A indústria do 11 de setembro

Nelson e o 11 de setembro

Privatização da segurança: Após 12 anos dos ataques a NY, a ‘Guerra ao Terror’ americana deu suporte (e dinheiro público) para diversas empresas.

Apenas nove dias após os dois aviões atingirem as torres do World Trade Center, em Nova York, o Congresso americano autorizou um repasse emergencial de US$ 40 bilhões para fortalecer o aparelho de defesa antiterrorista do país. Desde então, os gastos não pararam de crescer. Em 12 anos de “Guerra ao Terror”, os Estados Unidos ultrapassaram a marca dos 4 trilhões de dólares em gastos que incluem desde equipamentos de vigilância interna, confecção de manuais antiterror para aeroportos, 30 milhões de câmeras de segurança instaladas no país e a a presença ostensiva de tropas militares no Oriente Médio.

Surfando na onda de paranoia que se espalhou pelo país pós-11/9, talvez a principal beneficiária do cheque em branco que o combate ao terror produziu seja a indústria de segurança. Cerca de 70% do orçamento de inteligência interna dos EUA é gasto com contratos privados e vai parar direto no bolso de grandes empresas do setor. Criado em 2002, a conta do Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) cresceu mais de 300% na última década. Existem hoje pelo menos 1.271 ONGs e 1.931 companhias privadas relacionadas a terrorismo, inteligência e segurança.

Abaixo, veja alguns dos serviços oferecidos pela rentabilíssima “indústria do 11 de setembro”. Uma das únicas que não parou de crescer (exponencialmente) nem quando o país era sufocado com a recessão econômica — muito embora seja muito mais provável que um norte-americano morra em um acidente de carro do que em um ataque terrorista.

Scanners de aeroportos

Scanners de aeroportosNada mais lógico que o boom inicial tenha sido sentido onde foi registrada a falha primária que permitiu os ataques do 11/9: segurança aérea. Um dos mais populares, e também polêmicos, são os scanners de corpo inteiro. As vendas do aparelho — cuja unidade chega a custar US$ 200 mil — foram impulsionadas depois que uma tentativa de ataque suicida foi desvendada, no Natal de 2009. Líder no nicho de scanners, a L-3 Communications já vendeu mais de US$ 900 milhões para o governo norte-americano.

Educação anti-islã

Educação anti-islãO sentimento revanchista após 11/9 tomou o islã como o próximo inimigo a ser combatido. Não podia deixar de existir, então, consultoriasespecializadas em providenciar esse “treinamento islamofóbico”, característico da ideologia da Guerra ao Terror. O CI Centre, por exemplo, oferece cursos e análises supostamente abalizadas sobre a ameaça muçulmana para agências do governo e outras forças da lei. Um curso de cinco dias para funcionários públicos intitulado“Doutrina da ameaça jihadista global” custa US$ 39 mil. Para uma classe de 30 alunos, o workshop “Morrendo para nos matar: compreendendo a mentalidade das operações suicidas” sai por US$ 7 mil.

Drones

DronesA “guerra sem baixas” (pelo menos, não do “nosso lado”) virou uma das marcas da política externa do presidente Barack Obama. A principal ferramenta: aeronaves não-tripuladas. A alta demanda faz do mercado de drones um dos mais quentes, movimentado quase US$ 6 bilhões todos os anos. A General Atomics, fabricante do Predator e líder do mercado, tem contratos milionários com o Departamento de Defesa e um futuro promissor, já que os EUA pretendem exportar o modelo para outros países.

Soldados profissionais

Soldados profissionais nazi-americanos As intervenções do Exército norte-americano fora do país foram responsáveis pela criação de um verdadeiro complexo industrial paramilitar. Por meio de contratos milionários com os EUA, empresas como a Blackwater terceirizaram a “Guerra ao Terror” e criaram “soldados profissionais”. A companhia, que depois mudou de nome, atuou por um tempo como uma espécie de extensão da CIA, mandando recrutas — “mercenários contemporâneos” — para o Afeganistão, fazendo da base das forças armadas um verdadeiro campo privado de treinamento militar.

Privatização da inteligência

Privatização da inteligência - epionagem eua no brasilRecentes vazamentos de informação confirmaram que os EUA têm acesso a uma infinidade de dados de comunicação: emails, bate-papos, histórico de navegação, buscas na internet, telefonemas. E quem vai processar e sistematizar toda essa montanha de informação? Empresas como a Booz Allen, a antiga empregadora de Edward Snowden, o homem responsável por vazar o esquema de vigilância da NSA. Companhias como esta trabalham no cerne da inteligência norte-americana, cada vez mais privatizada. Dos 854 mil cidadãos que possuem acesso a informações secretas, 250 mil (30%) são do setor privado.

Lobby

Lula e Bush lobistas“Onde tiver dinheiro público nessa quantidade, sempre vai haver um enxame de lobistas”, afirma Michael Beckel, pesquisador político. Em Washington o lobby existe, e é pesado. Certa vez, introduziram scanners dentro do prédio do Capitólio para convencer os parlamentares da sua utilidade. Mas o problema é quem está fazendo esse lobby. Quando as parcerias público-privadas começaram nos EUA, a maior justificativa foi comercial. Seria mais barato. Hoje, uma década após a escalada dos gastos em segurança, fica mais e mais evidente o conflito de interesses entre o público e o privado. Na indústria de scanners, 8 em cada 10 lobistas são egressos da carreira pública. Boa parte da linha de frente das agências públicas de segurança já passou pelas gigantes do setor privado — James Woosley (ex-chefe da CIA) foi da Booz Allen; William Studeman (ex-diretor da NSA), foi fisgado pela Northrop Grumman; e Barbara McNamara (também da NSA) foi contratada pela CACI. Entre 2004 e 2008, pelo menos 80% dos oficiais de alta patente que se aposentaram foram trabalhar no setor privado.

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Cai por terra a versão do Governo Bush sobre o 11 de setembro

Cientista encontra explosivos Nano Thermite em destroços do World Trade Center! ‘A ganância do ser humano não tem limites…’ Neste link vai encontrar o que comprova o que esta sendo noticiado pela comunidade cientifica: http://bit.ly/1847TqT.

Uma equipe de oito pesquisadores liderados pelo professor Niels Harrit da Universidade de Copenhaguem (Dinamarca), comprovaram a existência de explosivos altamente tecnológicos em amostra dos escombros das torres gêmeas e do prédio 7.

Essa pesquisa vem a confirmar um trabalho semelhante previamente executado pelo professor Steven Jones nos Estados Unidos. Outras matérias que que vem de encontro a esse achado são as do time de Arquitetos para o 911. Com esse achado se explica a queda livre dos prédios num processo de demolição. Os aviões não poderiam derrubar as torres gêmeas devido a temperatura do combustível não ser suficiente para derreter aço. O impacto também não pode ter afetado a estrutura no nível afirmado pelo governo americano, uma vez que o prédio foi desenhado para suportar aviões daquele tamanho. Ferro derretido na base dos prédios ficou vivo por várias semanas. E por três meses fotos infravermelha de satélites mostraram bolsões de alto calor nas três torres. Larry Silverstein comprou o leasing do WTC entre 2000 e 2001. dois meses antes do “ataque” ele assegurou os prédios em dois bilhões de dólares contra ataque terrorista, algo como todos sabemos um tanto incomum. O ataque 911 serviu para:

  1. Criar ódio contra os árabes e fomentar as guerras americanas na saga pelo óleo e a hegemonia Israelense no Oriente Médio. Também chamado False-Flag.
  2. Desaparecer com 1,5 trilhões de dólares a fundo perdido das contas do Pentágono (Rumsfeld declarou um dia antes).
  3. Documentos provas contra a Enron que desapareceu n aqueda do prédio 7.
  4. Auto-pagar os empreiteros, talvez via Larry Silverstein e a fortuna que ele arrecado de seguro.

Existem evidências que agentes do Mossad (serviço israelense) foram capturados no dia, alguns comemorando a queda do topo de uma van, e outros carregando explosivos. Todos foram libertados pelo FBI. (essa informação precisa ser confirmada).

Chupado do blog Alô Presidenta do Brasil.

11 de setembro: E o mundo mudou mais uma vez

Uma análise das transformações de 1961 aos dias de hoje

Uma análise das transformações de 1961 aos dias de hoje.

Deixou de ser uma data qualquer. No botequim, na escola, no escritório, no Brasil ou em outro país, quando alguém menciona “11 de setembro”, o interlocutor logo relaciona à manhã daquele dia de 2001 em que dois aviões comerciais se chocaram contra as Torres Gêmeas, o World Trade Center, em Nova York.

Os prédios desmoronaram em duas horas. Outro avião caiu sobre o Pentágono, nos arredores de Washington, e um quarto na Pensilvânia. Ao todo, cerca de três mil pessoas, incluindo os 19 sequestradores dos aviões, morreram.

O mundo mudou. O imperialismo, regido por George Walker Bush, iniciava sua jornada de “luta contra o terror”. Com ela, viriam invasões territoriais, assassinatos de civis, torturas. Que continuam mesmo após o recente assassinato do mentor dos ataques, o líder da Al Qaeda Osama Bin Laden.

Entretanto, outros eventos que “mudaram” o mundo nos últimos 50 anos também completam “aniversários redondos”. A declaração do caráter socialista da Revolução Cubana e a posterior Invasão da Baía dos Porcos, em 1961; o fim do sistema de Bretton Woods, em 1971; o início da era Ronald Reagan, em 1981; e o fim da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), em 1991, marcaram a história contemporânea e contribuem para a compreensão do 11 de Setembro.

Contextualizar o início da Guerra Fria pode auxiliar na acepção desses fatos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram responsáveis por cerca de 48% da produção industrial de todo o mundo. Até 1952, por meio do Plano Marshall, o país forneceu 14 bilhões de dólares para a recuperação econômica europeia.

Com o propósito de desestimular qualquer investida soviética sobre a Europa Ocidental, os Estados Unidos forjaram a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), que os unia aos países europeus. No mundo árabe, também em 1952, o coronel Gamal Abdel Nasser toma o poder no Egito e marca um movimento pelo nacionalismo árabe. “Nasser começa um processo de aliança civil e militar e cria um grande movimento popular de massas, toma medidas de caráter antiimperialista, como a nacionalização de vários setores da economia e do Canal de Suez, e investe nas áreas sociais”, explica Marcelo Buzetto, professor de geopolítica da Fundação Santo André. Esse movimento se expandiu para outros países da região, como Síria, Iraque, Argélia e Líbia.

Num contexto polarizado, esses países acabaram se aproximando da então URSS. “Não eram regimes socialistas de modo algum, eram autoritários, mas, no plano internacional, alinharam-se à União Soviética”, explica Igor Fuser, acadêmico da Faculdade Cásper Líbero e autor do livro Petróleo e poder: o envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico.

Outro elemento que leva os países a se aproximarem do bloco soviético é o surgimento do Estado de Israel, criado em 1947 e com a independência declarada em 1948, como resultado da Segunda Guerra Mundial. Na época de sua criação, contou com o apoio da União Soviética, que depois passou a uma posição mais próxima do mundo árabe. “Na Guerra Fria, a própria existência do Estado de Israel acabou empurrando muitos países árabes a uma aproximação maior com a União Soviética. Não todos, mas uma parte”, aponta Buzetto.

A revolução é socialista

O impacto mais sentido pelos Estados Unidos no início da Guerra Fria foijustamente onde eles chamavam de “seu quintal”.

Há 50 anos, logo após a declaração do caráter socialista da Revolução Cubana por Fidel Castro, em 16 de abril de 1961, mercenários da ilha, treinados pela CIA (a agência de inteligência estadunidense), invadiam a Baía dos Porcos. Devido à resistência dos cubanos, a ação fracassou.

“Eu acompanhei muito de perto a revolução. E também a declaração de seu caráter socialista. Isso me deu um alento de que o Brasil, quem sabe, pudesse caminhar na mesma direção”, conta o escritor Frei Betto. Na época, tinha 16 anos e era vice-presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Belo Horizonte.

Fato é que, para que a revolução popular cubana se desenvolvesse, a declaração de seu caráter socialista tornava-se irremediável. “Cuba, na verdade, não fez uma revolução pelo socialismo, mas pela independência e soberania nacionais. Ocorre que, como havia a Guerra Fria e Cuba está apenas a 600 milhas [965 Km] dos Estados Unidos, houve muita pressão quando a revolução começou a socializar os bens e principalmente nacionalizar as empresas estadunidenses que ali haviam se instalado”, explica o escritor.

Ou seja, num período de Guerra Fria, era preciso escolher um lado. Cuba encontrou- se praticamente obrigada a se alinhar à URSS. “Graças a isso, a Revolução Cubana se manteve. Evidentemente, com algumas heranças não muito positivas, como é normal”, pontua Frei Betto.

“Um aviso de luz verde”. O escritor cubano Félix Contreras aponta que o caráter socialista da revolução significou que era possível vencer os poderosos inimigos do socialismo. Como lembra, a Revolução Cubana inspirou as guerrilhas na Guatemala e na Nicarágua, além de surtos insurrecionais e protestos em todo o continente.

Para o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Virgílio Arraes, a revolução na pequena ilha do Caribe e seu posterior alinhamento à União Soviética afetou mais a moral estadunidense do que propriamente a corrida da Guerra Fria. “Com a guerra hispano-americana de 1898, aquela região definitivamente entrou para a esfera de influência estadunidense, cobiçada desde a declaração Monroe, de dezembro de 1823 [A América para os americanos]”, lembra. De acordo com ele, por isso a insistência dos Estados Unidos em punir Cuba até hoje. “Não somente pela adesão em si ao socialismo como projeto, já findo com a extinção da URSS, mas por desafiar a autoridade estadunidense”, defende.

Na economia, eu mando

Após Cuba, a escalada do embate geopolítico da Guerra Fria pode ser ilustrado por meio da Guerra do Vietnã (1959 a 1975). Mas, paralelamente à disputa externa de hegemonia política, os Estados Unidos enfrentavam problemas de competitividade econômica. “Eu estava preso [entre 1969 a 1973]. Senti menos o impacto da mudança, até porque não mexo com finanças”, lembra Frei Betto.

Mas tal impacto é sensível até os dias de hoje, seja por quem entende de finanças ou não. Há exatos 40 anos, em agosto de 1971, o governo do republicano Richard Nixon (presidente dos Estados Unidos de 1969 a 1974) informou ao mundo que não trocaria mais o dólar por ouro, rompendo com as regras internacionais estabelecidas em 1944 no Tratado de Bretton Woods e “dolarizando” toda a economia mundial.

Foi determinado o fim da conversibilidade fixa do dólar ao ouro. “Ao romper o acordo, desvalorizou-se rapidamente o dólar e, de um dia para o outro, os custos produtivos dos Estados Unidos ficaram mais baratos”, explica o historiador Valério Arcary. O economista Reinaldo Gonçalves lembra que a desvalorização do dólar na época foi de 10%, favorecendo as exportações.

Apesar de ter tomado uma iniciativa defensiva para fortalecer a economia doméstica, o governo Nixon acabou atacando o padrão de vida do trabalhador. “Por que as exportações dos alemães e japoneses eram mais altas? Porque o padrão de vida dos trabalhadores estadunidenses era mais alto. A maneira mais fácil de reduzir o valor do salário real era favorecer a inflação. A inflação resultaria, como de fato resultou, numa queda de salário médio do trabalhador e na redução dos custos para o setor produtivo estadunidense”, elucida Arcary.

Resumindo, o fim do padrão-ouro, segundo Virgílio Arraes, permitiu aos Estados Unidos um endividamento “sem par” e a sua reestruturação econômica ao longo das décadas seguintes, “uma vez que a desvalorização ajudou a recuperar a capacidade de sua indústria e a repartir os custos de sua própria inflação com o mundo, por ter o dólar como moeda de reserva de todos os demais países”, explica.Mesmo assim, o anseio por um crescimento econômico baseado, sobretudo, na capacidade produtiva – ao vender bens muito mais baratos que os produtos exportados em marco alemão e iene japonês – não vigorou. “O que aconteceu na sequência foi que o impacto do preço do petróleo elevou de tal forma o valor dos custos da economia estadunidense, unido a outros fatores mais estruturais, que a fez mergulhar, ao lado de outros países centrais, na recessão”, analisa Arcary.

No entanto, Virgílio Arraes salienta que, apesar de a primeira metade dos anos 1970 ser simbólica para os Estados Unidos por aparentar uma decadência, o período representou também uma renovação tecnológica do sistema capitalista, com a Terceira Revolução Industrial: a microeletrônica, que possibilitou novo salto de produtividade.

Entretanto, embora o fim do sistema de Bretton Woods tenha significado um maior domínio econômico estadunidense sobre as demais potências, sob o ponto de vista do domínio geopolítico toda a década de 1970 foi marcada por derrotas importantes.

No xadrez geopolítico, ascendia a influência comunista que se espalhava em meio às guerras civis de países africanos como Angola e Etiópia, em 1975. Algumas ditaduras européias caíam: na Grécia, em 1973, depois em Portugal, em 1974. Acontecia também a Revolução Sandinista na Nicarágua, em 1979. No Oriente Médio, os Estados Unidos perdiam um grande aliado no Irã, com a queda do então xá Muhammad Reza Palie e a ascensão do regime fundamentalista eantiestadunidense do aiatolá Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini.  “A queda do xá muda o tabuleiro político completamente em todo o Oriente Médio”, salienta o historiador Valério Arcary.

Porém, nem tudo estava perdido para o Tio Sam. O Egito abandonava sua posição de liderança anti-imperialista ao reconhecer o Estado de Israel, em 1973, depois da derrota na guerra de Yom Kippur.

Novo modelo

Nos anos 1970, os Estados Unidos, além de verem a URSS avançar no campo geopolítico, voltavam a ter dificuldades devido à crise do petróleo. Diante dessa situação, o país põe em marcha uma contraofensiva a partir do primeiro ano de mandato de Ronald Reagan, há redondos 30 anos.

O republicano corta os impostos cobrados a empresas e “diminui” o Estado. “Ele utiliza um discurso de que é preciso destruir o poder dos sindicatos, um discurso irmão do utilizado por [Margareth] Thatcher [então primeira-ministra do Reino Unido]. De que tinha que acabar com o ‘Estado babá’ e introduzir uma flexibilização das relações de trabalho”, lembra Valério Arcary. O neoliberalismo mostrava sua cara.

Como ressalta o historiador, era trabalhado um ideal “anti-igualitarista” dentro do país. Dessa forma, a ideologia direcionada à população parecia tão importante quanto as ações de política externa. “Havia um discurso, digamos, de quase ‘darwinismo social’ a favor de valorizar quem trabalha duro. Tratava-se de uma resposta à crise de liderança estadunidense, que estava sendo condicionada por uma onda revolucionária marcada basicamente pela ascensão de revoluções pelo mundo”, relembra Arcary.

O governo Reagan fazia questão de exagerar o perigo comunista para arregimentar apoio às suas políticas expansionistas e de intervenção em países alinhados à URSS, doutrina que ganhou seu nome. Aliás, uma estratégia de sucesso, copiado posteriormente por outros presidentes estadunidenses, republicanos ou democratas.

Frei Betto relata sua experiência pessoal em 1981. “Foi o primeiro ano em que fui a Cuba. Estava estabelecendo equipes de educação popular e senti o recrudescimento das ações de agressão do governo dos Estados Unidos em relação ao povo cubano. Era sensível no povo. Havia denúncias de voos clandestinos em território cubano”, relata o escritor.

Para ele, a imposição do modelo neoliberal de Reagan possibilitou não o que, segundo ele, muitos denominam equivocadamente de globalização, mas sim a “globo-colonização neoliberal”. “Esse modelo veio, numa primeira etapa, reforçar ditaduras militares na América Latina e, posteriormente, impor governos messiânicos neoliberais, como o [Fernando] Collor, no Brasil, o [Carlos Saúl] Menem, na Argentina, [Alberto] Fujimori no Peru, o [Rafael] Caldera na Venezuela e outros tantos”, enumera.

Um caso exemplar

Um exemplo dos efeitos da Doutrina Reagan sobre o Oriente Médio foi o caso do Afeganistão. Para reagir ao movimento de aproximação entre a URSS e alguns países árabes, os Estados Unidos adotaram como política apoiar movimentos contrários aos governos mais próximos dos soviéticos. Aí entrou um “terceiro ator” no jogo de forças do Oriente Médio: o islamismo político.

“Em nenhum lugar do mundo a aliança entre o islamismo político e o imperialismo estadunidense foi tão orgânica quanto no Afeganistão. A União Soviética ocupou o país em 1979 em apoio a um governo laico, progressista. Na lógica da Guerra Fria, os Estados Unidos se alinhavam com qualquer um que fosse contra a URSS”, relata Igor Fuser.

Ele explica que grupos religiosos de expressão política eram vistos como uma alternativa ao nacionalismo árabe, ainda que fossem uma aliança tática para os Estados Unidos, pois o projeto do islamismo militante também se configurava como anti-imperialista. Grosso modo, tais grupos defendiam que os povos eram dominados (seja por A ou B) porque não estariam seguindo corretamente os ensinamentos do Alcorão.

Assim, os Estados Unidos financiaram e treinaram organizações dispostas a lutar contra os soviéticos. Entre elas, os mujahdin, que contavam com o apoio da Arábia Saudita e em cujas fileiras militava Osama Bin Laden, membro de uma rica família árabe. “Os Estados Unidos sempre estimularam essas organizações terroristas, paramilitares, para ter o controle. Para a CIA, nunca teve problema a questão da religião. Aliás, eles usavam a religião para atacar a União Soviética”, destaca Marcelo Buzetto.

Por isso, nas palavras de Frei Betto, o governo dos Estados Unidos, de “tradição terrorista”, ajudou a criar, de certo modo, o “seu duplo”: a Al Qaeda, de Bin Laden. “Essas figuras execradas”, pontua.

“Em 1991, esses chamados ‘guerreiros da liberdade’ conseguem se fortalecer. Explode uma guerra civil no Afeganistão. Com a retirada das tropas soviéticas, o território fica profundamente em disputa. O Talibã, força majoritária, toma o poder em 1996 e impõe uma série de leis repressivas, que não têm muita relação com o Islã, mas com o agrupamento deles”, contextualiza Buzetto.

O professor de história contemporânea da USP Osvaldo Coggiola lembra que depois da vitória dos talibãs e da retirada dos soviéticos [final dos anos 1980], os árabes que participaram da jihad no Afeganistão – que não é um país árabe – não tinham para onde voltar, pois não eram mais bem-vindos na Arábia Saudita ocupada pelas tropas estadunidenses. “Eles já não tinham apoio dos talibãs, que chegaram a oferecer Osama Bin Laden para os Estados Unidos”, aponta.

Com a vitória sobre os soviéticos, o setor do islamismo político liderado por Bin Laden muda de adversário. “O inimigo principal não é mais a União Soviética, não é mais o nacionalismo árabe, são os Estados Unidos”, afirma Igor Fuser. Outros países árabes continuam recebendo apoio dos Estados Unidos, como o Iraque, que fazia parte do bloco de influência da União Soviética e contou com a ajuda estadunidense na sua guerra contra o Irã, de 1980 a 1988.

“Vários regimes que eram pró-soviéticos, ainda durante a existência da URSS viraram pró-estadunidenses. Um caso típico foi Saddam Hussein. Era visto como pró-soviético, mas, depois da Revolução Iraniana, passou a combater o Irã armado pela França, pelos Estados europeus e Estados Unidos. No fundo, ele foi enforcado porque fez um serviço porco, porque não conseguiu ganhar a guerra. Esse foi o motivo pelo qual Saddam Hussein já era um cabra marcado para morrer: por ter sido um mau serviçal, e não por ser um ditador”, destaca Osvaldo Coggiola.

Ruiu por dentro

Enquanto isso, a União Soviética passava por dificuldades. Apesar de tentar sustentar seu poderio militar e sua influência sobre diversos países, o país lidava com crises econômicas e enfrentava problemas com as repúblicas que a compunham.

Após a queda do muro que dividia a cidade de Berlim entre um lado oriental e outro ocidental, em 1989, e o colapso de regimes socialistas na Europa Oriental, foi lançado um novo plano de reforma econômica, conhecido como perestroika.

Em 1991, Mikhail Gorbachev sofreu um golpe de Estado, abortado meses depois. Com poucas condições políticas de seguir governando, renunciou ao cargo no fim do mesmo ano e declarou que a URSS deixaria de existir como união das repúblicas socialistas. Os países que a compunham foram reconhecidos como Estados independentes.

Faz 20 anos. Chegava ao fim a União Soviética. Qual o peso do neoliberalismo sobre isso? “Superestimam-se os anos Reagan: a URSS caiu mais por si mesma do que por causa dos Estados  Unidos”, atesta o professor de relações internacionais da UnB Virgílio Arraes. “Esquece-se de que a retórica de confrontação do primeiro mandato mudou no segundo, com a abertura propiciada por Mikhail Gorbachev [nomeado secretário-geral do Partido Comunista em 1985]”, explica.

Frei Betto acompanhou de perto o processo que levou à queda da URSS. Ele esteve no país por três vezes durante a década de 1980. “Eu já sentia que o sistema soviético estava deteriorado, que aquilo não tinha futuro. Percebia-se nitidamente o desagrado do povo. Não fui surpreendido”, conta o escritor. Ele também esteve na Alemanha Oriental na semana anterior à queda do muro de Berlim, a ponto de haver uma dúvida se, ao retornar ao Brasil, deveria seguir ao aeroporto da Alemanha Ocidental ou ao do lado Oriental. “A minha guia disse para irmos ao Oriental, ‘que ainda estava em funcionamento’. Ou seja, já sabiam que logo ele seria fechado”, destaca.

Para o professor Virgílio Arraes, o “socialismo real” no leste europeu terminou, sobretudo, porque não conseguiu evoluir do ponto de vista tecnológico e dispor à sociedade uma vida melhor, apesar das conquistas científicas.

Osvaldo Coggiola acrescenta que o motivo histórico para a queda da URSS foi o fracasso do socialismo num só país. Segundo ele, apontam-se causas conjunturais, como a corrida armamentista, como o problema das nacionalidades, da democracia, do unipartidarismo, da falta de artigos de consumo, do percentual do PIB destinado a produzir armas, mas “o problema era mais profundo: não poderia haver um desenvolvimento econômico na União Soviética que superasse o capitalismo, quando o capitalismo contava com a divisão internacional do trabalho a seu favor”, explica o historiador.

Assim como no mundo inteiro, o fim da União Soviética teve forte impacto no Oriente Médio. “A correlação de forças se desequilibra. Enquanto a URSS existia, os Estados Unidos eram obrigados a manter um certo respeito pelos regimes do nacionalismo árabe, porque eles tinham um aliado poderoso”, aponta Igor Fuser.

Justamente em 1991, outra guerra foi deflagrada na região, cumprindo o papel de demonstrar a supremacia militar dos Estados Unidos no mundo: a Guerra do Golfo. No ano anterior, tropas do Iraque invadiram o Kuwait, por disputas territoriais e por conflitos sobre os preços de petróleo. Saddam Hussein não aceitou o embargo da ONU que, por sua vez, autorizou o uso de força contra o país.

Uma coalização liderada pelos Estados Unidos massacra as tropas iraquianas e recupera o território do Kuwait. “A partir desse momento, os Estados Unidos se impõem como a única superpotência no planeta”, analisa o professor da Faculdade Cásper Líbero.

Torres Gêmeas

Nesse período, os Estados Unidos colocaram, de certo modo, um ponto final na Guerra Fria e imprimiam um novo capítulo da História. De acordo com Fuser, o único império do mundo iniciava, então, uma grande ofensiva no Oriente Médio, para ajustar contas com os regimes nacionalistas sobreviventes e para impor a sua vontade na região. “Eles tinham dois interesses: o controle do petróleo e a garantia dos interesses de Israel”, completa.

Nas duas décadas anteriores, paralelamente a todo o tecer político, econômico e ideológico dos Estados envolvidos diretamente na Guerra Fria, ocorria o declínio das ações dos movimentos populares e revolucionários, sobretudo a partir do fim da Guerra do Vietnã (1975). O socialismo ia deixando de ser uma perspectiva imediata para alguns povos que, por sua vez, começavam a buscar alternativas para enfrentar a globalização capitalista.

A prática do terrorismo se estabelece entre as consequências mais nefastas desse contexto descendente da resistência popular. Nas palavras do cientista político Wladimir Pomar, o terrorismo, que embora no passado já tivesse demonstrado ser incapaz de resolver os problemas dos povos, trazendo mais prejuízos que soluções às lutas, ressurgiu com força, em especial entre os diversos fundamentalismos religiosos. “Para as correntes políticas de esquerda, isso recolocou a questão não só de resgatar o socialismo como uma perspectiva real de superação do capitalismo, mesmo como processo de transição, mas também de se opor a qualquer tipo de terrorismo”, defende Pomar.

“Sem perspectiva material, parte das pessoas volta-se para o espiritual e pode aproximar-se de fundamentalismos”, salienta Virgílio Arraes. O acadêmico da UnB acrescenta ainda que a arrogância dos Estados Unidos na transição de uma nova ordem em 1991 também estimulou, mesmo indiretamente, o que denomina “ato de barbárie do 11 de Setembro”. “A sociedade muçulmana não viu com bons olhos a presença de tropas no Oriente Médio, após a primeira Guerra do Golfo. Parecia a renovação do período pós-otomano, com protetorados”, arremata.

“O 11 de Setembro ofereceu o pretexto para acelerar o processo que já estava em curso, como foi deixado claro em inúmeros livros do establishment de Washington e na sugestão de Condoleeza Rice [então secretária de Estado estadunidense] no dia seguinte aos ataques, de que ‘deveríamos usar isso para fazer as coisas da nossa maneira’. E eles fizeram”, afirma Tariq Ali, escritor e ativista paquistanês.

Em seguida aos ataques dos aviões – quatro aeronaves foram sequestradas e duas se chocaram contra as Torres Gêmeas –, que custou a vida de quase três mil civis, os Estados Unidos lançaram a “guerra ao terror”.

O termo abrangia a organização que teria cometido o atentado, a Al Qaeda, seu líder Osama Bin Laden e qualquer outra ameaça que pudesse ser incluída na categoria. “Com o 11 de Setembro, o terrorismo se torna a palavra-chave. Quem não está com os Estados Unidos, está do lado dos terroristas. O presidente Bush impõe essa lógica nas relações internacionais. Em nome da guerra ao terror, os Estados Unidos fazem questão de diluir propositalmente o inimigo: é a Al Qaeda, o Afeganistão, o Iraque, o Irã”, aponta Igor Fuser, que acrescenta que o ataque foi a “melhor coisa que poderia ter acontecido aos EUA naquele momento”.

Ele explica essa afirmação pela leitura de que o projeto estratégico estadunidense para a região previa uma guerra pela apropriação dos territórios e pelo controle do petróleo, mas demandaria um convencimento da população interna e da comunidade internacional da necessidade da ofensiva.

Apesar de diferentes entendimentos sobre o caso do atentado em si, osanalistas ouvidos pelo Brasil de Fato concordam num ponto: os responsáveis pelos ataques não tinham relações com o nacionalismo árabe, com o Irã ou com o governo de Saddam Hussein.

Mais guerras

Em outubro de 2001, tropas estadunidenses invadem o Afeganistão com o objetivo declarado de encontrar membros da Al Qaeda e Osama Bin Laden. Dois anos depois, é a vez do Iraque, com o argumento de que era necessário neutralizar o governo de Saddam, que produziria “armas de destruição em massa”.

Até hoje as tropas dos Estados Unidos e outros países da Otan ocupam o Afeganistão. Neste ano, o presidente Barack Obama anunciou o início da retirada dos cerca de 150 mil soldados estrangeiros. Apenas em 2014 ela deve ser completada. Não há dados oficiais sobre o número de mortes de afegãos desde a invasão, mas a organização Afghanistan Rights Monitor anunciou que morreram 2.421 pessoas apenas no ano de 2010. Entre os soldados estrangeiros, estima-se que já morreram 2.500 desde o início da guerra.

“A ocupação da Otan no Afeganistão tem sido um desastre: um governo marionete corrupto, esquadrões de morte, mortes de civis que devem ser dez vezes superiores ao número de mortos no 11 de Setembro em Nova York”, aponta Tariq Ali.

No Iraque, o saldo da guerra também é de muitas mortes: segundo documentos vazados pelo Wikileaks, entre 2003 e fim de 2009 cerca de 109 mil iraquianos foram mortos, 63% deles civis. O jornal estadunidense New York Times fala em 4.465 soldados dos Estados Unidos mortos desde o início da guerra contra o Iraque.

Segundo Osvaldo Coggiola, os Estados Unidos tinham dois grandes objetivos com essas guerras, e estão fracassando em ambos: encontrar uma saída para a crise econômica e reordenar o mapa político da região em favor do imperialismo. “Como saída para a crise econômica, a guerra revelou-se precária, a ponto de em 2007 explodir outra crise. Na sua intenção de enfraquecer politicamente a Europa, vemos agora no caso da Líbia que os Estados Unidos fracassaram, porque é a Europa que está à frente dessas relações”, analisa.

Para Tariq Ali, a chamada “guerra contra o terror” ajudou a estabilizar a hegemonia dos Estados Unidos e a desestabilizar o Oriente Médio e Sul da Ásia. Segundo o paquistanês, o objetivo era demonstrar ao resto do mundo (especialmente China, Rússia e Irã) que apenas Washington poderia determinar quando, onde e como haveria intervenções militares.

Longa primavera

Osama Bin Laden é assassinado numa ação da CIA, numa casa no Paquistão, em maio de 2011. Não teve direito a julgamento. A época teria sido propícia por dois motivos – a popularidade de Barack Obama andava baixa com os reflexos da nova crise econômica e o mundo árabe vivia uma onda de revoltas populares. Segundo Coggiola, o assassinato de Bin Laden nessas circunstâncias demonstrou uma tentativa dos Estados Unidos de se mostrarem no controle da situação.

A denominada “Primavera Árabe” reúne diversas revoltas que vêm ocorrendo este ano em países árabes, como Tunísia, Egito, Síria, Líbia, Marrocos, Iêmen, Bahrein e outros. Igor Fuser destaca que, apesar das especificidades de cada uma dessas mobilizações, há alguns elementos comuns. “Um deles é o autoritarismo político. Seja qual viés for, esses países são governados por ditaduras. Outro elemento comum é a exclusão social, a pobreza, que se agrava com a globalização. A concentração da riqueza nas mãos de poucos se intensifica”.

O professor ressalta que em cada um desses países os protestos estão sendo enfrentados de um modo, seja por repressão direta (como no Bahrein), seja por presença de tropas estrangeiras (como na Síria e na Líbia), seja por movimentos de reformas e mudanças institucionais, como no Egito e Tunísia.

Coggiola ressalta que as revoltas e as crises vão continuar. Ele aponta que a fase inicial, de revolução política, em que todos se unem contra um ditador, já passou; agora é preciso haver uma revolução social. “Virá uma etapa de clarificação política enorme. O povo árabe vai mostrar que tem uma história. Que antes de ser islâmico é árabe. Claro que o islamismo tem uma importância extraordinária, mas reduzir a realidade histórica ao islamismo vai custar caro ao imperialismo se ele acreditar nisso”, afirma.

Agora, a libertação dos povos árabes, segundo ele, depende dos outros povos em luta no mundo, especialmente das mobilizações nos países europeus. Mais uma vez, o mundo pode mudar.

Uma lápide para os terroristas

Dez anos após os atentados da Al-Qaida contra os Estados Unidos, prossegue aberto um imenso vazio que desafia a chamada civilização ocidental. As torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, cada uma delas atingida por um jato comercial (aviões de carreira transformados em mísseis), derreteram como velas de parafina, numa imagem que será lembrada com horror por séculos e séculos. Só ali morreram 2.605 cidadãos de várias nacionalidades. Naquele mesmo dia, o Pentágono sofreu um bombardeio semelhante. Outras 125 mortes. Um quarto avião, sequestrado pelo mesmo grupo criminoso, caiu na Pensilvânia antes de alcançar seu alvo. Nesses voos estavam embarcados 246 passageiros. Ao todo, 2.976 vidas humanas foram queimadas. Por aí temos uma primeira visão do vazio – e essa primeira visão é relativamente simples.

No lugar das torres gêmeas restou outra face do mesmo vazio: 65 mil metros quadrados de escombros, conforme expôs, com infográficos de um nível de minúcia que seria barroco se não fosse exato, o excelente caderno publicado por este jornal no domingo. A limpeza dos entulhos consumiu quase um ano de trabalho. Ao final restou na Ilha de Manhattan uma cicatriz urbanística: o Marco Zero. Lá serão plantados um museu e um memorial, cuja inauguração foi marcada para 2015. As obras custarão US$ 11 bilhões. O vazio será então convertido em túmulo coletivo, um cemitério exponencial. As vítimas terão sua lápide.

Esse traço particularíssimo, o de inscrever um símbolo para tapar a dor insuportável da morte, vem servindo de pretexto para que nós, os humanos, nos julguemos superiores aos outros animais. Somos humanos porque, quando os arqueólogos aparecem para vasculhar os resquícios de nossa existência, encontram isto: urnas funerárias, esqueletos ao lado de amuletos em vasos de cerâmica, pirâmides devidamente faraônicas, valas comuns, memoriais patrióticos. O resto é conversa. O resto é linguagem. Quando não há mais remédio, é nosso instinto pôr uma pedra em cima e tocar adiante, mesmo que a pedra custe US$ 11 bilhões – e mesmo que tocar adiante signifique ir longe, muito longe, em busca de vingança, ainda mais dispendiosa.

O portal de ingresso da História em outra era

As operações militares que se seguiram ao 11 de setembro, com a invasão do Afeganistão e do Iraque, além de ações no Paquistão, já mataram 6 mil soldados das tropas americanas e aliadas. Segundo estimativas “conservadoras” da Brown University, citada pela revista britânica The Economist da semana passada, 137 mil civis morreram nesses três países e os gastos atingem a casa dos US$ 4 trilhões. Além de vidas e dinheiro, a vingança impôs também o custo da mentira. A própria The Economist admite, na mesma edição, que deu seu apoio à invasão do Iraque somente porque estava “erroneamente convencida de que Saddam possuía armas de destruição em massa”. Assim como outros veículos jornalísticos, acreditou em informações falsas difundidas por autoridades americanas.

Se a verdade atrapalha a revanche, que se mate a verdade. Para poder declarar que os mortos descansarão em paz, o poder agredido não tem outra saída que não seja construir o espetáculo da vingança. No futuro próximo, a guerra contra o terror será compreendida menos como uma sequência de movimentos parametrados pela geopolítica (e nesse quesito o saldo é medíocre) e mais como reação da ordem do espetáculo, com a finalidade de promover a coesão imaginária entre o medo e o ódio. Rigorosamente, George W. Bush foi impelido a isso: tinha de revidar, e revidar com um dispêndio de energia espetacular equivalente ao que vitimou o espaço público americano.

Mais que atos de guerra, os atentados de 11 de setembro foram concebidos como cenas midiáticas de perversidade nunca vista. As duas torres derretendo, ao vivo, nas televisões do mundo todo, sangraram o olhar da humanidade. Naquele momento, sumiu da paisagem um ícone que se imaginava inamovível – como cartão-postal e como âncora do mercado financeiro global. Abriu-se o chão. Nós, os bilhões de humanos que testemunhamos o desmoronar dos dois arranha-céus, passamos a ser, de uma hora para outra, mutilados do olhar, como se fôssemos mutilados de guerra. Eis o que situa os atentados de 11 de setembro em outra era histórica, ou melhor, o que faz deles o portal de ingresso da História em outra era, em que a guerra e o terror, também eles, passam a ser definitivamente mediados pela instância da imagem ao vivo.

Se não há ritos fúnebres para todos, não há paz

Por isso a resposta do governo americano só poderia ser, como vem sendo, uma sucessão de golpes espetaculares – que, quando perdem o tônus, mudam de alvo como se mudassem de figurino. A complexa engenharia simbólica para tapar o vazio deixado pelos mortos e pelos escombros depende desses golpes espetaculares. Segundo a ilusão feérica de que a vingança trará a paz, o teatro da guerra já não basta – só a guerra teatral poderá erguer uma sepultura para as perdas físicas e simbólicas.

Acontece que a ilusão não passa disso, de ilusão. Além dela, o vazio, outra vez ele, mostra o seu avesso – este, sim, aterrorizante. As vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 terão sua morte ritualizada pelo espetáculo, mas os terroristas permanecerão insepultos, exilados no avesso do vazio. Bin Laden foi morto por soldados americanos porque não tinha onde ser encarcerado e julgado neste mundo. Como ele, os criminosos inomináveis que pilotaram os aviões de carreira, e que também morreram em 11 de setembro, não terão uma lápide visível, minimamente humana. Não há notícias de que terão uma cova neste formidável cemitério que é o planeta Terra.

Se não há ritos fúnebres para todos, não há paz. Se não sabemos sepultar dignamente esses homens, a nossa civilização é menor do que precisa ser e continuará escrava do desejo (espetacular) de fazer com que desapareçam para sempre.

Escrito por Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM]

Após dez anos de atentados do 11 de setembro, direita nos EUA se fortalece

Os aviões atirados contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001 são um marco na história do século XXI. Para o sociólogo Leujene Mirhan, professor especialista em Oriente Médio e membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabes de Lisboa, passada uma década dos atentados, o mundo ficou mais xenófobo e mais preconceituoso contra árabes e muçulmanos.

Alguns analistas enxergaram, no episódio, um símbolo da decadência dos Estados Unidos como força imperial, como principal potência do planeta. Mirhan acredita que houve uma retomada de ações unilaterais dos Estados Unidos, principalmente no campo militar, com invasões contra o Afeganistão – ainda com o aval da Organização das Nações Unidas (ONU) – e contra o Iraque – sem apoio de outras potências. Mas há uma tendência a se reforçar a ideia de um mundo multipolar, com outras nações disputando politica e economicamente.

Mas eu ainda não afirmaria que o mundo deixou de ser unipolar, porque mesmo com toda a decadência – com toda a crise do capitalismo, que é sistêmica, e não conjuntural – o dólar é a moeda que determina as relações de troca no comércio internacional – avalia Mirhan.

Atualmente, há pouco mais de um ano antes da eleição presidencial nos Estados Unidos, há um crescimento de forças conservadoras, como o Tea Party, agrupamento de direita instalado dentro do partido Republicano. Mirhan até acredita que Obama desponte com algum favoritismo para a disputa de 2012, mas isso não significa garantir avanços.

Obama tinha o programa de retirada mais rápida das tropas do Iraque, em três meses. Vai completar quatro anos sem conseguir cumprir – exemplifica.

Confira a íntegra da entrevista

Após dez anos dos atentados de 11 de setembro de 2001, o que mudou no mundo?

Sempre lamentamos esse tipo de atentado como o que aconteceu em Nova York e em Washington. Não ajuda absolutamente em nada às forças progressistas, porque matar inocentes não ajuda a libertação de povo algum. A popularidade do presidente (George W. Bush) na época era a pior da história. Ele recuperou a popularidade e conseguiu inclusive impor ao mundo essa soberania. A unipolaridade se fortaleceu. Vivíamos o fim da bipolaridade e os Estados Unidos se fortaleceram a ponto de travarem uma guerra no Afeganistão e outra no Iraque. Fortaleceu o campo conservador, o campo da direita.

E em relação à comunidade árabe e muçulmana?

Muitas consequências tivemos de lá para cá. A mais sentida é o aumento do preconceito contra os povos árabes e contra os praticantes da religião islâmica. Isso é visível. Manifestações islamofóbicas são vistas nestes dez anos em muitas partes do mundo. Na Europa cresceu muito a intolerância religiosa.

Em que medida os atentados serviram para reacender esses preconceitos?

A Europa é um continente que tradicionalmente foi muito fechado, avesso a qualquer penetração de religiões que não sejam as de origem cristã. No Leste Europeu a perseguição aos judeus vinha há muito tempo, do século XIX. É um continente xenófobo, que sempre procurou se fechar em sua religião. Nunca nos esqueçamos das Cruzadas, que começaram no século XI, e que era um movimento dos reis cristãos incentivados pelo papa para retomar a Terra Santa dos chamados infiéis. Agora, em certo momento, pela necessidade de ter mão de obra barata para desenvolver atividades que o europeu não aceita, começou-se a aceitar certa imigração. Esses imigrantes, a partir da década de 1960, fizeram crescer o número de pessoas que professam a religião islâmica na Europa, o que provoca alguma reação em partidos de direita, xenófobos, radicais, intolerantes… E surgem leis que discriminam. Pode-se ter uma igreja com a cruz lá em cima, mas não pode ter a meia-lua, que é o símbolo do Islã, sobre um minarete – uma discriminação ostensiva. A mesma coisa em relação às vestimentas (como a proibição de uso de véus). O Estado não pode controlar as opções individuais das pessoas.

Os atentados são vistos como um marco na história. Foi o início da decadência da hegemonia dos Estados Unidos?

Nota-se hoje um caminho para a multipolaridade, mas eu ainda não afirmaria que o mundo deixou de ser unipolar. Mesmo com toda a decadência – com toda a crise do capitalismo, que é sistêmica, e não conjuntural – o dólar é a moeda que determina as relações de troca no comércio internacional. Os Estados Unidos ainda possuem o maior exército do planeta. Hoje, eles conseguem, com o poderio militar, bombardear qualquer cidade do planeta em 90 minutos com as nove frotas de que dispõem. A China tem 4 milhões de soldados, o dobro dos Estados Unidos, mas não tem a menor possibilidade de fazer frente. Então, tem-se um mundo ainda unipolar. Agora, surgem polos novos, com a China, a Índia e até o Brasil. E a União Europeia tenta se manter como um ator neste mundo.

George W. Bush permaneceu conseguiu se reeleger depois dos atentados, mas Barack Obama venceu os republicanos em 2008. Uma de suas bandeiras era fechar a prisão de Guantánamo, o que ainda não aconteceu. O que se pode esperar nos próximos anos?

Nos Estados Unidos, o que se vê internamente é um crescimento da direita. Mesmo estando longe das eleições do ano que vem (à presidência), ainda acho que Obama sai com certa vantagem. Ele vem de uma ala chamada mais progressista, liberal. Para os padrões deles, ser liberal é ser de esquerda. Mas ele não conseguiu fazer o plano de saúde que gostaria, está muito limitado. No caso de Guantánamo, foi um dos primeiros atos que tomou e, logo, recuou. Quando era pré-candidato – eram seis os nomes do Partido Democrata –, Obama tinha o programa de retirada mais rápida das tropas do Iraque, em três meses. Vai completar quatro anos sem conseguir cumprir. Ele é presidente dos Estados Unidos, mas ao mesmo tempo é o chefe do império, e tem de cumprir o papel determinado pelo império.

A matemática macabra do 11 de setembro

O mundo se tornou um lugar mais seguro, dez anos depois dos atentados de 11 de setembro e da “guerra ao terror” promovida pelos Estados Unidos para se vingar do ataque? A resposta de Washington ao ataque contra o World Trade Center e o Pentágono engendrou duas novas guerras – no Iraque e no Afeganistão – e uma contabilidade macabra. Para vingar as mais de 2.900 vítimas do ataque, mais de 900 mil pessoas já teriam perdido suas vidas até hoje. Os números são do site Unknown News, que fornece uma estatística detalhada do número de mortos nas guerras nos dois países, distinguindo vítimas civis de militares. A organização Iraq Body Count, que usa uma metodologia diferente, tem uma estatística mais conservadora em relação ao Iraque: 111.937 civis mortos somente no Iraque.

Seja como for, a matemática da vingança é assustadora: para cada vítima do 11 de setembro, algumas dezenas (na estatística mais conservadora) ou centenas de pessoas perderam suas vidas. Em qualquer um dos casos, a reação aos atentados supera de longe a prática adotada pelo exército nazista nos territórios ocupados durante a Segunda Guerra Mundial: executar dez civis para cada soldado alemão morto. Na madrugada do dia 2 de maio, quando anunciou oficialmente que Osama Bin Laden tinha sido morto, no Paquistão, por um comando especial dos Estados Unidos, o presidente Barack Obama afirmou que a justiça tinha sido feita. O conceito de justiça aplicado aqui torna a Lei do Talião um instrumento conservadora. As palavras do presidente Obama foram as seguintes:

“Foi feita justiça. Nesta noite, tenho condições de dizer aos americanos e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma operação que matou Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e terrorista responsável pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças”.

O conceito de justiça usado por Obama autoriza, portanto, a que iraquianos e afegãos lancem ataques contra os responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças. E provoquem outras milhares de mortes. E assim por diante até que não haja mais ninguém para ser morto. A superação da Lei do Talião, cabe lembrar, foi considerada um avanço civilizatório justamente por colocar um fim neste ciclo perpétuo de morte e vingança. A ideia é que a justiça tem que ser um pouco mais do que isso.

Nem tudo é dor e sofrimento

Mas a história dos dez anos do 11 de setembro não se resume a mortes, dores e sofrimentos. Há a história dos lucros também. Gordos lucros. Uma ótima crônica dessa história é o documentário “Iraque à venda. Os lucros da guerra”, de Robert Greenwald (2006), que mostra como a invasão do Iraque deu lugar à guerra mais privatizada da história: serviços de alimentação, escritório, lavanderia, transporte, segurança privada, engenharia, construção, logística, treinamento policial, vigilância aérea…a lista é longa. O segundo maior contingente de soldados, após as tropas do exército dos EUA, foi formado por 20 mil militares privados. Greenwald baseia-se nas investigações realizadas pelo deputado Henry Waxman que dirigiu uma Comissão de Investigação sobre o gasto público no Iraque.

Parte dessa história é bem conhecida. A Halliburton, ligada ao então vice-presidente Dick Cheney, recebeu cerca de US$ 13,6 bilhões para “trabalhos de reconstrução e apoio às tropas. A Parsons ganhou US$ 5,3 bilhões em sérvios de engenharia e construção. A Dyn Corp. faturou US$ 1,9 bilhões com o treinamento de policias. A Blackwater abocanhou US$ 21 milhões, somente com o serviço de segurança privada do então “pró-Cônsul” dos EUA no Iraque, Paul Bremer. Essa lista também é extensa e os números reais envolvidos nestes negócios até hoje não são bem conhecidos. A indústria da “reconstrução” do Iraque foi alimentada com muito sangue, de várias nacionalidades. Os soldados norte-americanos entraram com sua quota. Até 1° de setembro deste ano, o número de vítimas fatais entre os militares dos EUA é quase o dobro do de vítimas do 11 de setembro: 4.474. Somando os soldados mortos no Afeganistão, esse número chega a 6.200.

A matemática macabra envolvendo o 11 de setembro e os Estados Unidos manifesta-se mais uma vez quando voltamos a 1973, quando Washington apoiou ativamente o golpe militar que derrubou e assassinou o presidente do Chile, Salvador Allende. Em agosto deste ano, o governo chileno anunciou uma nova estatística de vítimas da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990): entre vítimas de tortura, desaparecidos e mortos, 40 mil pessoas, 14 vezes mais do que o número de vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Relembrando as palavras do presidente Obama e seu peculiar conceito de justiça, os chilenos estariam autorizados a caçar e matar os responsáveis pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças.

Assim como no Iraque, nem tudo foi morte, dor e sofrimento na ditadura chilena. Com a chancela da Casa Branca e a inspiração do economista Milton Friedman e seus Chicago Boy’s, Pinochet garantiu gordos lucros para seus aliados e para si mesmo também. Investigadores internacionais revelaram, em 2004, que Pinochet movimentava, desde 1994, contas secretas em bancos do exterior no valor de até US$ 27 milhões. Segundo um relatório de uma comissão do Senado dos EUA, divulgado em 2005, Pinochet manteve elos profundos com organismos financeiros norte-americanos, como o Riggs Bank, uma instituição de Washington, além de outras oito que operavam nos EUA e em outros países. Segundo o mesmo relatório, o Riggs Bank e o Citigroup mantiveram laços com o ditador chileno durante duas décadas pelo menos. Pinochet, amigos e familiares mantiveram pelo menos US$ 9 milhões em contas secretas nestes bancos.

Em 2006, o general Manuel Contreras, que chefiou a Dina, polícia secreta chilena, durante a ditadura, acusou Pinochet e o filho deste, Marco Antonio, de envolvimento na produção clandestina de armas químicas e biológicas e no tráfico de cocaína. Segundo Contreras, boa parte da fortuna de Pinochet veio daí.

Liberdade, Justiça, Segurança: essas foram algumas das principais palavras que justificaram essas políticas. O modelo imposto por Pinochet no Chile era apontado como modelo para a América Latina. Os Estados Unidos seguem se apresentando como guardiões da liberdade e da democracia. E pessoas seguem sendo mortas diariamente no Iraque e no Afeganistão para saciar uma sede que há muito tempo deixou de ser de vingança.

*Artigo originalmente publicado na Carta Maior.

Uma era pós-Osama Bin Laden? O que a esquerda tem a dizer?

Como atenta Susan Willis, logo após o 11 de setembro, quando a nação estadunidense ainda se recuperava dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, os meios de comunicação, aparentemente insatisfeitos com a catástrofe ocorrida, espalharam o medo de que terroristas, tendo fechado o tráfego aéreo e a Bolsa de Valores, iriam continuar sua empreitada usando armas químicas e biológicas. Os temores se concretizaram com as correspondências com antraz, cinco verdadeiras e outras milhares fraudentas. A histeria se espalhou pelo país desde as áreas afastadas da zona rural até as grandes metrópoles – lugares que, até então, eram considerados de baixo risco como alvos terroristas em potencial. Agências de correio das faculdades mandaram para quarentena pacotes de biscoitos caseiros que recebiam; milhares de correspondências foram lacradas e armazenadas para testes futuros; diversos vôos comerciais foram redirecionados e forçados a pousar quando qualquer tipo de pó branco (na maioria das vezes, adoçante) era encontrado nas bandejas. Nas suas palavras, “substâncias triviais da vida cotidiana – pó para pudim de baunilha, açúcar, farinha, talco – conseguiram fechar escolas e fábricas, reter correspondências e emperrar o ritmo usual dos negócios. O país entrou em pânico. Os cidadãos tinham medo de receber e, sobretudo, de abrir suas correspondências. Órgãos governamentais, o serviço postal e os centros para controle de doenças demoraram em emitir recomendações preventivas. E quando a recomendação era feita, intensificava a preocupação pública. Ordenaram que procurássemos envelopes suspeitos: cartas sem remetente, combinações estranhas de selos, volumes injustificados, embrulhos inusitados e, sobretudo, o pó branco. Fomos avisados para lacrar a carta suspeita num saco plástico, bem como nossas roupas, e tomarmos banho imediatamente. Acompanhando o aviso, vieram centenas de outros trotes e alarmes falsos. As pessoas começaram a encomendar e estocar Cipro, o antibiótico então recomendado. Algumas pessoas, que nunca haviam sido expostas, começaram a tomar o remédio antecipadamente, apesar da advertência médica de que a droga produziria efeitos colaterais indesejados”.

A busca pela sensação de segurança é patente no mapa imaginário da pós-11 de setembro. Não é toa que essa histeria se espalhou rapidamente. Somente em Londres, no fim da terceira semana de outubro de 2001, os aliados ingleses já haviam recebido mais de quinhentas ameaças de contaminação por antraz. No meio dessa paranóia é tão estranho que, logo após os ataques de 11 de setembro, a aprovação presidencial de Bush tenha ficado em torno de 90%? E não haveria acontecido algo quase inverso agora com a morte de Osama Bin Laden? Todos estão satisfeitos com o assassinato do líder da Al Qaeda: é uma nova oportunidade para a expansão do “eixo da democracia” contra o terror e as rebeliões populares no mundo árabe. Será mesmo?

Com o fim da Guerra Fria o antigo inimigo do Império (os comunistas) desapareceu. Entretanto, o fim da bipolaridade deixou um vácuo do poder preenchido pelos Estados Unidos como a única superpotência mundial. Sua atuação passou neste período da clássica guerra entre Estados para a expansão de bases aéreas e frotas por todos os continentes, com intervenções “humanitárias” para desestabilização social ou para estabilizar a democracia na marra – Bósnia, Yugoslávia, Somália, Honduras, Colômbia, Haiti, Iraque, Afeganistão, entre outros países. Mas como se legitimavam estas intervenções? Afinal, o velho inimigo desapareceu. Foi em 2001, nos ataques do 11 de setembro, que se encontrou um novo Inimigo: era o terrorismo. Emergiu um novo Significante-Mestre que unificou todos os males sociais: o terrorista com a figura de Osama Bin Laden. Seu rosto foi mostrado por todo o mundo como o inimigo principal a ser combatido. Nessa euforia foram iniciadas duas guerras que até hoje ninguém sabe ao certo por que existem. No Afeganistão foram para capturar Bin Laden. Depois ficou claro que o Afeganistão é um ponto militar que dá fácil acesso tanto à Rússia e China como ao Irã e outros países extratores de petróleo no Oriente Médio. Sendo um ponto de localização geopolítica privilegiada, em torno do Sul da Ásia, Ásia Central e o Oriente Médio, o Afeganistão também tem saídas pelo Mar Cáspio que facilitam enormemente os dutos de petróleo rumo ao Oceano Índico onde a empresa estadunidense Unocal tem negócios exclusivos para o gás natural do Turcomenistão pelo Afeganistão e Paquistão. Entretanto, sempre parecia que Osama estava um passo na frente dos Estados Unidos.

Agora que Obama declarou a morte de Osama por forças especiais num país independente, e que o jogaram no mar, qual é a razão de continuar em guerra? “O mundo sente alívio”, disse Obama. Será mesmo? Parece mais que a gestão norte-americana e a CIA ficaram mais aliviadas. Como escreveu Atílio Borón, “Osama vivo era un peligro. Sabía (¿o sabe?) demasiado, y es razonable suponer que lo último que quería el gobierno estadounidense era llevarlo a juicio y dejarlo hablar. En tal caso se hubiera desatado un escándalo de enormes proporciones al revelar las conexiones con la CIA, los armamentos y el dinero suministrado por la Casa Blanca, las operaciones ilegales montadas por Washington, los oscuros negocios de su familia con el lobby petrolero norteamericano y, muy especialmente, con la familia Bush, entre otras nimiedades. En suma, un testigo al que había que acallar sí o sí, como Muammar Gadafi. El problema es que ya muerto Osama se convierte para los jihadistas islámicos en un mártir de la causa, y el deseo de venganza seguramente impulsará a las muchas células dormidas de Al Qaeda a perpetuar nuevas atrocidades para vengar la muerte de su líder”.

A morte de Bin Laden reinstalaria a Al Qaeda no centro do cenário das grandes mobilizações do mundo árabe, por mais que até agora estivesse ausente. Seu líder morto brutalmente pelo líder do ocidente instigaria novamente o fundamentalismo islâmico. Como escreve, “probablemente su acción no hizo sino despertar a un monstruo que estaba dormido. El tiempo dirá si esto es así o no, pero sobran las razones para estar muy preocupados”.

E se este movimento for não para acabar com o terrorismo, mas impulsionar a saturação do imaginário ocidental pela Al-Qaeda? Agora ela volta à cena – no mesmo momento de ascenso de massas em países como Marrocos, Tunísia, Egito, Síria, Líbia, Iraque, Palestina, Irã etc. Como escreveu Santiago Alba Rico na nota “Matar a Bin Laden, ressuscitar a Al-Qaeda”: “no sabemos si realmente han matado a Bin laden; lo que está claro es que el esfuerzo por resucitar a toda costa a Al-Qaeda pretende matar los procesos de cambio comenzados hace cuatro meses en el mundo árabe”. Assim como os ataques de 11 de setembro acabaram por impulsionar o descenso do movimento “antiglobalização”, a morte de Bin Laden não teria o mesmo efeito nas revoltas árabes? Não seria a tentativa de ascender a Al-Qaeda para a disputa pelo poder nestes países?

Mas se a Al Qaeda já estivesse morta quando nestes últimos quatro meses surgiram as revoluções de massa no mundo árabe? Para Jáled Harub em “Las revoluciones árabes acaban con la ideología y el discurso de Al Qaeda”, o efeito mais importante das revoluções árabes pacíficas sobre a lógica e a ideologia da Al Qaeda consiste em demonstrar a incapacidade do uso do recurso da violência pura para transformações internas nos regimes autoritários. “Los pueblos árabes y musulmanes no necesitan de organizaciones armadas ni violentas generadoras de los más altos niveles de terrorismo para hacer caer a regímenes que no quieren. La palabra clave que han aportado las revoluciones árabes pacíficas al diccionario del cambio político y social es ‘efectividad’. Estas revoluciones que no se han apoyado en ningún tipo de armas ni en ninguna forma, por remota que sea, de violencia armada han sido ‘eficaces’, han logrado todo lo que no habían conseguido el resto de medios de cambio. Los regímenes, confusos ante como responder ante estas revoluciones pacíficas, deseaban que éstas se inclinasen hacia la violencia para poder justificar el uso de sus aparatos sanguinarios de represión […]. El fracaso de la ‘era de Al Qaeda’ y de sus estrategias violentas consiste en que se basan en la destrucción, el caos y el derramamiento de sangre como único resultado, sin que tenga ningún proyecto que llevar a término. La táctica por excelencia para reclutar miembros y enrolarlos en sus filas eran las armas y el discurso de la ‘yihad’, la creación de un romanticismo falso en torno a las armas, vanagloriándolas y creando cánticos sobre ellas. El manejo de las armas, como usarlas y como perpetrar acciones son su principal misión sin tener un objetivo más amplio o más importante, o una estrategia convincente. Si analizamos el esfuerzo para crear ideas, dar con nuevos métodos vemos que solo se concentran en como colar explosivos o suicidas a bordo de aviones civiles y estrellarlos […]. La batalla se ha convertido en una caricatura ridícula de un combate de lucha por puntos entre Al Qaeda y los servicios secretos, a expensas de los pueblos de la región, su futuro y sus vidas. La segunda explicación sería la fascinación por la imagen. A pesar de toda la penuria que ha caído sobre los musulmanes como resultado del terrorismo del 11-S, Al Qaeda y sus líderes siguen extasiados por los medios de comunicación y la capacidad dramática”.

Parece que a morte de Bin Laden é uma manobra. Está se procurando usar a morte de Bin Laden para aumentar as medidas de “segurança nacional” e redividir o mundo entre os lutadores contra o terrorismo e aqueles que o defendem. Procura-se retroceder numa nova polarização do campo político, não mais entre “forças populares contra regimes tirânicos”, mas a democracia contra o terrorismo (não é a toa que é a primeira vez que Israel parabeniza os EUA desde o início dos levantes árabes). Como disse David Cameron, a morte de Bin Laden “não significa o fim da ameaça do terror extremista”. Mas não era Bin Laden o Inimigo do Ocidente? O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, disse que “esse é um golpe importante e decisivo para o terrorismo global e demonstra, mais uma vez, que os terroristas, mais cedo ou mais tarde, sempre caem” […] “Na luta global contra o terrorismo só existe um maneira: perseverar, perseverar e resistir”, dando uma bela indireta sobre o trabalho da CIA militarizada contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Bin Laden havia se tornado uma espécie de sujeito imortal e, de repente, é morto por “elites da segurança nacional” dos Estados Unidos no Paquistão. Mas ele não estava nas montanhas longínquas do Afeganistão? E por que as forças paquistanesas não podiam tê-lo capturado? Existe um nó que parece apontar como uma espécie de CIA altamente militarizada que atua “contra o terrorismo” por todo o mundo. Esta morte parece com a de Michel Jackson: cheia de interrogações e com poucas pessoas habilitadas a dizer os reais interesses em jogo. As perguntas iniciais ainda continuam em suspenso: onde estão as provas, fotos e relatos da missão de assassinato de Bin Laden? Como Bin Laden foi capaz de movimentar seu dinheiro durante este tempo? Qual era sua relação com a Al Qaeda? Como opera a CIA nos países “contra o terrorismo”? Por que esta morte parece tanto fazer parte do teatro da “guerra ao terror” assim como os ataques de 11 de setembro e a acusação de que no Iraque havia “armas de destruição em massa”? Já não aprendemos – um pouco até com o Wikileaks – que o terrorismo é fomentado pelos agentes da CIA?  E agora a esquerda terá força para pôr fim a esta falsa polarização entre democracia e fundamentalismo islâmico, para impor uma nova alternativa social, ou retrocederá o pouco que avançou?

Escrito por Fernando Marcelino, analista internacional e secretário de formação política do PSOL-Curitiba. Contato: fernandomarcelinopereira@gmail.com