O nosso país falhou, a gente falhou. Eu falhei!

Essa semana no Rio de Janeiro, mataram a vereadora e seu motorista. Morreu uma médica na Linha Vermelha, latrocínio. Morreu um gari, assassinado. Morreu um feirante, morto a facadas. Morreram dois jovens de uma favela, envolvidos com o tráfico. Um policial foi alvejado na saída do trabalho, caiu morto. Uma mulher foi morta pelo marido, feminicidio. Mataram também um jogador de futebol de várzea, se engracou com a mulher do açougueiro e pá, mataram. Deram dois tiros num caminhoneiros, ele não quis entregar seu caminhão para assaltantes. Um filho matou o pai, ele usava drogas e o pai batia nele. Uma moça foi estuprada e morta num terreno baldio também…

Todo dia tem vítima da violência. No Rio, em SP, no Acre, em Manaus, em Porto Alegre, em Camboriú. Todo dia a gente perde a dignidade. Sejam estas pessoas de esquerda, direita, policial, jornalista, ativista, médico, padeiro, gari, bandido…

O nosso país falhou. A gente falhou. Eu falhei. Em dois dias eu li extremos absurdos nas redes sociais, grupos de WhatsApp, ouvi horror nas ruas. Ninguém se entende. Ninguém quer dar o braço a torcer. Ninguém admite o erro. Ninguém quer fazer nada. Uso uma rede social para pedir que eu e você, levantemos nossa bunda para fazer alguma coisa. Daqui uns meses temos eleições, quem sabe uma possibilidade de mudar, mas sem salvadores da pátria. Eles não existem.

A escuridão no país tropical parece não ter fim, mas só nós podemos dar luz a um futuro. Será a última vez que vamos poder acreditar. Vem junto, vem.

Artigo de Rafael Weiss postado originalmente em seu perfil no Facebook.

Vereadora Marielle Franco

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Onde Igreja e pastorais podem ajudar a quebrar a espiral da violência?

Teologia Negra

Ronilso Pacheco faz uma análise sobre a violência racial a partir da proposta da CF 2018.

Talvez o que podemos realmente fazer enquanto igreja, para contribuir com a construção de uma cultura onde a violência não tenha mais lugar central, seja onde exatamente nossa posição nos cabe: nós podemos inviabilizar a sacralização da violência, que passa pela divinização do sangue.

Uma contribuição importante da chamada Teologia Negra nos Estados Unidos foi denunciar o lugar central que a crucificação de Jesus tinha para o cristianismo. Neste lugar central, a cruz sempre teve um papel de relevância como um símbolo de sacrifício máximo, ao qual Jesus se submete (quase) voluntariamente. A compreensão equivocada da narrativa do “esvaziamento” de Jesus contida em Filipenses 2, transformou a crucificação em um auge do ministério de Jesus. O sacrifício foi necessário, e, como tal, perde a força de sentido como um instrumento de tortura e morte usado pelo poder, pelo Império, pelo estado, pelas autoridades, políticas, militares e religiosas para punir, constranger, eliminar, intimidar, executar e (consequentemente) fazer sangrar sujeitos considerados “ameaças”, corpos e presenças que eram um risco para a “ordem social”.

A Teologia Negra comparou a crucificação de Jesus ao linchamento de negros na sociedade racista e segregacionista dos Estados Unidos dos anos finais do século XIX e primeira metade do XX. Se, em algum momento da narrativa bíblica, o Deus de “perfil guerreiro” desaparece, condena o derramamento do sangue inocente e desagua na pessoa de Jesus de Nazaré como o Deus que é todo amor, com profunda ênfase na misericórdia e no perdão, deveria desaparecer nossa linguagem violenta sobre Deus (o “general”, o “Senhor dos Exércitos”, aquele a quem “a vingança pertence”, que recorre “a vara” para a correção, o Deus da “ira implacável”, aquele cuja ira “devorará os ímpios), dando lugar a compreensão plena do Deus que escolhe ser definido como amor.

No entanto, o sangue continua tendo lugar central na nossa cultura cristã, e, muito por isso, a compreensão da violência como recurso possível não nos deixa em paz. Se o sangue é necessário, a violência que provoca o seu derramamento também passa a ser. Tudo o que temos visto no comportamento social de nossas cidades, como o Rio de Janeiro, é a violência ocupar o lugar central. Tão central que a ideia de segurança pública passou a se resumir única e exclusivamente a “gestão da violência”.

A segurança pública deixou de ser a oportunidade que o público (a população, todas e todos) deveria ter de ter acesso a paz, aos bons tratos, aos serviços que funcionam para si e para os outros, de não ser coagido pelas necessidades extremas e nem pela pressão de ter mais e mais numa cultura social que prioriza o consumo e o privilégio. A segurança pública resume-se agora a “gestão da violência”.

Com efeito, espera-se que a violência sirva para punir violentos e ameaçadores de violência. Vai do linchamento do infrator que furtou o celular até as operações policiais que precisam dar como “saldo positivo” para a sensação de insegurança (seja lá o que for isso) a apresentação dos corpos pretos e pobres, devidamente incriminados, para que todos possam saber que acabamos de ter um criminoso a menos, um traficante a menos, um vagabundo a menos. A cultura do sangue derramado se espalha mesmo onde sangue (ainda) não foi derramado. Ter uma comunidade ocupada pela presença ostensiva de militares do Exército não é apenas a militarização da vida cotidiana, é o recurso da violência das armas que indicam que, a qualquer movimento estranho, o sangue será derramado.

Não há (e nem pode haver) poder no sangue. Nossa política pública de segurança, a resposta do poder para a violência, a ocupação dos territórios precarizados e desassistidos; a criminalização prévia dos corpos pretos e pobres; a militarização da vida cotidiana; as estratégias de auto defesa que clamam pelo porte de armas; a espetacularização midiática da violência que espalha mais medo e influencia nas respostas de soluções fáceis das autoridades visando calar a opinião pública; a circulação de armas nas favelas; o inacabável comércio de drogas ilícitas rodeado de violência e crueldade; as crianças que pulam corpos a caminho da escola.

Tudo está manchado de sangue. Tudo na sociedade está atravessado pelo sangue, e a igreja é uma voz que poderia desmistificar o sangue deste lugar simbólico sacrifical que é capaz de produzir algo de valor. Não pode.

Se continuar afirmando que há poder “no sangue de Jesus”, continuaremos abrindo margem suficiente para que os métodos usados para fazer Jesus sangrar até a morte tenha tido alguma utilidade para os planos de Deus. O que é o mesmo que dizer que Deus usa as mesmas armas da estrutura da morte, para vencer a morte. E até onde sabemos, na narrativa dos Evangelhos, a morte é vencida com a ressurreição. A cruz é arma do Império. A ressurreição é resposta de Deus, para dizer que a vida deve sempre vencer.

E, sejamos sinceros, com quem o corpo de Jesus se parecia na hora da morte. Sua pele escura, sua condição social precária, seu território pobre e militarmente ocupado, sua ascendência de um povo marcado pela escravidão, punido, sem oportunidade, sem justiça, vítima do medo e do desprezo. Isto mostra que, na cultura do sangue derramado e da violência (socializada e institucionalizada), raçaclasse e gênero continuarão sendo sempre os fatores decisivos para definir aqueles e aquelas cujo sangue continuarão a jorrar. E é por isso que precisamos denunciar este ciclo, desmistifica-lo. Não há poder no sangue.

Fonte: Texto de Ronilso Pacheco para o Portal das CEBs

Maioria dos católicos e grande parte dos evangélicos pensa que “bandido bom é bandido morto”, diz pesquisa

Smoking gun lying on the floor, revolver

A crise de segurança pública que o brasileiro comum enfrenta há anos vem transformando a forma de enxergar a maneira como a Polícia age no combate ao crime, e atualmente, metade da população entende que é necessária uma ação mais enérgica, apoiando uma ação letal no confronto com criminosos.

Essa é a conclusão de uma pesquisa recente realizada pelo Ibope sobre segurança pública, uma das grandes bandeiras de campanha do presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e alvo de uma ação emergencial do presidente Michel Temer (MDB), que decretou uma intervenção na secretaria responsável pela área no estado do Rio de Janeiro.

A pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) foi realizada entre os dias 22 e 26 de fevereiro com 2.002 pessoas entrevistadas em todo o país, abordando temas espinhosos, como a morte de bandidos no confronto com as polícias. Os que “concordam” ou “concordam totalmente” com a frase “bandido bom é bandido morto” somam 50%.

Quando a pesquisa é analisada pelo parâmetro religioso, os dados mostraram que 52% dos católicos concordam com a frase, enquanto o número de evangélicos que pensam assim são 44%. Se o parâmetro for o sexo, 53% dos homens aprovam a tese, enquanto entre as mulheres a aprovação é de 45%.

Os entrevistados que se opõem totalmente a esse pensamento são 37% da população. No entanto, é possível que a pesquisa não tenha tido a abrangência necessária para um retrato um pouco mais fiel da percepção popular sobre o assunto. Uma enquete realizada pelo portal Correio 24 Horas mostra que 84% dos leitores que participaram do levantamento aprovam essa diretriz, contra apenas 13% dos que reprovam.

A informação sobre a pesquisa do Ibope foi revelada inicialmente pelo jornalista Lauro Jardim, colunista d’O Globo, e repercutida pelos demais veículos de imprensa.

Insegurança e desarmamento

Atualmente, a insatisfação da sociedade com a segurança pública vem fazendo a população debater de forma intensa e espontânea os benefícios e malefícios do Estatuto do Desarmamento, em vigor desde dezembro de 2003, época do primeiro mandato do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

No período em que o Estatuto do Desarmamento está em vigor, a renda média do brasileiro subiu 33,1%, o número de crianças matriculadas nas escolas chegou a 97,7%, e o orçamento do Ministério da Educação quadruplicou, saindo de R$ 33 bilhões em 2003 para R$ 136 bilhões em 2017. A tese dos defensores do desarmamento era que, com menos armas na rua, maior renda e maior investimento em educação, a violência cairia.

Mas o que aconteceu foi o contrário, de acordo com dados reunidos pelos especialistas em segurança pública Bene Barbosa e Flávio Quintela, no livro Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento, o que evidencia que há a sensação, por parte dos criminosos, de que sempre sairão impunes de assaltos, sequestros e outros crimes.

Em 2003, cerca de 48 mil pessoas eram assassinadas anualmente no Brasil, e hoje quase 15 anos depois da entrada em vigor da lei que dificulta a posse de arma, o número cresceu 20,7%, somando mais de 61,6 mil assassinatos por ano. Em termos de comparação, esse número é similar às vítimas da bomba nuclear lançada pelos Estados Unidos em Nagasaki, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial.

Nas redes sociais, ativistas contra o desarmamento vêm tornando públicos dados a respeito da discussão que são, geralmente, omitidos pela grande mídia. Um deles é Mateus Bandeira, que produziu um vídeo sobre o assunto, detalhando as informações e recapitulando fatos históricos ligados ao desarmamento da população, como durante os regimes de Josef Stalin, na União Soviética, e de Adolf Hitler, na Alemanha, que produziram dezenas de milhões de mortos.

Por outro lado, há dados de países que não possuem leis de desarmamento, como Canadá, Suíça e o Uruguai – vizinho do Brasil -, onde o índice de armas legais por habitantes é altíssimo, e os problemas de segurança pública são infinitamente menores.

Na Venezuela, que implantou um projeto de desarmamento civil similar ao brasileiro durante os governos de Hugo Chavez e Nicolás Maduro, o número de mortes é maior do que o registrado por aqui, com Caracas sendo considerada a capital de um país mais violenta do mundo.

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