionais. Em nome da guerra ao terror, os Estados Unidos fazem questão de diluir propositalmente o inimigo: é a Al Qaeda, o Afeganistão, o Iraque, o Irã”, aponta Igor Fuser, que acrescenta que o ataque foi a “melhor coisa que poderia ter acontecido aos EUA naquele momento”.

Ele explica essa afirmação pela leitura de que o projeto estratégico estadunidense para a região previa uma guerra pela apropriação dos territórios e pelo controle do petróleo, mas demandaria um convencimento da população interna e da comunidade internacional da necessidade da ofensiva.

Apesar de diferentes entendimentos sobre o caso do atentado em si, osanalistas ouvidos pelo Brasil de Fato concordam num ponto: os responsáveis pelos ataques não tinham relações com o nacionalismo árabe, com o Irã ou com o governo de Saddam Hussein.

Mais guerras

Em outubro de 2001, tropas estadunidenses invadem o Afeganistão com o objetivo declarado de encontrar membros da Al Qaeda e Osama Bin Laden. Dois anos depois, é a vez do Iraque, com o argumento de que era necessário neutralizar o governo de Saddam, que produziria “armas de destruição em massa”.

Até hoje as tropas dos Estados Unidos e outros países da Otan ocupam o Afeganistão. Neste ano, o presidente Barack Obama anunciou o início da retirada dos cerca de 150 mil soldados estrangeiros. Apenas em 2014 ela deve ser completada. Não há dados oficiais sobre o número de mortes de afegãos desde a invasão, mas a organização Afghanistan Rights Monitor anunciou que morreram 2.421 pessoas apenas no ano de 2010. Entre os soldados estrangeiros, estima-se que já morreram 2.500 desde o início da guerra.

“A ocupação da Otan no Afeganistão tem sido um desastre: um governo marionete corrupto, esquadrões de morte, mortes de civis que devem ser dez vezes superiores ao número de mortos no 11 de Setembro em Nova York”, aponta Tariq Ali.

No Iraque, o saldo da guerra também é de muitas mortes: segundo documentos vazados pelo Wikileaks, entre 2003 e fim de 2009 cerca de 109 mil iraquianos foram mortos, 63% deles civis. O jornal estadunidense New York Times fala em 4.465 soldados dos Estados Unidos mortos desde o início da guerra contra o Iraque.

Segundo Osvaldo Coggiola, os Estados Unidos tinham dois grandes objetivos com essas guerras, e estão fracassando em ambos: encontrar uma saída para a crise econômica e reordenar o mapa político da região em favor do imperialismo. “Como saída para a crise econômica, a guerra revelou-se precária, a ponto de em 2007 explodir outra crise. Na sua intenção de enfraquecer politicamente a Europa, vemos agora no caso da Líbia que os Estados Unidos fracassaram, porque é a Europa que está à frente dessas relações”, analisa.

Para Tariq Ali, a chamada “guerra contra o terror” ajudou a estabilizar a hegemonia dos Estados Unidos e a desestabilizar o Oriente Médio e Sul da Ásia. Segundo o paquistanês, o objetivo era demonstrar ao resto do mundo (especialmente China, Rússia e Irã) que apenas Washington poderia determinar quando, onde e como haveria intervenções militares.

Longa primavera

Osama Bin Laden é assassinado numa ação da CIA, numa casa no Paquistão, em maio de 2011. Não teve direito a julgamento. A época teria sido propícia por dois motivos – a popularidade de Barack Obama andava baixa com os reflexos da nova crise econômica e o mundo árabe vivia uma onda de revoltas populares. Segundo Coggiola, o assassinato de Bin Laden nessas circunstâncias demonstrou uma tentativa dos Estados Unidos de se mostrarem no controle da situação.

A denominada “Primavera Árabe” reúne diversas revoltas que vêm ocorrendo este ano em países árabes, como Tunísia, Egito, Síria, Líbia, Marrocos, Iêmen, Bahrein e outros. Igor Fuser destaca que, apesar das especificidades de cada uma dessas mobilizações, há alguns elementos comuns. “Um deles é o autoritarismo político. Seja qual viés for, esses países são governados por ditaduras. Outro elemento comum é a exclusão social, a pobreza, que se agrava com a globalização. A concentração da riqueza nas mãos de poucos se intensifica”.

O professor ressalta que em cada um desses países os protestos estão sendo enfrentados de um modo, seja por repressão direta (como no Bahrein), seja por presença de tropas estrangeiras (como na Síria e na Líbia), seja por movimentos de reformas e mudanças institucionais, como no Egito e Tunísia.

Coggiola ressalta que as revoltas e as crises vão continuar. Ele aponta que a fase inicial, de revolução política, em que todos se unem contra um ditador, já passou; agora é preciso haver uma revolução social. “Virá uma etapa de clarificação política enorme. O povo árabe vai mostrar que tem uma história. Que antes de ser islâmico é árabe. Claro que o islamismo tem uma importância extraordinária, mas reduzir a realidade histórica ao islamismo vai custar caro ao imperialismo se ele acreditar nisso”, afirma.

Agora, a libertação dos povos árabes, segundo ele, depende dos outros povos em luta no mundo, especialmente das mobilizações nos países europeus. Mais uma vez, o mundo pode mudar.

Endemia política

A política brasileira sempre se alimentou do dinheiro da corrupção. Não todos os políticos. Muitos são íntegros, têm vergonha na cara e lisura no bolso. Porém, as campanhas são caras, o candidato não dispõe de recursos ou evita reduzir sua poupança e os interesses privados no investimento público são vorazes.

Arma-se, assim, a maracutaia. O candidato promete, por baixo dos panos, facilitar negócios privados junto à administração pública. Como por encanto, aparecem os recursos de campanha.

Eleito, aprova concorrências sem licitações, nomeia indicados pelo lobby da iniciativa privada, dá sinal verde a projetos superfaturados e embolsa o seu quinhão, ou melhor, o milhão.

Para uma empresa que se propõe a fazer uma obra no valor de R$ 30 milhões – e na qual, de fato, não gastará mais de 20, sobretudo em tempos de terceirização – é excelente negócio embolsar 10 e ainda repassar 3 ou 4 ao político que facilitou a negociata.

Conhecemos todos a qualidade dos serviços públicos. Basta recorrer ao SUS ou confiar os filhos à escola pública (todo político deveria ser obrigado, por lei, a tratar-se pelo SUS e matricular, como propõe o senador Cristovam Buarque, os filhos em escolas públicas). Vejam ruas e estradas: o asfalto cede com chuva um pouco mais intensa, os buracos exibem enormes bocas, os reparos são freqüentes. Obras intermináveis…

Isso me lembra o conselho de um preso comum, durante o regime militar, a meu confrade Fernando de Brito, preso político: “Padre, ao sair da cadeia trate de ficar rico. Comece a construir uma igreja. Promova quermesses, bingos, sorteios. Arrecade muito dinheiro dos fiéis. Mas não seja bobo de terminar a obra. Não termine nunca. Assim o senhor poderá comprar fazendas e viver numa boa”.

Com o perdão da rima, a idéia que se tem é que o dinheiro público não é de ninguém. É de quem meter a mão primeiro. E como são raros os governantes que, como a presidente Dilma, vão atrás dos ladrões, a turma do Ali Babá se farta.

Meu pai contava a história de um político mineiro que enriqueceu à base de propinas. Como tinha apenas dois filhos, confiou boa parcela de seus recursos (ou melhor, nossos) à conta de um genro, meio pobretão. Um dia, o beneficiário decidiu se separar da mulher. O ex-sogro foi atrás: “Cadê meu dinheiro?”. O ex-genro fez aquela cara de indignado: “Que dinheiro? Prova que há dinheiro seu comigo”. Ladrão que rouba ladrão… Hoje, o ex-genro mora com a nova mulher num condomínio de alto luxo.

Sou cético quanto à ética dos políticos ou de qualquer outro grupo social, incluídos frades e padres. Acredito, sim, na ética da política, e não na política. Ou seja, criar instituições e mecanismos que coíbam quem se sente tentado a corromper ou ser corrompido. A carne é fraca, diz o Evangelho. Mas as instituições devem ser suficientemente fortes, as investigações rigorosas e as punições severas. A impunidade faz o bandido. E, no caso de políticos, ela se soma à imunidade. Haja ladroeira!

Daí a urgência da reforma política – tema que anda esquecido – e de profunda reforma do nosso sistema judiciário. Adianta a Polícia Federal prender se, no dia seguinte, todos voltam à rua ansiosos por destruir provas? E ainda se gasta saliva quanto ao uso de algemas, olvidando os milhões surrupiados… e jamais devolvidos aos cofres públicos.

Ainda que o suspeito fique em liberdade, por que a Justiça não lhe congela os bens e o impede de movimentar contas bancárias? A parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Os corruptos sabem muito bem o quanto ele pode ser agraciado ou prejudicado.

As escolas deveriam levar casos de corrupção às salas de aula. Incutir nos alunos a suprema vergonha de fazer uso privado dos bens coletivos. Já que o conceito de pecado deixou de pautar a moral social, urge cultivar a ética como normatizadora do comportamento. Desenvolver em crianças e jovens a auto-estima de ser honesto e de preservar o patrimônio público.

Escrito por Frei Betto, escritor, autor do romance “Minas do Ouro”, que a editora Rocco faz chegar às livrarias esta semana. http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto. Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal(0)terra.com.br

Corrupção: endemia política

A política brasileira sempre se alimentou do dinheiro da corrupção. Não todos os políticos. Muitos são íntegros, têm vergonha na cara e lisura no bolso. Porém, as campanhas são caras, o candidato não dispõe de recursos ou evita reduzir sua poupança, e os interesses privados no investimento público são vorazes.

Arma-se, assim, a maracutaia. O candidato promete, por baixo dos panos, facilitar negócios privados junto à administração pública. Como por encanto, aparecem os recursos de campanha.

Eleito, aprova concorrências sem licitações, nomeia indicados pelo lobbyda iniciativa privada, dá sinal verde a projetos superfaturados e embolsa o seu quinhão, ou melhor, o milhão.

Para uma empresa que se propõe a fazer uma obra no valor de R$ 30 milhões – e na qual, de fato, não gastará mais de 20, sobretudo em tempos de terceirização – é excelente negócio embolsar 10 e ainda repassar 3 ou 4 ao político que facilitou a negociata.

Conhecemos todos a qualidade dos serviços públicos. Basta recorrer ao SUS ou confiar os filhos à escola pública. (Todo político deveria ser obrigado, por lei, a tratar-se pelo SUS e matricular, como propõe o senador Cristovam Buarque, os filhos em escolas públicas). Vejam ruas e estradas: o asfalto cede com chuva um pouco mais intensa, os buracos exibem enormes bocas, os reparos são frequentes. Obras intermináveis…

Isso me lembra o conselho de um preso comum, durante o regime militar, a meu confrade Fernando de Brito, preso político: “Padre, ao sair da cadeia trate de ficar rico. Comece a construir uma igreja. Promova quermesses, bingos, sorteios. Arrecade muito dinheiro dos fiéis. Mas não seja bobo de terminar a obra. Não termine nunca. Assim o senhor poderá comprar fazendas e viver numa boa”.

Com o perdão da rima, a ideia que se tem é que o dinheiro público não é de ninguém. É de quem meter a mão primeiro. E como são raros os governantes que, como a presidente Dilma, vão atrás dos ladrões, a turma do Ali Babá se farta.

Corrupção

Meu pai contava a história de um político mineiro que enriqueceu à base de propinas. Como tinha apenas dois filhos, confiou boa parcela de seus recursos (ou melhor, nossos) à conta de um genro, meio pobretão. Um dia, o beneficiário decidiu se separar da mulher. O ex-sogro foi atrás: “Cadê meu dinheiro?” O ex-genro fez aquela cara de indignado: “Que dinheiro? Prova que há dinheiro seu comigo.” Ladrão que rouba ladrão… Hoje, o ex-genro mora com a nova mulher num condomínio de alto luxo.

Sou cético quanto à ética dos políticos ou de qualquer outro grupo social, incluídos frades e padres. Acredito, sim, na ética da política, e não na política. Ou seja, criar instituições e mecanismos que coíbam quem se sente tentado a corromper ou ser corrompido; ‘A carne é fraca’, diz o Evangelho. Mas as instituições devem ser suficientemente fortes, as investigações rigorosas e as punições severas. A impunidade faz o bandido. E, no caso de políticos, ela se soma à imunidade. Haja ladroeira!

Daí a urgência da reforma política – tema que anda esquecido – e de profunda reforma do nosso sistema judiciário. Adianta a Polícia Federal prender, se, no dia seguinte, todos voltam à rua ansiosos por destruir provas? E ainda se gasta saliva quanto ao uso de algemas, olvidando os milhões surrupiados… e jamais devolvidos aos cofres públicos.

Ainda que o suspeito fique em liberdade, por que a Justiça não lhe congela os bens e o impede de movimentar contas bancárias? A parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Os corruptos sabem muito bem o quanto ele pode ser agraciado ou prejudicado.

As escolas deveriam levar casos de corrupção às salas de aula. Incutir nos alunos a suprema vergonha de fazer uso privado dos bens coletivos. Já que o conceito de pecado deixou de pautar a moral social, urge cultivar a ética como normatizadora do comportamento. Desenvolver em crianças e jovens a autoestima de ser honesto e de preservar o patrimônio público.

Escrito por Frei Betto que é escritor, autor do romance “Minas do Ouro”, que a editora Rocco faz chegar às livrarias esta semana. http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto. Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberá diretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br).