Lulaço pra cá, lulaço pra lá e a trilha sonora é sempre a mesma

Lulaço, a parada que pira o cabeção dos reacionários!

É todo dia um Lulaço tocando LULA LÁ diferente. Já teve em São Paulo, em Brasilia, no país inteiro. E, em tudo quanto é lugar, é quase sempre o mesmo trompetista que dá o tom. Fabiano Leitão é um homem com uma missão: tocar “Lula Lá” até o Brasil ficar Feliz de Novo. Clique aqui e baixe o Lulaço e use como ringtone em seu smartphone.

Como surgiu o Lulaço

Fabiano Leitão iniciou missão de tocar “Lula Lá” até o Brasil ficar Feliz de Novo. Tá aí um brasileiro que precisa ser estudado mesmo, porque esses Lulaços crescem ao mesmo tempo em que Lula cresce nas pesquisas.

As pessoas que estavam ressabiadas com as denúncias e os ataques ao partido dos últimos anos, com o tempo, perceberam que era tudo farsa. Existe muita vontade de acreditar de novo na política e em quem fez tanto pelo país, disse Fabiano, cheio de humildade

Seria nosso trompetista o responsável por esse aumento de popularidade de Lula e do PT? 🤔🤔🤔

Bom, 2018 tá tão dedo na urna e gritaria que a gente não duvida mais de nada. Mas, enquanto Fabiano não elege o Lula e faz o Brasil Feliz de Novo, ele se contenta em fazer a imprensa golpista triste. E isso já é bem maneiro.

Aliás, a ideia dele de protestar com o trompete, que ele toca desde os 14 anos, surgiu quando Lula foi preso, em abril deste ano. Ele quis trollar uma transmissão ao vivo da TV Globo, que acontecia em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), gritando “mídia golpista”, mas os seguranças do STF não gostaram muito da ideia e foram pra cima dele dando porrada. Daí, ele resolveu zoar de longe.

A primeira vez que trollei com o trompete, estava a uns 150 metros da repórter, seguro à distância. O som foi ouvido no Jornal da Globo

Desde então, ele contabiliza oito intervenções em transmissões do jornalismo global e duas em noticiários da TV Record. Pra você que tá em dúvida sobre o que veio primeiro: o trompetista é, antes de tudo, um petista.

Só fiquei bravo com o Lula uma vez, aos dez anos, em 1989. Perdi a final do Brasileirão e não vi meu Vasco vencer, porque minha mãe quis ir até o aeroporto recepcionar o Lula na mesma hora do jogo.

Fabiano gosta de longas caminhadas na praia e banhos em espelhos d’água em prédios do governo. Ou, pelo menos, foi assim que ele chegou mais perto de Lula: quando uma galera resolveu tomar banho no espelho d’água do Palácio do Planalto.

Eu era um daquelas pessoas

Se não viu Lula de perto, foi ouvido por ele. Várias vezes. Fabiano já esteve várias vezes próximo da sede da Polícia Federal, onde Lula está sendo mantido como preso político, nos acampamentos montados para apoiar o presidente.

Toco várias músicas para alegrar ele. O hino do Corinthians, do Vasco – ele também é vascaíno –, músicas do Chico Buarque como Olê, Olá, jingles de campanhas dele. No dia dos pais, toquei Naquela Mesa, que é uma música de amor de um filho para o pai.

Hoje ele tá mais na pira dos Lulaços.

É maravilhoso chegar em um lugar, como aconteceu em Porto Alegre, por exemplo. Não achava que teria muita gente, mas, de repente, as pessoas começam a chegar de todos os cantos e a sensação é indescritível

Mas, também, quem não tá nessa, né? Pensa bem: é basicamente um monte de gente em espaço público cantando “Lula Lá”. É o verdadeiro rolezinho da democracia. Venha no próximo! Deixa de “vamo marcar”. Já tá marcado!

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Evangelho e responsabilidade

Evangelho e responsabilidade

Numa sociedade dividida, como se vive a vocação cristã? Que vocação é essa?

Onde a honra a Deus é comprada com a desonra do humano, aí, na verdade, o nome de Deus é desonrado
Paul Tillich, Humanität und Religion, 1958

Deus encarnou em Jesus para que, quem nele crê, compreenda, pela fé, sua identificação e seu compromisso com a vida das pessoas que carecem e desejam um Deus presente e próximo. Em sua vida e ministério, Jesus se viu inserido numa religião que possuía centenas de leis e regras que procuravam orientar a vida das pessoas. Todas essas leis surgiram em contextos específicos, com o objetivo de balizar a convivência em sociedade e a sua relação com o Deus em que depositavam sua fé. Algumas dessas leis foram endossadas por Jesus, mas aquelas leis que, essencialmente, não contribuíam para que o amor a Deus estivesse em primeiro lugar e que impediam que a misericórdia divina ficasse, cristalinamente, visível e sensível, foram revogadas pelo Filho de Deus. São exemplos de leis revogadas: as que inibiam ações de misericórdia ou o saciar as necessidades do corpo no dia de descanso; leis de vingança como olho por olho, dente por dente; e a pena de morte para situações de adultério.

Jesus revogou antigas leis e, sob o espírito de uma nova aliança, resumiu-as em apenas duas: amar a Deus acima de tudo e amar ao próximo como a si mesmas/os (Mc 12.28-34; Mt 22.34-40). E para que se pudesse reconhecer o próximo, Jesus usou de parábolas e deixou muitos exemplos que evidenciam que “próximo” é a pessoa que carece de nossa misericórdia e cuja ajuda está ao nosso alcance (Lc 10.26-37). Essa atitude de Jesus não foi apenas um posicionamento religioso, mas profético e político, no sentido que tomou partido das pessoas mais pobres, oprimidas e discriminadas pelos sistemas de poder político, econômico, social que também tinham (e têm) suas extensões no âmbito religioso.

Não há como ficarmos distantes das lutas políticas de nosso tempo. Como escrevem Dietrich Bonhoeffer e Franz Hildelbrandt, “por mais que o cristão queira permanecer distante da luta política, mesmo aqui, porém, o mandamento do amor o impele a tomar uma posição em favor de seu próximo. A sua fé e seu amor devem saber se os ditames do Estado poderão levá-lo a ir contra a sua consciência” (Catecismo Luterano, 1931). A liberdade e a consciência cidadã constituem, pois, um bem inalienável, mas elas somente se tornam efetivas e atuais na esfera política.

Sabemos que é parte da nossa vocação ao ministério na missão de Deus o envio “como ovelhas para o meio de lobos” (Mt 10.16ss) e que devemos estar prontas e prontos para sermos odiadas e odiados por causa do nome de Cristo (Mc 13.13). Ainda nesse sentido, concordamos com Martim Lutero de que somos pessoas simultaneamente justas (porque Deus nos justifica através do que Cristo fez por nós) e pecadoras (sempre dependentes da misericórdia e do perdão de Deus). Por isso, diante das pressões que nunca cessam, é preciso distinguir os gritos que clamam por socorro dos gritos de quem não se condói ou comove com a dor daquelas e daqueles aos quais Jesus nomeou pequeninas e pequeninos.

Embora em toda parte e em todos os tempos sempre tenha havido disputas por poder, vivemos tempos em que estas têm se revelado mais acirradas que nunca – consequência do uso para o mal dado à tecnologia colocada à nossa disposição para comunicar e aproximar. Infelizmente, deixamos que vozes, antes não ouvidas com tanta facilidade, entrem em nossas casas, em nossas relações com nossos semelhantes e nas nossas comunidades de fé, gritando insultos, calúnias e ameaças, inclusive de morte, promovendo discórdia, torcendo a verdade e a essência do objetivo cristão – a saber, favorecer a expansão do Reino de Deus, delimitado pelas experiências de “ágape” – e tornando-nos personagens da mais moderna experiência de Babel. Essas vozes têm se mostrado ardis e revelado alguma eficácia em seus esforços para abafar o Espírito de Pentecostes que, inibido de “soprar onde quer”, deixa exposta, no âmbito da Igreja de Cristo, uma dificuldade para discernir os espíritos que agem nesse mundo (1 Jo 4.1-6).

Temos sido testemunhas e ouvintes de vozes carregadas de ódio e que, sob a pretensão de invocarem luz, espalham trevas para a vida em comunidade e na sociedade. São ataques inconsequentes e irresponsáveis à vida, à credibilidade e à integridade física e moral de pessoas como a pastora Lusmarina Campos Garcia e o pastor Inácio Lemke, atacados por atenderem ao chamado à prática da misericórdia em favor de pessoas em situações de extrema vulnerabilidade. O aumento crescente da violência contra as pessoas mais à margem de projetos de poder vigentes em nosso contexto e em diferentes partes do mundo, bem como contra as pessoas comprometidas com os direitos das mais fragilizadas por diversas razões, revela o quão afastadas e afastados estamos da experiência plena do Reino de Deus anunciado por Jesus há dois milênios. A Igreja precisa se colocar a serviço de Deus e apoiar profetas e profetizas que resgatam a vontade divina de maneira concreta, sobretudo quando buscam promover justiça a quem dela vem sendo privada, por qualquer que seja a razão.

Queremos uma Igreja em que pronunciamentos ou exortações, quando necessários para dar respostas a uma sociedade marcada por novos desafios, não se orientem simplesmente pelo senso comum, por costumes ou quaisquer outros interesses que não sejam reforçar a necessidade da inclusividade da diversa criação de Deus e do acolhimento amoroso e misericordioso oferecido por Jesus.

Dos exemplos e ensinamentos de Jesus, aprendemos muitas coisas, segundo as quais, especialmente, ministras e ministros da Igreja devem se orientar. No cerne de tudo, vemos o fato de que Jesus não queria pessoas marginalizadas em função de sua condição social, legal, religiosa ou de saúde. E os testemunhos presentes nas narrativas evangélicas revelam que ele assumiu esse compromisso até as últimas consequências. É por meio do exemplo de Jesus, como registrado nas narrativas evangélicas, que possuímos a ciência de que, no Reino de Deus, sinônimo de poder é serviço, e que qualquer autoridade decorre de condutas coerentes, à parte das quais perdem sua legitimidade. Lutero reforçou esse entendimento ao definir boas obras como aquelas que procedem de Deus e apontam para Deus. Pessoas ou grupos que buscam holofotes voltados sobre si não apontam para Deus e, precisamente por isto, não merecem crédito.

As respostas religiosas e teológicas às grandes questões contemporâneas têm sido tímidas ou insuficientes. Em que se pese o fato de nos pronunciarmos, aqui, a partir de um contexto bastante particular, parece-nos, todavia, que a teologia ainda se encontra circunscrita a um universo separado, dissociada das vivências comunitárias concretas. Esta distância entre teologia acadêmica e Igreja, ainda que faça parte do caráter, por vezes, mais abstrato do saber teológico, termina contribuindo para que os grandes problemas que afetam a humanidade não recebam a atenção teológica devida. “As religiões e, dentro delas, as teologias se tornaram, na maioria das vezes, expressões de controle e dominação quando justificaram suas verdades para além da experiência humana, para além da história, para além do poder e do amor que nos habitam” (Ivone Gebara). A lacuna entre teologia acadêmica e Igreja, ainda que não possa ser plenamente preenchida, precisa ser diminuída. Somente assim o saber teológico poderá superar o risco da completa abstração e a vivência comunitária poderá ser informada e iluminada por uma teologia verdadeiramente encarnada.

Urge retomar, portanto, uma nova concepção teológica. Nós defendemos uma teologia encarnada que considere a simultaneidade de experiências de sofrimento, pobreza e exclusão, por um lado, e de movimentos libertários, de resistência e de transformação social através de comprometimentos sócio-político-culturais, por outro. As experiências são constitutivas de nossa identidade – seja como cidadãs e cidadãos, seja como pertencentes a uma confissão religiosa determinada. As experiências são sempre circunstanciais, localizadas e contextualizadas. Elas são, portanto, experiências sempre e invariavelmente históricas e necessariamente políticas.

Em função da ausência de uma pedagogia religiosa e teológica academicamente dialógica e inclusiva, temos visto crescer nos âmbitos do parlamento brasileiro fundamentalismos patológicos que atingem níveis de histeria e perversão; fundamentalismos que buscam impor seus valores, “verdades religiosas” e concepções do sagrado – sempre bastante restritas e exclusivistas – como únicas e imutáveis. Essa visão de mundo fundamentalista, que alcança representatividade em diferentes bancadas no parlamento brasileiro, termina por interferir nas decisões políticas de Estado. Nossas concepções religiosas não deveriam influenciar, entretanto, a formação de projetos de leis e dispositivos legais para o Estado, tendo-se em vista que a Constituição Federal determina um Estado laico (art. 19) e é a única disposição normativa válida para todas as pessoas. É o caráter laico do Estado que assegura não apenas o direito de indivíduos e grupos sociais religiosos de manifestarem aberta e publicamente suas crenças e significações religiosas, mas também a própria liberdade de consciência.

Embora a laicidade do Estado esteja assegurada pela Constituição Federal, esta mesma laicidade não anula a liberdade religiosa. A Constituição Federal garante, por exemplo, a assistência religiosa aos que estão em regime de reclusão, sendo esta a vontade livre manifesta pela pessoa presa. O direito à assistência religiosa às pessoas encarceradas é assegurado tanto pela Constituição (art. 5º, inciso VII) quanto pelas Leis Federais nº. 7.210/1984 e nº. 9.982/2000, que tratam, respectivamente, da assistência religiosa, com liberdade de culto, às pessoas segregadas, e da prestação de assistência religiosa em estabelecimentos penais.

Ora, foram precisamente o mandamento constitucional e esses dispositivos legais que possibilitaram, em 23 de julho de 2018, a visita do pastor Inácio Lemke ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se encontra preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. Atendendo a um pedido expresso do ex-presidente Lula de receber visitas de um ou uma representante de alguma religião para lhe prestar assistência religiosa todas as segundas-feiras, o pastor Inácio Lemke, amigo do ex-presidente há mais de trinta anos, dirigiu-se à sede da Polícia Federal em Curitiba para, na condição de pastor e amigo, ouvir, dialogar e orar pelo ex-presidente. Para além dos mandamentos constitucionais e outros dispositivos legais, o Evangelho é claro que somos chamados a visitar as encarceradas e os encarcerados (Mt 25.36): “Estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão, e fostes ver-me”.

Enquanto membros, ministras e ministros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), entendemos que tal visita foi um ato de amor para com um aprisionado, cuja própria condenação encontra-se sob suspeita jurídica e já foi problematizada e criticada, inclusive, por organismos internacionais. Portanto, estranhamos que a IECLB, quando do ocorrido, em comunicado às ministras, aos ministros e às comunidades, não tenha manifestado uma palavra baseada no Evangelho, mas tenha abordado a celeuma gerada por este evento baseando-se tão-somente em termos jurídicos e doutrinários. Outrossim, causa-nos profundo incômodo o fato de não encontrarmos expressa uma linha sequer em defesa de seu pastor vice-presidente, sobretudo quando consideramos que lhe faltam pouco mais de quatro meses para sua jubilação em função dos longos anos de serviço dedicados à missão de Deus na Igreja. A longa trajetória vocacional do pastor Inácio Lemke conta com amplo reconhecimento nacional e internacional precisamente pelo comprometimento que sempre demonstrou com uma práxis evangélica verdadeiramente encarnada na realidade concreta do povo de Deus. Além disso, cabe-nos sublinhar que a visita prestada pelo pastor Inácio Lemke ao ex-presidente Lula não foi realizada, por um lado, em nome da IECLB ou do Sínodo que preside, ou em nome do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), por outro.

De igual forma, vemos com profunda tristeza uma manifestação pessoal do pastor Dr. Nestor Friedrich acerca do posicionamento da pastora Lusmarina Campos Garcia na audiência pública promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da proposta da descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Em tendo sido esse um manifesto pessoal, isto é, um manifesto do pastor Nestor Friedrich – que, a despeito disto, se encontra no exercício de sua função como presidente da Igreja –, postamo-nos, aqui, e na condição de membros, ministras e ministros da IECLB, de forma contrária à substância deste pronunciamento. Isso porque, ao contrário do posicionamento pessoal do pastor Nestor Friedrich, temos percebido que, nos últimos anos, a IECLB tem se revelado cada vez mais tímida no amparo às pessoas em sofrimento, sobretudo dos mais frágeis. Por outro lado, o aparato institucional da IECLB se mostra cada vez mais robusto em questões que dizem respeito ao sacerdócio e aos ritos litúrgicos. O chamado profético em favor do seu povo, entretanto, parece constituir preocupação, na melhor das hipóteses, apenas secundária.

A nota pública e pessoal do pastor Nestor Friedrich nos causa ainda mais espanto e tristeza quando nos damos conta que a pastora Lusmarina compareceu ao STF como representante do Instituto de Estudos da Religião (ISER), e não como representante da IECLB. Como disse a própria ministra Rosa Weber por ocasião do convite: “Convido a Reverenda Lusmarina Campos Garcia para fazer uso da palavra, representante que é do Instituto de Estudos da Religião”. Ou seja: a pastora Lusmarina, ainda que como pastora da IECLB, apenas exerceu seu compromisso como representante de um egrégio e já academicamente consolidado instituto de estudos, e não a função de representante da instituição na qual é pastora. Sua participação na audiência pública promovida pelo STF representa um exercício livre de cidadania e de posicionamento intelectual honesto diante da mais alta instância do poder judiciário brasileiro. Tal participação deveria ser motivo de orgulho para a IECLB, e não de censura. Afinal, assumir para si a responsabilidade de discorrer, enquanto cidadã, intelectual, teóloga e pastora, mas também como alguém graduada em direito, sobre um tema tão complexo, e que envolve várias áreas do saber acadêmico, não é tarefa fácil e demanda competência e maestria colossais. Essa tarefa foi executada com tamanho brilhantismo pela pastora Lusmarina que nos sentimos plenamente representadas e representados por ela: a IECLB não pode cercear sua voz sem correr o risco de ferir de morte as garantias individuais e cidadãs de seus membros, ministras e ministros.

Não obstante, como o próprio pastor Nestor atesta em sua nota, o tema “aborto” envolve dor, sofrimento, culpa, abandono. E, assim como a pastora Lusmarina Campos Garcia, toda mulher que luta por emancipação está ciente que deve encarar a realidade patriarcal dolorosa que a oprime, e isso também inclui as mulheres luteranas. Essa luta por emancipação deve ser travada ainda que o risco de uma marginalização precisamente por parte da instituição que deveria ser acolhedora não possa ser evadido. Afinal, as mulheres não são uma redoma, como as “mônadas sem janelas” de Leibniz, mas são como que um espelho da sociedade, com todas as suas virtudes e contradições. Em outras palavras: as mulheres sofrem o peso de uma herança patriarcal, pervasiva em todas as esferas da cultura, que reivindica para si a ingerência sobre seus corpos e decisões. Por outro lado, é necessário lembrar e enfatizar que boa parte da dor, da culpa e do abandono sofrido por mulheres que decidem interromper uma gestação é fruto da postura (ou da não postura) das Igrejas. Nesse sentido, a Igreja precisa estar atenta ao sofrimento de muitas mulheres que, em situações extremas, recorrem à interrupção da gestação e são criminalizadas por tal ato. Isso implica afirmar que a Igreja deveria postar-se como um baluarte na defesa da vida dessas mulheres que são relegadas à clandestinidade, e não como uma instância de reverberação de estruturas sociais opressoras.

Essa situação nos convida para uma interpretação profética dos tempos atuais, tomando o rigoroso conceito de “profetismo” como chave de leitura para uma análise da conjuntura socioeconômica, política e religiosa. Os profetas, com suas críticas e denúncias, ajudam-nos não somente a localizar a realidade no campo teológico, como também a analisar os problemas que o povo de Deus enfrenta em determinadas situações históricas. Esse exercício teológico-hermenêutico, sob o prisma do profetismo, possibilita-nos deslindar, uma vez assegurado o Reino de Deus enquanto critério ético e político último de normatividade, novos caminhos para a transformação da realidade.

Assim, com uma voz profética, ousamos perguntar: como não falar sobre o problema da descriminalização do aborto em um país que tem um alto número de mulheres que morrem em decorrência de procedimentos mal feitos? Como não levantar nossas vozes se a cada dois dias uma mulher morre em consequência de procedimentos não seguros para interromper uma gestação? Como nos silenciar quando a existência de uma “cultura do aborto” em nosso país, muito embora clandestina à restrição legal, é um fato social transmitido entre diferentes gerações (Debora Diniz; Marcelo Medeiros)? Como não falar em aborto na Igreja se as mulheres que abortam são casadas, já têm filhos e 88% se declaram católicas, evangélicas, protestantes e espíritas? Em outras palavras: como não assumir a temática do aborto como um problema a ser pensado também teologicamente quando as mulheres que recorrem ao aborto são participantes de comunidades religiosas, também das comunidades religiosas luteranas? É necessário que encaremos o problema de frente, de forma profética, e não com discursos religiosos apaziguadores e uma interpretação errônea de concepções de gênero que colocam a culpa nas mulheres por engravidar. O aborto não é uma prática contraceptiva, mas uma decisão em situação, via de regra, de desespero das mulheres em se verem sem condições de criar um novo ser com um mínimo de dignidade.

Ao propor que a prática sexual masculina seja reavaliada, temos que considerar que, em todos os estudos de gênero já realizados há mais de vinte anos no âmbito da Igreja, podemos notar com clareza que a questão não está em avaliar a prática sexual masculina para que assumam a responsabilidade pela vida que geram, mas em refletir sobre as masculinidades normativas e as estruturas de dominação social e patriarcal vigentes. É por esse motivo que precisamos, também neste contexto, de justiça de gênero. “O conceito de justiça de gênero é usado como um instrumento no processo de transversalizar e implementar a igualdade de gênero no contexto das organizações de fé e igrejas. Justiça de gênero é um conceito que tem seu fundamento na teologia, e desvela meandros importantes e desafiadores no contexto das igrejas, como por exemplo, o funcionamento e os mecanismos das relações de poder” (Elaine Neuenfeldt).

O pastor Nestor Friedrich, por fim, diz: “Lamento profundamente que, mais uma vez, a IECLB é envolvida numa polêmica que não condiz com seu jeito de ser Igreja”. Não entendemos este “mais uma vez” e nem qual é, a seu ver, o “jeito de ser Igreja”, pois decididamente não entendemos que ser Igreja signifique emitir notas pessoais rápidas, muito menos sem representar um pronunciamento conjunto com alguma mulher ou, ao menos, indicar alguma mulher que tenha participado da elaboração da nota. Em nosso entendimento, essa nota revela uma tentativa, por parte do pastor Nestor Friedrich, de salvaguardar-se a si mesmo, permitindo que a pastora Lusmarina seja jogada “na cova dos leões” ávidos, com perseguições e ameaças de morte.

A Igreja que se orgulha de dizer que tem uma pastoral do cuidado e não cuida das suas e dos seus, e nem mesmo de suas cuidadoras e de seus cuidadores, precisa, com urgência, repensar-se enquanto Igreja de Cristo. A “Igreja do cuidado” precisa cuidar e reaprender a cuidar sempre de novo, e não acusar, abandonar, julgar sem ao menos ouvir as pessoas envolvidas, negando-lhes, dessa forma, o direito à ampla defesa – um direito, diga-se en passant, assegurado tanto por nossa Constituição Federal, quanto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Precisamos buscar palavras e gestos de solidariedade humana para que a Igreja não se transforme em uma empresa, mas continue como a assembleia de crentes, como nas primeiras comunidades cristãs, não sem conflitos, mas com coragem e maturidade para enfrentá-los, e misericórdia no tratamento de umas/uns com as outras e os outros. Nesse espírito profético que move e molda nossa existência cristã em todas as esferas da sociedade, nós, membros, ministras e ministros da IECLB, sentimo-nos plenamente representadas e representados pela coragem, maturidade, honestidade e firmeza expressas pela postura indubitavelmente evangélica adotada pelo pastor Inácio Lemke e pela pastora Lusmarina Campos Garcia. Não vemos a ministra e o ministro como proponentes de atitudes escandalosas e perniciosas para a fé cristã, mas como símbolos da luta infindável e incessante por justiça e emancipação humana que acreditamos ser parte constitutiva do movimento luterano mundial e da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Mais do que isso, a coragem e a firmeza de suas ações, em tempos de crescente polarização política e fascistização social, servem-nos de inspiração para que vivamos a fé cristã que nos move, e a confessionalidade luterana que nos molda, de uma forma ainda mais eficaz – mesmo que isso nos custe, vale dizer, um preço a pagar.

Que a oração expressa neste Salmo seja, por fim, nossa oração:

Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade. Não retires de mim, Senhor, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade
Sl 40.9-11

Agosto de 2018

A decisão da ONU sobre Lula, a confusão Democracia x Eleições e como usar a nova arma

Lula Haddad

Agora temos uma arma para exigir a presença de Lula nos debates e nas urnas: um atestado da ONU de que Lula é preso político. O Duplo Expresso sempre foi (e será) leal ao público e jamais irá “jogar a toalha” ou criar falsas expectativas. Por isso, vamos à construção do “resumo da ‘guerra de informação’ entre juristas e rábulas” nas redes sociais, iniciada desde o anúncio na imprensa.

Com prudência – para não fazermos como dezenas de advogados que, no sindicato dos metalúrgicos, acreditaram em Zé Cardoso quando aquele Laranja Podre disse a Lula “se entregue porque vão decretar preventiva e na preventiva não há HC” – a primeira ação tomada por este editor foi consultar dois juristas que, humildemente, são “pratas da casa”: Luiz Moreira e Romulus Maya. Ambos com currículos invejáveis e conhecimento profundo sobre as questões internacionais.

Romulus publicou este texto aqui. Nele destaco o seguinte ponto:

A verdade é que a decisão da ONU não afeta, muito, a linha de ação do Golpe. Apenas aumenta, um tantinho, o preço em desgaste de imagem que eles terão que pagar. E, certamente, estarão dispostos. Afinal, Golpe é… Golpe No entanto, sobre as cabeças dos conspiradores do Plano B, ela cai como uma B’omba. Viva!
Romulus Maya

Da mensagem de Luis Moreira, via WhatsApp (e também no corpo do mesmo texto de Romulus), destaco isto aqui:

6) Ficam sobrestadas quaisquer deliberações do TSE, atinentes à inelegibilidade do Presidente Lula, até decisão do STF, que somente pode ser prolatada após decisão definitiva do Comitê da ONU. 7) Por que? Sendo o Brasil signatário desse Tratado Internacional, a competência não é da Justiça Eleitoral, mas do STF. 8) Assim, Lula é candidato a Presidente da República
Professor Luiz Moreira

Ao perceber que o PIG e alguns segmentos da “Globosfera” já tentavam minimizar esta importante conquista de Dr. Zanin e sua equipe internacional, por se tratar de uma “guerra de informação”, com a experiência que tenho (por ter trabalhado em uma guerra), produzi este texto para “motivar a tropa” e destaco este parágrafo:

O espólio de Lula era tema de debate até entre aqueles “camaradas” que deveriam defender a sua liberdade. TSE, STF, Globo e “Plano B” estavam apenas narrando antecipadamente as “decisões” desta justiça cara, ineficiente e corrupta do Brasil. “Não vai para o debate”, “Vai ter a candidatura cassada”, etc. Era o mesmo roteiro de “sentença anunciada” que o Brasil vive desde 2015. A política é maravilhosa por isso: sempre há o imponderável! E a “bola da vez” é a “sinuca de bico” que a ONU deu no Regime Temer e os seus tentáculos: Ditadura da Toga, Globo, políticos vendidos e instituições cooptadas pela CIA e pelo mercado financeiro. Ao decretar que “Lula é preso político”, a ONU tirou a lona deste circo eleitoral que estava montado para fazer o povo de palhaço”

Como já esperávamos, o Itamaraty – hoje chefiado por Aloysio Nunes, um corrupto protegido pela aparelhada justiça do PSDB – tentou minimizar a recomendação da ONU ao dizer que é apenas uma recomendação. Ora, disso todos sabem! A questão é que ao não seguir a “recomendação” o Brasil oficializa aos olhos do mundo o que temos denunciado todos os dias nesta página: ser hoje uma ditadura (aqui chamada de Regime Temer).

O que isso muda? A primeira coisa é que as eleições podem ser questionadas, o povo pode não reconhecer o próximo governo (como não reconhece este) e todas as decisões tomadas sob este Regime Temer poderão (com muita luta política) ser revogadas. Pré-sal, espaço aéreo, etc. podemos exigir a “devolução do produto roubado”.

A grande conquista, portanto, é que a tentativa de legitimar uma farsa, com eleições sem Lula, com candidatos azuis e vermelhos escolhidos pelos bancos e pelos invasores norte-americanos, subiu o telhado. O impacto da notícia da ONU é tão grande que na EBC nada foi noticiado sobre o assunto até aqui. Eles não sabem o que fazer. Na verdade, não há mais escolha. Ou admitem estarmos numa ditadura ou terão que permitir que Lula faça a sua campanha. E todos sabem que Lula voltará mais forte.

O certo é que a confusão que alguns políticos medíocres da esquerda permitiram ser criada foi por não terem separado a luta por democracia da campanha eleitoral. Antes a frouxidão era escondida ao não separarem a luta jurídica da luta política. Agora não têm mais como enganar o povo com live no Facebook ou papéis na mão “denunciando” o que todo o mundo já sabe. Vão ter que dizer se estão com Lula e o povo ou se querem legitimar o golpe com o famigerado “Plano B”.

O povo brasileiro quer votar em Lula e Dr. Zanin com a sua equipe internacional “marcou um golaço” ao municiar com um documento da ONU todos que querem lutar por isso. Agora temos uma arma da ONU nas mãos. Um precioso documento que vale mais do que um milhão de livros ou micaretas de “Lula Livre”. Agora é o povo (que se chamado por algum político comprometido com a causa) que pode dizer nas ruas que Lula é um preso político e que quer votar nele.

Não é preciso ser “advogado” como o Doutor Haddad que falava que era um “problema jurídico”. Amantes da democracia (advogados ou rábulas) agora sabem que é hora de lutar de verdade. Denunciar a farsa contra Lula. Ganhar as eleições com Lula nas urnas e desmoralizar toda uma estrutura montada para parecer que “as instituições estão funcionando normalmente”. Agora, mais do que nunca, esqueçamos a campanha eleitoral de “Plano B” e vamos todo juntos com o único (e último) grito por democracia: “Eleição Sem Lula é fraude!”

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso. Source duploexpresso.com

 

 

Corte interamericana condena Brasil por não investigar morte de Vladimir Herzog

Vladimir Herzog

A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou, na quarta-feira (4), o Estado brasileiro pela falta de investigação, julgamento e sanção dos responsáveis pela tortura e assassinato do jornalista Vladimir Herzog durante a ditadura militar. A decisão foi proferida mais de quatro décadas após a sua morte.

Vladimir Herzog foi assassinado em 1975 após ter sido interrogado sobre o vínculo dele com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante a ditadura.

A Corte concluiu que “o Estado violou o direito das vítimas de conhecer a verdade, porque não esclareceu judicialmente os fatos violatórios do presente caso e não determinou as responsabilidades individuais respectivas em relação à tortura e ao assassinato de Vladimir Herzog, por meio da investigação e do julgamento desses fatos na jurisdição ordinária.

Ademais, constatou que foram transcorridos vários anos desde que o Brasil reconheceu a competência contenciosa da Corte [em 10 de dezembro de 1998], sem que a verdade dos fatos conste oficialmente. A isso se somou a negativa do Exército de fornecer informação e de dar acesso aos arquivos militares da época dos fatos.

Em sua sentença, a Corte considerou que o” Estado é responsável pela violação do direito de conhecer a verdade” e “pela violação do direito à integridade pessoal de Zora Herzog, Clarice Herzog, Ivo Herzog e André Herzog”, respectivamente mãe, mulher e filhos de Herzog, e ordenou a adoção de diversas medidas de reparação.

Ao final, a Corte determinou que o Estado reinicie a investigação e o processo penal para identificar, processar e punir os responsáveis pela tortura e morte de Herzog. Também foi estabelecida a realização de um ato público de reconhecimento de responsabilidade internacional pelos fatos do presente caso, em desagravo à memória de Vladimir Herzog.

A Corte também ordenou a indenização por danos morais e materiais à família e afirmou que vai supervisionar o cumprimento integral da sentença. Veja a sentença.

Em nota, o Instituto Vladimir Herzog comemorou a decisão. Confira a íntegra:

O Instituto Vladimir Herzog (IVH) celebra, neste dia histórico, a sentença rigorosa e justa divulgada hoje pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que condena o Estado brasileiro pela falta de investigação, de julgamento e de punição dos responsáveis pela tortura e pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

A decisão da Corte, extremamente importante para a luta de Memória, Verdade e Justiça no Brasil, reconhece o caráter de crime de lesa-humanidade no assassinato de Vlado, o que o torna um crime imprescritível.

Cabe ao Estado brasileiro assumir a sua responsabilidade e dar seguimento às medidas de reparação ordenadas pela CIDH, especialmente a retomada da investigação e do processo penal acerca dos fatos ocorridos em 25 de outubro de 1975.

E cabe à sociedade civil cobrar com urgência do Supremo Tribunal Federal (STF) a reinterpretação da Lei de Anistia, confirmando a decisão da Corte de que não é aceitável a impunidade a torturadores e assassinos a serviço do Estado.

A coragem e dedicação da família Herzog, especialmente na figura de Clarice Herzog, que por mais de 40 anos lutou em busca de Justiça para o caso, são fundamentais para esta conquista. A busca incansável por manter viva a história de Vlado transformou – e continua transformando – a história de nosso país.

Hoje o Instituto Vladimir Herzog carrega com orgulho a grande responsabilidade de cuidar de sua memória e de levar adiante os valores defendidos por Vlado. O IVH continua em sua luta para que a Justiça seja alcançada e para que todos os casos de graves violações de Direitos Humanos sejam investigados e punidos.

É um processo imprescindível para que possamos virar esta página sombria de nossa história, que continua a se repetir nas mortes e torturas ainda hoje praticadas por agentes do Estado.

Relembre o caso

Vladimir Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura quando foi convocado pelo Exército para prestar depoimento sobre as ligações com o PCB, partido contrário ao regime militar e que nunca defendeu a luta armada.

Em outubro de 1975, o jornalista compareceu ao prédio do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) e nunca mais foi visto com vida.

Na época o Exército afirmou que o jornalista teria se enforcado com um cinto, o que logo provou-se ser uma mentira. Vladimir Herzog foi torturado e assassinado por militares.

Portal Imprensa

[Livro] A Elite do Atraso – Da escravidão a lava-jato de Jessé Souza

Um livro que analisa o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão. Clique neste link ou na imagem do livro e faça o download do livro.

Prefácio do livro

Este livro foi pensado para ser uma leitura historicamente informada da conjuntura recente brasileira. A crise brasileira atual é também e antes de tudo uma crise de ideias. Existem ideias velhas que nos legaram o tema da corrupção na política como nosso grande problema nacional. Isso é falso, embora, como em toda mentira e em toda fraude, tenha seu pequeno grão de verdade. Nossa corrupção real, a grande fraude que impossibilita o resgate do Brasil esquecido e humilhado, está em outro lugar e é construída por outras forças. São essas forças, tornadas invisíveis para melhor exercerem o poder real, que o livro pretende desvelar. Essa é a nossa elite do atraso.

Para melhor cumprir meu objetivo, construí este livro sob a forma de uma resposta crítica ao clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936. Como veremos, o livro de Sérgio Buarque é, ainda hoje, a leitura dominante do Brasil, seja na sua modernização em seus epígonos mais famosos, como Raymundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso ou Roberto DaMatta, seja na sua influência ampla e difusa nos intelectuais de direita e de esquerda do Brasil de hoje em dia. É a influência continuada dessa leitura na cabeça das pessoas que nos faz de tolos.

O sucesso da empreitada de Sérgio Buarque se deve ao fato de ele ter logrado, ao modo dos profetas das grandes religiões mundiais, responder às três grandes questões que desafiam indivíduos e sociedades: De onde viemos? Quem somos? Para onde (provavelmente) vamos? Articular essas três questões centrais de modo convincente permitiu que sua visão se tornasse a interpretação oficial do Brasil sobre si mesmo. Como iremos ver, a Lava Jato se legitima com Sérgio Buarque e seus epígonos; a Rede Globo legitima sua violência simbólica do mesmo modo; ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se legitimam a partir de suas ideias; e intelectuais importantes da esquerda continuam reproduzindo suas supostas evidências e as de seus discípulos.

Minha tese é que tamanho sucesso e ubiquidade é resultado da ação combinada de dois fatores: o primeiro é o fato de Sérgio Buarque haver construído uma narrativa totalizadora – como a das religiões que não podem deixar margem a lacunas e dúvidas – do Brasil e de sua história; e o segundo ponto é o de ter criado a legitimação perfeita para uma dominação oligárquica e antipopular com a aparência de estar fazendo crítica social. É isso que o faz tão amado pela direita e pela esquerda.

Tamanha influência ubíqua e convergente me motivou a reconstruir, neste livro, uma contraposição a suas ideias, ponto a ponto, nas três questões seminais que todo indivíduo ou sociedade são desafiados a responder. Como não somos formigas que repetem uma informação genética, nosso comportamento é determinado por uma visão do mundo e das coisas que é “construída”. Essa construção do sentido do mundo era trabalho de religiosos no passado e de intelectuais nos últimos duzentos anos de história. Esse “sentido do mundo” nos parece, então, “natural”, dado que nascemos sob a influência dele, e são pessoas  amadas e admiradas, em casa, na escola ou na televisão, que nos apresentam a ele. De tal modo que nos aparece como algo “confiável”. É essa confiabilidade que torna tão fácil a reprodução dos privilégios legitimados por esse sentido, sempre muito específico, e, ao mesmo tempo, torna a sua crítica tão difícil.

Épocas de crise como a brasileira atual são, nesse sentido, uma oportunidade única. Na crise, toda legitimação perde sua “naturalidade” e pode ser desconstruída. Mas é necessário que se reconstrua um novo sentido que explique e convença melhor que o anterior. Sem isso, a explicação anterior tende a se perpetuar. É esse esforço que pretendo fazer aqui. A ideia é criticar a interpretação dominante não apenas nas suas falhas conceituais, como já fiz antes em diversas ocasiões,1 mas também sua interpretação histórica e factual da realidade brasileira. Essa nova reconstrução histórica, por sua vez, permitirá um diagnóstico, a meu ver, muito mais acurado e convincente da própria realidade atual.

Assim, persegui três eixos temáticos bem definidos. O primeiro é tomar a experiência da escravidão, e não a suposta e abstrata continuidade com Portugal e seu “patrimonialismo”, onde não existia a escravidão, como a semente de toda a sociabilidade brasileira. Muitos falaram de escravidão como se fosse um mero “nome”, sem eficácia social e sem consequências duradouras, inclusive Sérgio Buarque e seus seguidores. Compreender a escravidão como conceito é muito diferente. É perceber como ela cria uma singularidade excludente e perversa. Uma sociabilidade que tendeu a se perpetuar no tempo, precisamente porque nunca foi efetivamente compreendida nem criticada.

O segundo foi perceber como a luta das classes por privilégios e distinções logrou construir alianças e preconceitos que esclarecem, melhor que qualquer outra coisa, o padrão histórico que se repete nas lutas políticas do Brasil moderno. O principal aqui é evitar compreender as classes de modo superficial e economicista, como o fazem tanto o liberalismo quanto o marxismo. Ao perceber as classes sociais como construção sociocultural, desde a influência emocional e afetiva da socialização familiar, abrimosum caminho que esclarece nosso comportamento real e prático no dia a dia como nenhuma outra variável. Essa é uma promessa que faço ao leitor sem medo de fracassar: é possível reconstruir as razões de nossa própria conduta cotidiana, assim como a conduta dos outros que conosco partilham o mundo social, de modo preciso e convincente a partir da reconstrução da herança de classe de cada um.

A tradição inaugurada por Sérgio Buarque e arrasadoramente influente até hoje não percebe a ação das classes sociais, daí que tenham criado o “brasileiro genérico”, o homem cordial de Sérgio Buarque ou o homem do “jeitinho brasileiro” para um DaMatta. O conflito entre as classes também é distorcido e tornado irreconhecível, sendo substituído por um falso conflito entre Estado corrupto e patrimonial e mercado virtuoso. Ainda que todo o noticiário atual milite contra essa percepção, sem uma desconstrução do sentido velho e de uma reconstrução explícita de um sentido novo, seremos feitos de tolos indefinidamente. É por conta dessa inércia provocada pela força de concepções passadas que pensamos os problemas brasileiros sob a chave do patrimonialismo e do populismo, dois espantalhos criados para tornar possível a aliança antipopular que caracteriza o Brasil moderno desde 1930.

Por fim, o terceiro ponto é o diagnóstico acurado do momento atual. Se os dois pontos anteriores são importantes, sua eficácia deve ser comprovada por um diagnóstico do momento atual mais profundo e mais veraz que o do “racismo culturalista”, como podemos definir o paradigma que estamos criticando. Esse é o convite que faço ao leitor. Adentrar o espaço de uma aventura do espírito que visa libertá-lo das amarras invisíveis das falsas interpretações críticas. Esse é, afinal, o primeiro passo para que, enfim, não mais repitamos a nossa triste história da exclusão recorrente e golpes de Estado, mas que juntos possamos construir algo verdadeiramente novo.

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Temer recua e reedita portaria sobre trabalho escravo

A luta pela terra e o trabalho escravo

Medida suspensa desde outubro, considerada retrocesso institucional no combate à prática, foi repudiada no Brasil e no exterior.

CUT BrasilA edição desta sexta-feira (29) do Diário Oficial da União traz a Portaria 1.293, sobre conceito de trabalho em condições análoga à de escravo. Na prática, o governo recua da Portaria 1.129, em que flexibilizava esses conceitos, provocando repúdio interno e externo, com apoio apenas da bancada ruralista. A medida estava suspensa desde outubro, por decisão liminar da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF). Desde então, o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, agora demissionário, insistiu no argumento da “segurança jurídica”.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, também já havia se manifestado contra a portaria, pedindo sua revogação. Com a mudança feita em outubro, eram desconsiderados itens importantes na definição de trabalho análogo ao escravo como “condições degradantes” e “jornadas exaustivas”.

Agora, pela nova portaria, considera-se que há submissão a trabalho escravo, “de forma isolada ou conjuntamente”, quando existe trabalho forçado, jornada exaustiva, condição degradante de trabalho, restrição, por qualquer meio, da locomoção em razão de dívida e retenção no local de trabalho por cerceamento de transporte, vigilância ostensiva e “apoderamento” de documentos ou objetos pessoais. Trabalho forçado “é aquele exigido sob ameaça de sanção física ou psicológica e para o qual o trabalhador não tenha se oferecido ou no qual não deseje permanecer espontaneamente”.

“O novo texto atende às reivindicações sociais no sentido de reproduzir fielmente o conceito de trabalho escravo previsto em nossa legislação. O governo cedeu”, disse ao Blog do Sakamoto, do jornalista Leonardo Sakamoto, o coordenador do combate à escravidão contemporânea no Ministério Público do Trabalho (MPT), Tiago Cavalcanti. “E isso significa a derrota do retrocesso e o êxito da defesa dos direitos fundamentais e da luta pelo trabalho livre, seguro e decente”.

O combate ao trabalho escravo no Brasil, que já libertou mais de 50 mil pessoas, tornou-se política permanente desde 1995, quando foram criados os grupos móveis de fiscalização.

Confira aqui a íntegra da portaria.

CUT Brasil

Aumento do salário dos parlamentares do congresso nacional

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A PEC 5/2011, projeto que fará com que o salário dos deputados, senadores e presidente da República seja igual ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal

Antes de entrar em recesso para o Natal os deputados federais querem aprovar uma proposta de lei que vai igualar o salário deles ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Assim, sempre que o salários dos ministros aumentar, o dos parlamentares aumenta automaticamente. Pela lei atual o salário dos ministros do STF é o teto da administração pública, ou seja, é o maior salário possível.

Hoje os deputados federais e senadores recebem salário bruto R$ 26.723, e os ministros do STF recebem R$ 29.462O autor desta proposta defende que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são igualmente importantes, portanto seus membros devem receber salários iguais.

Você concorda? Eu não e já me manifestei a respeito. Se você tem uma opinião sobre esta proposta, vote e participe deste debate! O link da iniciar o seu debate é este: http://bit.ly/1wtzsZ1. Acesse e participe, em nome da democracia!

Proposto pelo deputado: Nelson Marquezelli do PTB.
Tipo: Câmara
Data de apresentação: 02/03/2011
Situação: Em tramitação
Categorias: Administração pública

😀

Para acabar com o salário vitalício dos ex-governadores de SC

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Ajude a acabar com este abuso. Clique no link abaixo para assinar a petição.

Assine a petição, o abaixo-assinado

O povo de Santa Catarina paga aos ex-governadores um salário vitalício mensal de R$ 28 mil por mês. Quem assumir o governo em definitivo, mesmo que por apenas alguns dias, recebe o benefício por toda a vida.

O deputado Padre Pedro Baldissera apresentou em 2006 duas ações populares no Tribunal de Justiça e um projeto de lei, solicitando o fim do pagamento. Mas isso não foi suficiente.  Agora a luta é para que o STF coloque em pauta a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) 3861, que já está pronta para ser votada há mais de um ano. A ação ACABA IMEDIATAMENTE COM ESTE BENEFÍCIO ABSURDO. Acompanhe AQUI a ADIN do salário vitalício dos ex-governadores em Santa Catarina.

Pelo fim do salário vitalício dos ex-governadores catarinenses

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Contra o salário vitalício dos ex-governadores em Santa Catarina e PELO JULGAMENTO DE ADIN NO STF.

O povo de Santa Catarina paga aos ex-governadores um salário vitalício mensal de R$ 28 mil por mês. Qualquer político que assumir o governo em definitivo, mesmo que por apenas alguns dias, recebe o benefício por toda a vida.

Clique aqui pra assinar

O deputado estadual Padre Pedro Baldissera apresentou em 2006 duas ações populares no Tribunal de Justiça e um projeto de lei, solicitando o fim do pagamento. Mas isso não foi suficiente. Por isso queremos apoiar uma luta maior, no Supremo Tribunal Federal (STF), onde duas ações acabam com esta benesse: uma Reclamação (Rcl 5365) apresentada pelo mesmo deputado em 2007 e uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 3861) proposta pelo Ministério Público Federal (MPF).

O deputado catarinense já abriu mão da reclamação em nome da ADI e por isso queremos o apoio do maior número possível de pessoas para pressionar o STF pela votação da ADI apresentada pelo MPF. Os cidadãos que subscrevem a petição solicitam ao Excelentíssimo senhor Ministro Presidente do STF, que julgue imediatamente a ADI 3861, que já está pronta para ser votada.

Acompanhe no link abaixo a ADIN que acaba com o salário vitalício dos ex-governadores em Santa Catarina: http://bit.ly/1qxlEHX

Eu assine e apoio a iniciativa. 28 mil por mês pra não fazer nada, é muita grana!

Poucas horas para salvar nossas eleições!

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As eleições deste ano podem ficar sem investigações de caixa dois, compra de votos e abuso de poder econômico – todas paradas na gaveta da Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adotou uma regra para que o Ministério Público só inicie investigações se um juiz de direito as autorizar. Temos poucas horas para reverter essa medida e salvar nossas eleições!

O Supremo Tribunal Federal (STF) vai dar a palavra final sobre isso hoje. A não ser que nos mobilizemos, nossas eleições poderão ser marcadas por abuso e corrupção e nossos votos perdidos em meio à compra de votos, dentre outras manobras possíveis.

O Tribunal se reúne em hoje à tarde e essa é a nossa última oportunidade de fazer valer a luta por eleições limpas. Juntos, nós acabamos com a PEC37. Agora, vamos fazer o mesmo com essa “lei da gaveta”. Assine a petição, envie para todos que você conhece e ela será entregue aos Ministros antes da votação: http://www.avaaz.org/po/sem_eleicoes_sujas_final/?bYLqhbb&v=39958.

A resolução do Ministro Toffoli, aprovada pelo TSE, foi criticada por autoridades do judiciário e por muita gente que defende investigações sérias. O chefe do Ministério Público defendeu a liberdade de agir da instituição e levou o caso ao STF.

A intenção do TSE ao criar a norma foi trazer mais transparência às investigações e com isso evitar processos sem fundamentação. Mas o momento do país não admite medidas que possam atrasar ou evitar punições de crimes. Enfraquecer quem tem o poder de investigar é um erro que os eleitores já mostraram que não aceitam.

Nós lutamos muito para aprovar leis como a da Ficha Limpa e para derrubar a PEC 37. Vamos proteger esses direitos que conquistamos mantendo o Ministério Público livre para investigar crimes eleitorais e assim garantir que teremos eleições limpas. Assine a petição agora e envie para todos que você conhece: http://www.avaaz.org/po/sem_eleicoes_sujas_final/?bYLqhbb&v=39958.

Fim do voto secreto, PEC 37, Ficha Limpa: juntos mostramos a todos que conseguimos proteger e melhorar nossa democracia. Vamos fazer isso mais uma vez em nome de eleições justas, limpas e fiscalizadas pelo Ministério Público.

Com esperança e determinação, Michael, Caroline, Diego, Débora, Oliver, Alice e toda equipe da Avaaz.

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