Projor e Observatório da Imprensa lançam iniciativa para mapear o jornalismo local no Brasil

Em parceria com agência Volt Data Lab, objetivo é compilar iniciativas existentes e identificar vazios de notícias.

Buscando mapear o jornalismo local no Brasil, o Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, que mantém o Observatório da Imprensa, anuncia nesta quinta-feira o Atlas​ ​da​ ​Notícia​, um grande levantamento para identificar iniciativas de notícias espalhadas por todos os cantos do país.

Para isso, uma primeira etapa do projeto é convocar empresas jornalísticas, associações, universidades, sindicatos, profissionais da área e até consumidores de notícias a colaborarem com a construção de um banco de dados que mostrará como estão distribuídos os veículos produtores de jornalismo no território nacional, fornecendo conhecimento importante sobre o tema.

Esses dados, que serão abertos para o público ao fim do desenvolvimento da plataforma Atlas​, servirão de fonte para estudos acadêmicos e outros tipos de pesquisa sobre a imprensa brasileira.

Se você gostaria sugerir algum veículo, seja do Acre ou de São Paulo, basta acessar o formulário pelo site, identificando o nome da organização, a cidade onde se localiza sua sede, o Estado e certas especificações como segmento principal e endereço eletrônico.

Encorajamos pessoas a divulgarem os veículos que conhecem, independentemente se considerarem que alguma organização já foi mencionada: essa possível redundância nos ajudará a certificar a informação.

As informações serão, então, estruturadas e avaliadas pelos organizadores, a fim de garantir a veracidade, a precisão e a padronização dos dados.

A agência Volt Data Lab é responsável pela validação das informações, pela estruturação do banco de dados e pela construção da plataforma.

Acesse o site do Atlas da Notícia – www.atlas.jor.br – e colabore com o levantamento e compartilhe em suas redes, para que mais pessoas possam participar e ajudar a visualizar o jornalismo local no Brasil.

Para possíveis colaborações técnicas ou parcerias, entre em contato com pelo info@voltdata.info.

 

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Atlas da Notícia aponta 70 milhões de brasileiros sem fonte de informação

Atlas da Notícia

O “Atlas da Notícia”, levantamento com base em jornalismo de dados sobre a presença ou ausência da imprensa em todo o território nacional, revelou que 70 milhões de habitantes não têm registros de meios noticiosos impressos ou digitais. O estudo é uma parceria do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo com o Volt Data Lab e o Observatório da Imprensa.

O projeto tem inspiração no America’s Growing Deserts of News da revista Columbia Journalism Review. Os números apurados pelo Volt Data Lab se baseiam em três fontes de informações: Secretaria de Comunicação do Governo Federal, Associação Nacional de Jornais (ANJ), além de uma campanha de crowdsourcing.

Foram identificados, na primeira etapa do projeto, 5.354 veículos — entre jornais impressos e sites —, em 1.125 cidades de 27 unidades federativas. Um universo que compreende aproximadamente 130 milhões de pessoas, mais de 60% da população brasileira.

Quase 35% da população nacional não dispõe de notícias sobre sua própria comunidade, vivendo nos chamados “desertos de notícias”, onde não se cobre, entre outras coisas, nem a Prefeitura ou a Câmara Municipal. Não há, nesses territórios, a produção jornalística, o que compromete a capacidade decisória dos cidadãos. O conceito de “desertos de notícias”, olha para os espaços não contemplados na pesquisa: 4.500 municípios representando 70 milhões de habitantes.

“O Atlas da Notícia é, antes de mais nada, uma ferramenta para conseguirmos enxergar quais as localidades mais carentes de jornalismo no Brasil”, explica Sérgio Spagnuolo, editor do Volt Data Lab. “Dessa forma, ao criar conhecimento sobre esses desertos informativos, o Atlas servirá como ponto de partida para entendermos melhor a configuração do jornalismo no país”.

Números

Em termos absolutos São Paulo é o estado com maior número de veículos noticiosos (1.641), seguido do Rio Grande do Sul (600) e Santa Catarina (547). O predomínio é dos meios impressos (63% contra 37% dos digitais). Já nos veículos online, a liderança proporcional é do Distrito Federal, seguido de Rondônia e Santa Catarina. O Maranhão é o estado com menor número de veículos online, considerando a relação por cem mil habitantes.

O sudeste ocupa o primeiro lugar nos números absolutos, com 2.643 veículos impressos e online, mas considerando a proporcionalidade na relação a cada cem mil habitantes cai para terceira posição. Neste caso, a liderança é da região sul com média de 5,49 veículos para cada cem mil habitantes, seguida do centro-oeste com 4,5 veículos, norte com 1,31 veículos.

A média mais baixa está no nordeste com 0,72 veículos. Os números do impresso acompanham a tendência do ranking geral. Ao considerar os veículos online a liderança passa a ser da região centro-oeste, seguida pelo sul, sudeste, norte e nordeste.

Das cidades do interior com mais veículos mapeados digitais e impressos são Campinas e Santos, empatadas em 12º lugar, com 30 veículos mapeados, seguida por Ribeirão Preto, em 19º lugar, com 22 veículos.

Já quando analisadas as regiões metropolitanas a liderança é do Distrito Federal, seguida de Porto Alegre, São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Das capitais de outras regiões do país, Belém aparece na sétima posição, seguida de Salvador, Fortaleza e Recife.

Quando considerados apenas os veículos impressos Porto Alegre assume o 1.º lugar no país, seguida do Distrito Federal, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Quando se trata de veículos online, porém, o Distrito Federal ocupa a primeira posição, São Paulo a segunda e Porto Alegre a terceira.

Os dados e gráficos da pesquisa podem ser vistos aqui.

Portal Imprensa

O circulo vicioso das fake news e o futuro do jornalismo

Fake News dcvitti

Nos dias atuais, a mídia está muito presente na vida das pessoas, principalmente com a expansão da internet, que de certa forma aumentou o conteúdo comunicacional e as plataformas voltadas para a comunicação. Porém esse boom da expansão midiática não trouxe apenas pontos positivos para a área. A exigência da instantaneidade leva a uma apuração nem sempre com qualidade, o excesso de informação está deixando a sociedade confusa pelo fato de ter aumentado a divulgação de notícias falsas (fake news) como se fossem verdadeiras, ou seja, há muito menos questionamentos, além disso, as redações estão cada vez mais enxutas e os profissionais da área perdem noites de sono com medo das crescentes demissões. O grande número de demissões, as notícias falsas e o excesso de factualidade são os principais problemas que causaram uma crise na mídia contemporânea e que devem ser discutidos a seguir.

A mídia contemporânea obriga o jornalista à factualidade. Se por um lado isso deixa o consumidor da notícia informado de forma mais rápida sobre determinado fato ou serviço, por outro a apuração pode ser mal feita e acontecer uma divulgação de notícia que não seja verdadeira. Existe uma possibilidade cada vez menor de aprofundamento do conteúdo, já que há uma corrida para informar o fato o mais rápido possível. A preocupação com a qualidade da informação continua sendo importante, porém pode passar a ser secundária.

Outra mudança que essa instantaneidade pode trazer é a notícia cada vez mais curta, o que podemos classificar como uma twittertização do conteúdo jornalístico. Mesmo que a apuração apresente poucos fatos interessantes, existe a necessidade de jogar esse conteúdo o mais rápido possível na rede de informações. Além disso, o repórter pode acabar divulgando algo que foi dito de uma fonte questionável e acaba se perdendo no fluxo de informações. Mas a necessidade do factual exigida pelas empresas deixa a reflexão menor, pois tudo tem que ser feito em um curto espaço de tempo para atender a um público que exige mais velocidade em relação à qualidade. Começa a aparecer um público cada vez menos crítico e a notícia curta cria o costume de ler muito menos do que antigamente.

As novas tecnologias de mídia contemporânea também permitem uma atualização da informação de forma mais simples, o que exige ainda mais essa factualidade. É mais fácil levar novidade ao público e tudo pode ser alterado em questão de segundos. A longo prazo isso pode causar um certo relaxamento na apuração da notícia antes dela ser divulgada já que ela pode ser alterada e atualizada em pouco tempo. Uma informação com pouco conteúdo pode ser jogada na rede somente para gerar cliques e dar a sensação ao público de que ele está sendo bem informado naquele veículo somente pelo fator da notícia instantânea.

Fake news e excesso de informação

Por incrível que pareça, um dos motivos da crise da mídia contemporânea é o excesso de informações. Os veículos midiáticos atuais podem até ter trazido uma certa pluralidade e diferentes visões ideológicas sobre determinados acontecimentos; porém, em meio a tantas informações, o público acabou se perdendo sobre o que é verdadeiro e falso. Isso gerou uma indústria chamada fake news onde informações falsas com apelo emocional ganham um grande público que difunde as ideias sem contestar aquilo que foi divulgado e espalham boatos que colaboram com a crise na mídia contemporânea.

A questão da fake news gera uma crise tanto na mídia atual quanto na sociedade em geral, a prática da difusão de boatos pode se tornar cultural a longo prazo empobrecendo o debate racional e acabar sendo uma concorrência do jornalismo sério, já que os boatos tem uma grande repercussão e muitas vezes o público acaba achando mais interessante do que as informações com mais credibilidade. Esse é um fator da crise da mídia contemporânea que não será combatido de maneira simples já que hoje é mais fácil pessoas com péssimas intenções criarem seu próprio canal de comunicação.O assunto do fake news já foi até tema de discussão da ONU (Organização das Nações Unidas). De acordo com o site da Agência Brasil, no dia 3 de março deste ano, relatores da instituição disseram que esse tipo de notícia representa uma preocupação global e pode ser um risco de violência contra o jornalismo e um motivo de desconfiança pública nos jornalistas. Podemos notar que essa indústria do fake news pode ter sido uma das principais responsáveis pela crise da mídia contemporânea, já que isso diminui a credibilidade dos conteúdos midiáticos. Até a rede social Facebook se preocupou e no dia 12 de janeiro lançou o “Projeto Jornalismo” com o intuito de combater notícias falsas, porém sempre é bom desconfiarmos das intenções dessa preocupação.

O futuro

A mídia não conseguiu fugir das ondas de demissões causadas pela crise econômica no Brasil e isso é mais um ponto importante para citarmos como fator da crise da mídia contemporânea. Com redações mais enxutas, os profissionais estão ficando carregados demais e o cansaço pode gerar uma queda de qualidade da mídia. As demissões também se tornam um fator para que cada vez menos pessoas tenham o desejo de seguir a carreira na mídia, já que há a sensação de pouco mercado de trabalho, além das pessoas perdendo o emprego, também tem veículos que deixam de circular e o jornalismo de credibilidade vai perdendo espaço para os fake news, aumentando a crise da mídia contemporânea. Todas essas dificuldades podem afetar também as faculdades voltadas à comunicação.

O ano de 2016 não foi nada legal para profissionais da mídia. De acordo com a IVC (Instituto Verificador de Circulação), houve uma queda de 8% a 15% dos na circulação dos maiores jornais do país no primeiro semestre em relação ao ano anterior. Já o site ABI online registrou ao longo do ano passado o fechamento de aproximadamente 15 veículos de mídias tradicionais como rádio, TV e jornais impressos. No estado de São Paulo, os dados do Sindicato dos Jornalistas Profissionais indicaram que em 2016 houve demissão de 581 profissionais. Dados nada animadores para profissionais da mídia atual e que mostram a crise na mídia.

Não há tantos motivos para acreditar que a mídia contemporânea possa melhorar futuramente. A tentação do público pelo fake news, a preferência pela velocidade da notícia ao invés da qualidade e as demissões nas redações provam que a mídia contemporânea está cheia de problemas. Tudo isso gera um círculo vicioso, já que o fake news atraindo mais interesse do público pode ocupar o espaço das mídias contemporâneas de grande credibilidade, com isso o público ficará cada vez menos crítico e aceitará qualquer coisa como verdade diminuindo o papel do jornalista, a diminuição da figura jornalística irá gerar uma falta de interesse pela área e assim veremos menos profissionais que queiram seguir essa carreira. A crise e a queda de qualidade da mídia contemporânea só devem diminuir após trabalhos e estudos de longo prazo ou com uma educação midiática nas escolas.

Resta aos profissionais da área lutarem a cada dia para mudar um pouco a realidade.

Por Lucas Souza Dorta, estudante de Jornalismo. Extraído do portal Observatório da Imprensa.

Paraíso perdido, um filme de Paulo Perdigão

A Copa por Juca Kfouri

Confira a entrevista do jornalista Juca Kfouri que foi exibida no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, em 9/6/2014, às vésperas da abertura da Copa do Mundo no Brasil. Esse cara sabe o que fala.

Radicalização eleitoral durante a Copa revive padrão Fla-Flu

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Os insultos à presidente da República neutralizaram todas as emoções provocadas pelo hino nacional cantado à capela por 60 mil torcedores na abertura da Copa. Civismo sem civilidade é escárnio, fraude, embromação.

Aquele momento que se pretendia glorioso, inesquecível, resultou estúpido, degradante. Discordância se expressa no voto, não na vaia. Ao direito de manifestar-se deve corresponder o dever de respeitar o outro. Afrontar a chefe da nação equivale a afrontar o que ela representa – a própria nação.

Aqueles que entoaram – também à capela – o ultraje contra Dilma não merecem a democracia conquistada com tanto sacrifício. Não merecem a Copa cuja conta ainda não está paga. Não merecem a condição de cidadãos. Ricos, pobres ou remediados – não importa a classe social – são, antes de tudo, marginais: excluíram-se da comunidade moral e espiritual que se tenta construir há 514 anos nesta terra.

Faltou um gesto reparador: alguém deveria ter pedido desculpas à presidente Dilma Rousseff. A oposição, os presidenciáveis, os chefes dos demais poderes, a imprensa como instituição (embora jornalistas individualmente tenham reagido à altura), algum gesto ou palavra de repúdio deveria ter sido registrado.

Temporada de gala

O desagravo, em compensação, foi desastroso. Na pressa em atalhar os possíveis desdobramentos ou, pior, pretendendo aproveitar politicamente o episódio, o presidente Lula apelou para um recurso no qual tem sido exímio – o paroxismo. No caso, totalmente inapropriado. Ao acusar a imprensa de ser responsável pela criação do clima que produziu a injúria, o experimentado mitingueiro substituiu o natural sentimento de solidariedade com a vítima por uma fúria belicosa aleatória, muito menos eficaz.

A velha cantilena contra a imprensa esvaziou o clima de simpatia e colocou tudo no ringue eleitoral onde, geralmente, há pouco espaço para generosidades, galantarias e, sobretudo, bons modos.

Fazer da imprensa o bode expiatório de todos os males é uma tentação fácil, desgastada. Não traz votos e aumenta as tensões. Tensões é o que menos precisa o governo. No caso da Copa, a acusação aos meios de comunicação é flagrantemente injusta: têm sido bastante cooperativos e úteis ao governo. Mais rigorosos e exigentes, teriam evitado grandes vexames. Preferiram agir como promotores do “clima de Copa” e estão sendo regiamente pagos por meio do patrocínio das empresas públicas às suas coberturas.

Para deixar boas impressões e imagem (sobretudo no exterior), esta temporada de gala do futebol exige comportamentos à altura. Transformá-la numa briga de galos ou num Fla-Flu de várzea será um enorme desperdício.

Publicado e chupado do Observatório da Imprensa

Por que o governo deve apoiar a mídia alternativa

Tv dcvitti

Em audiência pública na Comissão de Ciência & Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, realizada em 12 de dezembro último, o presidente da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom), Renato Rovai, defendeu que 30% das verbas publicitárias do governo federal sejam destinadas às pequenas empresas de mídia.

Dirigentes da Altercom também estiveram em audiência com a ministra da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom-PR), Helena Chagas, para tratar da questão da publicidade governamental.

Eles argumentam que o investimento publicitário em veículos de pequenas empresas aquece toda a cadeia produtiva do setor. Quem contrata a pequena empresa de assessoria de imprensa, a pequena agência publicitária, a pequena produtora de vídeo, são os veículos que não estão vinculados aos oligopólios de mídia.

Além disso, ao reivindicar que 30% das verbas publicitárias sejam dirigidas às pequenas empresas de mídia, a Altercom lembra que o tratamento diferenciado já existe para outras atividades, inclusive está previsto na própria lei de licitações (Lei nº 8.666/1993).

Dois exemplos:

  1. Na compra de alimentos para a merenda escolar, desde a Lei nº 11.947/2009, no mínimo 30% do valor destinado por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar, do Fundo de Desenvolvimento da Educação, do Ministério da Educação, gestor dessa política, deve ser utilizado na aquisição “de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas”.
  2. No Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), destinado ao desenvolvimento da atividade audiovisual, criado pela Lei nº 11.437/2006 e regulamentado pelo Decreto nº 6.299/2007, a distribuição de recursos prevê cota de participação para as regiões onde o setor é mais frágil. Do total de recursos do FSA, 30% precisam ser destinados ao Norte, Nordeste e Centro Oeste. Vale dizer, não se podem destinar todos os recursos apenas aos estados que já estão mais bem estruturados (ver aqui, acesso em 11/1/2013).

A regionalização das verbas oficiais

A reivindicação da Altercom é consequência da aparente alteração do comportamento da Secom-PR em relação à chamada mídia alternativa.

A regionalização constitui diretriz de comunicação da Secom-PR, instituída pelo Decreto n° 4.799/2003 e reiterada pelo Decreto n° 6.555/ 2008, conforme seu art. 2°, X:

“Art. 2º – No desenvolvimento e na execução das ações de comunicação previstas neste Decreto, serão observadas as seguintes diretrizes, de acordo com as características da ação:
“X – Valorização de estratégias de comunicação regionalizada.”
Dentre outros, a regionalização tem como objetivos “diversificar e desconcentrar os investimentos em mídia”.
De fato, seguindo essa orientação a Secom-PR tem ampliado continuamente o número de veículos e de municípios aptos a serem incluídos nos seus planos de mídia. Os quadros abaixo mostram essa evolução.

Fonte: Núcleo de Mídia da Secom, acesso em 11/1/2013

Trata-se certamente de uma importante reorientação histórica na alocação dos recursos publicitários oficiais, de vez que o número de municípios potencialmente cobertos pulou de 182, em 2003, para 3.450, em 2011, e o número de veículos de comunicação que podem ser programados subiu de 499 para 8.519, no mesmo período.

Duas observações, todavia, precisam ser feitas.

Primeiro, há de se lembrar que “estar cadastrado” não é a mesma coisa que “ser programado”. Em apresentação que fez na Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), São Paulo, em 16 de julho de 2009, o ex-secretário executivo da Secom-PR Ottoni Fernandes Júnior, recentemente falecido, citou como exemplo de regionalização campanha publicitária em que chegaram a ser programados 1.220 jornais e 2.593 emissoras de rádio – 64% e 92%, respectivamente, dos veículos cadastrados.

Segundo e, mais importante, levantamento realizado pelo jornal Folha de S. Paulo, a partir de dados da própria Secom-PR, publicado em setembro de 2012, revela que nos primeiros 18 meses de governo Dilma Rousseff (entre janeiro de 2011 e julho de 2012), apesar da distribuição dos investimentos de mídia ter sido feita para mais de 3.000 veículos, 70% do total dos recursos foram destinados a apenas dez grupos empresariais (ver “Globo concentra verba publicitária federal”, CartaCapital, 13/9/2012, acesso em 12/1/2013).

Vale dizer, o aumento no número de veículos programados não corresponde, pelo menos neste período, a uma real descentralização dos recursos. Ao contrário, os investimentos oficiais fortalecem e consolidam os oligopólios do setor em afronta direta ao parágrafo 5º do artigo 220 da Constituição Federal de 1988, que reza:

Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de oligopólio ou monopólio.

Democracia em jogo

A mídia alternativa, por óbvio, não tem condições de competir com a grande mídia se aplicados apenas os chamados “critérios técnicos” de audiência e CPM (custo por mil). A prevalecerem esses critérios, ela estará sufocada financeiramente, no curto prazo.

Trata-se, na verdade, da observância (ou não) dos princípios liberais da pluralidade da diversidade implícitos na Constituição por intermédio do direito universal à liberdade de expressão, condição para a existência de uma opinião pública republicana e democrática.

Se cumpridos esses princípios (muitos ainda não regulamentados), o critério de investimentos publicitários por parte da Secom-PR deve ser “a máxima dispersão da propriedade” (Edwin Baker), isto é, a garantia de que mais vozes sejam ouvidas e participem ativamente do espaço público.

Como diz a Altercom, há justiça em tratar os desiguais de forma desigual e há de se aplicar, nas comunicações, práticas que já vêm sendo adotadas com sucesso em outros setores. Considerada a centralidade social e política da mídia, todavia, o que está em jogo é a própria democracia na qual vivemos.

Não seria essa uma razão suficiente para o governo federal apoiar a mídia alternativa?

*Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros]

(*) Artigo publicado originalmente pelo Observatório da Imprensa.

As liberdade civis pós-11 de Setembro

Há lugar para alarmismo quando uma questão envolve ameaças às liberdades civis. É preferível uma preocupação exagerada com nossas liberdades do que uma demasiado pequena, em especial diante de um governo envolvido em segredos de guerra desde os ataques de 11 de Setembro. Mas, passada uma década, também há lugar para uma reflexão sóbria. Em termos históricos, a resposta legal ao 11/9 deu lugar a tremores, mas não terremotos, no que se refere às liberdades civis. E mesmo essas mudanças resultaram, em grande parte, de um reordenamento de prioridades na aplicação da lei, e não de alterações fundamentais na própria lei.

Vejamos o caso do USA Patriot Act, um texto relativamente curto, se comparado à sonora explicação de seu significado: “Unir e fortalecer os Estados Unidos da América fornecendo as ferramentas necessárias para interceptar e obstruir a ação terrorista de 2011”. A lei, com mais de 300 páginas, singrou pelo Congresso sete semanas após os ataques com escassa discordância. Rapidamente, tornou-se uma espécie de atalho para o abuso e extrapolação por parte do governo.

É inegável que o Patriot Act ampliou os poderes de vigilância do governo e o escopo de algumas leis penais. Porém, na verdade, isto significava bulir com as margens do problema e praticamente nada, se comparado às respostas de outras democracias desenvolvidas em que a detenção preventiva e as restrições ao discurso subversivo se tornaram lugar comum. “Numa perspectiva comparativa, o Patriot Act parece banal e suave”, escreve Kent Roach, professor de Direito na Universidade de Tronto, em seu novo livro The 9/11 Effect: Comparative Counter-Terrorism.

Cultura de suspeição e armadilhas

A história é diferente se a abordagem for além da legislação penal doméstica. Detenções na Baía de Guantánamo, perseguições incomuns e interrogatórios brutais examinaram os limites do exercício de poder adequado pelo governo em tempo de guerra. O governo norte-americano manteve pessoas presas sem acusação por quase uma década, envolveu-se em tortura – tal como o termo é definido no Direito internacional – e mandou pessoas para serem interrogadas no exterior, em países conhecidos por adotarem práticas do que todo mundo concorda em chamar tortura. Mas a legislação penal propriamente dita mudou surpreendentemente pouco logo após os ataques. O que mudou foi a maneira pela qual a aplicação da lei concebeu sua missão.

Quase imediatamente após os ataques, o procurador-geral [correspondente a ministro da Justiça] John D. Ashcroft anunciou “um novo paradigma”. Disse que a prevenção de ações terroristas passar a ser mais importante que a punição dos crimes depois de realizados. Percebiam-se aqui ecos de Minority Report, um conto de Philip K. Dick de 1956, que depois se tornou filme em 2002, que descrevia um mundo no qual a polícia prende os criminosos antes que eles possam agir, baseando-se em seus pensamentos, ao invés de suas ações.

O novo paradigma incentivou a detenção de pessoas consideradas perigosas – tal como apresentadas por Ashcroft – por “cuspir na calçada”, ou por desrespeito para com autoridades da imigração, ou como testemunhas relevantes. Aumentou a vigilância sobre grupos religiosos e dissidentes. Desencavou o uso de uma lei impedindo qualquer tipo de apoio, mesmo que inofensivo, a organizações supostamente envolvidas com terrorismo, pressionando atividades que desde há muito se julgavam protegidas pela Primeira Emenda. E infiltrou informantes nas comunidades muçulmanas, gerando uma cultura de suspeição e de acusações de armadilhas.

Prender primeiro, acusar depois

Num quadro ampliado da questão, o número de pessoas diretamente afetadas por essas mudanças foi pequeno. O alarmante efeito indireto sobre a liberdade de expressão, os direitos de associação e a liberdade religiosa foi impossível de avaliar. Mas se comparada às Leis de Estrangeiros e de Sedição, de 1798, aos ataques de Palmer, de 1920, ao confinamento de nipo-americanos durante a II Guerra Mundial e à era de Joseph McCarthy, a restrição de liberdades civis na última década foi menor.

Como normalmente fizeram no passado, os tribunais consentiram os esforços do governo para combater o terrorismo. É verdade que a Suprema Corte fixou alguns limites à possibilidade de o executivo manter prisioneiros na Baía de Guantánamo. Mas as decisões de casos penais e de imigração diferem dessa interpretação.

“Os tribunais vêm errando e muito”, disse Susan N. Herman, presidente do Sindicato de Liberdades Civis norte-americano e autora do livro Taking Liberties: The War on Terror and the Erosion of American Democracy, a ser publicado em outubro. A Corte Suprema, segundo ela, normalmente recusa-se a ouvir casos em que tribunais de instâncias inferiores mantêm a posição do governo em questões envolvendo a segurança nacional. “Eles não estão interessados em desafios às liberdades civis”, diz ela dos desembargadores. “Só se interessam quando o governo perde.”

A meta de deter o terrorismo antes que a ação aconteça levou autoridades responsáveis pela aplicação da lei a fazer detenções prévias e, em seguida, confiar em acusações que exigiam pouca evidência de uma conduta concreta. Muitas vezes, promotores denunciaram réus acusados de envolvimento com o terrorismo por conspiração ou “apoio relevante” a grupos supostamente envolvidos com terrorismo. Essas leis já existiam, diz Robert M. Chesney, professor de Direito na Universidade do Texas. “A diferença”, diz ele, “é que não eram usadas.”

Dois princípios

Após os ataques do 11 de Setembro, as coisas mudaram. Apenas nos primeiros cinco anos que se seguiram, promotores denunciaram mais de 100 pessoas por fornecerem apoio relevante a grupos terroristas. Esse apoio muitas vezes era de forma tangível, como o fornecimento de armas, e em geral parecia vinculado ao progresso de objetivos violentos.

Mas algumas das acusações baseavam-se no envio de dinheiro para grupos envolvidos tanto em trabalho humanitário quanto em violência. E no ano passado, no Projeto de Lei Holder vs. Humanitários, a Corte Suprema deliberou que também poderia ser um delito grave o incentivo a grupos terroristas de usar meios pacíficos para resolver conflitos. Esse discurso, disse o tribunal, correspondia a apoio relevante e poderia ser considerado criminoso apesar da proteção da Primeira Emenda.

John G. Roberts, presidente da Corte, destacou que a lei de apoio relevante só era pertinente aos discursos dirigidos ou coordenados por grupos terroristas. As pessoas “podem dizer o que bem entendem sobre qualquer assunto” sem desrespeitar a lei, disse o presidente da Corte, desde que o façam de maneira independente.

Para os críticos, trata-se de uso agressivo da lei de apoio relevante e similares, dividido em dois princípios que se acreditavam resolvidos há cerca de meio século. Um deles é que o simples vínculo com uma organização subversiva não pode ser considerado um crime. O outro é que a defesa abstrata da deposição do governo, inclusive por meio da violência, deve ser tolerada de acordo com a Primeira Emenda.

Culpado até que se prove a inocência

A decisão sobre o Projeto de Lei Humanitário “tem afinidade com a criminalização do discurso e da culpa por associação da era McCarthy”, disse David D. Cole, professor de Direito em Georgetown, que representou os contestadores no caso do Projeto de Lei Humanitário como advogado do Centro de Direitos Constitucionais.

Ainda segundo os críticos, uma segunda lei que está nos livros e que permite a detenção de testemunhas relevantes – pessoas que se acredita terem provas de crimes praticados por outras – foi usada de modo errado, como uma espécie de regime de detenção preventiva. Segundo estes críticos, ao invés de usar a lei para garantir que pessoas que tenham informação sobre a prática de atos ilícitos de outras se apresentem para depor, os promotores usaram a lei para deter essas próprias pessoas sob a suspeita de vínculos com o terrorismo.

Leis referentes a transgressões de imigração também foram usadas para deter pessoas suspeitas de terrorismo, segundo um relatório de 2003 do inspetor-geral do Departamento de Justiça. O relatório dizia que as pressuposições mais comuns do sistema legal foram viradas pelo avesso após os ataques. Pessoas detidas sob a acusação de imigração ilegal eram consideradas culpadas até que se provasse sua inocência e muitas vezes ficavam detidas por meses, em condições duras, após terem recebido ordem de soltura.

Em decisões de 2009 e de maio deste ano, a Corte Suprema bloqueou duas ações que procuravam tornar John Ashcroft responsável pelo que os querelantes qualificaram como abusos nas leis de testemunha relevante e de imigração. “Nada há de surpreendente”, escreveu o desembargador Anthony M. Kennedy num relatório aprovado por uma maioria de cinco juízes, “que uma política legítima, orientando a aplicação da lei para prender e deter indivíduos por seu suposto vínculo com os ataques, possa eventualmente produzir um impacto discordante em muçulmanos árabes, embora o objetivo dessa política não fosse dirigido a árabes ou muçulmanos.”

Na década que se seguiu aos ataques, o governo também se tornou particularmente mais agressivo quanto ao uso de informantes e operações-relâmpago, disseminando falta de confiança em partes das comunidades muçulmanas. Numa dessas operações, um imã da cidade de Albany foi apanhado numa armadilha, num complô fictício que envolvia o lançamento de mísseis e o assassinato de um diplomata paquistanês em Nova York.

Defendendo a sentença de 15 anos imposta ao imã Yassin M. Aref, os promotores disseram que o novo paradigma de prevenção justificava as táticas. “O FBI [Federal Bureau of Investigation] tem a obrigação de utilizar todas as ferramentas a seu dispor”, escreveram os promotores num memorando de 2007 para um tribunal de recursos, “inclusive uma operação-relâmpago para remover das ruas indivíduos prontos e dispostos a ajudar terroristas.”

Proteção “seriamente diluída”

Nem todas as táticas no combate ao terrorismo nos Estados Unidos se basearam em leis vigentes. “Na vigilância eletrônica, ocorreu uma grande mudança”, disse John C. Yoo, professor de Direito em Berkeley, Universidade da Califórnia, que se tornou conhecido por suas agressivas recomendações e visão expansiva do poder executivo como autoridade no Departamento de Justiça no governo Bush. Em 2002, por exemplo, um tribunal especial de recursos, o United States Foreign Intelligence Surveillance Court of Review, concedeu ao Departamento de Justiça novos poderes, mais amplos, para usar escutas clandestinas nas operações de inteligência em casos de crime. “Isso revoluciona nossa capacidade para investigar terroristas e julgar ações terroristas”, disse, na época, John Ashcroft.

Após revelações sobre escutas de comunicações internacionais não autorizadas, o Congresso aprovou o programa por ampla maioria. Essas mudanças legais, acompanhadas por fantásticos avanços em tecnologia, permitiram ao governo uma ampla capacidade de coletar informação. “A Quarta Emenda [à Constituição] foi seriamente diluída”, diz a professora Susan Herman, da Faculdade de Direito de Brooklyn. Acrescentou que ficou estupefata com “a quantidade de vigilância que foi desencadeada com cada vez menos apreciação judicial e cada vez menos suspeitas individualizadas”.

Abuso contra inocentes

Tanto o governo de Bush quanto o de Obama foram criticados por liberais por empregarem exageradamente o sigilo e, em particular, por invocarem o privilégio de segredos de Estado para impedir ações civis questionando coisas como uma interpretação ampla da Constituição permitindo uma influência judicial legítima, de acordo com a época [rendition] e os programas de vigilância. Entretanto, por padrões internacionais, o público aprendeu bastante sobre atividades secretas do governo. “O fato de os abusos cometidos pelo executivo após o 11 de Setembro terem vindo à luz é outra prova do excepcionalismo norte-americano”, escreveu o professor Kent Roach, “tal como expresso nas atividades de uma imprensa livre que não sofre restrições por atos oficiais secretos, o que se pode encontrar na maioria das outras democracias.”

Opiniões divergem sobre prejuízos colaterais que os esforços na luta contra o terrorismo nos Estados Unidos possam ter infligido sobre dissidentes políticos, a liberdade religiosa e a liberdade de reunião. “Numa avaliação histórica”, disse o professor John Yoo, “quando se vê tanta gente falando, você poderia dizer: `Não acredito que estejamos em guerra.´ As liberdades civis estão muito mais protegidas do que vimos em guerras passadas.”

O professor David Cole foi menos otimista: “A partir do 11 de Setembro, o Direito Penal se expandiu e, com armadilhas, prendeu como `terroristas´ pessoas que nada mais fizeram do que dar ajuda humanitária a famílias necessitadas, ao mesmo tempo que a privacidade e as liberdades políticas diminuíram, em especial para aqueles que vivem em comunidades muçulmanas”, disse. “Por um lado, os últimos dez anos mostraram que o Direito Penal pode ser usado com eficácia na luta contra o terrorismo; por outro lado, também demonstrou que a exigência de medidas preventivas pode levar rapidamente ao abuso contra inocentes”.

Escrito por Adam Liptak, jornalista do New York Times.

Uma lápide para os terroristas

Dez anos após os atentados da Al-Qaida contra os Estados Unidos, prossegue aberto um imenso vazio que desafia a chamada civilização ocidental. As torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, cada uma delas atingida por um jato comercial (aviões de carreira transformados em mísseis), derreteram como velas de parafina, numa imagem que será lembrada com horror por séculos e séculos. Só ali morreram 2.605 cidadãos de várias nacionalidades. Naquele mesmo dia, o Pentágono sofreu um bombardeio semelhante. Outras 125 mortes. Um quarto avião, sequestrado pelo mesmo grupo criminoso, caiu na Pensilvânia antes de alcançar seu alvo. Nesses voos estavam embarcados 246 passageiros. Ao todo, 2.976 vidas humanas foram queimadas. Por aí temos uma primeira visão do vazio – e essa primeira visão é relativamente simples.

No lugar das torres gêmeas restou outra face do mesmo vazio: 65 mil metros quadrados de escombros, conforme expôs, com infográficos de um nível de minúcia que seria barroco se não fosse exato, o excelente caderno publicado por este jornal no domingo. A limpeza dos entulhos consumiu quase um ano de trabalho. Ao final restou na Ilha de Manhattan uma cicatriz urbanística: o Marco Zero. Lá serão plantados um museu e um memorial, cuja inauguração foi marcada para 2015. As obras custarão US$ 11 bilhões. O vazio será então convertido em túmulo coletivo, um cemitério exponencial. As vítimas terão sua lápide.

Esse traço particularíssimo, o de inscrever um símbolo para tapar a dor insuportável da morte, vem servindo de pretexto para que nós, os humanos, nos julguemos superiores aos outros animais. Somos humanos porque, quando os arqueólogos aparecem para vasculhar os resquícios de nossa existência, encontram isto: urnas funerárias, esqueletos ao lado de amuletos em vasos de cerâmica, pirâmides devidamente faraônicas, valas comuns, memoriais patrióticos. O resto é conversa. O resto é linguagem. Quando não há mais remédio, é nosso instinto pôr uma pedra em cima e tocar adiante, mesmo que a pedra custe US$ 11 bilhões – e mesmo que tocar adiante signifique ir longe, muito longe, em busca de vingança, ainda mais dispendiosa.

O portal de ingresso da História em outra era

As operações militares que se seguiram ao 11 de setembro, com a invasão do Afeganistão e do Iraque, além de ações no Paquistão, já mataram 6 mil soldados das tropas americanas e aliadas. Segundo estimativas “conservadoras” da Brown University, citada pela revista britânica The Economist da semana passada, 137 mil civis morreram nesses três países e os gastos atingem a casa dos US$ 4 trilhões. Além de vidas e dinheiro, a vingança impôs também o custo da mentira. A própria The Economist admite, na mesma edição, que deu seu apoio à invasão do Iraque somente porque estava “erroneamente convencida de que Saddam possuía armas de destruição em massa”. Assim como outros veículos jornalísticos, acreditou em informações falsas difundidas por autoridades americanas.

Se a verdade atrapalha a revanche, que se mate a verdade. Para poder declarar que os mortos descansarão em paz, o poder agredido não tem outra saída que não seja construir o espetáculo da vingança. No futuro próximo, a guerra contra o terror será compreendida menos como uma sequência de movimentos parametrados pela geopolítica (e nesse quesito o saldo é medíocre) e mais como reação da ordem do espetáculo, com a finalidade de promover a coesão imaginária entre o medo e o ódio. Rigorosamente, George W. Bush foi impelido a isso: tinha de revidar, e revidar com um dispêndio de energia espetacular equivalente ao que vitimou o espaço público americano.

Mais que atos de guerra, os atentados de 11 de setembro foram concebidos como cenas midiáticas de perversidade nunca vista. As duas torres derretendo, ao vivo, nas televisões do mundo todo, sangraram o olhar da humanidade. Naquele momento, sumiu da paisagem um ícone que se imaginava inamovível – como cartão-postal e como âncora do mercado financeiro global. Abriu-se o chão. Nós, os bilhões de humanos que testemunhamos o desmoronar dos dois arranha-céus, passamos a ser, de uma hora para outra, mutilados do olhar, como se fôssemos mutilados de guerra. Eis o que situa os atentados de 11 de setembro em outra era histórica, ou melhor, o que faz deles o portal de ingresso da História em outra era, em que a guerra e o terror, também eles, passam a ser definitivamente mediados pela instância da imagem ao vivo.

Se não há ritos fúnebres para todos, não há paz

Por isso a resposta do governo americano só poderia ser, como vem sendo, uma sucessão de golpes espetaculares – que, quando perdem o tônus, mudam de alvo como se mudassem de figurino. A complexa engenharia simbólica para tapar o vazio deixado pelos mortos e pelos escombros depende desses golpes espetaculares. Segundo a ilusão feérica de que a vingança trará a paz, o teatro da guerra já não basta – só a guerra teatral poderá erguer uma sepultura para as perdas físicas e simbólicas.

Acontece que a ilusão não passa disso, de ilusão. Além dela, o vazio, outra vez ele, mostra o seu avesso – este, sim, aterrorizante. As vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 terão sua morte ritualizada pelo espetáculo, mas os terroristas permanecerão insepultos, exilados no avesso do vazio. Bin Laden foi morto por soldados americanos porque não tinha onde ser encarcerado e julgado neste mundo. Como ele, os criminosos inomináveis que pilotaram os aviões de carreira, e que também morreram em 11 de setembro, não terão uma lápide visível, minimamente humana. Não há notícias de que terão uma cova neste formidável cemitério que é o planeta Terra.

Se não há ritos fúnebres para todos, não há paz. Se não sabemos sepultar dignamente esses homens, a nossa civilização é menor do que precisa ser e continuará escrava do desejo (espetacular) de fazer com que desapareçam para sempre.

Escrito por Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM]

Cuidado, um computador pode roubar seu emprego

“O time de Wisconsin parece ter todas as condições de vencer, já que lidera o jogo por 51 a 10 após o terceiro quarto. Wisconsin aumentou sua vantagem quando Russell Wilson lançou Jacob Pederson para um touchdown, aumentando o placar para 44 a 3…” Com essas palavras, começava uma matéria news brief escrita nos últimos 60 segundos de um jogo de futebol americano entre o Wisconsin e o U.N.L.V., no início deste mês. As palavras podem não significar muito – mas foram escritas por um computador. O sofisticado código é obra da Narrative Science, uma empresa recém-criada em Evanston, no estado de Illinois, que oferece provas do progresso da inteligência artificial – a capacidade de computadores imitarem a razão humana.

O software da companhia armazena informações, como essa de estatística esportiva, relatórios financeiros de empresas e a evolução do mercado da construção civil, e as transforma em artigos. Há anos programadores vêm experimentando softwares que escrevem artigos, principalmente de eventos esportivos, mas esses esforços resultavam num estilo de formulários, de resposta a questionários. Era como se uma máquina os tivesse escrito. Mas o trabalho da Narrative Science baseia-se em mais de uma década de pesquisas, dirigidas por dois dos fundadores da empresa, Kris Hammond e Larry Birnbaum, co-diretores do laboratório de informações inteligentes da Universidade Northwestern, que tem ações da empresa. E os artigos produzidos pela Narrative Science são diferentes. “Achei que fosse magia”, diz Roger Lee, parceiro da companhia Battery Ventures, que investiu 6 milhões de dólares na empresa no início do ano. “É como se um humano o tivesse escrito.”

Cobertura ampliada

Especialistas em inteligência artificial e linguagem também ficaram impressionados, embora menos maravilhados. Oren Etzioni, cientista da computação da Universidade de Washington, diz: “A qualidade da narrativa produzida foi bastante boa”, como se tivesse sido escrita por um humano, ou até por um escritor bem-sucedido. Na opinião de Etzioni, a Narrative Science aponta para uma nova tendência em computação, a “crescente sofisticação da compreensão de linguagem automática e, agora, de geração de linguagem”.

O trabalho inovador da Narrative Science levanta uma questão mais ampla: este tipo de aplicação de inteligência artificial irá principalmente assessorar trabalhadores humanos, ou irá substitui-los? A publicidade online, embora crescente, não teve como contraponto o declínio da publicidade impressa. Mas irão “jornalistas robôs” substituir jornalistas de carne e osso nas redações?

Os dirigentes da Narrative Science enfatizam que sua tecnologia seria, antes de tudo, uma ferramenta de baixo custo para que publicações possam expandir e enriquecer sua cobertura quando os orçamentos editoriais estiverem sob pressão. Fundada no ano passado, a empresa tem, até agora, 20 clientes. Vários deles ainda estão na fase experimental da tecnologia e Stuart Frankel, principal executivo da Narrative Science, prefere não divulgar seus nomes. Entre eles, há redes jornalísticas, que procuram oferecer artigos sucintos e automáticos para uma cobertura mais extensa de esporte da juventude local e para produzir artigos sobre os resultados financeiros quadrimestrais de empresas públicas locais. “Fundamentalmente, estamos fazendo coisas que, de outra forma, não seriam feitas”, diz Frankel.

Sugestões de editores

Os clientes da Narrative Science dispostos a falar correspondem a esse modelo. The Big Ten Network, umajoint venture da Big Ten Conference e da Fox Networks, começou a usar a tecnologia na primavera de 2010 para replays curtos de jogos de beisebol. Eram postados no site da rede um ou dois minutos após o fim de cada jogo; boxes com os placares e informações sobre algumas jogadas eram usados para a produção de artigos concisos. (Antes disso, a rede de notícias baseava-se em relatos sucintos, online, fornecidos pelos departamentos de esporte das universidades.) À medida que progredia a temporada de esportes da primavera, os artigos produzidos por computador melhoraram, ajudados pelas sugestões de editores da equipe da rede, diz Michael Calderon, vice-presidente para mídia digital e interativa da Big Ten Network.

O software da Narrative Science pode fazer deduções com base na informação cronológica que coleta, assim como na sequência e resultados de jogos anteriores. Para produzir os “ângulos” da matéria, explica Kris Hammond, da Narrative Science, o software aprende conceitos para os artigos, como “esforço individual”, “esforço em equipe”, “vindo de trás”, “para trás e para a frente”, “os melhores da temporada”, “a carreira do jogador” e “classificação por time”. Então, o software decide qual é o elemento mais importante para aquele jogo, o que se torna o lead do artigo, diz ele. Um placar dilatado pode ser qualificado como “goleada”, ao invés de “vitória”. “A composição é o conceito-chave”, diz Hammond. “Não se trata apenas de coletar informações e jogá-las no texto.”

No outono do ano passado, a Big Ten Network começou a usar a Narrative Science para atualizações de jogos de futebol americano e basquete. Essas reportagens ajudaram a criar uma onda de referências no site do mecanismo de busca Google, que dá uma boa colocação a novos conteúdos de assuntos populares, diz Calderon. O tráfego da rede para jogos de futebol foi 40% superior, nesta temporada, em comparação ao de 2009.

10 dólares por artigo

A Hanley Wood, que edita publicações para a indústria da construção, começou a usar o programa no mês de agosto para a produção de reportagens mensais sobre mais de 350 mercados imobiliários locais, que colocou em seu site, BuilderOnline.com. A empresa coletava dados há muito tempo, mas contratar pessoas para escrever artigos sobre as tendências teria saído caro, diz Andrew Reid, presidente da unidade de inteligência para mídia digital e mercado da Hanley Wood. Ele diz que a empresa trabalhou com a Narrative Science durante meses para adequar o software para construção. Ex-executivo da Thomson Reuters, ele diz que ficou pasmo pela boa qualidade dos artigos. “Eles superaram uma enorme barreira linguística”, observa. “As matérias não são, de maneira alguma, cópias.”

Também ficou impressionado com o custo. A Hanley Wood paga à Narrative Science menos de 10 dólares por cada artigo de cerca de 500 palavras – e é bem possível que, com o passar do tempo, esse preço caia ainda mais. Mesmo a 10 dólares, o custo é bem inferior, pelas estimativas da indústria, ao custo médio, por artigo, de sites locais, como o Patch, da AOL, ou os sites de resposta, como aqueles dirigidos pela Demand Media.

E o Pulitzer vai para o computador

Entre as ambições da Narrative Science, uma é continuar crescendo em matéria de qualidade. Tanto Larry Birnbaum quanto Kris Hammond são professores de jornalismo e de ciência da computação. A própria empresa é uma consequência da colaboração entre as duas escolas. “Este tipo de tecnologia pode aprofundar o jornalismo”, diz John Lavine, decano da Escola de Jornalismo Medill, da Universidade Northwestern.

Hammond diz que a combinação dos avanços em seu dispositivo de escrita e de localizar informação podem abrir novos horizontes para o jornalismo digital, explorando “correlações entre o que você não esperava” – do ponto de vista conceitual, similares às do livro Freakonomics: A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything, escrito por dois humanos, o economista Steven D. Levitt e o escritor e sociólogo Stephen J. Dubner. Hammond citou ainda uma previsão de especialistas em mídia de que um programa de computador possa ganhar o Prêmio Pulitzer dentro de 20 anos – e pediu para discordar. “Dentro de cinco anos”, disse, “um programa de computador irá ganhar o Prêmio Pulitzer – e não tenho qualquer dúvida de que será a nossa tecnologia.”

Caso isso ocorra, é claro que o prêmio não será concedido a um código abstrato, mas a seus criadores humanos.

Escrito por Steve Lohr, jornalista, The New York Times.