Evangelho e responsabilidade

Evangelho e responsabilidade

Numa sociedade dividida, como se vive a vocação cristã? Que vocação é essa?

Onde a honra a Deus é comprada com a desonra do humano, aí, na verdade, o nome de Deus é desonrado
Paul Tillich, Humanität und Religion, 1958

Deus encarnou em Jesus para que, quem nele crê, compreenda, pela fé, sua identificação e seu compromisso com a vida das pessoas que carecem e desejam um Deus presente e próximo. Em sua vida e ministério, Jesus se viu inserido numa religião que possuía centenas de leis e regras que procuravam orientar a vida das pessoas. Todas essas leis surgiram em contextos específicos, com o objetivo de balizar a convivência em sociedade e a sua relação com o Deus em que depositavam sua fé. Algumas dessas leis foram endossadas por Jesus, mas aquelas leis que, essencialmente, não contribuíam para que o amor a Deus estivesse em primeiro lugar e que impediam que a misericórdia divina ficasse, cristalinamente, visível e sensível, foram revogadas pelo Filho de Deus. São exemplos de leis revogadas: as que inibiam ações de misericórdia ou o saciar as necessidades do corpo no dia de descanso; leis de vingança como olho por olho, dente por dente; e a pena de morte para situações de adultério.

Jesus revogou antigas leis e, sob o espírito de uma nova aliança, resumiu-as em apenas duas: amar a Deus acima de tudo e amar ao próximo como a si mesmas/os (Mc 12.28-34; Mt 22.34-40). E para que se pudesse reconhecer o próximo, Jesus usou de parábolas e deixou muitos exemplos que evidenciam que “próximo” é a pessoa que carece de nossa misericórdia e cuja ajuda está ao nosso alcance (Lc 10.26-37). Essa atitude de Jesus não foi apenas um posicionamento religioso, mas profético e político, no sentido que tomou partido das pessoas mais pobres, oprimidas e discriminadas pelos sistemas de poder político, econômico, social que também tinham (e têm) suas extensões no âmbito religioso.

Não há como ficarmos distantes das lutas políticas de nosso tempo. Como escrevem Dietrich Bonhoeffer e Franz Hildelbrandt, “por mais que o cristão queira permanecer distante da luta política, mesmo aqui, porém, o mandamento do amor o impele a tomar uma posição em favor de seu próximo. A sua fé e seu amor devem saber se os ditames do Estado poderão levá-lo a ir contra a sua consciência” (Catecismo Luterano, 1931). A liberdade e a consciência cidadã constituem, pois, um bem inalienável, mas elas somente se tornam efetivas e atuais na esfera política.

Sabemos que é parte da nossa vocação ao ministério na missão de Deus o envio “como ovelhas para o meio de lobos” (Mt 10.16ss) e que devemos estar prontas e prontos para sermos odiadas e odiados por causa do nome de Cristo (Mc 13.13). Ainda nesse sentido, concordamos com Martim Lutero de que somos pessoas simultaneamente justas (porque Deus nos justifica através do que Cristo fez por nós) e pecadoras (sempre dependentes da misericórdia e do perdão de Deus). Por isso, diante das pressões que nunca cessam, é preciso distinguir os gritos que clamam por socorro dos gritos de quem não se condói ou comove com a dor daquelas e daqueles aos quais Jesus nomeou pequeninas e pequeninos.

Embora em toda parte e em todos os tempos sempre tenha havido disputas por poder, vivemos tempos em que estas têm se revelado mais acirradas que nunca – consequência do uso para o mal dado à tecnologia colocada à nossa disposição para comunicar e aproximar. Infelizmente, deixamos que vozes, antes não ouvidas com tanta facilidade, entrem em nossas casas, em nossas relações com nossos semelhantes e nas nossas comunidades de fé, gritando insultos, calúnias e ameaças, inclusive de morte, promovendo discórdia, torcendo a verdade e a essência do objetivo cristão – a saber, favorecer a expansão do Reino de Deus, delimitado pelas experiências de “ágape” – e tornando-nos personagens da mais moderna experiência de Babel. Essas vozes têm se mostrado ardis e revelado alguma eficácia em seus esforços para abafar o Espírito de Pentecostes que, inibido de “soprar onde quer”, deixa exposta, no âmbito da Igreja de Cristo, uma dificuldade para discernir os espíritos que agem nesse mundo (1 Jo 4.1-6).

Temos sido testemunhas e ouvintes de vozes carregadas de ódio e que, sob a pretensão de invocarem luz, espalham trevas para a vida em comunidade e na sociedade. São ataques inconsequentes e irresponsáveis à vida, à credibilidade e à integridade física e moral de pessoas como a pastora Lusmarina Campos Garcia e o pastor Inácio Lemke, atacados por atenderem ao chamado à prática da misericórdia em favor de pessoas em situações de extrema vulnerabilidade. O aumento crescente da violência contra as pessoas mais à margem de projetos de poder vigentes em nosso contexto e em diferentes partes do mundo, bem como contra as pessoas comprometidas com os direitos das mais fragilizadas por diversas razões, revela o quão afastadas e afastados estamos da experiência plena do Reino de Deus anunciado por Jesus há dois milênios. A Igreja precisa se colocar a serviço de Deus e apoiar profetas e profetizas que resgatam a vontade divina de maneira concreta, sobretudo quando buscam promover justiça a quem dela vem sendo privada, por qualquer que seja a razão.

Queremos uma Igreja em que pronunciamentos ou exortações, quando necessários para dar respostas a uma sociedade marcada por novos desafios, não se orientem simplesmente pelo senso comum, por costumes ou quaisquer outros interesses que não sejam reforçar a necessidade da inclusividade da diversa criação de Deus e do acolhimento amoroso e misericordioso oferecido por Jesus.

Dos exemplos e ensinamentos de Jesus, aprendemos muitas coisas, segundo as quais, especialmente, ministras e ministros da Igreja devem se orientar. No cerne de tudo, vemos o fato de que Jesus não queria pessoas marginalizadas em função de sua condição social, legal, religiosa ou de saúde. E os testemunhos presentes nas narrativas evangélicas revelam que ele assumiu esse compromisso até as últimas consequências. É por meio do exemplo de Jesus, como registrado nas narrativas evangélicas, que possuímos a ciência de que, no Reino de Deus, sinônimo de poder é serviço, e que qualquer autoridade decorre de condutas coerentes, à parte das quais perdem sua legitimidade. Lutero reforçou esse entendimento ao definir boas obras como aquelas que procedem de Deus e apontam para Deus. Pessoas ou grupos que buscam holofotes voltados sobre si não apontam para Deus e, precisamente por isto, não merecem crédito.

As respostas religiosas e teológicas às grandes questões contemporâneas têm sido tímidas ou insuficientes. Em que se pese o fato de nos pronunciarmos, aqui, a partir de um contexto bastante particular, parece-nos, todavia, que a teologia ainda se encontra circunscrita a um universo separado, dissociada das vivências comunitárias concretas. Esta distância entre teologia acadêmica e Igreja, ainda que faça parte do caráter, por vezes, mais abstrato do saber teológico, termina contribuindo para que os grandes problemas que afetam a humanidade não recebam a atenção teológica devida. “As religiões e, dentro delas, as teologias se tornaram, na maioria das vezes, expressões de controle e dominação quando justificaram suas verdades para além da experiência humana, para além da história, para além do poder e do amor que nos habitam” (Ivone Gebara). A lacuna entre teologia acadêmica e Igreja, ainda que não possa ser plenamente preenchida, precisa ser diminuída. Somente assim o saber teológico poderá superar o risco da completa abstração e a vivência comunitária poderá ser informada e iluminada por uma teologia verdadeiramente encarnada.

Urge retomar, portanto, uma nova concepção teológica. Nós defendemos uma teologia encarnada que considere a simultaneidade de experiências de sofrimento, pobreza e exclusão, por um lado, e de movimentos libertários, de resistência e de transformação social através de comprometimentos sócio-político-culturais, por outro. As experiências são constitutivas de nossa identidade – seja como cidadãs e cidadãos, seja como pertencentes a uma confissão religiosa determinada. As experiências são sempre circunstanciais, localizadas e contextualizadas. Elas são, portanto, experiências sempre e invariavelmente históricas e necessariamente políticas.

Em função da ausência de uma pedagogia religiosa e teológica academicamente dialógica e inclusiva, temos visto crescer nos âmbitos do parlamento brasileiro fundamentalismos patológicos que atingem níveis de histeria e perversão; fundamentalismos que buscam impor seus valores, “verdades religiosas” e concepções do sagrado – sempre bastante restritas e exclusivistas – como únicas e imutáveis. Essa visão de mundo fundamentalista, que alcança representatividade em diferentes bancadas no parlamento brasileiro, termina por interferir nas decisões políticas de Estado. Nossas concepções religiosas não deveriam influenciar, entretanto, a formação de projetos de leis e dispositivos legais para o Estado, tendo-se em vista que a Constituição Federal determina um Estado laico (art. 19) e é a única disposição normativa válida para todas as pessoas. É o caráter laico do Estado que assegura não apenas o direito de indivíduos e grupos sociais religiosos de manifestarem aberta e publicamente suas crenças e significações religiosas, mas também a própria liberdade de consciência.

Embora a laicidade do Estado esteja assegurada pela Constituição Federal, esta mesma laicidade não anula a liberdade religiosa. A Constituição Federal garante, por exemplo, a assistência religiosa aos que estão em regime de reclusão, sendo esta a vontade livre manifesta pela pessoa presa. O direito à assistência religiosa às pessoas encarceradas é assegurado tanto pela Constituição (art. 5º, inciso VII) quanto pelas Leis Federais nº. 7.210/1984 e nº. 9.982/2000, que tratam, respectivamente, da assistência religiosa, com liberdade de culto, às pessoas segregadas, e da prestação de assistência religiosa em estabelecimentos penais.

Ora, foram precisamente o mandamento constitucional e esses dispositivos legais que possibilitaram, em 23 de julho de 2018, a visita do pastor Inácio Lemke ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se encontra preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. Atendendo a um pedido expresso do ex-presidente Lula de receber visitas de um ou uma representante de alguma religião para lhe prestar assistência religiosa todas as segundas-feiras, o pastor Inácio Lemke, amigo do ex-presidente há mais de trinta anos, dirigiu-se à sede da Polícia Federal em Curitiba para, na condição de pastor e amigo, ouvir, dialogar e orar pelo ex-presidente. Para além dos mandamentos constitucionais e outros dispositivos legais, o Evangelho é claro que somos chamados a visitar as encarceradas e os encarcerados (Mt 25.36): “Estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão, e fostes ver-me”.

Enquanto membros, ministras e ministros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), entendemos que tal visita foi um ato de amor para com um aprisionado, cuja própria condenação encontra-se sob suspeita jurídica e já foi problematizada e criticada, inclusive, por organismos internacionais. Portanto, estranhamos que a IECLB, quando do ocorrido, em comunicado às ministras, aos ministros e às comunidades, não tenha manifestado uma palavra baseada no Evangelho, mas tenha abordado a celeuma gerada por este evento baseando-se tão-somente em termos jurídicos e doutrinários. Outrossim, causa-nos profundo incômodo o fato de não encontrarmos expressa uma linha sequer em defesa de seu pastor vice-presidente, sobretudo quando consideramos que lhe faltam pouco mais de quatro meses para sua jubilação em função dos longos anos de serviço dedicados à missão de Deus na Igreja. A longa trajetória vocacional do pastor Inácio Lemke conta com amplo reconhecimento nacional e internacional precisamente pelo comprometimento que sempre demonstrou com uma práxis evangélica verdadeiramente encarnada na realidade concreta do povo de Deus. Além disso, cabe-nos sublinhar que a visita prestada pelo pastor Inácio Lemke ao ex-presidente Lula não foi realizada, por um lado, em nome da IECLB ou do Sínodo que preside, ou em nome do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), por outro.

De igual forma, vemos com profunda tristeza uma manifestação pessoal do pastor Dr. Nestor Friedrich acerca do posicionamento da pastora Lusmarina Campos Garcia na audiência pública promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da proposta da descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Em tendo sido esse um manifesto pessoal, isto é, um manifesto do pastor Nestor Friedrich – que, a despeito disto, se encontra no exercício de sua função como presidente da Igreja –, postamo-nos, aqui, e na condição de membros, ministras e ministros da IECLB, de forma contrária à substância deste pronunciamento. Isso porque, ao contrário do posicionamento pessoal do pastor Nestor Friedrich, temos percebido que, nos últimos anos, a IECLB tem se revelado cada vez mais tímida no amparo às pessoas em sofrimento, sobretudo dos mais frágeis. Por outro lado, o aparato institucional da IECLB se mostra cada vez mais robusto em questões que dizem respeito ao sacerdócio e aos ritos litúrgicos. O chamado profético em favor do seu povo, entretanto, parece constituir preocupação, na melhor das hipóteses, apenas secundária.

A nota pública e pessoal do pastor Nestor Friedrich nos causa ainda mais espanto e tristeza quando nos damos conta que a pastora Lusmarina compareceu ao STF como representante do Instituto de Estudos da Religião (ISER), e não como representante da IECLB. Como disse a própria ministra Rosa Weber por ocasião do convite: “Convido a Reverenda Lusmarina Campos Garcia para fazer uso da palavra, representante que é do Instituto de Estudos da Religião”. Ou seja: a pastora Lusmarina, ainda que como pastora da IECLB, apenas exerceu seu compromisso como representante de um egrégio e já academicamente consolidado instituto de estudos, e não a função de representante da instituição na qual é pastora. Sua participação na audiência pública promovida pelo STF representa um exercício livre de cidadania e de posicionamento intelectual honesto diante da mais alta instância do poder judiciário brasileiro. Tal participação deveria ser motivo de orgulho para a IECLB, e não de censura. Afinal, assumir para si a responsabilidade de discorrer, enquanto cidadã, intelectual, teóloga e pastora, mas também como alguém graduada em direito, sobre um tema tão complexo, e que envolve várias áreas do saber acadêmico, não é tarefa fácil e demanda competência e maestria colossais. Essa tarefa foi executada com tamanho brilhantismo pela pastora Lusmarina que nos sentimos plenamente representadas e representados por ela: a IECLB não pode cercear sua voz sem correr o risco de ferir de morte as garantias individuais e cidadãs de seus membros, ministras e ministros.

Não obstante, como o próprio pastor Nestor atesta em sua nota, o tema “aborto” envolve dor, sofrimento, culpa, abandono. E, assim como a pastora Lusmarina Campos Garcia, toda mulher que luta por emancipação está ciente que deve encarar a realidade patriarcal dolorosa que a oprime, e isso também inclui as mulheres luteranas. Essa luta por emancipação deve ser travada ainda que o risco de uma marginalização precisamente por parte da instituição que deveria ser acolhedora não possa ser evadido. Afinal, as mulheres não são uma redoma, como as “mônadas sem janelas” de Leibniz, mas são como que um espelho da sociedade, com todas as suas virtudes e contradições. Em outras palavras: as mulheres sofrem o peso de uma herança patriarcal, pervasiva em todas as esferas da cultura, que reivindica para si a ingerência sobre seus corpos e decisões. Por outro lado, é necessário lembrar e enfatizar que boa parte da dor, da culpa e do abandono sofrido por mulheres que decidem interromper uma gestação é fruto da postura (ou da não postura) das Igrejas. Nesse sentido, a Igreja precisa estar atenta ao sofrimento de muitas mulheres que, em situações extremas, recorrem à interrupção da gestação e são criminalizadas por tal ato. Isso implica afirmar que a Igreja deveria postar-se como um baluarte na defesa da vida dessas mulheres que são relegadas à clandestinidade, e não como uma instância de reverberação de estruturas sociais opressoras.

Essa situação nos convida para uma interpretação profética dos tempos atuais, tomando o rigoroso conceito de “profetismo” como chave de leitura para uma análise da conjuntura socioeconômica, política e religiosa. Os profetas, com suas críticas e denúncias, ajudam-nos não somente a localizar a realidade no campo teológico, como também a analisar os problemas que o povo de Deus enfrenta em determinadas situações históricas. Esse exercício teológico-hermenêutico, sob o prisma do profetismo, possibilita-nos deslindar, uma vez assegurado o Reino de Deus enquanto critério ético e político último de normatividade, novos caminhos para a transformação da realidade.

Assim, com uma voz profética, ousamos perguntar: como não falar sobre o problema da descriminalização do aborto em um país que tem um alto número de mulheres que morrem em decorrência de procedimentos mal feitos? Como não levantar nossas vozes se a cada dois dias uma mulher morre em consequência de procedimentos não seguros para interromper uma gestação? Como nos silenciar quando a existência de uma “cultura do aborto” em nosso país, muito embora clandestina à restrição legal, é um fato social transmitido entre diferentes gerações (Debora Diniz; Marcelo Medeiros)? Como não falar em aborto na Igreja se as mulheres que abortam são casadas, já têm filhos e 88% se declaram católicas, evangélicas, protestantes e espíritas? Em outras palavras: como não assumir a temática do aborto como um problema a ser pensado também teologicamente quando as mulheres que recorrem ao aborto são participantes de comunidades religiosas, também das comunidades religiosas luteranas? É necessário que encaremos o problema de frente, de forma profética, e não com discursos religiosos apaziguadores e uma interpretação errônea de concepções de gênero que colocam a culpa nas mulheres por engravidar. O aborto não é uma prática contraceptiva, mas uma decisão em situação, via de regra, de desespero das mulheres em se verem sem condições de criar um novo ser com um mínimo de dignidade.

Ao propor que a prática sexual masculina seja reavaliada, temos que considerar que, em todos os estudos de gênero já realizados há mais de vinte anos no âmbito da Igreja, podemos notar com clareza que a questão não está em avaliar a prática sexual masculina para que assumam a responsabilidade pela vida que geram, mas em refletir sobre as masculinidades normativas e as estruturas de dominação social e patriarcal vigentes. É por esse motivo que precisamos, também neste contexto, de justiça de gênero. “O conceito de justiça de gênero é usado como um instrumento no processo de transversalizar e implementar a igualdade de gênero no contexto das organizações de fé e igrejas. Justiça de gênero é um conceito que tem seu fundamento na teologia, e desvela meandros importantes e desafiadores no contexto das igrejas, como por exemplo, o funcionamento e os mecanismos das relações de poder” (Elaine Neuenfeldt).

O pastor Nestor Friedrich, por fim, diz: “Lamento profundamente que, mais uma vez, a IECLB é envolvida numa polêmica que não condiz com seu jeito de ser Igreja”. Não entendemos este “mais uma vez” e nem qual é, a seu ver, o “jeito de ser Igreja”, pois decididamente não entendemos que ser Igreja signifique emitir notas pessoais rápidas, muito menos sem representar um pronunciamento conjunto com alguma mulher ou, ao menos, indicar alguma mulher que tenha participado da elaboração da nota. Em nosso entendimento, essa nota revela uma tentativa, por parte do pastor Nestor Friedrich, de salvaguardar-se a si mesmo, permitindo que a pastora Lusmarina seja jogada “na cova dos leões” ávidos, com perseguições e ameaças de morte.

A Igreja que se orgulha de dizer que tem uma pastoral do cuidado e não cuida das suas e dos seus, e nem mesmo de suas cuidadoras e de seus cuidadores, precisa, com urgência, repensar-se enquanto Igreja de Cristo. A “Igreja do cuidado” precisa cuidar e reaprender a cuidar sempre de novo, e não acusar, abandonar, julgar sem ao menos ouvir as pessoas envolvidas, negando-lhes, dessa forma, o direito à ampla defesa – um direito, diga-se en passant, assegurado tanto por nossa Constituição Federal, quanto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Precisamos buscar palavras e gestos de solidariedade humana para que a Igreja não se transforme em uma empresa, mas continue como a assembleia de crentes, como nas primeiras comunidades cristãs, não sem conflitos, mas com coragem e maturidade para enfrentá-los, e misericórdia no tratamento de umas/uns com as outras e os outros. Nesse espírito profético que move e molda nossa existência cristã em todas as esferas da sociedade, nós, membros, ministras e ministros da IECLB, sentimo-nos plenamente representadas e representados pela coragem, maturidade, honestidade e firmeza expressas pela postura indubitavelmente evangélica adotada pelo pastor Inácio Lemke e pela pastora Lusmarina Campos Garcia. Não vemos a ministra e o ministro como proponentes de atitudes escandalosas e perniciosas para a fé cristã, mas como símbolos da luta infindável e incessante por justiça e emancipação humana que acreditamos ser parte constitutiva do movimento luterano mundial e da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Mais do que isso, a coragem e a firmeza de suas ações, em tempos de crescente polarização política e fascistização social, servem-nos de inspiração para que vivamos a fé cristã que nos move, e a confessionalidade luterana que nos molda, de uma forma ainda mais eficaz – mesmo que isso nos custe, vale dizer, um preço a pagar.

Que a oração expressa neste Salmo seja, por fim, nossa oração:

Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade. Não retires de mim, Senhor, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade
Sl 40.9-11

Agosto de 2018

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Jornalista acredita que, se necessário, Rede Globo se aliará a Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018

Globo e Bolsonaro estarão unidos em outubro

Não se iludam: se for preciso, Globo e Bolsonaro estarão unidos em outubro

Crítico contumaz do sistema de comunicação no Brasil, em especial da principal emissora do país, um dos vários meios em que trabalhou, o jornalista Paulo Henrique Amorim diz que não fosse a TV Globo “o (Sérgio) Moro não existiria, não haveria golpe“.

Em conversa promovida pelo ex-ministro Carlos Gabas, na noite de terça-feira (3), em Araçatuba (SP), ele afirma acreditar em união no campo progressista para derrotar os atuais detentores do poder. Mas identifica possibilidade de uma aliança no campo oposto, em torno do conservadorismo mais exacerbado.

Os trabalhistas, de preferência unidos, não podem manter essa gente que está no poder, a turma da barbárie, e ainda por cima pelo voto popular“, afirmou Amorim, em alusão ao tema do ciclo de debates organizado por Gabas (“Humanidade ou barbárie“). “E não se iludam: se for preciso, a Globo e o Bolsonaro estarão unidos em outubro“, acrescentou.

Criador do blog Conversa Afiada, o jornalista afirmou que o Brasil é a única “democracia”, enfatizando as aspas, “em que uma única emissora privada de televisão tem o monopólio para transmitir os jogos da seleção do esporte predileto do povo“. Como corrigir isso?

Ele cita o ex-ministro e também jornalista Franklin Martins, que apresentou a solução “revolucionária“: cumprir a Constituição de 1988, que proíbe o monopólio. “Em Hollywood, 50% dos empregos são para produção independente para televisão, porque as emissoras americanas são obrigadas a comprar conteúdo de terceiros. E aqui a Globo exibe praticamente 90% de conteúdo que ela gerou”.

Um monopólio que se estende à seleção brasileira e à Copa, diz Amorim. “Não há um elenco sem estrela, e o maior produto da Globo não é a novela, é o esporte“, afirma, acrescentando que novelas e jornalismo são hoje “atividade deficitária” da emissora.

A rigor, hoje, a Globo só ganha dinheiro com os eventos esportivos, e por isso ela faz esse carnaval intolerável da Copa, ela está vendendo o produto dela, não está dando notícia. Está vendendo o Itaú, a Vivo. É por isso que o Galvão grita.” Segundo o jornalista, a Globo já deixou de ser o principal destino da publicidade no país, perdendo para Facebook e Google.

Ele procurou refletir sobre a dificuldade enfrentada pelos candidatos “trabalhistas, que lutam contra a barbárie“, no debate político. E atribui os problemas, em grande medida, à comunicação, ou sua ausência.

Catequese

Os beneficiários do Bolsa Família, Fies, Luz para Todos, da política previdenciária do Gabas, do ProUni, devem achar que isso tudo já estava aí, já estava pronto, como o Pão de Açúcar, o rio Tietê, ninguém precisou lutar por isso. E por que isso? Por que essa alienação, esse distanciamento entre o benefício e o beneficiado, entre o autor do benefício e o reconhecimento do trabalho que ele fez? Porque quem faz a cabeça do brasileiro é a Globo. Os governos trabalhistas não construíram plataformas de comunicação que pudessem dizer quem fez o quê, para quem e por quê. Não foram pedagógicos, não fizeram catequese”.

Ele também critica a postura dos governos Lula e Dilma em relação ao tema, ao mesmo tempo em que aponta semelhanças entre os golpes de 1964 e 2016. “Jango e Dilma não tinham instrumentos de acesso à opinião pública para enfrentar o PIG (partido da imprensa golpista, termo cunhado por Amorim), 1964 era o PIG do Chateaubriand e do Carlos Lacerda. Em 2016, a Globo. Uma diferença em relação a 64: Lula e Dilma foram os governos que mais dinheiro deram à Globo. Deram carne ao leão”.

Eleito em 2002“, prossegue o jornalista, “a primeira coisa que Lula fez foi ancorar o Jornal Nacional ao lado de Fátima Bernardes, que naquela época ainda não vendia presunto. A primeira coisa que Dilma fez (em 2010) foi fazer uma omelete com Ana Maria Braga. Que deu errado, aliás”.

Ele fez referência a um projeto sobre meios de comunicação redigido por Franklin Martins, que “continua secreto até hoje“. “Não se sabe o que Lula queria fazer. Paulo Bernardo (ex-ministro), se não jogou no lixo, jogou na gaveta.” E lembrou que a lei que regula a televisão no Brasil (4.117) é de 1962. “Chateaubriand tinha um deputado chamado João Calmon, que fez uma lei de radiodifusão. E o grande presidente João Goulart, com ajuda do grande brasileiro Waldir Pires, redigiu 40 vetos à lei. O Congresso derrubou os 40 vetos do Jango. Os 40, não sobrou nenhum. E para comemorar esse feito histórico, as empresas de rádio e televisão criaram o maior lobby do Brasil, que é a Abert (associação do setor), controlada pela Rede Globo”.

Golpes de ontem e hoje

Ainda sobre 1964 e 2016, Amorim cita uma “raiz comum” entre os momentos históricos. “Em 1964, os Estados Unidos financiaram os golpistas e trouxeram a Quarta Frota até o litoral do Espírito Santo para rachar o Brasil ao meio, como faziam naquele momento na Coreia. Essa Quarta Frota, depois do golpe no Brasil, foi desativada. E quando foi reativada? Quando o Brasil descobriu o pré-sal, para vir aqui no Atlântico Sul ficar de olho no pré-sal brasileiro.” Em 2016, prossegue, “trocaram de golpistas“, citando “os Moros, os Dallagnols, os Janots“, com o mesmo objetivo: “Meter a mão no petróleo, no pré-sal“.

O jornalista e blogueiro cita ainda episódio em que Sérgio Moro vazou grampos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a então presidenta Dilma Rousseff. “O juiz Moro entregou à Globo, em duas horas, o grampo de uma conversa ilegal captada de Dilma Rousseff com Lula. Só a CIA poderia fazer isso em duas horas. Nos Estados Unidos, um juiz que captasse uma conversa ilegal do Trump com Obama e vazasse para uma emissora de televisão pegaria cadeira elétrica. Isso é crime contra a segurança nacional. E foi apenas admoestado pelo Supremo Tribunal Federal. E, por isso, Lula não foi ministro da Dilma e não pôde ajudar a evitar o golpe”.

Amorim cita ainda a Lei de Meios na Argentina. “Os Kirchner tiraram o monopólio do Clarín e entregaram o sinal da seleção argentina de futebol para a TV estatal. O Macri chegou ao poder, tentou desmontar tudo o que os Kirchner fizeram, mas manteve isso, porque o povo não gostava de ver a seleção só pelo Clarín. Aqui somos obrigados a escutar as asnices do Galvão e do Ronaldo Fenômeno“, ironizou.

Mesmo com a opinião de que “a barbárie pode piorar“, o jornalista acredita que “a canoa pode virar“, mas afirma que o repúdio ao projeto representado pelo atual governo “precisa se manifestar em voto“. Identifica mudanças no ambiente político. “O ministro Ricardo Lewandowski acabou de adotar uma decisão no Supremo Tribunal Federal que é preciso a aprovação do Congresso Nacional para fazer uma privatização. E, além disso, tem de haver uma licitação. Isso dá ao futuro presidente do Brasil o direito de rever, segundo a lei, todas as doações que foram feitas no governo golpista, sobretudo na área da Petrobras e do pré-sal. Faltava um instrumento jurídico-legal para rever as decisões do Pedro Parente, e o Lewandowski deu”.

Ele cita outros possíveis sinais, como a paralisação da reforma da Previdência. “E inventaram uma operação tabajara no Rio de Janeiro para encobrir a derrota. Outro sinal do ministro Toffoli, de botar a tornozeleira do (José) Dirceu na perninha do Moro. Acredito que será possível uma união das forças progressistas para derrotar o Bolsonaro. Com Lula ou sem Lula, haverá uma reunião de interesses políticos inevitável entre aqueles que vão dizer ‘meu Deus do céu, Bolsonaro já é demais’. Não adianta botar um novo Pinochet na Presidência da República, com um projeto neoliberal. As pessoas despertarão para isso. Serão 45 dias de campanha no horário eleitoral gratuito, e aí será possível fazer um trabalho didático que não foi possível fazer até agora”.

Para Gabas, que nas edições anteriores levou a ex-presidenta Dilma e o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, a sociedade começou a reagir. “Acho que temos chance de garantir Lula disputando a eleição. Se a gente ficar falando que eleição sem Lula é fraude, para dar consequência nós teríamos de sair da eleição. É fundamental que nosso projeto de país esteja representado nas urnas“, afirmou.

Pragmatismo Político

Câmara de Vereadores de Ilhota irá iniciar o processo de transmissão via internet das sessões

Plenário da Câmara Municipal de Vereadores de Ilhota

Sinceramente, eu não entendi essa Lei. Gratificação para assessor de áudio e vídeo? Como diria o povo joinvillense… Éééguaaa.

Esse projeto é de iniciativa do próprio Poder Legislativo, da Mesa Diretora. O Projeto de Lei Ordinária 01/2018 foi dado entrada no dia 9 de janeiro e deliberado pelo Plenário da Câmara de Vereadores de Ilhota na segunda sessão extraordinária Câmara deste ano, em 5 de fevereiro. Como havia comentado, iniciamos bem os trabalhos legislativos do ano, com sessão extraordinária. Se o projeto passou por alguma comissão, se teve algum parecer jurídico, eu não sei. O que apenas sei, consultando o portal da Câmara de Vereadores de Ilhota, só há o parecer do impacto orçamentário/financeiro e alguns outros anexos, e mais nada. O prefeito, respeitando a decisão do plenário, sancionou no dia 6 de fevereiro.

Entendo que, com essa lei, a Câmara irá transmitir em tempo real as sessões ordinárias, extraordinárias, solenes e audiências públicas.

Como sou um mero mortal e um simples contribuinte, só sei das coisas quando é publicado pelo Diário Oficial dos Municípios e é por lá, oficialmente nesse instrumento, onde eu sei das coisas e emito minha opinião. Graças ao DOM é que nós sabemos das coisas. Os bastidores, as entrelinhas da política, fofoca de homem velho, isso não me interessa, deixamos essa besteirol americano a cargo da rádio pião e rádio corredor. A Lei Ordinária Nº 1903/2018 foi publicado em 8 de fevereiro, ontem.

Cada um faz a lei que entender melhor para o município. É pra isso que elegemos vereador… pra propor leis que irá beneficiar a sociedade no geral, fiscalizar o executivo, discutir, promover debates e votar essas matérias e temos uma assessoria jurídica para emitir os pareceres. Pronto! A partir daí, a democracia representativa está em pleno uso de suas atribuições do estado de direito e exercendo sua função. Mas em minha modesta opinião, se alguém nos consultasse, a respeito dessa lei, eu diria ou aconselharia a criar um novo cargo para administrar todo esse processo. E qual seria esse cargo??? Eu vos apresento… o assessor de imprensa!

Não necessariamente poderia ser um jornalista graduado, formado na Univali, o bom seria, mas uma pessoa que entendesse bem da coisa e fosse linkado com o universo da crossmedia. Esse carinha ou mina da comunicação teria a função de não somente ligar o botão da webcam, dar o play e transmitir as sessões para internet e controlar a mesa de som, mas produzir conteúdo, releases, informações. Além de gerenciar uma conta no YouTube, Facebook, Twitter e Instagram, iria aproximar de fato a comunidade com os vereadores já que é a casa do povo e toda informação, claro, é sempre bem vinda.

Somos carentes de notícias. Ilhota é pobre de conhecimento. As únicas informações que temos hoje da Câmara de Vereadores do município são os atos publicados no portal do legislativo, por que se não fossem obrigatórios, as pautas, atas, tramitações de projetos de leis e otras coisitaas más, nem isso saberíamos, nada seria publicado, mas como é imprescindível, isso dá um trabalho…

Contrata um jornalista aí, presidente! Isso irá fazer bem para todos. Vereador Rogério bem sabe disso. Dinheiro pra isso temos, até porque, foram devolvidos mais de R$ 300 mil pra Prefeitura de Ilhota ano passado.

Se não impulsionar as transmissões e divulgar as coisas deliberadas pela Câmara, serão 800 conto jogado fora. Não estão pensado e esperando que será comunidade que irá fazer isso, né? Vai me dizer que estão? De graça? #SQN

Com alegria,
#DialisonCleberVitti

Vereador Rogério do PT na tribuna da Câmara de Vereadores

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O que talvez você não saiba é que o Politize! é uma organização sem fins lucrativos e que doações são vitais para executarmos o nosso trabalho. Dito isso, tenho um pedido bem especial para você que sabe a importância de doar. Estamos dando mais um passo em nossa missão com uma iniciativa que visa formar jovens lideranças em todo o Brasil para que atuem como agentes de mudança nas eleições de 2018.

Assista ao vídeo, leia as informações e faça sua parte no Dia de Doar. Qualquer valor é importante e sem o seu apoio não chegaremos lá. Podemos contar contigo? Você também pode ajudar encaminhando esta mensagem!

Curiosidade: se você e todas as pessoas que disseram que apoiam iniciativas sociais fizerem uma doação de apenas R$ 10, bateremos a meta ainda hoje…

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Politize!

 

Notícias falsas e pós-verdade: o mundo das fake news e da (des)informação

FakeNews - Art by: #DialisonCleberVitti

Vivemos numa avalanche de informações a cada segundo. O mundo inteiro está a um clique de distância. No celular, o whatsapp está o tempo todo alerta, com mensagens de amigos e de grupos sobre diversos temas; no Facebook, o painel de novidades – o newsfeed – está repleto de vídeos, notícias urgentes, postagens de páginas que você curte e comentários fazendo juízos de valor sobre qualquer assunto.Em meio a todo esse cenário, às vezes é difícil saber o que é verdadeiro ou não.

Nos últimos tempos, houve um aumento de notícias falsas, as famosas fake news, em inglês. Quantas vezes você sai falando sobre uma matéria de jornal e, na verdade, só leu a manchete? Quantas vezes você checa a informação que um colunista do qual você gosta publicou? Quantas vezes você assiste a um vídeo polêmico e o compartilha com seus amigos? Vamos conversar sobre o nosso mundo da (des)informação?

Fake news: afinal, o que são notícias falsas?

Notícias falsas sempre existiram, não é mesmo? Principalmente no ramo da política, onde não é novidade um candidato plantar uma informação sobre seu adversário para que ele perca votos ou que boatos sobre a vida privada dessas figuras sejam espalhados. Historicamente, diversas fake news foram disseminadas com determinados objetivos. Mas fiquem tranquilos, não estamos deduzindo isso: tiramos essa informação de uma entrevista do historiador Robert Darnton para a Folha de São Paulo.

O historiador Robert Darnton, que é professor emérito da Universidade Harvard , conta que as notícias falsas são relatadas pelo menos desde a Idade Antiga, do século 6: “Procópio foi um historiador bizantino do século 6 famoso por escrever a história do império de Justiniano. Mas ele também escreveu um texto secreto, chamado “Anekdota”, e ali ele espalhou “fake news”, arruinando completamente a reputação do imperador Justiniano e de outros. Era bem similar ao que aconteceu na campanha eleitoral americana”, diz Robert Darnton ao jornal Folha de São Paulo. Leia a entrevista completa aqui!

Notícias que aparentam ser verdadeiras, que em algum grau poderiam ser verdade ou que remontam situações para tentar se mostrar confiáveis: isso são as fake news que vemos atualmente. Por isso há de ser ter cuidado: as notícias falsas não são apenas aquelas extremamente irônicas, que têm o intuito de serem engraçadas e provocar o leitor. As notícias falsas atualmente buscam disseminar boatos e inverdades com informações que não estão 100% corretas sobre pessoas, partidos políticos, países, políticas públicas… Elas não vão aparentar ser mentira, ainda mais se nós acreditamos que elas podem ser verdadeiras – mas não são.

Isso se deve também a um fenômeno contemporâneo presente no mundo: a pós-verdade. Vamos entendê-la?

Pós-verdade: o que tem a ver com as notícias falsas?

Pós-verdade foi eleita a palavra do ano em 2016 pelo Dicionário Oxford. De acordo com o Dicionário Oxford, pós-verdade é: um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”. Um mundo com a pós-verdade é uma realidade em que acreditar, ter crença e fé de que algo é verdade é mais importante do que isso ser um fato realmente.

A explicação da palavra pós-verdade de acordo com o Oxford é de que o composto do prefixo “pós” não se refere apenas ao tempo seguinte a alguma situação ou evento – como pós-guerra, por exemplo –, mas sim a “pertencer a um momento em que o conceito específico se tornou irrelevante ou não é mais importante”. Neste caso, a verdade. Portanto, pós-verdade se refere ao momento em que a verdade já não é mais importante como já foi.

O termo pós-verdade já existe desde a última década, mas as avaliações do Dicionário Oxford perceberam um pico de uso da palavra exatamente no ano de 2016, no contexto do referendo de saída do Reino Unido da União Europeia – o Brexit – e das eleições estadunidenses. Além disso, é bastante usado com o termo política depois, então, pós-verdade política. Seu uso foi destacado durante esses eventos pois diversas notícias falsas foram publicadas em sites na internet, em páginas de Facebook, vídeos no Youtube e o público as absorveu como verdadeiras exatamente porque gostariam que fossem verdadeiras.

pós-verdade

Qual é o real impacto das notícias falsas no mundo e na política?

Dois acontecimentos que tiveram relevância internacional em 2016 foram o Brexit – saída do Reino Unido da União Europeia – e as eleições presidenciais estadunidenses. Além de serem os principais motivos do crescente uso da palavra pós-verdade, também foram onde o próprio fenômeno das notícias falsas foi muito intenso.

Em se tratando de política e da polarização ideológica generalizada, as notícias falsas foram usadas para causar tumulto e reforçar posicionamentos – ou mesmo, acentuá-los. No caso do Brexit e das eleições, os nervos estavam ainda mais à flor da pele por serem assuntos determinantes ao futuro daqueles países.

Há de se considerar também que as redes sociais e seus algoritmos formam bolhas sociais – e também ideológicas. Esses algoritmos reúnem no seu painel de notícias do Facebook, por exemplo, as pessoas com que você mais interage e os assuntos mais pertinentes ao que você publica ou curte, assim como notícias, reportagens, vídeos e histórias sobre posicionamentos que você já endossa, também politicamente. O algoritmo, portanto, não dá lugar ao contraditório. A sua visão de mundo é confirmada repetidamente e, se um amigo seu compartilha uma “notícia”, mesmo que falsa, você pode acreditar. Esse fenômeno une a notícia falsa à pós-verdade e foi um episódio recorrente no Reino Unido e nos Estados Unidos em 2016.

Em 2016, 33 das 50 notícias falsas mais disseminadas no Facebook eram sobre a política nos Estados Unidos, muitas delas envolvendo as eleições e os candidatos à presidência. Durante a campanha presidencial, notícias falsas foram espalhadas sobre os dois candidatos: o republicano Donald Trump – depois eleito – e a democrata Hillary Clinton. No monitoramento de 115 notícias falsas pró-Trump e 41 pró-Hillary, os economistas Hunt Allcott e Matthew Gentzkow concluíram que as postagens pró-Trump foram compartilhadas 30 milhões de vezes, enquanto as pró-­Hillary 8 milhões.

Sobre Trump, a “notícia” de que o Papa Francisco havia apoiado sua candidatura e lançado um memorando a respeito foi a segunda maior notícia falsa sobre política mais republicada, comentada e a qual as pessoas reagiram no Facebook em 2016. Outra notícia falsa,  diretamente relacionada com Trump, afirmava que ele oferecia uma passagem de ida à África e ao México para quem queria sair dos Estados Unidos – a postagem obteve 802 mil interações no Facebook. Quando à Hillary Clinton, uma notícia falsa com alta interação no Facebook – 567 mil – foi de que um agente do FBI (órgão de investigação federal) que trabalhava no caso do vazamento de e-mails da candidata foi supostamente achado morto por causa de um possível suicídio.

Quanto ao Brexit, houve diversas informações truncadas disseminadas pela campanha Vote Leave – em tradução livre, “vote para sair” – para a saída do Reino Unido da União Europeia. As questões envolviam principalmente as políticas de imigração da UE e questões econômicas. O jornal The Independent reporta que um dos líderes da campanha pelo Brexit afirmou que mais 5 milhões de imigrantes iriam ao Reino Unido até 2030 por conta de uma licença dada a 88 milhões de pessoas para viver e trabalhar lá – uma informação que não tem fundo de verdade. Um dos pôsteres da campanha clamava: “Turquia (população de 76 milhões) está entrando na UE” – quando, na verdade, o pedido de entrada na UE pela Turquia é antigo e não mostra sinal de evolução.

Para as eleições de 2018, não se acredita que as notícias falsas poderão de fato mudar o resultado da eleição, como discutido num evento da Revista ÉPOCA. Mas é claro que os boatos enfraquecem e distraem a população do assunto que realmente importa: os planos de governo, as ideias de políticas públicas, o modelo de gestão… Essa questão é tão latente que até órgãos de defesa do governo federal, como o Ministério da Defesa e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), junto ao Tribunal Superior Eleitoral, preparam uma força-tarefa para combater as notícias falsas no período eleitoral em 2018.

Qual o papel da imprensa com as notícias falsas no mundo da pós-verdade?

Podemos dizer que o jornalismo sempre foi o canal que disseminava as notícias e conteúdos às pessoas, seja a respeito da sua própria comunidade ou sobre o mundo. Hoje há, porém, um ruído na relação entre os jornalistas, os meios de comunicação tradicionais e o público. Em alguns casos, o público não quer mais ser informado por apenas o que uma emissora de TV, de rádio ou jornal impresso têm vontade de veicular. Em outros, acredita-se que a cobertura de situações é parcial e partidária para algum lado.

Desde a massificação da internet, mas principalmente das redes sociais, não há mais filtro entre a informação e o público. O público pôde se emancipar da necessidade em se conectar com veículos tradicionais de informação e, portanto, há quem se informe somente pelas redes sociais e nunca abra um jornal. Aí reside o problema: muitas vezes são disseminadas informações inexatas, exageradas ou erradas de alguma maneira. Isso traz à tona a importância da imprensa, que tem a formação jornalística necessária para o combate a notícias falsas, pois envolve apuração dos fatos, a checagem de informações e as entrevistas com diversas partes envolvidas numa situação (pluralidade de fontes).

Em um estudo da USP sobre as “Eleições 2018 – Perspectivas da comunicação organizacional”, conclui-se que metade das empresas brasileiras não acredita que a imprensa está preparada para a cobertura das eleições de 2018. Por outro lado, a metade que acredita na capacidade da imprensa de cobrir as eleições do ano que vem o faz porque enxerga competência e tradição da mídia brasileira nesse tipo de cobertura.

O jornalismo tradicional, portanto, pode e deve encontrar novos formatos de conteúdo, inovar em suas abordagens para manter a sua credibilidade perante o público que já tem e adquirir o público que ainda não tem – exatamente a população que nasceu em meio à internet e às redes sociais. É papel de imprensa utilizar suas ferramentas para combater a disseminação das notícias falsas e da pós-verdade. Um dos meios para isso é a checagem de fatos feita em agências, redações e coletivos de jornalismo, sobre a qual você pode ler aqui!

Vamos combater notícias falsas?

Para evitar um mundo que vive na pós-verdade, precisamos combater e prevenir a disseminação de notícias falsas. A pesquisadora Claire Wardle, em um artigo no First Draft News, acredita que para combater de fato as fake news precisamos entender três pilares:

  • Os diferentes tipos de conteúdos que estão sendo criados e compartilhados.
  • As motivações de quem cria esse conteúdo;
  • As maneiras com que esse conteúdo é disseminado.

Passaremos por cada um desses pontos para, então, compreender algumas dicas sobre como podemos combater as notícias falsas.

7 tipos de notícias falsas que podemos identificar

Para sanar o primeiro item é identificar que tipo de conteúdos estão sendo criados e compartilhados, a jornalista Claire Wandle criou uma lista de 7 tipos de notícias falsas que podemos identificar e combater nas redes:

  1.   Sátira ou paródia: sem intenção de causar mal, mas tem potencial de enganar;
  2.   Falsa conexão: quando manchetes, imagens ou legendas dão falsas dicas do que é o conteúdo realmente;
  3.   Conteúdo enganoso: uso enganoso de uma informação para usá-la contra um assunto ou uma pessoa;
  4.   Falso contexto: quando um conteúdo genuíno é compartilhado com um contexto falso;
  5.   Conteúdo impostor: quando fontes (pessoas, organizações, entidades) têm seus nomes usados, mas com afirmações que não são suas;
  6.   Conteúdo manipulado: quando uma informação ou ideia verdadeira é manipulada para enganar o público;
  7.   Conteúdo fabricado: feito do zero, é 100% falso e construído com intuito de desinformar o público e causar algum mal.

Poderíamos dar exemplos de cada um desses itens, mas vamos nos ater a comentar o primeiro, da sátira utilizada sem o intuito de mal informar. No Brasil, há o portal Sensacionalista, que é muito conhecido e famoso. Ele tem o slogan: um jornal isento de verdade. A frase é, por si só, ambígua: pode significar que o jornal é realmente isento, objetivo e imparcial ou que ele é isento em publicar verdade, ou seja, publica mentiras. Esse segundo entendimento é o correto.

O Sensacionalista produz notícias falsas como se fossem verdadeiras, mas com o objetivo de construir críticas sobre acontecimentos mundiais por meio da ironia e da sátira, não de desinformar as pessoas. Mas apesar de todos esses fatores, pode haver confusão e o público considerar o seu conteúdo verídico.

Por que notícias falsas são feitas?

Há diversos fatores para a criação de notícias falsas. Alguns deles são a descrença na imprensa e a utilização das fake news como um negócio, para atingir objetivos de interesse próprio. Em estudos sobre os motivos pelos quais são feitas as fake news, chegou-se ao seguinte resultado: os motivos podem ser um jornalismo mal-feito; paródias, provocações ou intenção de “pregar peças”; paixão; partidarismo; lucro; influência política e propaganda.

Quanto ao lucro, por exemplo, os estudos se referem às notícias falsas terem se tornado um negócio. Há realmente quem lucre com esse advento, com ferramentas de propaganda gratuitas e com as manchetes chamadas de “iscas de clique”. Foi o caso de um brasileiro que chegou a fazer 100 mil reais mensais de lucro com sites de notícias falsas, segundo um mapeamento da  Folha de São Paulo.

A respeito da veiculação desses conteúdos, podemos dizer que são disseminados principalmente pela internet, por meio de redes sociais, portais falsos de notícias e grupos de aplicativos de mensagem, amplificados até por jornalistas que passam informações truncadas às pessoas. Outras notícias falsas são disseminadas por grupos diversos – de política, de religião, de crenças variadas – que fazem comunidades, páginas de Facebook e sites para compartilhar suas crenças e (des)informar as pessoas de acordo com sua fé. Existem também outras maneiras mais sofisticadas, em que há uso de robôs e mecanismos da internet próprios para disseminar conteúdos falsos.

Dicas para verificar se uma notícia é ou não falsa

A Federação Internacional das Associações e Instituições de bibliotecária (IFLA) publicou dicas para ajudar as pessoas a identificarem notícias falas. Elas são:

  • Considere a fonte da informação: tente entender sua missão e propósito olhando para outras publicações do site;
  • Leia além do título: títulos chamam atenção, mas não contam a história completa;
  • Cheque os autores: verifique se eles realmente existem e são confiáveis;
  • Procure fontes de apoio: ache outras fontes que confirmem as notícias;
  • Cheque a data da publicação: veja se a história ainda é relevante e está atualizada;
  • Questione se é uma piada: o texto pode ser uma sátira;
  • Revise seus preconceitos: seus ideais podem estar afetando seu julgamento;
  • Consulte especialistas: procure uma confirmação de pessoas independentes com conhecimento;

Pronto, agora você entendeu o que é notícia falsa, de que maneira ela pode aparecer para você, os motivos pelos quais elas são feitas e ainda fazer um trabalho individual de checagem de informação para não repassar boatos por aí.

Referências

Historiador Robert Darnton – entrevista Folha de S. Paulo; “Fake news viraram um grande negócio” – Revista Época; Imprensa brasileira na cobertura das eleições de 2018 – Revista Época; O que são as fake news – Professor Doutor Diogo Rais (Mackenzie); Fake news: o novo espetáculo – João Pedro Piragibe, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura (Mackenzie); Blog Watch – Fake News Types; First draft news – Claire Wardle – 7 types of fake news; 6 tipos de fake news nas eleições dos EUA em 2016 – Claire Wardle – Columbia Journalism; O mundo das fake news – El País; Pós-verdade – Dicionário OxfordFact-check.org – Papa Francisco endossou Donald Trump?Estadão – TSE, Abin e Defesa combatem fake newsNew York Times – Como fake news se espalhamThe Guardian – Fake news ajudaram Trump a se eleger;  Buzzfeed News – Top Fake News 2016Relação Turquia e União Europeia – ExameO império da pós-verdade – Época;

Você acha que é possível as pessoas saírem da realidade da pós-verdade e realmente se importarem com a veracidade dos conteúdos que consomem? Deixe seu comentário!

Fonte: Politize! Escrito por Carla Mereles, estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), curadora do TEDxBlumenau e assessora de conteúdo do Politize.

Icnográfico POLITIZE Fake News

A tal “censura” à internet

Censura na internet

Foi aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, uma emenda na reforma política que exige das plataformas de redes sociais um papel mais responsável diante dos conteúdos publicados, e que gerou muita polêmica.

Antes de abrir uma explicação mais detalhada sobre a emenda, cabe uma breve análise do que aconteceu nas últimas eleições disputadas, depois que a internet tomou espaço como um dos principais palcos para o debate eleitoral.

O fenômeno mais recente ocorreu na eleição de Donald Trump, em que uma avalanche de notícias falsas foi disseminada em redes sociais, de forma que a confusão gerada na cabeça dos eleitores pode ter alterado o resultado eleitoral em favor do atual presidente.

A bagunça foi tamanha que o próprio fundador do Facebook, Mark Zuckberg, se manifestou há cerca de duas semanas sobre o tema. Em seu pronunciamento, mostrou grande preocupação com o mau uso da plataforma na eleição estadunidense e na francesa. Anunciou algumas medidas para contenção de problemas futuros e o comprometimento da plataforma com as instituições que investigam a influência russa na eleição americana.

No Brasil não é muito diferente. Desde a campanha de Gilberto Kassab, em 2008, para a prefeitura de São Paulo, convivi em todas em que trabalhei com a disseminação de boatos ou material ofensivo na internet.

Primeiro no Orkut, depois por meio de blogs e e-mails, mais recentemente, pelo Facebook, Youtube e Whatsapp. O conteúdo das mensagens costuma variar entre sátiras, memes, dublagens e, até mesmo, notícias falsas.

A internet não inventou a guerrilha, apenas ampliou o alcance. Quando estamos em período eleitoral, os eleitores são bombardeados por publicações feitas por grupos especializados, de todos os tipos, buscando influenciar a escolha para determinado candidato.

O que acontece quando um candidato sofre com o jogo sujo do adversário? Ele precisa entrar com uma ação na justiça para que ela peça ao Facebook, ao Google ou outra ferramenta, a remoção do conteúdo. Na teoria funciona. Mas, a verdade é que boa parte das ações contra agressores não são julgadas a tempo e, com isso, o processo eleitoral é prejudicado de maneira irreparável.

Além disso, muitas vezes, após todo o trâmite do processo, descobre-se que o Facebook não tem como identificar a autoria dos ataques, por tratar-se de publicações feitas por perfis falsos, com fotos roubadas de outros usuários e ferramentas que dificultam a localização dos autores.

Quem perde com isso? O candidato? Claro que sim, mas também perde o eleitor, que é o principal prejudicado pela manipulação do resultado eleitoral.

A emenda, vetada do presidente Michel Temer, colocaria equilíbrio no uso de redes sociais para finalidade política.

O texto dizia que, em caso de uma publicação com conteúdo ofensivo ou mentiroso, qualquer cidadão poderia reportar a ferramenta para que ela fazesse a identificação do autor. A identificação não seria pública, mas apenas garantiria que o conteúdo tem autoria real, não sendo fruto de perfil falso.

A publicação ficaria suspensa até a identificação do autor, que caso não ocorresse, continuaria suspensa. Uma vez a autoria da publicação realizada, o autor não deveria mais ter publicações suspensas.

Essa medida seria um tiro no coração da guerrilha virtual. Inviabilizaria o uso de robôs e de perfis falsos para esparramar boatos e notícias falsas em 2018.

A preocupação dos usuários com a censura não é justificada, pois o conteúdo só seria suspenso em caso de não confirmação de autoria, que poderia ocorrer por meio do envio de uma simples foto do documento para a plataforma que hospeda a publicação.

A própria Constituição Federal garante a liberdade de expressão, mas veda o anonimato. Diante da repercussão negativa gerada, pela compreensão equivocada da emenda, o próprio deputado pediu o veto ao presidente, o que nos jogou novamente no meio da guerra digital de robôs, páginas e perfis falsos.

Infelizmente, uma medida que nos afastaria de ter uma eleição mais equilibrada, com menos notícias falsas e manipulação, foi derrotada pelo senso comum.

Por Marcelo Vitorino :: Artigo publicado no Correio Braziliense.

Para que servem os partidos políticos?

Política brasileira

O Brasil vive um momento político bastante intenso desde meados de 2013. Com a saída da população às ruas para protestar, a falta de pauta e de direcionamento nas demandas fez com que os movimentos perdessem força.

Entre 2014 e 2015, novas ondas de protestos tomaram as ruas do país e, novamente, a grande quantidade de demandas – o fim da corrupção, o impeachment da Presidente, prisão do ex-presidente, intervenção militar, etc -, e a ausência de um centro articulador tem as manifestações confusas do ponto de vista prático.

Apesar das informações acima, existe um ponto em comum entre todas as manifestações: os gritos de que os partidos não representam os cidadãos. Mas seria tal informação verdadeira?

Por que os partidos são importantes?

Vamos ver o que diz a Carta Magna brasileira, a Constituição Federal de 1988. Encontramos escrito em seu Artigo 1º, Parágrafo Único que ‘’Todo poder emana do povo que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição’’.

Logo, verificamos que, do ponto de vista jurídico, a própria Constituição determina que o Brasil terá uma democracia representativa, cabendo ao povo exercer sua soberania ao escolher seus representantes e, em alguns casos, decidir de forma direta sobre os rumos da produção legislativa e da formulação e execução das políticas públicas.

Veja também: afinal, porque não nos sentimos representados pelos partidos políticos?

O que dizem os cientistas políticos?

Nesse sentido é que diversos cientistas políticos, desde meados do século XVIII, trataram de conceituar os partidos políticos a fim de compreender sua importância no processo político dos países. Edmund Burke foi o precursor no desenvolvimento de um conceito dos partidos políticos. Ele chegou a dizer, em 1770, que os partidos eram uma espécie de corpo de pessoas unidas para promover o interesse nacional.

Já no século XIX, Benjamin Constant conceitou partidos políticos como sendo uma reunião de homens que professam a mesma doutrina política.  No século XX, diversos autores como Max Weber, Nawiasky, Kelsen, Goguel, Burdeau e tantos outros criaram teorias que, respeitadas as devidas diferenças, conceituavam partidos políticos são a união de pessoas, da sociedade; são a formação de grupos com ideais políticos semelhantes, organizados, que visam participar da vida política, dando forma e eficácia a um determinado poder.

Logo, podemos extrair dos escritos acima que os partidos políticos consistem, desde o princípio de sua formação, em um instrumento de representação da vontade de determinados grupos da sociedade. Exemplo disso é a atual existência de 32 partidos políticos no Brasil, cujas legendas representam os mais diversos grupos da sociedade brasileira.

Razões pelas quais verificamos que, por mais que o povo brasileiro não se sinta representado pelos partidos, sua existência ainda é indispensável para a manutenção do sistema representativo em que vivemos. É preciso ter em mente que os partidos canalizam as demandas sociais, criando pautas a fim de traduzir a vontade pública em leis e políticas públicas.

Sem os partidos políticos, o atual sistema beiraria o caos social, fazendo com que não houvesse canais de diálogo entre demandantes e demandados, tornando impossível a condução da política, uma vez que seria praticamente impossível haver consenso entre todos.

Resumindo

Os partidos políticos são importantes pois:

  1. Representam a população;
  2. São instrumento de articulação entre as pautas da sociedade e dos governantes;
  3. Traduzem a preferência da população em políticas públicas;
  4. Canalizam a vontade do povo, afastando o caos da vida das pessoas.

Ok, na teoria já deu para entender por que os partidos são importantes. Mas, na prática, por que não nos sentimos representados? Leia esse texto para ter algumas respostas!

Fonte: Politize! Escrito por Alexandre Lins Batista, membro da Associação Brasileira de Ciência Política, Acadêmico e Pesquisador em Ciência Política na Uninter.

Curso de Pós-graduação “A Esquerda no Século XXI”

Pós-graduação "A Esquerda no Século XXI"

Depois de mais de uma década de ofensiva e crescimento de diferentes experiências de esquerda na América Latina, num momento de crise ou refluxo, se faz necessário iniciar um processo de sistematização, avaliação e atualização de teorias e práticas. Para isso, a Pós-Graduação “A Esquerda no Século XXI” objetiva mobilizar grandes referências teóricas e lideranças políticas de esquerda do Brasil e da América Latina para compartilhar conhecimento e aprofundar a reflexão sobre o futuro da esquerda no século XXI.

Objetivos desta pós-graduação

  • proporcionar uma formação política e ideológica, qualificada e aprofundada, para lideranças políticas e sociais de esquerda da região sul e do Brasil;
  • proporcionar um espaço coletivo de reflexão e articulação de redes de lideranças que compartilham saberes e reflexões possibilitando atuações articuladas;
  • preparar-se para um enfrentamento político e ideológico futuro e permanente no campo de esquerda;
  • realizar a formação de forma institucional na modalidade de pós-graduação, certificada oficialmente por uma instituição de ensino superior;

O Curso de Pós-Graduação “A Esquerda no Século XXI” foi idealizado e articulado pelo professor e deputado federal Pedro Uczai por conta de sua trajetória e engajamento com as lutas da educação e da esquerda e a preocupação com a formação de lideranças que atuam diária e diretamente com o povo.

O Instituto Dom José Gomes, entidade criada para dar seguimento ao legado desse grande educador, Bispo Dom José Gomes (in memoriam), líder religioso e defensor dos pobres e oprimidos, adotou essa proposta e tornou-se o organizador e promotor deste projeto. A partir de então, buscou estabelecer parcerias institucionais com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e a Fundação Perseu Abramo (FPA), dentre outras instituições.

O projeto de pós-graduação “A Esquerda no Século XXI” está com as pré-inscrições abertas. O lançamento oficial com aula inaugural acontecerá no dia 14 de julho de 2017 (sexta-feira), às 19h, no Lang Palace Hotel em Chapecó (SC), com uma palestra do professor Emir Sader, do departamento de Sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ex-coordenador do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), sociólogo, pesquisador, teórico e escritor de várias obras sobre a esquerda no Brasil e América Latina.

Inscrições

As pré-inscrições devem ser realizadas por meio da Ficha em anexo e encaminhada para o e-mail: institutodomjose@gmail.com, sendo a mesma confirmada por meio do contrato de prestação de serviços individual na data da aula inaugural, no dia 14 de julho de 2017. Maiores informações pelo telefone 49 9 9950-1314.

 

Os pilares da comunicação política e a internet

Comunicação política e a internet

Considero que há cinco grandes pilares para que a comunicação de mandato tenha sucesso:

  1. Informação
  2. Presença e exposição
  3. Relacionamento
  4. Reputação
  5. Pesquisa e desenvolvimento

1. Informação

O primeiro pilar, a informação, é o que define as bases para as estratégias que serão utilizadas. Reúne-se informações de todos os públicos de interesse, os temas que serão abordados e evitados durante o mandato, as palavras e termos compostos mais utilizados relacionados aos temas, os pontos de atenção, os canais que serão ativados e os políticos “concorrentes”.

Munido das informações corretas, é possível planejar, produzir e aproveitar melhor as oportunidades que surgem do dia a dia. O político falará sobre uma pauta? Pode saber o que os influenciadores dizem a respeito, escolher os melhores termos para se posicionar e, depois do posicionamento, fazer a disseminação da mensagem para os públicos de interesse previamente definidos.

2. Presença e exposição

Em seguida há o pilar da presença e exposição, tratando de como o mandato será exposto ao seu público, que é um dos pontos mais fracos da maioria dos políticos brasileiros. Com a febre do Facebook, grande parte entendeu que só essa presença é necessária, excluindo um universo de possibilidades e restringindo o alcance do conteúdo.

Dentro dessa “caixinha” há os canais próprios, como o site ou blog do político; as demais redes sociais, o que inclui o YouTube (bastante subutilizado); canais paralelos, que podem ser portais temáticos ou regionais; comunicadores instantâneos, como um WhatsApp para o mandato; e eventos presenciais e virtuais.

3. Relacionamento

Outro pilar importante é o do relacionamento. Dado o caráter do imediatismo e da dispersão de atenção dos usuários graças a grande quantidade de conteúdos publicados, as redes sociais não são suficientes para estabelecer relacionamento com eleitores, mas demandam que se faça o que chamamos de gestão de respostas, respondendo aos questionamentos dos eleitores.

Contudo, há ainda a possibilidade do relacionamento se fazer presente por meio de proposição de enquetes sobre temas específicos; pela votação de eleitores sobre um projeto ou posicionamento; em transmissões ao vivo nas plataformas do YouTube e do Facebook; pela disseminação dos conteúdos via WhatsApp, em grupos de Facebook ou por e-mail; e por fim, com a utilização de técnicas de inbound marketing (coleta e nutrição de cadastros).

4. Reputação

Evidentemente, para que os eleitores prestem a atenção ou que encontrem o conteúdo é preciso obter reputação, o pilar que considero mais importante. A reputação neste caso se dá por dois aspectos: a propriedade do emissor da mensagem para posicionamento sobre um tema ou projeto; o entendimento dos mecanismos de busca como o Google a respeito dos canais do político. De forma simples: as pessoas e a tecnologia precisam considerar o político e seus canais como fontes seguras e confiáveis de informação.

Para construção da reputação primeiramente é preciso estabelecer objetivamente a “mensagem” que será vinculada ao político, bem como, a definição da “persona” pública. Com esses dois elementos definidos, parte-se para a produção de conteúdo, independentemente do formato, se texto, vídeo ou foto. Em comunicação, qualquer atividade é um conteúdo.

Cabe inclusive um alerta aos profissionais e políticos: basta uma foto mal pensada ou uma frase mal colocada, para uma reputação ser devastada. A máxima do “menos ser mais” também não se aplica. Deve-se divulgar sempre conteúdos que ajudem na construção de uma marca. Se tem uma equipe profissional e uma atividade que permita fazer muitas divulgações, ótimo.

No aspecto da construção de reputação digital, muita gente reduz o significado e a importância dessa atividade. Não basta apenas estar presente na primeira página do Google quando alguém digita seu nome, é preciso também estar presente quando alguém procura por sua atividade ou por seus projetos. Pode fazer o teste comigo, pode procurar por “Marcelo Vitorino”, “curso de marketing político” ou “palestrante de marketing digital”. Vai me achar na primeira página, variando o posicionamento.

Esse tipo de resultado não é fácil de conquistar, leva meses e requer muito trabalho na produção de conteúdos, como esse aqui que você está lendo, e também na correta publicação dos textos, tarefa que consome muito tempo e exige técnica.

5. Pesquisa

pesquisa e desenvolvimento, é o quinto pilar, baseado no marketing tradicional, que estrutura benchmark, promove ações, mensura resultados e altera a estratégia caso necessário.

Agrega-se aos dados obtidos pela “informação”, uma espécie de fotografia do momento que o trabalho se inicia, para ser comparada ao longo dos meses para ver o que funcionou e o que pode ser aprimorado.

O monitoramento de menções em redes sociais perdeu muito do valor depois que o Facebook cortou a possibilidade de ferramentas monitorar os usuários. Hoje é mais produtivo monitorar as próprias ações e as pautas de interesse para aproveitar as oportunidades.

Para finalizar, todos os pilares só funcionam bem se tiver profissionais qualificados e visão de investimento, entendendo que a comunicação política é muito mais do que uma foto com frase motivacional. Na urna é o voto que conta, não o like!

Por Marcelo Vitorino, Professor na ESPM e consultor de comunicação e marketing digital, Marcelo Vitorino reúne experiência no marketing corporativo, eleitoral, institucional e político. Fonte: Acesse este link!

O silêncio dos culpados

O silêncio dos culpados, por Cadu - Carlos Eduardo de Souza

Sim! Aquela hora que você olha para os lados e vê um monte de gente silenciosa. O silencio dos culpados é compreensível apesar de desonesto! Não há o que dizer quando tudo o que foi defendido ou o que foi acusado por estes cai por terra…

O rei fica nú e o espanto se transforma em silêncio.

O governo Temer do PMDB e aliados é uma fraude sem tamanho, um bando de incompetentes que sabem pouco de Brasil e conhecem muito de traficância. Com o golpe na democracia e a derrubada de Dilma (e não adianta justificar que o problema daqui para frente é a herança) as coisas pioraram e muito e a Nau está completamente desgovernada.

Combustíveis sobem, inflação sobe, preço das passagens sobem, idade para se aposentar sobe, os direitos dos trabalhadores diminuem, a dilapidação do patrimônio brasileiro aumenta, a soberania diminui, as políticas sociais são atingidas em cheio, a violência sobe, o desemprego sobe, os ministros caem por escândalos de corrupção, a corrupção aumenta, as investigações diminuem, a sonegação aumenta, os grandes devedores são anistiados, os impostos para os trabalhadores aumentam e a lista de coisas ruins também tendem aumentar. E tudo isso num curto espaço de tempo.

Temer está aí para radicalizar e aprofundar a agenda neoliberal. Defensor da Casa-Grande ele está aí e fará de tudo para que o andar debaixo pague sempre pelo andar de cima. Mais uma vez o embuste da luta contra a corrupção se tornou a grande muralha dos hipócritas e corruptos.

A corrupção que atinge todos os países do Globo terrestre, todos os partidos, todas as instituições, em maior ou menor grau e que deve ser extirpada da cultura de um povo, das empresas privadas, dos setores públicos e do cotidiano das pessoas foi o pano de fundo para caçar um partido, a democracia e uma presidenta eleita pelo seu povo. O modo como foi feito daria inveja a Joseph Goebbels, Ministro da propaganda de Hitler.

Como verdadeiras hienas, seis famílias que comandam 70% da grande imprensa brasileira, com características bem definidas de entreguistas e colonizadas,  buscaram a oportunidade que o agravamento de uma crise econômica criou, para desconstruir a mais robusta experiência da esquerda brasileira nos últimos tempos.

Contaram com a ajuda dos equívocos (tentado acertar) de um governo acuado e de instituições acovardadas, que jamais ousaram romper com o “status quo” do Brasil da Casa-Grande e Senzala.

Acompanhados pelos abutres do legislativo, na esteira do fisiologismo puro, representantes dos latifundiários, do capital financeiro nacional e internacional, do grande empresariado, juntamente a um Judiciário com pompas e privilégios “monárquicos” sedentos de poder, corporativista, com seus super salários, verdadeiro acinte e demonstração de corrupção legalizada, num país de tamanha injustiça, todos estes, covardemente ofenderam, humilharam e defenestraram uma política e uma mulher respeitada…

Num país de pretensa maioria cristã não faltou quem lhe “apedrejasse”, apesar de todos os pecados possíveis que lhes acompanhavam.

Num país onde o patriarcado ainda exerce bastante influência, não faltou vozes masculinas e femininas que se juntaram para se utilizar de palavras com atributos indesejáveis a qualquer ser humano.

Num país criado pela violência autoritária não faltou quem não buscasse as origens fundadoras e encampassem o discurso de extermínio dos diferentes.

Num país de origem colonizada não faltou os que transmitissem todo complexo de vira-latas.

Por trás do golpe esteve a velha defesa intransigente da Terra, Família e Propriedade por uma pequena parcela de abastados, que localizam-se nas trincheiras da disputa pela hegemonia ideológica conservadora.

O pouco tempo da quebra dos padrões da política representativa brasileira, da ascensão de uma classe social, de uma política com diferentes prioridades e em defesa da soberania, foi o suficiente para que todo o ódio que esteve  pausado momentaneamente, por falta de legitimidade, agora viesse a tona.

Os defensores do Estado mínimo e sua verborragia escamoteada de “liberdade”, que tem na meritocracia um padrão a ser seguido (desde que seja pelos outros), ganhou um espaço considerável. Diminui consideravelmente os espaços representativos de governos e partidos populares.

O preço dessa diminuição recai em forma de suor, exaustão, fome, desespero e violência dos que são escravos do relógio.

Apesar de respeitar o silêncio de milhares… Gostaria de escutar os berros ensandecidos de muitos! Ainda há tempo.

Por Carlos Eduardo de Souza
Presidente do PT de Florianópolis